‘Mortos por amor à Terra’ – Resenha (X. R. Ermida, Sermos Galiza, 2016)



X. R. Ermida Meilán: MORTOS POR AMOR À TERRA : A represión sobre o Nacionalismo galego (1936-1950).- Sermos Galiza, 2016)

X. R. Ermida Meilán: MORTOS POR AMOR À TERRA : A represión sobre o Nacionalismo galego (1936-1950).- Sermos Galiza, 2016)

Cousas da vida, as comuns num intelectual peripatético, excêntrico e marginal, fizeram que precisamente neste ano em que o Centenário das Irmandades preside como Sol ao mundo cultural, político e académico galego, eu me encontrasse no afélio da minha órbita académica, política, social e pessoal.

Impossibilidades particulares, temporais, económicas e de mera distância física e anímica foram-me afastando na última década dos materiais, das pessoas, bibliotecas e arquivos necessários para prosseguir os estudos que iniciara arredor de Ánxel Casal, Diaz Pardo e Carvalho Calero (em ordem cronológica inversa) e que me conduziram ao universo das Irmandades.

Porém, são muitas as pessoas que com o seu carinho e insistência me mantêm relacionado com estes temas; por carta, e-mail, pelas redes sociais, ou telefone vou sabendo de novidades, descobertas e opiniões.

Uma destas presenças constantes, carinhosas e apaixonadas é a do “irmão” Moncho Ermida, que entrou no meu correio e telefone da parte do grande amigo e mestre Luís Foz. Ambos da Marinha, compartilham um reta paixão galeguista de esquerda e uma lucidez pasmosa nuns momentos bastante confusos. Da sua mão vem de publicar-se Mortos Por amor á Terra (Sermos Galiza, 2016), provavelmente o volume que mais atraiu a minha atenção e o que, considero, achega os dados mais frescos dos publicados neste ano irmandinho.

Quando se pesquisa sobre qualquer um tema relativo ao mundo político, cultural, sindical, social de antes da barbárie de 1936, um dos obstáculos mais importantes que aparecem uma e outra vez é a ausência, mesmo nesta época de Wikis e páginas documentais, de biografias breves que nos permitam, situar e completar em forma de notas de rodapé, as explicações necessárias não apenas ao texto quanto para facilitar a compreensão sem entrar em divagações, ao possível futuro leitor.

Neste sentido, Mortos por Amor à Terra é uma obra fundamental, destinada a converter-se em material de consulta em todas as pesquisas políticas, literárias culturais e sociais que se venham a escrever sobre a Galiza do pré-guerra.

A obra é um conjunto de fichas breves, bem elaboradas e precisas, funcionais na sua concentração, mas brilhantes na sua redação e não isentas de um dramatismo épico, que procura sempre impactar o leitor.

Uma por uma constituem a obra de referência, em conjunto (e sem necessidade de conclusões explícitas) colocam o estudioso e o leitor ante umas quantas confirmações e ante não poucas perplexidades.

Passam pelas páginas os nomes de família, mas também o das cooperativas, agrícolas, educativas, dos operários especializados, dos mestres de ofícios, dos cabeçalhos de jornais, dos líderes, das forças vivas da esquerda.

A nómina dá conta da repressão, mas também caracteriza a repressão, afastando-a da simples interpretação revanchista e causal da contenda, para a converter numa sistematizada destruição das engrenagens de uma nação: os mundos da cultura, da representação, do tecido institucional, da voz da sociedade civil.

Na leitura das suas páginas vai-se confirmação a eliminação sistemática de elementos comuns ativos dentro dos parâmetros esquerda, associativismo, sindicalismo, republicanismo e galeguismo.

Fica, também, com esta relação sanguenta confirmada a hipótese de que existiu uma “esquerda galeguista”. E que essa esquerda era ativa e o motor (e também a explicação da implantação e peso social) de um Partido Galeguista aparecido apenas depois de junho de 1931.

Vendo as biografias, mesmo poderia se dizer que as Irmandades da Fala foram a correia de transmissão entre o Agrarismo e a Solidariedade e as bases que constituíram não apenas uma plataforma política e um primeiro sindicalismo de cunho nacional, quanto também que forneceram líderes e quadros a todo o espaço conformante do Republicanismo na Galiza.

Com origem na maçonaria, na emigração, nas cooperativas agrárias, na mocidade combativa das cidades e nas vilas excluída pela Restauração canovista, o movimento nacional que abrolha em 1916 e que se estende em acelerado processo de 1929 a 1936, foi uma escola de formação de quadros políticos, culturais e sindicais. E as figuras (muitas esquecidas) que cá se apontam foram os protagonistas não apenas da política representativa, mas também dos primeiros assaltos às instituições da vida civil, as figuras e projetos que questionaram a cultura caciquil da Restauração (nacionalista espanhola e folclórica) e que tiveram a vontade de ocupar os espaços formativos e comunicativos que se construíram durante décadas num longo processo paralelo de construção da sociedade.

Porém, há mais, os mortos e a repressão, abrem uma pergunta. Toda eliminação dos espaços institucionais de uma sociedade em transformação implica a substituição de agentes e instituições. Á lista de mortos haveria que incluir a nómina da purga, eliminação dos entornos e dos projetos dessa sociedade emergente: projetos editoriais, educativos, sociais, económicos, industriais, comunicativos, representativos, sindicais… e haveria daquela que se enfrentar com a questão de por quem, como e durante quanto tempo foram substituídos.

Esta questão afeta muito diretamente o galeguismo do interior e especialmente a narrativa elaborada, especialmente desde o Grupo Galáxia, atingindo não apenas a História política do galeguismo, quanto o cânone de figuras e mesmo o sentido da Literatura, das gerações e sentido dos projetos sociais e culturais.

Todas as grandes obras começam com um tijolinho ou uma pedra humilde, tijolo a tijolo ou pedra a pedra, com paciência de ourives e artesania de canteiro, Moncho Ermida levanta um monumento contra a barbárie, reivindicando e confirmando de uma vez e para sempre, em cada uma das fichas, e como conjunto a existência de uma esquerda nacional galega como um dos elementos e motores da Galiza de pré-guerra.

Não é doado reunir todos estes dados biográficos, nascimento, morte (confirmar que foram violentas), de profissão, trajetória e em conjunto todos e cada um dos necessários para rascunhar uma biografia. É preciso procurar em arquivos, expedientes, registros, publicações, rastejar fontes diversas e reunir testemunhas. Toda esta minaria de dados fica consignada na parte referencial de fontes consultadas e numa seleta bibliografia.

Porém e com tudo, não estamos ante um tomo de referência, destinado a um uso como dicionário; senão mais ante uma obra de reivindicação e divulgação. A brevidade das fichas, tem a virtude de nos permitir uma leitura amena e continuada, começando por um brilhante “Limiar” de Francisco Rodríguez que situa com precisão a obra e continuando pelas chave-guia do autor no “Introito” e completado com os índices, “Censo mínimo de nacionalistas vítimas” e bibliografia.

Quando um termina de ler Mortos por amor à terra, sem quase se decatar, fica consciente da dureza genocida da repressão, do impacto social que teve de causar, da radical mudança que provocou no futuro da sociedade galega (e cujos efeitos são perceptíveis no presente). A sucessão das biografias, em ordem alfabética, sem conclusões, concede grande objetividade à obra; mas também o feito de irem acompanhadas com ilustrações a recarrega de grande valor memorialístico e de proximidade. Conforma assim, na nossa mente, um monumento à memória.

A capa do livro joga brilhantemente, nesta aposta, com o famoso óleo de Castelao, “A derradeira lição do mestre”: prepara-nos para o texto que ilustra mas também nos indica a função de todos e cada um dos depoimentos biográficos: são lições, as derradeiras, de uma parte fundamental e subtraída (até) da nossa memória e consciência coletiva.

Como bem destaca o autor “a batalha pela memória é a batalha pelo nacionalismo”: ver abrolhar este tipo de trabalhos só faz confirmar o pé daquela outra ilustração do grande rianjeiro: enterraram semente…

Mortos por amor á terra.

Ernesto V. Souza

Ernesto V. Souza (Corunha, 1970). Formado como filólogo, especializou-se e publicou algum trabalho sobre história, contexto político e cultural do livro galego das primeiras décadas do século XX. Em 2005 começou a colaborar com o PGL e a vincular-se ao reintegracionismo. Colabora também no Novas da Galiza, é sócio da Associaçom Galega da Língua e membro da Academia Galega da Língua Portuguesa. Trabalha, como bibliotecário na Universidade de Valhadolid (Espanha).

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  • abanhos

    que bom Ernesto, achegas-nos uma obra e tu a pões no seu contexto,
    Muito obrigado e para mim é um mandato de leitura

  • Manuel Meixide Fernandes

    Obrigado Ernesto. Que boa resenha. Adorei. Agora é ir à livraria pedir o livro.

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