Mulher, sexo e matrimônio nos escritos apostólicos (II)



Inferioridade e submissão da mulher

 

Uma das ideias mais recorrentes do Novo Testamento é a do submissão da mulher ao homem, a qual, depois de enorme insistência e repressão, terminou por ser interiorizada tanto polos varões, convertidos em repressores, como pola mulher, que viu anulada a sua personalidade. São Paulo quer que as mulheres de Corinto evitem assistir sem véu à igreja, que ele considera um abuso que se opõe às tradições ou ensinança catequética que ele lhes transmitiu. Aproveita esta prática para deixar bem assentada a inferioridade da mulher com respeito ao varão que ele fundamenta em considerações místicas, à margem de qualquer fundamentação racional e, com esta finalidade, elabora um sistema piramidal, para dar uma forma mais claramente misógina ao relato do Gênesis incorporando a ele a Cristo, na que os elos de major a menor perfeição e hierarquia são: Deus-Cristo-homem-mulher. “Quero porém, que saibais que Cristo é a cabeça de todo homem, o homem a cabeça da mulher, e Deus a cabeça de Cristo” (I Cor. 11, 3). Esta hierarquização, com a conseguinte subordinação e dependência da mulher, obedece, pois, a desígnios divinos e, portanto, não se pode quebrantar, como sucederia se o homem assistisse à igreja com a cabeça coberta e a mulher com ela descoberta, pois, neste caso, a mulher ousaria fazer-se igual ao varão, o qual é totalmente inadmissível, para Paulo. Nesta mística paulina, totalmente gratuita e infundada, a mulher fica descabeçada, sem pensamento próprio, reduzida a uma cabeça de «chorlito», que somente pode pensar pola mente do varão.

 

A seguir realiza o apostolo Paulo toda uma série de afirmações para apoiar as suas teses, carentes do mais mínimo rigor, a respeito da desonra da sua cabeça, pois o que desonra não são as vestes, mas a atitude perante a divindade ou perante os outros seres humanos e todo o demais são convenções sociais criadas polos que dominam para distinguir-se dos demais e sacralizar o seu sistema de dominação sobre eles, labor que, neste caso, é realizada polos relatos bíblicos do Gênesis, que agora adquirem em Paulo uma nova ratificação. O apóstolo considera que se o homem se cobre e a mulher se descobre não mostrariam o plano hierárquico de dominação estabelecido por Deus que é o citado: Deus-Cristo-varão-fêmea. O homem, se se cobrisse não refletiria a glória de Cristo, e a mulher, se não se cobrisse, pretenderia igualar-se ao varão. O homem é imagem e glória de Deus e a mulher é imagem do homem, um reflexo sempre pálido da autêntica realidade. A razão de todo isto é que a mulher proveu do homem, enquanto que o homem proveu de Deus; este foi criado por si mesmo, enquanto que a mulher foi criada a causa do varão, o qual lhe permite concluir que somente o homem é imagem e glória de Deus, enquanto que a mulher é glória do homem, e, por isso, deve cobrir-se em sinal de submissão ao varão, que é já o paroxismo da misoginia, ou senão rapar-se. “Todo homem que ora ou profetiza com a cabeça coberta desonra a sua cabeça. Mas toda mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta desonra a sua cabeça, porque é a mesma cousa como se estivesse rapada. Portanto, se a mulher não se cobre com véu, tosquie-se também; se, porém, para a mulher é vergonhoso ser tosquiada ou rapada, cubra-se com véu. Pois o homem, na verdade, não deve cobrir a cabeça, porque é a imagem e glória de Deus; mas a mulher é a glória do homem. Porque o homem não proveu da mulher, mas a mulher do homem; nem foi o homem criado por causa da mulher, mas sim, a mulher por causa do homem. Portanto, a mulher deve trazer sobre a cabeça um sinal de submissão, por causa dos anjos” (I Cor. 11, 4-10). Em vez dos anjos deveria dizer em interesse dos misóginos celibatários. O Gênesis não precisa claramente se a mulher é ou não imagem de Deus, cousa que sim faz agora o apóstolo Paulo, limitando a imagem de Deus ao sexo masculino.

 

Para intentar remendar o seu discurso profundamente misógino e consolar a mulher acrescentando que “nem a mulher é independente do homem, nem o homem é independente da mulher. pois, assim como a mulher veio do homem, assim também o homem nasce da mulher, mas tudo vem de Deus” (I Cor. 11, 11-12), mas pouca independência pode ter um ser que está totalmente submetido a outro e carece de total autonomia. A seguir, Paulo dá-lhe voz aos coríntios para que julguem se convém que a mulher ore com a cabeça descoberta, pretendendo inclinar o seu juízo polo não em base a que já a natureza nos ensina que é uma desonra para o homem ter os cabelos longos enquanto que é uma desonra para a mulher não tê-los longos. “julgai entre vós mesmos: é conveniente que uma mulher com a cabeça descoberta ore a Deus? Não vos ensina a própria natureza que se o homem tiver cabelo comprido, é para ele uma desonra; mas se a mulher tiver o cabelo comprido, é para ela uma glória? Pois a cabeleira lhe foi dada em lugar de véuI Cor. 11, 13-15). É evidente que a natureza não ensina nada, senão que somente adquire sentido mercê à atividade avaliadora do ser humano. O que desonram são as condutas e atitudes incorretas para com os demais seres humanos, os restantes seres vivos, a natureza inerte, mas nunca os cabelos longos ou curtos. Se a cabeleira lhe foi dada por véu, por que ao homem, que também tem cabeleira, se não se rapa ou lhe cai o pelo, também lhe seria dada por véu. Aliás, se a cabeleira lhe foi dada por véu à mulher, por que precisa outro véu a maiores?

 

De acordo com as pautas acima estabelecidas, Paulo atua coerentemente exigindo que as mulheres calem na igreja, obedeçam e perguntem-lhes aos maridos se querem aprender. “as mulheres estejam caladas nas igrejas; porque lhes não é permitido falar; mas estejam submissas como também ordena a lei. E, se querem aprender alguma cousa, perguntem em casa a seus próprios maridos; porque é indecoroso para a mulher o falar na igreja” (I Cor. 14, 34-35). É uma mágoa que não precise Paulo por que para ela é indecoroso falar na igreja, enquanto que para o homem não.

 

Tanto nas cartas atribuídas erroneamente a Paulo como nas epístolas denominadas católicas, mantém-se esta tendência misógina de clara subordinação da mulher a respeito do homem. Na carta pseudoepigráfica dirigida aos efésios no ano 62, o seu autor insiste no tema da submissão da mulher ao marido «em todo» e, a câmbio, aos homens aconselha-lhe que as amem. “Vós, mulheres, submetei-vos a vossos maridos, como ao Senhor; porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o Salvador do corpo. Mas, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres o sejam em tudo aos seus maridos. Vós, maridos, amai a vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela” (Ef. 5, 22-25). A expressão «em tudo» deveria desaparecer de qualquer relato em que se fale da relação dum ser humano com outro. Se o homem lhe indica que tem que matar a outro ser humano, deve ela obedecer? Estaria ela eximida do delito de homicídio ou assassinato alegando que atuou por obediência devida? Isto é totalmente inaceitável. O home deve amar a mulher e esta reverenciar ao marido (Ef. 5, 32), e as mulheres idosas devem ensinar as jovens a amar os seus maridos (Tit. 2, 4-5). Também se insiste na submissão na Carta aos Colossenses, escrita no ano 62 e de autenticidade duvidosa. “Vós, mulheres, sede submissas a vossos maridos, como convém no Senhor. Vós, maridos, amai a vossas mulheres, e não as trateis asperamente” (Col. 3. 18-19).

 

O autor da I Carta a Timóteo, escrita arredor do ano 100, amostra-se mais rude e imperativo e justifica a inferioridade da mulher no facto de que Adão foi criado primeiro e em que Eva atuou como sedutora para induzi-lo a pecar . “A mulher aprenda em silêncio com toda sujeição. Porque não permito à mulher ensinar, nem exercer domínio sobre o home, senão estar em silêncio“ (I Tim. 2, 11-12), e justifica-o aludindo ao invento do pecado do paraíso e oferece-lhe como saída parir filhos e ser boa. “Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão; salvar-se-á, todavia, dando à luz filhos, se permanecer com sobriedade na fé, no amor e na santificação” (I Tim. 2, 13-15) . E postos a ordenar, também lhe prescreve como devem vestir. “que as mulheres se ataviem com traje decoroso, com modéstia e sobriedade, não com tranças, ou com ouro, ou pérolas, ou vestidos custosos” (I Tim. 2, 9). Tanto os bispos como os diáconos devem ser maridos de uma só mulher, e as mulheres devem ter as virtudes dos subordinados: “sérias, não maldizentes, temperantes, e fiéis em tudo” (I Tim.  3, 11). Não se deve eleger nenhuma viúva menor de sessenta anos, porque “quando se tornam levianas contra Cristo, querem casar-se; tendo já a sua condenação por haverem violado a primeira fé; e, além disto, aprendem também a ser ociosas, andando de casa em casa; e não somente ociosas, mas também faladeiras e intrigantes, falando o que não convém. Quero pois que as mais novas se casem, tenham filhos, dirijam a sua casa, e não dêem ocasião ao adversário de maldizer” (I Tim. 5, 11-15).

 

Na I Carta de Pedro, pseudoepigráfica, escrita arredor do ano 65 e.c. insiste-se também na submissão das mulheres aos homes para que “se alguns deles não obedecem a palavra, sejam salvos pola conduta das suas mulheres, considerando a vossa vida casta em temor” (I Ped. 3. 1-2). Imitando as mulheres dos patriarcas, o seu adorno não deve ser o enfeite exterior, senão o íntimo do coração. E a conduta do marido deve ser a da compreensão, tratando-as como vaso frágil.

 

Estes são os relatos bíblicos que os clérigos ousam afirmar que foram inspirados por Deus, por mais que não exista neles nenhum indício sério que indique que é assim. Estes relatos, esclerosados e convertidos em imutáveis e, pretensamente, na expressão da autêntica verdade, acarretaram enorme dor, sofrimento e alienação a mais de meia humanidade que viveu no mundo cristão e de algumas outras religiões. Esta cosmovisão deve mudar-se por outra que reconheça que as religiões positivas são também produtos humanos, criados para iluminar, dirigir, submeter, consolar e dar esperança aos seres humanos, úteis quiçá nalgum momento passado, mas que hoje são uma rêmora para a sua libertação e reconciliação consigo mesmo.

 

 

Ramom Varela Punhal

Ramom Varela Punhal

Nascido em Carvalho em 1942. Estudoi Teologia na Universidade Pontifícia de Salamanca, e Liturgia no Instituto Superior de Pastoral, em Madrid; Filosofia na Universidade de Pamplona e Filosofia, Psicologia e Organização do Trabalho na Universidade de Lovaina, Bélgica. Doutor em Filosofia pela Universidade de Santiago. Catedrático de Filosofia reformado.
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