AS AULAS NO CINEMADocumentários vários

MONTAIGNE, UM HUMANISTA CONTRA A EDUCAÇÃO LIVRESCA



Seguindo com a série dedicada aos grandes vultos da humanidade, que os escolares devem conhecer, que iniciei com Sócrates, desta vez escolhi um grande pedagogo humanista galo conhecido como Montaigne. A sua acertada frase «É melhor uma cabeça bem feita do que uma cabeça bem cheia» ficou gravada para a posteridade, sendo citada pelos grandes pedagogos posteriores a ele. Personagem do qual é muito curioso que a sua mãe fosse portuguesa, e ademais de religião judaica, de família hebraica de Portugal. Com este educador completo o nº 30 da série citada. Para a pequena biografia que resenho a seguir tomo como base a elaborada no seu dia pela brasileira Dilva Frazão.

montaigne-retrato-0Michel de Montaigne (1533-1592) foi um escritor, jurista, pedagogo, político e filósofo francês, o inventor do gênero ensaio. Foi considerado um dos maiores humanistas franceses. Nasceu no castelo de Montaigne, Saint-Michel-de-Montaigne, na região de Bordeaux, França, no dia 28 de fevereiro de 1533. Filho de família rica e nobre foi criado pela ama de leite numa casa de camponeses e dois anos depois retornou para a família. Estudou com um preceptor alemão que lhe deu aulas de latim, sua primeira língua. Ingressou no colégio de Guyene, em Bordeaux. Em 1549, foi para Toulouse onde estudou Direito.

Em 1554, depois de formado, tornou-se conselheiro da Corte de Périgueux, substituindo seu pai, e quando esta se dissolveu, passou a fazer parte do Parlamento de Bordeaux. Logo se iniciaram as violentas guerras civis que acompanharam sua vida, assim como os surtos de peste que varriam a Europa. Em um deles, testemunhou a morte de seu grande amigo o humanista e filósofo La Boétie, em 1563.

Em 1565 se casou com Françoise de La Chassagne. Em 1568 morreu seu pai, tornando-se herdeiro de uma propriedade e do título de Senhor de Montaigne, que lhe garantiu uma sobrevivência tranquila. Em 1570 vendeu seu cargo e em 1571 se retirou para sua propriedade para escrever suas reflexões num dos séculos mais conturbados da França, sob o cisma político e religioso de protestantes e católicos. Seu retiro durou pouco, pois no ano seguinte, teve que assumir novos compromissos sociais e políticos em consequência das guerras de religião que assolava o país. Correspondeu-se com o protestante Henrique de Navarra, que acabaria por se tornar um rei católico, em 1572. Viajou pela Suíça, Alemanha e Itália. Ao voltar, foi eleito prefeito de Bordeaux. Em missão secreta a Paris, a favor da paz, acabou preso por um dia na Bastilha.

Em março de 1580, Michel de Montaigne publicou a primeira edição de Ensaios. Uma segunda edição foi publicada em 1582, e a terceira surgiu em 1588. No seu tempo, a obra foi um best-seller, seus textos eram absorvidos como espelhos edificantes da cultura clássica. Seu livro tornou-se uma das mais importantes e influentes obras do Renascimento. A obra estabeleceu o ensaio como um novo gênero literário, onde o escritor faz reflexões pessoais e subjetivas sobre diversos temas, entre eles, a religião, a educação, amizade, amor, liberdade, guerra, etc. A obra não criou nenhum sistema filosófico, foi uma tentativa de aprender sobre si mesmo e os próprios sentimentos, como ele afirmou: “Eu sou eu mesmo o tema do meu livro”. A proposta do escritor era mais questionadora e crítica do que estabelecer teses científicas.

Conceitualmente, os Ensaios refletem os valores clássicos das correntes céticas, estoicas e epicuristas da filosofia helenística, de um momento histórico em que os deuses pagãos perdiam sua força na sofisticada cultura da civilização romana, e o cristianismo ainda não havia imposto ao mundo sua enorme influência. Naquele período de três ou quatro séculos, o homem se via com uma desconfiada liberdade. A obra de Montaigne redescobre esse indivíduo esquecido, recoloca-o no centro do mundo, depois de um longo silêncio. Michel de Montaigne faleceu no Castelo de Montaigne, França, no dia 13 de setembro de 1592.

PEQUENA FILMOGRAFIA: Documentários:

1. Montaigne (Aula 15: Filosofia).

Aula ministrada pelo professor Gui de Franco. Duração: 12 min.

Imagem: Théodore de Bry / Wikimedia Commons.

2. Montaigne (Filosofia).

Trechos extraídos do documentário “Filosofia, um guia para a felicidade”, escrito e apresentado por Alain de Botton. Duração: 14 min.

3. Montaigne e a autoestima. Duração: 25 min.

Realizadora vídeo: Marta Caregnato. Fotografia a cores.

E também em: http://philos.tv/video/a-autoestima-por-montaigne/40979/

4. Um conto de Michel de Montaigne. Curta-metragem.

Diretor: Jean-Marie Straub (2013, 34 min. A cores). Intérprete: Barbara Ulrich.

Argumento: Um filme sobre o indivíduo e a morte, invariavelmente um filme sobre a solidão. Um elogio à autorreferência e à mediação de si próprio.

5. Michel de Montaigne.

Diretora: Jacqueline Margueritte (França, 1995, 13 min., a cores).

Série: Escritores Testemunhas de Seu Tempo (12 Episódios de 13 Minutos).

http://www.canalcurta.tv.br/pt/filme/?name=michel_de_montaigne

MONTAIGNE, UM GRANDE PENSADOR:

Por considerá-lo muito acertado, resenho a seguir o depoimento elaborado no seu momento pelo brasileiro Arildo Luiz Marconatto:

«Em Montaigne o “conhece a ti mesmo” não pode nos dar uma resposta sobre a essência do homem. Quando alguém conhece a si mesmo está conhecendo a singularidade e não a totalidade do homem. Conhecer a nós mesmos não é a garantia de conhecer os outros. Para melhor nos conhecermos podemos refletir sobre a experiência dos outros e nos vermos refletidos nelas, mas isso não significa que conhecemos os outros, pois todos somos claramente diferentes. Como cada ser humano apresenta múltiplos aspectos e cada um tem suas características próprias, não é possível estabelecer regras para todos os homens. Não podemos indicar algo que seja comum a todos, cada indivíduo tem que elaborar seu próprio conhecimento, sua sabedoria particular, que vai ser a sua medida para conhecer a si mesmo. Conhecendo a si mesmo o homem também regressa a si, o que é um dos princípios do renascimento.

Montaigne se preocupa também com a condição existencial do ser humano.  A existência é um problema, uma pergunta que nunca poderá ser respondida. A nossa existência é uma experiência constante e constantemente também deve explicar a si própria. Cada pessoa traz em si a condição existencial de toda humanidade. Ele busca descrever o homem descrevendo a si mesmo. Ele e o homem são um milagre em si mesmo. Em seus escritos ele diz utilizar a própria vida como filosofia. A sua filosofia é um relato autobiográfico, pois para ele cada indivíduo tem em si a capacidade máxima da situação humana. O homem deve buscar ser somente o que ele é, ou seja, um homem, e nada mais que isso. Não podemos fazer nada melhor do que sermos humanos. De nada adianta criarmos fantasias de que seremos algo mais elevado do que humanos que somos. Aspirarmos ser algo além de homens é inútil e pode nos causar danos morais.

Ele afirma ainda que a morte faz parte da nossa condição de humanos. Nós somos uma mescla de vida e morte e ambas confundem-se em nós. Aprender a viver é aprender a morrer. Quando assumimos nossa condição mortal tendemos a estimar mais a vida que temos. A morte nos faz desejar viver mais e melhor».

AS SUAS IDEIAS PEDAGÓGICAS:

Montaigne foi um revolucionário no tema da educação. Para ele, o ensino deveria estar atrelado com o empirismo, ou seja, através de experiências práticas. Nesse sentido, criticou o esquema de memorização e o uso dos livros (baseado na cultura livresca do Renascimento), que segundo ele, afastaria os alunos do conhecimento. Segundo Montaige, na cultura livresca os estudantes não aprenderiam de forma rápida e ainda, não teriam prática para solucionar diversos assuntos de suma importância, os quais estavam ligados com o desenvolvimento humano e a moral, como por exemplo, articular conhecimentos.

Em resumo, para Montaigne a educação deveria criar seres humanos voltados para a investigação e conclusões, ao mesmo tempo que exercitasse a mente resultando num posicionamento crítico do indivíduo. Nas palavras do filósofo: «Cuidamos apenas de encher a memória, e deixamos vazios o entendimento e a consciência».

Em sua obra Ensaios, escreveu alguns artigos dedicados ao assunto de educação, dos quais se destacam: Do Pedantismo e Da Educação das Crianças. Escritos no século XVI, ainda nos inspiram, quer por sua forma, quer por seu conteúdo, as ideias de Montaigne sobre a educação. No capítulo XXVI do Livro I, o ensaio “Da educação das crianças”, contudo, considerando a obra como um todo, Montaigne preocupa-se com a formação humana, e além de entregar-se ao conhecimento e formação de si, perceptível em toda sua obra, escreve um ensaio especial sobre como formar um ser humano, um jovem que chega ao mundo. Como se dá esta formação é muito bem analisado pelo pedagogo humanista, na crença de Montaigne quanto ao potencial formativo de uma educação bem conduzida e na possibilidade de bem formar um ser humano para que este possa tornar-se mais sábio e melhor. O autor atribui à experiência, inclusive a filosófica, para a formação intelectual, moral e corporal, e o lugar essencial que a Natureza ocupa na educação, como mestre formador e orientador principal.

AS SUAS FRASES E SENTENÇAS:

Para melhor refletir e aprofundar nas ideias de Montaigne, nada melhor que ler as suas próprias palavras, das que apresento uma antologia das suas famosas sentenças e frases:

– É melhor uma cabeça bem feita do que uma cabeça bem cheia.

– Do medo é que eu tenho mais medo.

– Quem ensinar os homens morrer vai também ensinar a viver.

– O verdadeiro espelho dos nossos discursos é nossa vida.

– A mais sutil loucura é feita da mais sutil sabedoria.

– Cada homem tem em si a condição inteira da humanidade.

– As mais belas almas são as que têm mais variedade e flexibilidade.

– Quem tem medo do sofrimento já está sofrendo.

– A palavra é metade quem fala e metade quem ouve.

– A covardia é a mãe da crueldade.

– O lucro de um é o prejuízo de outro.

– Não estamos nunca junto de nós, mas sempre para além de nós mesmos.

– Não morremos porque estamos doentes, morremos porque estamos vivos.

– O casamento é uma gaiola em que os pássaros que estão fora querem entrar e os que estão dentro querem sair.

– O melhor casamento seria entre uma mulher cega e um marido surdo.

– Quem não tem boa memória não deve mentir.

– Mesmo no mais alto trono continuaremos sentados sobre nosso traseiro.

– A melhor coisa do mundo é saber ser você mesmo.

– O homem não tem nenhum outro animal a temer no mundo tanto quanto ao homem.

– Fica estabelecida a possibilidade de sonhar coisas impossíveis e de caminhar livremente em direção aos sonhos.

– Apenas pelas palavras o ser humano alcança a compreensão mútua. Por isso, aquele que quebra sua palavra atraiçoa toda a sociedade humana.

– A mais honrosa das ocupações é servir o público e ser útil ao maior número de pessoas.

– A sabedoria é uma construção sólida e única, na qual cada parte tem seu lugar e deixa sua marca.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:

Vemos os pequenos documentários citados antes e depois desenvolvemos um Cinema-fórum, para analisar os seus conteúdos e as propostas de Montaigne para a educação e para a vida.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Montaigne, o seu pensamento, as suas ideias educativas, a sua vida e a sua obra. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.

Podemos levar a cabo um Livro-fórum lendo entre todos, estudantes e docentes, o livro de Montaigne Ensaios, publicado por Martins Fontes de São Paulo em 2000-2001, ou o capítulo do mesmo «A educação das crianças», editado pela mesma editora, como um monográfico. Podia valer também a leitura de alguma das monografias a ele dedicadas, como a de Peter Burke intitulada Montaigne (São Paulo: Edições Loyola, 2006, trad. Jaimir Conte). Seria interessante tirar entre todos conclusões para o ensino e a educação atual.

 

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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