Mulher, sexo e matrimônio em Jesus de Nazaré (II)



Eunucos polo reino dos céus

Jesus de Nazaré admitiu a castração, inclusive quando se pratica voluntariamente, se se faz por amor do reino de Deus. Quando os fariseus lhe perguntam se é lícito repudiar a mulher por qualquer causa, Jesus opõe-se em base ao que diz o Gênesis, 2, 24, de que o matrimônio é unha união na que dous ficam reduzidos a um e, em consequência, esta unidade não se pode romper. No judaísmo trata-se duma fusão por absorção e anulação da personalidade duma das partes, a mulher, que o marido pode utilizar ad libitum, a seu bel-prazer, a modo de cleanness, do que se pode prescindir, unilateralmente, quando não agrada, dando-lhe o libelo de repúdio (Dt. 24, 1). Esta conceção está longe do matrimônio como ideal comum compartido desde a igualdade e a diferença, preservando a personalidade e identidade psicofísica de cada uma das partes. Jesus, ainda que comparte a conceção judaica sobre a mulher, introduz um matiz que é a impossibilidade não só unilateral senão também bilateral do repúdio, ou seja, que nem a mulher pode repudiar o home nem o home pode repudiar a mulher, se bem não precisa o evangelista se a mulher o pode fazer em caso de adultério do varão (Mc. 10, 11-12), que sim o permite no caso do varão (Dt. 24, 1; Mt. 5, 32; Lc. 16, 18). Do cesse voluntário da convivência mútua e da forçada por unha convivência insuportável não fala porque não entrava na órbita das suas preocupações. Se Moisés -diz- concedeu licença para o repúdio foi a título provisório motivado pola dureza do coração dos judeus. Aos apóstolos parece-lhes duro que o homem não possa repudiar e casar com outra, também por outros motivos, como era habitual na sociedade judia, e, por isso, comentam-lhe que nesse caso é melhor para o homem não casar. Jesus não o nega e inclusive assente a esta formulação e recomenda veladamente que não se casem, senão que os convida a converter-se em eunucos polo reino dos céus, ainda não todos entendem isto: “Porque há eunucos que nasceram assim do ventre da sua mãe, e há eunucos que foram feitos polos homes, e há eunucos que se castraram a si mesmos por amor do reino dos céu. Quem possa entender que entendas. Quem possa entender que entenda” (Mt. 19, 12; 5, 32). Este pronunciamento de Jesus tem a sua origem nos essênios.

Jesus declara, como vemos, que “não todos entendem isto” e “quem possa entender que entenda”, que os interpretes dogmáticos passam por alto ou mal interpretam afirmando que está falando do celibato, ou da homossexualidade ou do divórcio chegando a dizer que está a falar metaforicamente da castração, como afirma Uta Ranke-Heinemann (Eunucos por El reino de los cielos, p. 34). Nenhuma destas explicações se para a pensar em quais são as razões polas quais Jesus não quer pronunciar-se, senão que deliberadamente deixa o assunto na obscuridade quando lhe seria muito fácil aclará-lo. Mas se não o faz é porque tem razões poderosas para não fazê-lo, pois, neste caso, de falar abertamente, enfrentar-se-ia com o poder do império romano que, a esta altura, proibia a emasculação pola Lex Iulia de maritandis ordinibus (18 a.e.c.), que incentivava o matrimônio e a procriação de filhos, e a Lex Papia Poppaea (9 e.c.), que castigava o celibato e a infecundidade com a incapacidade de receber heranças ou legados por parte dos celibatários. Jesus, em caso de defender abertamente a castração, estaria exposto a ser castigado polas autoridades romanas e, para evitá-lo diz que quem possa entender que entenda. Por que não fala do celibato nem da homossexualidade? Porque estas explicações são totalmente gratuitas, pois se quiser falar delas deveria utilizar as palavras pertinentes para fazê-lo e não falar do eunuquismo ou castração. Aliás, a prática da castração era muito corrente nos impérios babilônico, como assírio, persa, egípcio e no mesmo povo de Israel, como se constata por diversas passagens bíblicas. Outrossim, Orígenes e muitos bispos e patriarcas cristãos se castraram voluntariamente em base a este convite de Jesus.

Alguns autores consideram que a primeira alternativa de Jesus se refere á homossexualidade, que teria, portanto, uma origem genética, mas seria um sem sentido que Deus quiser que se condenasse a alguém, como faz Paulo e a igreja cristã com a homossexualidade, por aquilo que é natural, aquilo com o que um nasce, pois a natureza foi criada, segundo o cristianismo, por Deus e seria o próprio Deus quem castiga a sua própria obra. Por outra parte, os dous casos seguintes, especialmente o segundo, todo indica que se referem à castração em sentido literal, e haveria, em todo caso, que acarretar justificações de por que num caso tem um sentido e a seguir outro distinto. O que sim é certo é que no Império Romano, a partir do século II se aplica a palavra eunuco também a não castrados, como são os que se abstêm voluntariamente do matrimonio, mas isso não implica que se refira aos homossexuais, senão que isto obedece a uma reinterpretação em clave espiritualista do que se vinha praticando em clave literal. As leis romanas proibiam a castração e os cristãos, para não colidir com a legislação, interpretaram os textos referidos a ela em sentido espiritual. Isto é, como veremos, o que acontece na Igreja primitiva por parte dalguns dos seus seguidores enquanto que outros continuaram a defender o sentido literal e a prática emasculadora real por entender que isso foi o que defendeu Jesus. O texto que citam os defensores da referência de Jesus á homossexualidade é um do Digesto de Justiniano: O termo «eunuco» é um termo de aplicação geral, e sob ele incluem-se não somente pessoas que são eunucos por natureza, senão também os que se fizeram eunucos por esmagamento ou compressão, assim como qualquer outra classe de eunucos qualquer que for” (Tit. 16, 128). Não há nenhuma evidência que indique que os eunucos naturais são os homossexuais, e tampouco podemos afirmar que o são os da terceira classe, porque a homossexualidade não é unha opção voluntaria senão uma situação na que um está.

Os contemporâneos de Jesus seguiam as normas relativas à impureza ritual do Antigo Testamento. A Virgem, depois de superar o período de impureza de quarenta dias por ter dado luz a um menino, apresenta-se no Templo com ele para ser declarada legalmente pura polo sacerdote para assim poder tomar parte nas celebrações litúrgicas, oferecer os sacrifícios estipulados na lei, oferecer o primogénito ao Senhor e resgatá-lo mediante o pagamento de cinco siclos, porque num princípio os primogênitos estavam destinados ao culto. “Terminados os dias da purificação deles, segundo a lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém, para apresentá-lo ao Senhor (conforme está escrito na lei do Senhor: Todo primogênito será consagrado ao Senhor), e para oferecerem um sacrifício segundo o disposto na lei do Senhor: um par de rolas, ou dous pombinhos” (Lc. 2, 22-24). Esta festividade de purificação celebraram-na ainda as nossas mães até os nossos dias o 2 de fevereiro, que é a  data fixada pola igreja. Fixemo-nos que o texto fala da purificação deles, em plural, e a questão que surge é saber quem são estes eles. Considero que a opinião mais acertada é referi-los a Maria, por ser impura como resultado do parto, e a Jesus porque ao estar em contato com o sangue também se contagiaria com a impureza.

Jesus contribuiu a dividir as famílias em aras duma adesão incondicional à sua pessoa, como se transluze nos seguintes versos incendiários: “Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra; e assim os inimigos do homem serão os da sua própria casa. Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim”. (Mt. 10, 34-37). Jesus não se contenta com ordenar que ele deve ser preferido à própria família senão que incluso obriga a odiar a própria família para segui-lo a ele. “Se alguém vier a mim, e não aborrecer a pai e mãe, a mulher e filhos, a irmãos e irmãs, e ainda também à própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lc. 14, 26). Este posicionamento de Jesus criou muita divisão e muita dor no seio das famílias, que, segundo ele, era o que pretendia, e, por isso, não se arreda de premiar aos que dividem as famílias sempre que se faça por ele. “todo o que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou terras, por amor do meu nome, receberá cem vezes tanto, e herdará a vida eterna” (Mt.. 19, 29). Quando estudava em Salamanca, lá polo ano 1962, fui consultar-lhe, ao eminente bispo José Maria Setién que nos lecionava uns exercícios espirituais, sobre este pronunciamento de Jesus, e o único que me disse foi: «Deixa isto». Evidentemente, é difícil que uma instituição se sinta cômoda com estas declarações. Com estes antecedentes, como pode o cristianismo pavonear-se de que defende a família? Mas Jesus não se contenta com isto, senão que também ordena que renuncie aos bens aquele que quer ser o seu discípulo. “Assim, pois, todo aquele dentre vós que não renuncia a tudo quanto possui, não pode ser meu discípulo” (Lc. 14, 33). Entretanto existem estes mandados de Jesus nos evangelhos, a igreja católica dedica-se a apropriar-se do alheio, inscrevendo a seu nome dezenas de milhares de bens que não lhe pertencem e nos que não investiu um patacão.

As relações de Jesus com a sua família não estiveram isentas de conflitualidade. Algumas respostas referidas à sua mãe e irmãos parecem pouco delicadas, pois incluso parece que se atreve a negá-los. “Enquanto ele ainda falava às multidões, estavam do lado de fora sua mãe e seus irmãos, procurando falar-lhe. Disse-lhe alguém: Eis que estão ali fora tua mãe e teus irmãos, e procuram falar contigo. Ele, porém, respondeu ao que lhe falava: Quem é minha mãe? e quem são meus irmãos? E, estendendo a mão para os seus discípulos disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos. Pois qualquer que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, irmã e mãe” (Mt.. 12, 47-49; Mc. 3, 31-35; Lc. 8, 19-21). Strauss (Nueva vida de Jesus,c p. 231) considera que a razão pola que a mãe e os irmãos desejam falar com ele era porque a sua família punha em dúvida o seu equilíbrio mental e questionava os seus milagres: “Depois entrou numa casa. E afluiu outra vez a multidão, de tal modo que nem podiam comer. Quando os seus ouviram isso, saíram para o prender; porque diziam: Ele está fora de si. E os escribas que tinham descido de Jerusalém diziam: Ele está possesso de Belzebu; e: é pelo príncipe dos demônios que expulsa os demônios” (Mc.3, 20.22). Jesus corrige um elogio dirigido à sua mãe em vez de agradecer a gentileza da mulher que lho dedica. “Ora, enquanto ele dizia estas cousas, certa mulher dentre a multidão levantou a voz e lhe disse: Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os peitos em que te amamentaste. Mas ele respondeu: Antes bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus, e a observam” (Lc. 11, 27-28). Quando Jesus tinha doze anos sobe a Jerusalém com os seus pais para assistir à festa da Páscoa, ele ficou em Jerusalém e seus pais retornam sós crendo que o seu filho volveria com a caravana. Quando se dão conta de que não foi com os outros, dão volta e volvem a Jerusalém para encontrá-lo. Sua mãe repreende-o com ternura dizendo-lhe: “Filho, por que procedeste assim para conosco? Eis que teu pai e eu ansiosos te procurávamos. Respondeu-lhes ele: Por que me procuráveis? Não sabíeis que eu devia estar na casa de meu Pai?”(Lc. 2, 49), o qual não deixou de chocar-lhe aos pais. Nas bodas de Canaã, quando sua mãe lhe diz que não têm vinho, responde-lhe: “Mulher, que tenho eu contigo?Jo. 2, 4). Os seus irmãos pagavam-lhe com a falta de confiança nele e nos seus milagres. “Disseram-lhe, então, seus irmãos: Retira-te daqui e vai para a Judéia, para que também os teus discípulos vejam as obras que fazes. Porque ninguém faz coisa alguma em oculto, quando procura ser conhecido. Já que fazes estas coisas, manifesta-te ao mundo. Pois nem seus irmãos creiam nele” (Jo. 7, 3-5).

 

 

Ramom Varela Punhal

Ramom Varela Punhal

Nascido em Carvalho em 1942. Estudoi Teologia na Universidade Pontifícia de Salamanca, e Liturgia no Instituto Superior de Pastoral, em Madrid; Filosofia na Universidade de Pamplona e Filosofia, Psicologia e Organização do Trabalho na Universidade de Lovaina, Bélgica. Doutor em Filosofia pela Universidade de Santiago. Catedrático de Filosofia reformado.
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