O FUTURO POSSÍVEL

No Parlamento, todas lusistas



 

 

Ontem, 15 de junho, fazíamos trinta e quatro (34) anos da conhecida Lei de Normalización Lingüística aprovada em 1983 durante o governo do recentemente condecorado Fernández Albor (Alianza Popular, hoje Partido Popular). Mas ontem também acontecia que o atual governo do PP tinha de dar explicações na Comissão de Cultura do Parlamento Galego a respeito da implementação da Lei Paz-Andrade, a qual estabelece oficialmente o ensino de língua portuguesa na Galiza desde 2014. Depois de trinta anos, a atuação do governo oferece uns dados estatísticos abrumadores quanto ao seu fracasso como agente normalizador da língua galega. De Albor a Feijóo, costumam dizer os mais críticos que a política linguística da Xunta ajudou a normalizar na Galiza a língua castelhana. Alguém poderia pensar que isto é um exagero, mas as estatísticas dão-lhes a razão. Porém, trinta anos dão para muito e hoje há no Parlamento Galego uma completa unanimidade entre todos os grupos políticos para defender uma outra lei, a Lei Paz-Andrade, uma lei reintegracionista que estabelece a aprendizagem da língua portuguesa desde os níveis mais básicos até aos mais elevados no ensino oficial galego.

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Como é que esta evolução se tem dado? Como foi que partindo do “rubidoiro” e o “televexo” temos chegado ao momento em que as palavras “partilhar”, “perto”, “vaga”, “língua portuguesa”, “Galego Internacional” se pronunciam de maneira normalizada no Parlamento Galego? Guerra da Cal e Carvalho Calero foram os elos de união com o galeguismo da pré-Guerra da Espanha e os faros na longa noite de pedra da ditadura de Franco. Na década de ’70, ao abeiro do seu legado e graças ao fim da ditadura, agromou em conjunto a possibilidade de reconstruir a unidade galego-portuguesa. Na década de ’80 surgiam as associações reintegracionistas e a colaboração internacional, entanto o governo da AP impedia ao professorado organizado realizar a verdadeira Transição do Galego. Na década de ’90 a repressão aos docentes e estudantes rebeldes foi brutal bem como o abandono das entidades internacionais. Nos 2000 a confluência de pessoas em apoio do Reintegracionismo e o fracasso da política linguística do PP e resto de partidos que governaram na CAG, provocou um novo Ressurgimento galego. Nos 2010 reivindica-se abertamente a oficialização e uso do português e a pertença da Galiza à CPLP como território berço e utente natural de língua portuguesa.

Por acaso a política linguística do governo da Xunta teve algo a ver nesta evolução? Contribuiu positivamente à implementação no ensino da língua portuguesa? Assumiu o carácter fundacional do território galego na construção da língua que hoje é oficial na vizinha República de Portugal e em sete países do mundo? Reconheceu o sistema linguístico galego-português e a necessidade de estudar uma convergência entre as falas galegas e as portuguesas? Trabalhou para a unidade da língua escrita e para a potenciação da diversidade com as variedades autóctones galegas? A Lei Paz-Andrade foi uma iniciativa popular que saiu da vontade das pessoas de dar um murro na mesa do desastre sociolinguístico. Visto que a política da Xunta não teve qualquer efeito positivo na normalização do Galego não parece descabido indicar que ela foi, além dum fracasso, uma verdadeira fraude.

Assim, e depois de trinta anos de desleixo, em 15 de junho de 2017 assistimos no Parlamento Galego a uma defesa absoluta da Lei Paz-Andrade e do ensino de língua portuguesa na Galiza. No Parlamento hoje todas somos lusistas. Sem convocação de vagas para o professorado, mas lusistas. Sem promoção a sério da língua, mas lusistas. Sem orçamento, nem programa, nem previsão a curto e meio prazo, mas lusistas. Na vida real poucas aprendemos português para o empregar na Galiza como língua tecto e quem ousamos fazê-lo continuamos a receber as pressões no centro de trabalho, o acosso de grupos extremistas alimentados pela corrupção política, ou sofremos o apartheid ortográfico no âmbito da publicação de literatura e da expressão artística. Não é casual que o Centro Social Escárnio e Maldizer de Compostela, recentemente desalojado com brutalidade pela polícia nacional espanhola, fosse um espaço aberto à língua portuguesa. O mundo das margens sociais é solidário e democrático, não admite imposições nem age por interesses espúrios. E naturalmente, não alimenta os preconceitos contra Portugal.

O ex-presidente Fernández Albor recebeu recentemente uma medalha de ouro ao mérito no trabalho, com ela o Ministerio de Empleo y Seguridad Social louvou a sua longa trajetória como contribuínte. É obrigado notar que o senhor Albor fará os cem anos no mês de setembro, daí a longitude do seu contributo. Desde já desejamos que os cumpra com boa saúde, pelo menos com melhor saúde da que tem hoje a língua da Galiza. Não é pouco mérito ser membro do PP e receber uma medalha pela contribuição às arcas públicas. Albor deveu ser uma rara avis dentro do seu partido, organização famosa pelo latrocínio continuado a que submeteu a população de todo o Estado e que nestas semanas e meses estamos a ver abrolhar nos julgados com a força do tsunami. Falta por ver quanto desse latrocínio sistémico tem a ver com a implementação fracassada duma política linguística concebida para impedir a reintegração da população galega no lugar que lhe corresponde.

Carlos Calvo publicava no início do mês de junho um artigo intitulado Isto também é memória histórica em que fazia um repasso das figuras políticas em ativo nos últimos cinco anos, responsáveis de ter metido pessoas inocentes em prisão quebrando a vida dos seus amigos e familiares. Todas as personagens analisadas nesse artigo são na atualidade protagonistas das tramas de corrupção do PP, esses processos judiciários que enchem os informativos e cuja listagem, nome por nome, toma vários minutos de leitura. Não nos haverá de estranhar nos próximos anos, quando se der uma mudança de governo e o Reintegracionismo chegar a indicar de maneira oficial a linha de recuperação da nossa língua, que se façam auditorias sobre a política linguística dos governos da Xunta desde o primeiro até ao último, e comecem daquela a saltar todos os escândalos de corrupção que, sem dúvida, terão ajudado a piorar a situação económica e linguística das gentes galegas. Não nos estranharemos se afinal somos as insultadas, as presas, as perseguidas, as ridiculizadas, as sancionadas, as ignoradas, as traidoras, as expulsas, em definitivo, as lusistas, quem ponhamos as contas democráticas na ordem, quem devolvamos, na teoria e na prática, a dignidade e a prosperidade ao povo galego.

Isabel Rei Samartim

Isabel Rei Samartim

Mulher, música guitarrista, galega. Pensa que a amizade é uma das cousas mais importantes da vida. Aprendeu a sobreviver sem o imprescindível. Aguarda, sem muita esperança, o retorno do amor. Entanto isso não acontece, toca e escrevinha sob a chuva compostelana.
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  • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

    Acabo de ver, a LNL aprovou-se em 1983, não em 1987. Se alguém caritativo puder mudar esse erro, agradeço.