RODÍZIO DE LÍNGUA

O mundo é um moinho. 10 palavras rurais galegas emigradas às metrópoles brasileiras



Foi Cartola, operário carioca e um dos maiores sambistas da história, quem comparou o mundo com um moinho: “Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho, vai reduzir as ilusões a pó” advertia com toda a dureza e sinceridade de quem cresceu e morreu pobre.

O moinho, devido à sua importáncia na sociedade agrária, ocupou até há pouco um lugar privilegiado no imaginário galego dando nome, inclusive, à dança que identifica a Galiza, a moinheira. Talvez seja por isso maravilhoso ver hoje no português brasileiro moderno a vitalidade dessa visom labrega levada ao mundo urbano nesta seleçom de dez vocábulos galego-brasileiros.

1. RODÍZIO

Gente do rodízio, escreveu Neira Vilas, um dos grandes autores da literatura galega do século XX. Rodízio é em galego-português a roda do moinho mas também, graças ao português brasileiro, um restaurante onde comer à vontade por um preço fixo. Da realidade rural concreta o português brasileiro gerou através de umha sugestiva metáfora abstrata um novo significado. A imagem surge polos numerosos empregados de mesa que ficam oferecendo constantemente comida como se de umha roda de moinho se tratasse. Essa ideia do revezamento está presente também noutros usos do termo próprios de grandes cidades como São Paulo onde existe o rodízio de veículos para limitar os horários de circulaçom ou o rodízio de horários do quadro de pessoal de uma empresa.

GZ

  1. Vem tam pouca água que quase nom dá movido o rodízio

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BR

  1. Vamos jantar sushi, hoje tem rodízio baratinho.
  2. Por causa do rodízio de carros hoje vou de carona na universidade.
  3. Eu prefiro trabalhar em horário fixo, sem rodízio.

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2. ENFURNAR

No concelho galego de Porto Doçom fica a Praia das Furnas, conhecida por ser o local onde o ativista pró-eutanásia, Ramom Sam Pedro, ficou tetraplégico. Umha furna é umha caverna normalmente produto da erosom do mar. Há furnas espetaculares no Seixo Branco, concelho de Oleiros, na comarca da Corunha, e numerosos topónimos espalhados pola Galiza, Portugal e o Brasil que fam referência à presença destas grutas. Furnas é também umha importante empresa estatal brasileira cuja origem remonta à construçom em finais da década de 50 da primeira usina hidroelétrica de grande porte do país no lugar de Corredeiras de Furnas. A partir de furna gerou-se o verbo enfurnar, meter-se numha furna ou cova. Hoje é habitual no português brasileiro o verbo enfurnar para pessoas que nom saem de casa.

GZ

  1. Ao sentir os disparos, a raposa enfurnou-se.

BR

  1. Em vez de ficar aí enfurnado o dia todo você devia sair e curtir a cidade.

 

3. ESPELUNCA

Dentro do mesmo campo semántico temos as espeluncas, neste caso covas feitas de maneira natural. Perto de Coirós encontra-se numha altura sobre o fundo vale do Mandeu a ermida de Santa Baia da Espenuca (etimologia “espelunca”, cova) simples e rude com portado románico e cruz antefixa” escreve Outeiro Pedraio no seu Guia da Galiza. Espelunca é termo corriqueiro no português brasileiro com o sentido de local escuro, sujo e/ou desarrumado; antro. “Me imagino embriagado/Jogado no chão/D’uma espelunca/Nunca!” cantam os Paralamas do Sucesso, boa banda de rock fluminense.

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GZ

  1. O pastor goreceu-se na espelunca.

BR

  1. Estou preocupado com o meu irmão, está desempregado e vive nesse apartamento que é uma espelunca.

 

4. SOBRADO

Topónimo presente em toda a lusofonia, é na Galiza, antes de mais, um magnífico mosteiro fundado no século X. Como substantivo comum, é na arquitetura popular galega o segundo andar da casa ou o piso de madeira. A etimologia poderia estar relacionada com a madeira que “sobrava” ou mesmo com o sobreiro, árvore de que se tira a cortiça pois noutras zonas é chamado faiado, quer dizer, de madeira de faia. No português americano, os sobrados som as casas do Brasil colonial, geralmente de dous andares, onde vivia tradicionalmente a burguesia urbana.

GZ

1.  O sobrado é de castanheiro.

BR

  1. No bairro boêmio da Lapa, no Rio de Janeiro, foram revitalizados vários sobrados que hoje abrigam restaurantes e boates.

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5. LAJE   

Umha noçom parecida com a de sobrado tem o termo laje no Brasil onde ganhou o significado de terraço. Na Galiza, Laje é umha célebre vila marinheira da Costa da Morte e umha pedra lisa usada para pavimentar. Em todos os países de língua galego-portuguesa é também apelido freqüente.

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  1. A carriça foi beber nos furados da laje.

BR

  1. Depois da universidade vou na laje da Carminha comer churrasco e dançar funk.

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6. ESTEIRA

Umha esteira é um tapete feito de palha, esparto ou tabuinhas e também o sulco que um navio deixa na água. Desse último significado vem a forma masculina esteiro, sinónimo do eruditismo estuário, braço de mar ou de rio que se estende pola terra adentro, e que na cidade galega de Ferrol dá nome a um tradicional bairro operário. No Brasil, umha esteira é o aparelho para andar ou correr num ginásio e o tapete rolante dos aeroportos.

GZ

  1. Cobrim o piso do quarto com umha esteira

BR

  1. Hoje corri 15 minutos na esteira.
  2. Colocaram várias esteiras no aeroporto de Guarulhos.

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7. SARADO

Segundo o dicionário galego-castelhano de Carré Alvarelhos, publicado na Corunha em 1931, sarar tem o significado na Galiza de dar saúde, curar. Já, em português brasileiro, estar sarado é estar musculado, ter um corpo fitness.

GZ

  1. Para sarar precisa de muito repouso

BR

  1. Na praia de Ipanema só tem mulher sarada. Que inveja!

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8. MALHAR

Na sua origem, malhar significava bater com um malho ou debulhar nas eiras os cereais. No filme Galiza realizado por Carlos Velo em 1936 podem-se ver uns camponeses a malhar trigo numha eira. Malhar alargou o seu significado a umha forma coloquial de bater em alguém ou algo repetidas vezes e causar cansaço. Daí vem o bonito galeguismo malheira, que deveriam registar nos dicionários de português, e que significa sova, tunda, tareia. Desse último significado vem também o significado brasileiro de ir ao ginásio.

GZ

  1. Antes malhava-se a mao, cum malho, agora fai-se com máquinas.
  2. Quando cheguei tarde da festa a pouco mais malham-me.
  3. Este trabalho malha a um.

BR

  1. A partir de manhã começo a fazer dieta e a malhar, quero estar bonito para o verão.

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9. GALPÃO

Na Galiza um galpom é umha pequena construçom que serve para guardar lenha e ferramentas. No padrom lusitano nom existe e talvez por isso seja etiquetada polo dicionário português Priberam como castelhanismo usado no português brasileiro. No entanto, em espanhol só tem uso marginal em alguns países da América Latina o que poderia ser explicado como um dos tantos galeguismos presentes no espanhol americano. A falta de um estudo rigoroso, poderíamos estar perante um exemplo de léxico galego-brasileiro, nascido nas fronteiras do antigo Reino da Galiza, berço da atual língua portuguesa, desaparecido no padrom lisboeta mas vivo nas variedades galega e brasileira. O som do galpom é umha banda de música compostelana. No Brasil, galpão tem o significado de armazém de mercadorias de grandes dimensons.

GZ

  1. Foi ao galpom buscar umha enxada para cavar a vinha.

BR

  1. As grandes cidades industriais brasileiras estão cheias de galpões para armazenar mercadorias.

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10. BOSTA

Neste caso bosta tem o mesmo significado às duas beiras do Atlántico: Excremento de gado bovino. Porém, no Brasil tem também o sentido abstrato, na fala coloquial, para exprimir a ideia de cousas sem qualidade, sem importância ou sem utilidade.

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  1. Depois de que passárom os bois o caminho ficou cheio de bosta.

BR

  1. Meu, fiquei sabendo que estão filmando Indiana Jones 5. O 4 foi umha bosta, tomara esse seja melhor.

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Todos os exemplos da Galiza fôrom tirados do dicionário on-line da Real Academia Galega e fam referência a umha realidade minoritária que às vezes já nem existe. Hoje, mais de 70% dos galegos e galegas vivem na cidade. Águas passadas nom movem moinhos, diziam os nossos avós. O mundo é um moinho, cantou Cartola. Porque afinal, o futuro do galego passa por aí: ouvirmos os nossos avós e cantarmos Cartola.

 

*Texto originalmente publicado no Diário Liberdade.

Diego Bernal

Diego Bernal

Diego Bernal nasceu em Lugo em 1982. Licenciado em filologia galega pola Universidade da Corunha iniciou a sua carreira dando aulas de galego na EOI Jesus Maestro de Madrid, foi leitor da Junta da Galiza na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, professor de espanhol no ISEG da Universidade de Lisboa e professor de português nas EOI de Plasencia e de Montijo, na Estremadura. Atualmente mora no Brasil onde trabalha como professor na Universidade Federal de Viçosa.
Diego Bernal

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  • Joám Lopes Facal

    Estupendo mini-dicionário demonstrativo da vitalidade do idioma vivo para dotar de vida renovada às velhas palavras,
    No entanto, tenho entendido que o topónimo “Sobrado”, “Sobreiro” e similares procedem do latino “superarium”: superior, que está arriba. Também é o caso de “o sobrado da casa”.
    O caso de “Sobredo” é diferente, seguramente fai referência à arvore da sobreira.
    [email protected] pola informaçom.

    • Diego Bernal

      Obrigado, Joám. Quanto à etimologia, nom tenho certeza. Na verdade, costumam ser na maioria dos casos hipóteses. Eu apenas reproduzim as informaçons que lera sobre isto ou que me fôrom transmitidas no curso de filologia da Corunha -acho que no caso de sobrado como madeira do sobreiro foi o professor Manuel Ferreiro-. Porém, a etimologia de sobreiro ou sobreira sim é conhecida pois o nome científico é quercus suber, portanto viria do étimo suber. Árvore, aliás, que foi escolhida, recentemente, como símbolo nacional de Portugal. Abraço!

  • Nicolau

    E mais outra para acrescentar este interessante vocabulário galaicobrasileiro: a cambota.
    Nunca entenderei como a trave da nossa lareira acabou como eixo dentro dum motor de explosom no Brasil. Mas no meu idoleto eu prefiro-a ao galicismo “virabrequim” ou ao castelhanismo “cegonhal”.