Nós, os inofensivos

(apontamentos para uma ética da fragilidade, ou da resistência frágil, ainda nem sei)



  • Breve texto lido na apresentação d’A Razão do Perverso. Para quem tiver qualquer interesse. Crunha, 21 de abril de 2017
Fotografia de José Antonio Carreira

Fotografia de José Antonio Carreira

 

Enquanto esperamos a que chegue o dia, não nos apercebemos de que todos os dias são o dia. E é nessa espera que perdemos tudo. Absolutamente tudo.

Se há uma verdade no mundo é aquela que diz que não ofende quem quer, mas quem pode. Aqueles que têm poder. Aqueles que, como bem dizia Humpty Dumpty (isto é, Lewis Carroll), têm o poder para decidir o que as palavras significam. Eu não tenho esse poder. Portanto, eu sou inofensivo. Um inofensivo que tenta construir uma obra poética (e não apenas), mas que conhece o significado de umas escassas cinquenta ou cem palavras.

A Razão do Perverso tentou ser uma ofensa mas ficou apenas em opereta. Bufa. Ópera bufa que descreve, em chave tragicómica, a ilusão em que se sonha uma determinada literatura, a falácia fundacional de um certo sistema literário, a imundície ética, e muitas vezes também estética, em que assenta uma tentativa de cultura grupal baseada na exclusão, na glorificação da mediocridade, na ausência de crítica, na inexistência de língua nacional, na submissão aos subsídios, no amadorismo religioso, na censura ideológica. E digo censura ideológica, que não é unicamente ortográfica. Tragicómico teatro em que deambulam os velhos caciques (o nosso Octavio Paz), as deusas distantes e o seu banal erotismo, as feministas de catecismo, os ruralistas sentimentais, os marxistas fossilizados, as ninfas eternamente adolescentes, os literariamente impúberes poetas gays, os críticos acríticos, as críticas de manual, os censores do aparato: tu, o que tens que fazer é aprender a censurar. Polas palavras literais de um poeta galego a outro poeta galego.
E entre elas e eles, nós, os inofensivos rosmões que imaginam ser niilistas (Emma Pedreira dixit), e que arrastam a suas depressões polos bares, tarefa heroica, ou polo Facebook, expressão perfeita do nosso anarcocapitalismo.

Essa poesia de que falava é, acho, pura elefantíase. Elefantíase lírica que oculta, é certo, obras magníficas, mas que, de forma mais habitual, eleva aos laicos altares vácuas sucessões de palavras. Essa poesia é, enfim, como não podia ser doutra forma, puro capitalismo, com certeza um capitalismo com escasso fluxo de capitais económicos, mas, e isto é inegável, com uma capacidade criativa, para bem ou para mal, extraordinária. Nos estertores da vida nascem as melhores visões. Uma poesia perfeita para um país sentimental. Para uma eutanásia perfeitamente programada.

Vejo agora que A Razão do Perverso é, em certo sentido, uma inofensiva homenagem, falsamente misógina, a caciques, ninfas, críticas e censoras. Sem elas, sem eles, este livro não existiria. Habitar as margens das margens desse sistema literário permite conceber certos jogos inócuos. Até talvez infantis. Eu sou da tribo dos rosmões. Dos que não sabem calar. Dos que não suportam nem a miséria nem os e as miseráveis. Nas margens das margens devemos manter certas obrigações éticas. Certas inofensivas obrigações éticas. Porque não temos poder para decidir o que as palavras significam. Porque só temos cinquenta ou cem palavras para edificar uma obra. Nós, os inofensivos, os que não temos nada a perder, e muito, muito, muito a ganhar.

Na memória do Paco Souto.

Para nunca calar.

Para construir uma obra.

Para vencer, que é o derradeiro e o pior dos nomes da da derrota.
Porque este livro é, finalmente, a expressão do absoluto cansaço vital. Pensei que era apenas um divertimento. E também uma diversão. Mas, sei-o agora, é simplesmente a expressão última da inutilidade do combate. Só ofende quem pode. Eu não tenho esse poder.

Nós, os inofensivos, temos unicamente uma perversa razão. E não temos fé. É a sorte de habitar o lugar em que o silêncio sempre perdura. A razão das margens perdurou, perdura e perdurará. Com certeza perdurará. Como perdurará a memória do Paco. A memória de um bom e generoso. Pola sua memória estou hoje aqui.

Saúde e obrigado pola vossa presença, pola vossa paciência.


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  • abanhos

    Que maravilha de texto meu deus, que maravilha.
    Acho que a primeira frase dum texto já nos indica se ele vai seu uma obra mestra ou não, e a deste o é.
    “Enquanto esperamos a que chegue o dia, não nos apercebemos de que todos os dias são o dia. E é nessa espera que perdemos tudo. Absolutamente tudo”.

    Tem um estilo tão poderoso, tão concreto, tão simples e tão preciso o autor neste texto, ….e quanta cousa se diz nele sem que se precise nem uma vírgula a mais, que me fez voar como no seu momento me fizeram voar outras obras maravilhosas e grandes como por exemplo esta epopeia.
    http://cabana-on.com/Ler/wp-content/uploads/2015/11/Viva-o-Povo-Brasileiro-Joao-Ubaldo-Ribeiro.pdf

    • Mário J. Herrero Valeiro

      Muito obrigado, Alexandre. Um prazer e um bocadinho de ego para mim…

  • Heitor Rodal

    Magnífico relato e retrato para não calarmos nunca, mesmo na derrota.

    • Mário J. Herrero Valeiro

      Obrigadíssimo, Heitor. Calaremos na morte. Mas o nosso silêncio perdurará.

      • Galego da área mindoniense

        Deixaremos de falar, mais os nossos escritos seguirám aí.