No passamento de Manuela Ribeira Cascudo



Não sei dizer quando a conhecim, mas só comecei a tratá-la a jeito de amigo quando também há muitos anos, Isaac convidara-me, após umas jornadas da AGAL em Ourense, a acompanhá-lo até o seu lar, no que me ia amossar algumas das suas maravilhosas novas adquisições nos alfarrabistas de Portugal (sebos no Brasil, livrarias de velho na Galiza. Porque na Gz se chama de esse jeito – ah! Castela e a sua língua-).

Ao chegarmos à morada, recebeu-nos a sorridente e muito boa anfitrioa, Manuela. Lembro-a perfeitamente nesse dia, com o seu sorriso luminoso, naquela casa ateigada de livros, na mesa quadrada que compartia com o Isaac, cada um num canto e de perfil um para o outro. Ela desseguida convidava-te a jantares com eles, com as suas comidas densas e abondosas e ao pouco descobrias que ia ser para sempre tua amiga.

Desde aquela tratei-a muitas vezes compartindo assembleias e atos da AGAL. Logo de companheira no Conselho da AGAL, e por último na Meendinho.

Compartim com ela viagens e excursões, tenho que dizer que nunca conhecim pessoa que adorasse tanto organizar viagens e excursões como ela, e não ficava feliz e satisfeita, até estarem todos os pontos da deslocação bem apurados e mais que isso, sendo logo excelente companheira, que te ajudava a aprimorar a tua percepção do mundo.

Manuela como pessoa bem inteligente que era, era reintegracionista de longa data, pode-se dizer que o reintegracionismo, nela era absolutamente natural.

Filha de emigrantes do país do Eume, nasceu e cresceu nos Flandres. Tinha lá de língua familiar a nacional da Galiza, na rua e na escola o flamengo.

Naquelas paragens já estava lá o reintegracionismo a caminho, pois o flamengo que ela percebia nas pessoas com só elas abrirem a boca, todo o mundo sabia que não era outra cousa que o holandês, ainda que a lei reintegradora não se aprovou até 1980.

Ela dizia que a Galiza tinha que ter uma lei para o português, como a que instituiu na Bélgica o holandês para Flandres, para fazermos certa a reintegração. O dia que isso passasse o estado espanhol, não seria mais supremacista do castelhano, e sim uma verdadeira democracia.

Quando andava na casa dos dez ou onze anos, passou a estudar em Francês. Os seus país tinham a teoria de que o francês ser-lhes-ia de muita mais utilidade no futuro. Pegavam o comboio todos os dias, ela e a sua irmã1, desde Antuérpia a Bruxelas, e a noite voltavam. Na escola apreenderam o alemão e o inglês, e apreenderam-nos bem, tal e como se ensinam as línguas por aquelas paragens.

Lembro-me as reuniões da Meendinho, quando Manuela anunciou que queria tirar o máximo reconhecimento do seu conhecimento de alemão, língua que apreciava muito, e como se preparou e dedicou para conseguir isso com o correspondente diploma.

Na Galiza enveredou os seus estudos pela filologia, licenciando-se em galego-português2, como um bom jeito de servir ao nosso país e as suas gentes e ajudar-lhe a se libertar de fardas opressoras.

Da época do Conselho da AGAL, 2007 -2009, um período de trabalho realmente intenso e duro de relançamento da associação, lembro-me de todos os membros do Conselho, e seus muitos contributos. e, lembro que aí estava sempre a Manuela em todas as reuniões, e foram muitas, achegando siso e os seus preciosos apontamentos, para que os nossos pés não abandonassem a terra material.

Manuela, como te sinto a faltar, ela sempre te falava num tom algo peremptório do que tinhas a força que gostar, não havia outro, e no seu coração havia um monte de generosidade e nenhum remorso.

Da Meendinho era Secretária desde a constituição legal da Fundaçom em 1999. É bom lembrarmo-nos como nasceu a F. Meendinho, pois ela gostaria.

O colectivo Meendinho nasceu na cidade de Ourense a fins dos anos 80. Formavam parte deste coletivo José Manuel Aldea, José Manuel Outeiro e André Outeiro, Marcos Ferradás, Miguel Conde e outras pessoas mais que não lembro, eram pessoas todas da mesma geração – companheiros de instituto naquela altura-. Fizeram um grande ativismo de rua, ao que elevaram a um alto patamar, ainda em muitos aspectos não superado.

Nos anos 90 impulsionaram a revista A Gralha, como órgão das organizações reintegracionistas, Porém nesses anos 90, a medida que cresciam e iam tomando novos caminhos as vidas dos envolvidos no projeto, este foi esmorecendo.

No ano 1997, o grupo Meendinho já esmorecera, porém José Manuel Aldeia pensa em recuperar o espirito e ideias do projeto criando uma Fundação com esse nome. Para isso cumpre achar as pessoas, constituir a entidade com toda a sua papelada notarial, e achegar os dinheiros que são exigíveis a esses projetos, e no projeto converge um escol de onze bons e generosos, nos que está Manuela Ribeira Cascudo e Isaac Alonso Estraviz3.

Há pouco mais de dous anos chegou-lhe um andaço em forma de um cancro. Foi operada com sucesso, logo isso desenvolveu-se numa leucemia, na que o passou realmente mal, para os que olhávamos desde fora do seu corpo. Pois ela sempre foi alegre e cheia de esperança e projetos. Passou os longos períodos de isolamento lendo e participando digitalmente nos aconteceres do mundo, sempre com um Isaac dedicado ao seu lado.

Em Junho deste ano tivemos a última reunião da Fundação Meendinho, la estava Manuela alegre, disposta e cheia de vida a pegar em novas iniciativas e projetos.

Foi-lhe feita depois a transfusão de médula -da que estava pendente- com grande sucesso. A alegria que te dava Manuela ao falar com ela, era inabalável.

O dia 25 de outubro, partíamos Margarida e eu para a Ilha de Santa Maria nos Açores, para participarmos no 28 Colóquio da Lusofonia, representando a Meendinho e a todo o reintegracionismo galego.

Estavamos no Porto quando recebim o wassapp de Manuela informando-me de que acabava de ser ingressada no hospital clínico de Compostela por uma infeção que lhe aparecera. Peguei o telefone e falamos, Manuela estava segura que ia ser esta vez a cousa por muito poucos dias, e além disso, dizia-me que não a iam recluir em isolamento, como tantas vezes lhe tinha acontecido. Nos dias dos Açores ainda troquei com ela algumas mensagens.

Chegamos de volta à Galiza a noite do dia 2, o dia 3 pola tarde fum informado que a Manuela, havia apenas um bocado, vinha de falecer.

Fiquei estonteado, sem ser capaz de racionar, estava totalmente atordoado. Falei com Ana Maria Cabanas, falei com Isaac, cada vez me parecia mais impossível o que vinha de acontecer, dous dias antes informava Manuela que em um ou dous dias estaria na casa, que ela se sentia realmente bem…Quando de pronto todos nós, o Isaac, a sua Mãe, a Meendinho, a AGAL, o reintegracionismo, a Galiza inteira, a Lusofonia, o mundo todo, fomos privados da sua companhia para sempre.

Como te vamos achar em falta, ao sentirmos as tuas saudades, que mais uma vez nos darão ânimos pois a Galiza pode ganhar a batalha da sua língua, se temos o empenho e a dignidade que a tarefa merece, como muito bem a Manuela sabia.

Notas:

1A sua irmã pouco mais velha que ela faleceu o dia 26 de outubro, apenas uma semana antes.

2Carvalho Calero o primeiro catedrático da nossa língua na universidade de Compostela (naquela altura a única), teve muito interesse que o nome da língua fosse o que a tradição galeguista defendia, o galego-português, de facto toda uma declaração de princípios.

Desaparecido ele do ensino rapidamente o isolacionismo o serviço de Castela/espanha converteu o traço em um e. E passou a se falar de -galego e português- fazendo interpretação do nome -pro domo sua-. Mas como não resultava bastante, o ILG e seu grande defensor Fraga, acabaram tirando esse nome e substituindo todo por galego, -só galego língua de seu -, devidamente submetido às alfândegas do castelhano.

3Fundadores: José Manuel Aldeia Moscoso, Rosa Maria Verdugo Matés, Bernardo Penabade, Lupe Cês, José Ramom Rodrigues Fernandes (Moncho de Fidalgo), Maria Beatriz Árias López, Maria Eugênia Pedreira Sanches, Manuela Ribeira Cascudo, Isaac Alonso Estraviz, Ramom Pinheiro Almoinha, Carlos Penela Martim. Sendo o seu primeiro padroado (órgão de governo): Bernardo Penabade, presidente. Manuela Ribeira Ribeira Cascudo, secretária. José Manuel Aldeia Moscoso, vice-presidente. Rosa Maria Verdugo Matês, tesoureira.

Alexandre Banhos Campo, Presidente da F. Meendinho

Alexandre Banhos Campo

Alexandre Banhos Campo

Alexandre Banhos Campo (Crunha 1954) é Licenciado em Ciências Políticas e em Sociologia (especialidade de demografia e população) pela Universidade Complutense. Em Madrid foi membro fundador do grupo LOSTREGO.

Post-grau em gerimento de formação e processos formativos pela UNED, e tributários pola USC. Tendo desenvolvido alargadas atividades no campo da formação, em todos os ramos, e também na sua condição de formador.

Tem sido colaborador jornalístico, e publicado inúmeros artigos sobre os temas da sua atividade.

Ligado ao ativismo galeguista na Galiza desde há 40 anos, tendo ocupado diversos postos de responsabilidade em diversas instituições e entidades. Neste momento é do conselho consultivo do MIL, dos Colóquio da Lusofonia e o atualPresidente da Fundação Meendinho.
Alexandre Banhos Campo

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  • Ernesto V. Souza

    Lamento imenso Alexandre, as minhas condolências à Fundação.

  • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

    Condolências e ânimos.

  • http://www.madeiradeuz.org madeiradeuz

    Formoso texto, Alexandre. Um texto para as redorcações pessoais, mas também viva história do reintegracionismo. Acharemos-te em falta, Manuela!

  • http://www.joseluisfdezcarnicero.blogspot.com Jose Luis Fernandez Diaz

    Fermosísima lembranza de Manuela.