Maria Maneiro: “Ter uma determinada língua materna não faz especial a ninguém”



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Valentim Fagim entrevista Maria Maneiro,  muradã e neofalante. Navegou para o galego por ter sido acusada de galegofobia e Made in Galiza de Séchu Sende ajudou na passagem.

Estuda o grau de Filologia Galega e o seu foco é a literatura.

A sua história particular com o NH começou com a desconfiança e o ódio contra o reintegracionismo. Aspira a um futuro binormativo.

 

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Maria é de Muros. No imaginário popular trata-se de uma vila galego-falante mas a tua língua materna é o castelhano. É uma marca da tua geração ou um caso particular?

A resposta é variável já que nela influem distintas dinâmicas. No imaginário popular é certo que ainda existe a visão dos núcleos marinheiros e agrários como conservadores da galeguidade frente a umas cidades arredadas desta realidade. Mas a situação não é exata em nenhum dos casos. Por isso mesmo, tampouco me atrevo a definir a minha condição de neofalante como uma marca da minha geração. No ambiente mais imediato em que me criei eu sim que afirmaria que é uma marca da minha geração motivada pela convicção de mães, pais, e avós de o nosso futuro ficar fora do território muradão e galego.

Cresci a escutar as “potencialidades” do castelhano frente ao galego, “argumento” que também servia para anelar um espaço reduzido desta língua no ensino obrigatório. Isto não significava que o galego estivesse totalmente desaparecido da nossa realidade infantil e adolescente. A sua presença era, e é, distinta de falarmos do centro da vila (de onde sou) ou das demais freguesias do concelho. Acho que estes lugares conservavam na altura melhor o galego do que sucedia em Muros. O facto de compartilhar espaços educativos com as crianças desses lugares contribuía a que o galego não fosse totalmente alheio àquelas criadas em castelhano, ainda que não o falássemos. A escola primária tampouco era um espaço que contribuía a aprender bem o galego, e assim chegávamos até o ensino secundário, onde gente do meu perfil tinha dificuldades para expressar-se em galego, dificuldades que não presentavam as minhas companheiras galegofalantes.

Ora, com 17 anos, Maria decide tornar-se galego-falante a tempo completo. Que te impulsou para essa mudança? Foi um processo com apoios externos ou um percurso solitário?

A decisão de tornar-me galegofalante aconteceu como acontecem outras tantas cousas nesta vida: de casualidade. Teve bastante a ver o facto de começar a mover-me noutros ambientes onde o galego era língua normal de comunicação e acabar por me fazer amiga duma galegofalante. Esta amiga, durante um conflito, assinalou que eu tinha tanta galegofobia assumida que mesmo esta aparecia no trato diário com ela. Acredito na ideia de que o ser humano não sabe assumir bem as críticas que pode receber durante a sua vida, e menos quando estas implicam saber que estás a colaborar na estigmatização dum coletivo social.

A minha reação no momento foi negar totalmente a minha galegofobia, embora não empregasse nunca o galego. Afortunadamente, este comentário permaneceu na minha mente durante um tempo, fazendo ferida, e queria demonstrar que nem presentava galegofobia nem odiava o galego. Assim, decidi aprender galego, para o que me servi fundamentalmente duma literatura contemporânea da qual não sabia nada. De jeito paralelo, consultava bastantes publicações sociolinguísticas, e foi a própria consciência adquirida nesse tempo a que logrou que não quisesse falar mais castelhano. Está claro que foi um processo solitário relativamente singelo pelo facto de viver numa vila onde o galego tem certa presença e pelo já mencionado grupo de amizades com que me relacionava. Ou assim o lembro eu. Os escassos comentários onde se me questionava o facto de querer falar galego não me fizeram desistir.

No caso de ter que destacar alguma ajuda externa, mencionaria a outorgada subtilmente pela minha professora de língua galega e literatura naquela altura, uma mulher com bastante intuição que era consciente de que queria falar galego. Ela tentava criar uns espaços agradáveis para isso, ademais de fazer como leitura obrigatória o Made in Galiza de Sechú Sende, o que sem dúvida ajudou a compreender muito mais o processo que estava atravessando da mão de outro neofalante.

E não só, estás prestes a concluir o grau de filologia galega na USC. Antes de começar, que esperavas dessa formação? Agora que o estás a finalizar, em que medida as tuas expetativas foram satisfeitas?

A verdade é que antes de começar não tinha uma ideia concreta de que esperar da titulação. A minha mente estava ocupada em fazer entender a minha família o meu desejo de estudar filologia galega e na necessidade de que superassem preconceitos. Como muito poderia anelar a obtenção dos conhecimentos suficientes e que estes servissem para um potencial futuro laboral. Na realidade, considero que nenhum destes dous objetivos foram alcançados na sua totalidade já que os estudos em filologia atualmente apresentam dous problemas diferentes: um externo, e estrutural por ser comum a todos os graus, e outro interno.

O problema externo guarda relação com um comportamento imobilista por parte da própria USC, onde a falta de inovação em matéria académica e as dificuldades de distinto tipo impostas aos alunos e alunas são uma constante. Aliás, eu comecei a estudar na universidade numa época onde esta estava submetida a muitos cortes e onde Bolonha já era uma realidade. Os estudos em filologia perderam um ano académico que se torna necessário em disciplinas tão extensas, ademais de registar-se um deficit de professorado e uma ausência de valorização dos estudos em humanidades. É dizer, a falta de recursos académicos e humanos era, e continua a ser, bastante grande. Neste contexto, a vida académica revela-se mais agradável pelo corpo docente, que no caso concreto de filologia há excelentes pessoas e profissionais que são conscientes das dificuldades deste sistema e tentam compensá-las.

O problema interno também está vinculado com o problema externo, mas em geral observo um desvio da atenção para o número de gente matriculada por parte do professorado de filologia galega, quase ignorando a qualidade do grau. Existe falta de autocrítica e uma falta de reciclar-se e de adaptar-se às novas realidades do mundo e do próprio galego. Ainda que o grau está submetido a um plano de viabilidade (isto é, devem aplicar-se melhoras nele para aumentar o número de alunos matriculados e graduados), em todos estes anos não observei uma vontade real do corpo docente de revisar o plano de estudos admitindo que saímos com uma carência bastante grande em aspetos como o literário, exceto em pequenas vozes. Mesmamente, nem sequer considero que seja de qualidade a excessiva orientação linguística que apresenta o grau por uma má planificação das matérias. Destes problemas já são conscientes e imagino que é difícil cortar com as mentalidades conservadoras. Para mais onde existe certa visão de ver o aluno como “menor de idade”, com “pouca consciência crítica”, e onde me atreveria a dizer que a nossa voz acaba sendo ignorada por muito que digam o contrário. Paradoxalmente, esta experiência tampouco causa em mim um arrependimento por matricular-me em filologia galega. Estou contente de estudar este grau. Sei que existe outra realidade sobre o grau e o idioma fora da faculdade, sendo esta da que me interessa aprender para num futuro cada vez mais próximo lembrar e aplicar.

A literatura foi a tua especialização. Como valorizarias, no seu conjunto, a literatura produzida na Galiza?

Poderia responder a esta pergunta com a consideração pessoal que a literatura contemporânea produzida na Galiza apresenta uma falta evidente de qualidade e de exercício crítico. Ainda que é uma resposta bastante acertada para a situação da literatura galega, vou matizar.

A leve institucionalização que apresenta a nossa literatura faz que certas editoriais abandonassem o trabalho de resistência que apresentavam no passado para constituir-se como negócios. A ideia dum negócio editorial não é negativa em si mesma, mas na literatura galega quase desapareceu toda iniciativa de oferecer obras de qualidade, fomentando-se assim um tipo de literatura popular escassamente inovadora e facilmente aceite pelo público. Este modelo editorial e artístico é o que na atualidade ocupa a centralidade do campo literário, o que leva todos os prémios, o que é favorecido pelas instituições, etc. As editoras e escritores que não respondam permanecem relegados nas margens, nas quais ocupam novos espaços de resistência com as suas tentativas de criar outro panorama artístico. No espaço canonizado e no marginalizado existem bons e medíocres escritores por igual, mas realmente é impossível abordar o estudo e classificação do panorama editorial de jeito exaustivo perante a ausência de crítica e investigação literária suficiente. A pouca crítica que existe atua de maneira complacente com as editoras que seguem o modelo maioritário ao mesmo tempo que ignora aquela criação que poderia abrir um novo panorama na literatura galega.

Além do anterior, pecando nisto tanto o setor institucionalizado como o marginalizado, também observo um cemitério de elefantes. Este cemitério não deixa de ser uma constante social, onde a voz das pessoas novas é sistematicamente ignorada, mas no caso da literatura galega observa-se com muita claridade as distintas estruturas que favorecem uma determinada literatura, umas determinadas carreiras literárias e umas inexistentes possibilidades de acesso. Todo um clube de amizades.

Este breve cenário das três discriminações, ortográfica, temática e vital, faz-me entender que a opinião sobre a literatura produzida na Galiza é individual e limitada. Nem existe um intento de estudo com amparo científico nem parece que a situação vaia mudar proximamente. No fundo, é até realista indicar que a literatura galega contemporânea adquiriu os vícios doutras literaturas do seu espaço geográfico, como a espanhola, mas com as suas próprias implicações e consequências.

Falemos agora da tua outra revolução em termos linguísticos. Como foi o processo do Ñ para o NH? Há quem diga que no caso dos neofalantes é um processo mais imediato a respeito dos paleofalantes.

Num nível inicial vejo mais provável que dependa mais da pessoa e da sua capacidade crítica que do tipo de falante de galego que seja. Existem atitudes e comportamentos reacionários dirigidos a este movimento por parte de neofalantes e paleofalantes por igual, mas as similitudes acabam aí. Acredito em que, nos primeiros estágios de conhecimento sobre este movimento, a pessoa neofalante poda simpatizar mais com o reintegracionismo pela própria negação que padece este. Simpatiza mais porque a neofalante também está submetida a um questionamento constante por parte do isolacionismo. O galego isolacionista está associado com umas ideias inoperantes e quase arcaicas sobre o ideal de língua, as estratégias para normalizar o galego, as maneiras de fazer luta social, etc., e a exposição às mesmas é elevada por parte das pessoas paleofalantes, especialmente se apoiarem a tese da separação idiomática. A neofalante cresceu sob uma língua prestigiada, com outras ideias linguísticas, pelo que rejeita totalmente a trajetória sociolinguística purista que subtilmente se demanda do isolacionismo para participar e ocupar espaços na luta do idioma. Existe a crença de que por ser neofalante não podes opinar sobre o galego porque não o amaste desde criança, ainda que leves uns anos ou toda uma vida trabalhando incansavelmente em favor dele. Ter uma determinada língua materna não faz especial a ninguém. O importante é ter coerência, vontade de trabalhar e de saber estar à altura da situação.

A minha história particular com o NH começou com a desconfiança e o ódio contra este movimento. Ainda que sabia dele pela decisão ortográfica de Séchu Sende, não estava informada, e quando cheguei à faculdade a introdução do reintegracionismo não foi agradável. O contacto negativo com alunas de promoções superiores de filologia galega que se caracterizavam pela sua postura reintegracionista e a inoperativa explicação nas matérias de língua portuguesa fizeram que olhasse com receio o movimento. Não foi até que decidi matricular-me na matéria de “Sociolinguística e planificação de línguas” onde aprendi verdadeiramente sobre as implicações do reintegracionismo duma maneira filológica, mais agradável e, sobretudo, efetiva. O esquema docente seguido pela professora facilitava a ampliação de conhecimentos de maneira autónoma, o que me levou a matricular-me em “Relações Galiza-Lusofonia” para aprender mais. Depois dum ano de aulas, leituras e informação nova, decidi que já estava preparada para abandonar totalmente a norma RAG e dar o passo de afiliar-me nesta associação.

A mudança de norma tampouco está implicando uma alteração na minha vida diária. Também é certo que o achegamento que estou fazendo do reintegracionismo responde a distintas estratégias segundo o espaço social em que participe. É total no ambiente universitário e progressivo noutros que são mais reticentes ao galego e que ignoram este movimento. De momento tampouco é que recebesse um questionamento por ser reintegracionista, embora seja totalmente consciente de que há companheiras de filologia galega que observam como uma traição ao próprio idioma esta mudança. Sou a mesma pessoa de antes, com as mesmas preocupações, os mesmos gostos e os mesmos compromissos.

A vivência do galego como uma língua internacional e que nos permite a acesso a muitos âmbitos vitais (traduções, Internet, apps…) vai ganhando força e praticantes. Em que medida as pessoas da tua idade em Muros podiam estar inclinados a esta forma de viver o galego?

Poderiam estar inclinados a esta forma de viver o galego sempre e quando alguém lhes mostrara todas as vantagens que pode ter fronte a uma postura isolacionista que sempre se apresentou como sacrificada. Todo movimento social que traga um horizonte melhor para o ser humano e para a sociedade entusiasma.

As dificuldades radicam em superar a marginalização histórica do reintegracionismo para poder chegar à sociedade galega com liberdade e sem manipulações interessadas.

Maria Maneiro navega agora no navio agálico mas qual foi a tua motivação para te enrolares?

A motivação de enrolar-me responde à convicção de que na defesa do galego não serve unicamente estudar um determinado grau e fazer ativismo individual e quase desorganizado. O movimento reintegracionista logrou que entendesse a necessidade de unir forças e conhecimentos com o objetivo de tentar reverter a situação que atravessa o idioma, abandonando a ideia de que a solução unicamente deve vir dum status quo que já demonstrou não saber fazer frente às demandas. Uma vez tive claro esta necessidade, simplesmente tinha que informar-me sobre as distintas associações e decidir qual delas representava melhor as minhas ideias. Estou aqui porque creio no trabalho desta associação.

Estamos em 2040. Qual pensas que vai ser a fotografia linguística nessa altura e como gostarias que fosse?

Para o horizonte do 2040 vivo na dualidade entre o negativismo e o positivismo.

Por uma parte, penso que vai ser impossível parar o declive do galego ante a previsível continuidade da inutilidade das elites atuais e da marginalização do reintegracionismo para continuar a preservar os seus interesses, aspetos que tampouco deixarão de ter um amparo político e cultural; por outra, gostaria de observar a detenção deste processo e o início da recuperação social do idioma com a aplicação real de políticas linguísticas que teriam como base inegociável a aplicação do binomartivismo, a revisão do comportamento censor das elites e a assunção de responsabilidades pelo declive do galego desde os anos 80.

 

Conhecendo Maria Maneiro:maneiro-02

Um sítio web: Qualquer que permita a aprendizagem de ideias novas. No meu período pre-reintegracionista, consultava bastante o PGL.

Um invento: A maquina de escrever.

Uma música: Ruxe-Ruxe. Não posso escolher uma única canção deles.

Um livro: Servem dous? Tanto pela sua qualidade como pela sua importância vital, o já mencionado Made in Galiza e Scórpio.

Um facto histórico: 28 de junho de 1984. Chegada dos restos de Castelao a Galiza. A dignidade que caracteriza à sociedade galega é uma questão que deve ser valorizada. Este facto só é um exemplo mais dela.

Um prato na mesa: Massa.

Um desporto: Futebol gaélico.

Um filme: Expiação (Atonement), de Joe Wright.

Uma maravilha: as vacinas, os avanços sanitários em geral.

Além de galego/a: pessoa.

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim

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  • Ernesto V. Souza

    Magnífica entrevista…

    Passam os anos e mesmo com todo o esmagamento, a burrocracia, o feudalismo e o apartheid… e vêm gentes novas que descobrem a realidade e tratam de a explicar e modificar.

    Fantástico!!

  • Marcos Saavedra

    Bem-vinda, Maria!