LIVROS QUE ABREM GRADES

Na taberna de Facal

Joám Lopes Facal, 'Percursos sem roteiro', Através (2015)



Nos primeiros anos de andaina do Parlamento Galego uma estranha (e da qual desconheço os motivos) abstenção do BNG perante uma moção polo reconhecimento do direito da Galiza à autodeterminação, permitiu a Fraga fazer aquela piada fácil e paternalista de que, na nossa Terra, tal reivindicação “só a pedem Camilo Nogueira e o seu cunhado”. Aquele cunhado autodeterminista não era senão Joám Lopes Facal, militante de longo alento, ativista linguístico, colaborador habitual nos meios galegos e estudioso da nossa economia e sistema financeiro. Também é o autor de Percursos sem roteiro.

Joám Lopes Facal, Percursos sem roteiro, Santiago de Compostela, Através, 2015

Através dos caminhos da geografia, a política a língua ou o pensamento, mas também da gastronomia ou mesmo das intimidades conventuais, Facal avança atento e com um humor e um estilo genuinamente atlânticos, de prosa clara e ágil mas também irónica. Um sente-se, lendo-o, na placidez duma conversa de taberna acolhedora, lareira acessa e parolar divertido dum Chesterton ou um Plácido R. Castro, o nosso homem mais anglosaxão. Mesmo este leitor, que apenas se sente tranquilamente “europeu” quando vê o ciclismo, se deixaria enredar numa conversa sobre a “via europeia” para a Galiza em tão agradável companha.

Cidadãos de 3.781 pátrias paroquias

Dos roteiros facalianos acho que merecem especial destaque os dedicados à morfologia social do país, onde se descrevem com mestria os condicionantes geográficos – a dispersão principalmente – do nosso agir nacional, sintetizados numa frase certeira:

“É a fortaleza e a debilidade do múltiplo frente ao unitário, da identidade tribal frente à republicana, da geografia frente à história”. (p.17)

Mesmo que atualmente 41% da população se concentre já em apenas 70 paróquias, este tipo de organização social mantém uma força inegável nas estruturas mentais e simbólicas. Dizia o antropólogo Marshall Sahlins no seu livrinho já clássico Tribesmen, que nas sociedades verdadeiramente tribais, sorte de “animal privado de sistema regulador central”[1], a fortaleza reside nas bases da pirâmide social, sendo a unidade “nacional” – amiúde anónima e quase sempre tática, circunstancial e fugaz – o elo mais débil da cadeia social e identitária. Bem o sabia Manuel Mandianes, quando ao refutar o mito da submissão galega, reclamava que se deslocasse o foco do nacional para o paroquial e o comarcal, onde se podiam observar um semfim de resistências à assimilação. Não se trata de idealizar nem de condenar, senão de compreender esta realidade, tão refratária – para bem e para mal – ao Estado-Nação e ao partido-nação, à hora de inventar formas próprias de organização e práxis política, necessariamente mais confederais do que as clássicas da esquerda leninista.

Debate, espaço público e indigência teórica.

No terreno político Facal aborda sem concessões a crise do soberanismo, da qual diz que, se tivesse que “atribuir a manifesta incapacidade do nacionalismo galego para seduzir a consciência social do país a um motivo principal, eu apontaria sem vacilar para a indigência e a desatualizaçom do discurso político que vem proclamando” (p.171). Assim mesmo, demonstrando uma atenção ao independentismo pouco comum entre o nacionalismo, comenta em termos elogiosos o comunicado de autodissolução de AMI, valorizando a honestidade de não perpetuar uma ferramenta já não operativa como um fim em si próprio.

Quanto à denunciada indigência teórica. Antom Santos deu várias razões deste deficit num trabalho de há anos [2], quando comparava “as obras de referência autóctones da década de 70-80 com a pobreza (ou ausência) da produçom intelectual de hoje”. Alguns dos motivos da falta de desenvolvimento teórico são:

  1. a esclerose dos espaços próprios, físicos (centros sociais, ateneus, escolas…) e simbólica (meios de comunicação, tecido cultural independente), sem os quais o debate afoga, nas desputas partidárias e as posições mais comprometidas se tendem a clandestinizar;
  2. o falseamento do debate que produziu um processo nunca declarado de aggiornamento, além de ocultado polo avanço eleitoral, “mui habitual em todos os reformismos, e especialmente naqueles inspirados na sua origem por certo estalinismo”, onde “quanto mais se fai um esforço desesperado por recriar a “pureza” interna e por reforçar toda a panóplia simbólica mais errática, imediatista e temerosa do velho revolucionarismo é a linha política real”;
  3. em  paralelo, nesse afastamento da luita real os intelectuais de partido “mantivêrom e mantenhem a instituiçom unida com umha utilizaçom surpreendentemente eficaz da mitologia interna. A retórica, a inflamaçom verbal em contraste com a pobreza dos factos e a literaturizaçom do discurso som cortinas de fumo para ocultar impotência e incapacidades”. Underground o filme de Kusturica é um exemplo deste tipo de processos.

Pola contra, Facal procede do setor do nacionalismo que praticou um autonomismo pragmático, sincero e consciente. Aliás, sem ser independentista, comparte com nós certa homologia estrutural: em tanto que excêntrico no campo soberanista e também no cultural (por reintegracionista): razão pola qual converge com independentistas em projetos, como a construção de espaços próprios para a cultura dissidente. É mui satisfatório ver como Roteiros sem percurso frequenta esses espaços livres: a apresentação do último livro de Ignacio Castro numa editora alternativa como Corsárias, ou a do Galiza, um povo sentimental? de Helena Miguelez-Carballeira no C.S. Pichel (livro, não o esqueçamos, desbotado polas grandes editoras e publicado pola Através no nosso modelo autogerido de língua). Não estranha logo, no meio deste nascente ecossistema, que Facal relativize a cacarejada crise da cultura galega. “Afinal vai resultar que o que esmorece é a cultura baixo pálio” (p. 189).

Reintegracionismo, Sul e lusofobia

Esta cultura galega que não recebe subsídios do PP mas também não do bipartido – veja-se o caso do Novas da Galiza – dá, porem, mostras de saúde. Por exemplo a fraternidade com a que, ao parecer, se desenvolveu o último debate normativo na AGAL. Embora com uma compreensível amargura, Lopes Facal dá a sua opinião, expõe as suas boas razões e normaliza as divergências, cousa radical numa cultura política que adorando o consenso tem pouco menos que criminalizado o dissenso.

Para além dum “ã” a mais ou a menos, Facal sustém que “o português global é o nosso inevitável aliado paea romper o mesquinho papel de embaraçoso requisito curricular prescindível outorgado para promovê-lo  à categoria de veículo de capacitaçom e progresso” (p. 110). O autor vê-o claro: “a língua já demanda por sinais manifestos um pouco de sol e sul” (p.12). Não se pode passar por alto tão-pouco a reivindicação do detetive Pepe Carvalho como ícone do reintegracionismo.

Por último, não deixo sem comentar a deliciosa anedota relatada por Facal, de quando os seus filhos estudavam nas Escolas Labaca da Corunha e algumas mães lhe perguntavam “se eram filhos de portugueses. Uns rapazinhos asseadinhos, que falavam entre eles era digno de atençom, o sotaque era admirável, mesmo habitual, mas, o galego, por que falavam em galego?” (p.23). A estória vai à raíz profunda de lusofobia, analisado por Josep J. Conill [3] como um caso de “coalizões triádicas”onde “a variedade regional de língua é instrumentalizada em contra do português padrão”, num peculiar “mecanismo de transferência que faz recair sobre ele a hostilidade reprimida” cara o galego erigido em língua nacional, tornando-se o “principal catalisador da tensão que o tema da normalização linguística suscita numa parte da população”. Tudo sucede como se quando o galego sobrepassa o corsé regional se tornasse português, o seu uniforme de combate. O anedotário é nutrido, mas vaia aqui um exemplo pouco conhecido de Augusto Assia, “o senhor de Xanceda”:

Era el año 1955. Yo regresaba de los Estados Unidos hablando gallego como hablé siempre, pero produciendo un gran estupor a mi alrededor, pues nuestro idioma había caído al menos en las ciudades en un desuso desolador. Por entonces se había establecido el primer surtidor de gasolina en la carretera de Madrid, a la salida de La Coruña, y yo solía aprovisionarme allí, atendido por un despierto y simpático chico de unos quince o dieciséis años, de pelo rojo y pecoso, que, un día, cuando éramos ya casi amigos, me interrogó:

– “Usté e portugués?” (¿Es usted portugués?)

– “Que che fai pensar que eu poida ser portugués, hom? (¿Qué es lo que te hace pensar que yo pueda ser portugués?)

– “Como sempre fala galego… ” [4]

Cárcere de Villabona, 22 de janeiro de 2017

NOTAS:

[1] Marshall Sahlins, Tribesmen, New Jersey, Prentice Hall, Inc., Englewood Cliffs, 1968.

[2] Antom Santos, “Reflexons sobre a Construçom Nacional Galega. História e perspectivas” em AGÁLIA, 75/76 (2003): 55-84.

[3] Josep J. Conill, “Três textos e um só discurso, ou o peixe que morde a própria língua (I)”, Boletim da AGLP, 2 (2009): 81-103.

[4] Augusto Assia: “El respeto a las lenguas nativas”, La Vanguardia, 6/1/1976, p. 6.

Carlos C. Varela

Carlos C. Varela

Carlos Calvo Varela (Ordes, 1988) colaborou e colabora com diveros meios de comunicaçom, entre os quais Novas da Galiza, Praza Pública e o Portal Galego da Língua. Estudante de Antropologia e investigador, tem publicado numerosos artigos em portais web, revistas e livros, além de realizar um reconhecido labor como dinamizador social e cultural em coletivos de Compostela e Ordes.
Carlos C. Varela

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  • Ernesto V. Souza

    Carlos e Joam, dous dos meus autores favoritos, isto é sorte…

  • Joám Lopes Facal

    Um grande abraço, amigo iniquamente gradeado.
    Nestes dias de tratamento hospitalar prescrito lim com calma os teus “Diários”, tam cheios de sabedoria antropológica e madureza persoal.
    Seguirá comentário em breve.
    Falámos, que as grades nom obnubilem a fortaleza.

  • http://pgl.gal Valentim R. Fagim

    Que bem escreve o Carlos. É um prazer ler.

  • abanhos

    Que mestria teem os textos deste homem.
    E usar o mestre Joam Facal, para desenvolver tão lindo novelo, uma maravilha que alumeia aos dous excelentes autores, e que nos retribui a todas

  • abanhos

    Na Galiza passa-se o que pronto vai-se passar na Valência, após a próxima independência do Principado, que a afirmação de valencianidade é um instrumento para negar a sua verdadeira condição de catalãs, e um instrumento para não afasta-los do submetimento à castela/espanha.

    Se os galegos é galegas reivindicasemos a nossa condição de portugueses (que é dura -difícil- porque supõe um afastamento radical da condição -interiorizada- de espanhois).
    Ser portugês é um outro jeito, ao fim e ao cabo, de se se charmar galego.

    Muito caminho normalizador teriamos percorrido. com essas botas de sete léguas, pois isso não é integrável no estado de castela/espanha com um: “Mais uns espanhois, quando espanha é castela/espanha”

  • Santiago Silva Varela

    Grande artigo! Quando termine a minha atual leitura comprarei o livro do Joám Facal