CARTAS MEXICAS

Meu Amigo Pedro



Somos como rios, tal qual afirmava Leão Tolstoi: como rios crescemos, como rios afluímos ao imenso mar, desde aquela nascente primordial ate o inevitável final ocenánico (no nosso caso um oceano além do nosso atual conhecimento). Como rios revigoramos a cada passo nosso fluir desde esse início virginal ate a eterna caminhada, dentro dos ciclos naturais, que sempre se entrelaçam. Medrando, tomando confiança (se o condicionantes nos permitir em nós acreditar), para finalmente majestosamente tentar conquistar, pela ousadia dos corações bravos da ilusão , pela ignorância dos impulsos jovens, o mundo que a nossa volta se torna imperturbável.

As vezes escolhemos mal a senda e ficamos varados no meio dum lamaçal, entre terras ermas e areias movediças: perdendo o sentido da nossa própria visão, o olfatado da própria natureza, e mesmo a capacidade de orientação… Ou todavia pior: perdemos a rota de retorno a casa materna. A senda que nos devolve ao coração entranhável do local dos pais; a carícia suave da nossa alma ingénua e ao recendo ainda fresco do berço onde, por um instante, para nossa família fomos eternos.

Em essas ocasiões, normalmente, esse oceano fica já demasiado longe da nossa perdida coragem, da nossa fatigada voz, da magia do nosso primeiro verbo repleto de esperança… Fica longe a anima que anima nossa interior chama (Agni) e, dentro de nós somente encontramos um imenso oco valeiro: aquele astral, multidimensional buraco negro. Quedos, então nos deixamos levianamente decair (quase sem meditá-lo) no meio dalgum escuro pantanal, perto dalguma triste lagoa, ou em um pequeno regato litoral, onde um mar já contaminado pela avareza dos néscios homens, cresce dentro de nosso peito. Sendo que esse alheio mar, já nem sequer, serve para desembocar a ángustia dos nossos olhos cheios de lágrimas sem derramar, o peso da nossa existência.

Ficamos parados já para sempre naquele húmido local e, mesmo sem saber, fomos precisamente nós, os procuradores reais daquela vitimada viagem, que agora da alegria, por um tempo, nos afasta.

Muitos nunca desta tristura se voltam erguer, para caminhar com valor o mais dignamente; outros continuamente, a pesar dos esforços, das dores, da crueldade dominante na vida real, jamais deixam de levantar-se, como magica ou milagrosamente. Em ocasiões mesmo com titânicos esforços; em silencio, sempre em silencio. Sigilosamente, cheios duma energia retirada com fervor do fundo do seu já escasso e vital néctar. São estes últimos guerreiros solitários que passam inadvertidos ao grosso das multidões, não sendo jamais reconhecidos mas que pelo seu próprio espírito (e acreditem aquela é a maior honra que um homem pode receber, por que vem do mais alto do céu. Sem dúvida). Dignos, honoráveis e grandes, cavaleiros de fingida dura armação, que no mais profundo anonimato enfrentam (dentro de seu relativo saber, com suas velhas e enferrujadas armas) o temível combate com seus medos e angustias, sem retirar seus olhos dos seus oponentes. Pois bem devem vocês saber que meus amigos são destes últimos. Eu não somente por isto os apreço, mas também.

Nos criamos num duro bairro, navegando entre augas poluídas, dum pequeno rio que tentava morrer no leito dos sonhos. Daquele luar perdedor, se infetou algo da nossa alma. No entanto o sol da resiliência brilha sempre no nosso coração, que sabe como ninguém pronunciar a palavra: bem-vindo, com os braços abertos.

Meus amigos são humanos seres, com grandes lacunas e imensas contradições, com dor e ressentimento, a vez que com uma grande capacidade para esquecer tuas faltas, teus erros, teus maus momentos. Nunca por elo te comprometem.

Meus amigos são assim, por cima de julgamentos; têm ate a capacidade de retirar, se tu algum dia o precisar, um sorriso da fria morte.

São simples como a vida, meus amigos. E lembro-me agora de como em esse generoso fluir, achei na minha aventura vital sempre a mão tendida do Pedro: as mãos simplesmente abertas.

Meu primeiro amigo no país, meu primeiro companheiro. Meu pequeno percurso pela infância não poderia ser completo sem ele; sem ele não houvesse conhecido o amor fraterno: seu valor e sua lealdade (sinto-me honrado de ter compartilhado contigo esta curta e longa viagem).

Lamento não ter-te compreendido melhor. Mas quem pode agora mudar um simples, fugaz lamento? Fico em esta noite toda nossa união a revisar e continuamente aparece teu rosto, brilhando como arco da velha imenso, no meu aterido peito, acalmando-me. Pedro, amigo, sem ti talvez nunca houvesse minha infância ganhado sua primeira inicial compreensão, e, nesta hora gosto de pensar que de algum modo, um foi para outro como o espelho onde podermos contrastar nossas primeiras, profundas, límpidas experiências.

Sim! certamente o Pedro e mais eu, fomos auga do mesmo nascente. Chegado o seu momento, na encruzilhada que sempre a vida nos impõe, cada qual teve de eleger seu roteiro (Sempre lembro ao mestre murmurar, por trás, nas nossas costas: elege o caminho do coração, aquele elege com o coração jamais se equivoca!) E no momento de chegar a tomar a decisão, aquela que nos apremia qual senda deve um, em sua mente acolher? Por qual enveredar a nossa existência? O Pedro, acho elegeu aquela por onde menos transita a gente. E tal vez eu também fez o mesmo, mas sinceramente disso não tenho certeza. Do que sim estou certo é que o Pedro elegeu com o coração, e com coração rumando contra corrente viveu o resto das suas primaveras.

Hoje nosso amigo finou, sabemos que assim foi pela dor que se agocha por dentro… Pedro, o combate rematou. Valeu ou não a pena? Volto a estar certo de que o sim, e esse “Sim” ser uma evidência. Sim! Ele viveu como escolheu, essa vitória ninguém pode roubar-lha.

Quem tenha a compreensão para de seus erros acertada correção obter, seja o suficiente humilde para não julgar aqueles que caminharam a sua beira, por outra distinta senda.

Sempre lembrarei Pedro tua decidida valentia. Sempre foste o primeiro a cruzar pela ponte mais estreita. Tinhas ate uma certa atração pelos retos mais intensos, e, não duvidas-te em descobrir aquelas, que para ti, foram as mais incríveis primeiras experiências. Ainda te lembro, e eu não podia acreditar, gozando de alegria por teu inicial beijo com elixir que conduz a inevitável noite: aquela continuamente se fecha: sempre se fecha. Noite imensa de dor em silêncio.

Fui o primeiro a esse secreto contigo partilhar. E somente agora agradeço a confiança e, entendo a importância que tinha para ti, aquela confidencia (entendo hoje também tua alegria quase infantil).

Em esse dia nossos caminhos começaram a se separar. Confesso eu tive medo daquela, para ti, emocionante viagem incerta à face oculta da lua.

Escolhi outro caminho, amigo talvez com algo menos de valor, influenciado pelo temor de cair nas garras das minhas próprias incertezas. Mas quem pode assegurar qual caminho é o adequado verdadeiramente?

Cada quem teu sua caminhada na vida a fazer, ninguém é superior a outro nessa vertente. Nenhuma vida a outra é melhor, nenhuma experiência mais valiosa.

Cada pessoa deve escolher qual devem ser suas provações, seus retos. Cada qual sua rota, desenhando no transcurso seu inicio, seu final: no dia em que já não faz mais sentido lutar energicamente contra corrente.

Ontem nos deixaste, decidiste descansar. Eu acho que esse descanso bem o mereces. Saúde camarada, amigo da infância ainda por conquistar: tu sabias também, muito melhor do que eu, que a morte somente é um outro, degrau, no caminho de regresso. Na aurora dum novo solpor aguardo ainda te espera, também com os braços abertos, o amor dum novo começo. Tenhas em ele o prémio que mereces.

 

Artur Alonso Novelhe

Artur Alonso Novelhe

Galego, mas nascido no México, é diplomado pela Escola Pericial de Comércio de Ourense. Exerce como funcionário do Serviço Galego de Saúde do Governo da Galiza. Publicou várias obras de poesia e colabora habitualmente com diferentes publicações, entre as quais o PGL. É sócio da Associaçom Galega da Língua (AGAL) desde os meados dos anos 80 e académico da AGLP.
Artur Alonso Novelhe

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