E. Maragoto e J. Ghanime: “Os caminhos mais transitados destacam-se com a linha mais grossa, e os menos transitados mostram-se com um traço mais ténue”



ortografia-galega-modernaA última novidade da Através Editora é a Ortografia Galega Moderna, onde se atualizam obras anteriores da AGAL, nomeadamente o Estudo Crítico, o Guia prático de verbos conjugados e o Prontuário Ortográfico Galego, que viram a luz na década de 80.

A obra está focada na utilidade e no serviço à cidadania galega que vive o galego como língua internacional, sendo produto do trabalho de muitas pessoas, embora a duas correspondesse um maior protagonismo: o presidente da AGAL, Eduardo Maragoto e o professor Joseph Ghanime. Com eles conversou Valentim Fagim.

NOTA:

Esta entrevista também é um jogo: Todo o texto está redigido sem marcas que caracterizassem quer a antiga norma da AGAL quer o português padrão contraposto àquela, só de maneira a demonstrar como as divergências que estas duas tendências possuíam entre si eram bem menos das que se pensam. Se mesmo assim conseguires descobrir algum traço que che permita descobrir em que norma reintegracionista estava escrita esta entrevista há dous anos, comunica-no-lo, que há prémio. ;))

 

1. Qual o foi o processo que levou a AGAL a superar a norma que a própria AGAL criara em 1983?

Desde que nasce o movimento reintegracionista moderno, nos anos 80, convivem nele diversas sensibilidades. Do ponto de vista das escolhas ortográficas, observam-se duas tendências: a que pretende que na escrita transpareça de maneira inequívoca a correspondência com as falas galegas, e outra que opta por formas que, também de forma inequívoca, minimizam as divergências gráficas quanto às variedades afro-luso-brasileiras. Isto levava a usar como referência duas normas que, sendo extremamente semelhantes, eram percebidas como opções diferenciadas, e que se etiquetavam de maneiras diversas, como “galego-Agal” ou “português padrão” – com independência de que a título individual se pudesse optar por soluções híbridas, ou por ficar à margem desta dicotomia.

As principais divergências eram o uso de formas diferentes para o indefinido feminino (havia quem usasse umha e quem usasse uma) e para as palavras que na Galiza pronunciamos [-aɳ] /[-oɳ], que havia quem escrevesse com til <ão> e quem escrevesse sem til <om>/<am>.

Havia mais usos discrepantes, mas menos ou nada polémicos, porque em geral estoutros tinham mais a ver com opções individuais que com a obediência a esta ou aquela norma. Esta controvérsia foi muito virulenta quando o reintegracionismo passou pola crise de finais dos anos 80 e princípios dos 90, mas com a viragem do século, coincidindo com o alastramento da Internet, o reintegracionismo começou a recuperar influência e isto possibilitou que o debate acabasse por ser relativizado e perdesse interesse dentro do próprio movimento reintegracionista.

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Deixou-se de reparar nas pequenas diferenças ortográficas e o objetivo passou a ser divulgar o nosso programa e estratégia cultural em sentido amplo. Porém, o alcance do antigo debate persistiu na vida interna e nos meios das associações lusistas e provocava frequentes atritos internos.

Assim, a AGAL, por exemplo, só contemplava oficialmente o uso da sua velha norma (-am, -om, umha), quando na realidade muitas pessoas sócias e mesmo dirigentes, usavam e defendiam o que naquela altura era conhecido por português padrão (ão, uma). Verificava-se um desequilíbrio evidente que tornava complicado lançar propostas coerentes à sociedade.

Por isso, já no Conselho anterior, presidido por Miguel Penas, fizemos a análise de que o movimento reintegracionista tinha suficiente madurez para deixar definitivamente atrás um conflito que estava longe de caracterizar-nos como o movimento que éramos na atualidade: o reintegracionismo que pretendia deixar de falar consigo próprio e queria falar com o conjunto das pessoas, quer tivessem mais ou menos interesse no debate filológico.

Quando levamos a proposta ao papel, comprovamos logo que as divergências ortográficas eram muito poucas para justificar que fossem mantidas duas normas independentes, com debates perpétuos sobre qual era a mais legítima. A mesma norma com variantes podia abranger todos os usos gráficos reais das pessoas que usavam o reintegrado, que mesmo poderiam optar polas formas com que mais se identificassem dependendo do contexto.

2. Qual o foi o processo associativo interno que levou à confluência normativa?

Começamos por pedir o parecer de reintegracionistas históricos que tiveram muita influência na génese da velha norma da AGAL e a resposta foi muito positiva, de maneira que iniciamos conversas com alguns membros da Comissom Lingüística (CL) que podiam ser mais discrepantes, com o objetivo de que a iniciativa passasse por unanimidade, mas a maioria dos membros desta Comissom defendeu sempre a sua postura contrária à confluência.

Porém, apesar deste entrave, tínhamos a certeza da conveniência da proposta e decidimos calcular o apoio real com que contaria entre as pessoas sócias. Foi o momento em que se apresentou a candidatura de Eduardo Maragoto ao Conselho da AGAL. A nova lista lançou como ponto fulcral do seu programa a “confluência normativa” depois de o ter submetido a debate entre os sócios e sócias através da ferramenta on-line Loomio.

Esta candidatura comprometia-se a tomar as medidas necessárias para levar avante a confluência se ganhasse as eleições de forma indiscutível e a assembleia deixou atrás qualquer dúvida: recebeu 101 votos a favor e apenas 7 contra. A partir daí, o nosso Conselho tentou convencer a CL para que aceitasse o mandato assemblear, mas um grupo de membros deste órgão decidiu demitir-se e fundar a Associaçom de Estudos Galegos (AEG), para defender um padrom que excluísse certas soluções do português no mundo, como tinha feito a nossa Comissom até daquela.

Enquanto existirem pessoas que reclamem um padrom com este carácter, parece-nos interessante que exista um coletivo assim, mas nós consideramos que o reintegracionismo moderno tem outras prioridades e é a AGAL quem deve representá-las. A prioridade é o nosso programa cultural, que deve puxar o conjunto das pessoas preocupada polo futuro do idioma para a convergência com o mundo lusófono. Quando a necessidade desta convergência for consensual, chegará o momento de falar de letras e acentos concretos, mas isso está longe de acontecer. Chegará, sem dúvida, mas temos que dar os nossos passos planificando as estratégias para décadas em vez de anos.

3. Qual o foi o processo associativo interno que levou à génese da Ortografia Galega Moderna (OGM)?

A partir deste momento, por um lado, o Conselho encomendou a Joseph Ghanime e a Eduardo Maragoto que redigissem um novo texto normativo que recolhesse todas as formas vivas no reintegracionismo moderno. Esta norma descritiva, sem deixar de recolher todos os usos gráficos descritos na velha norma da AGAL e noutras variedades da Lusofonia, ajudaria cada utente a fazer escolhas coerente entre eles, permitindo-lhe descartar com facilidade as formas que preferia evitar, quer por serem marginais quer por se afastarem da sua sensibilidade.

Por outro lado, a CL passou a ser um órgão aberto a todos os sócios e sócias da AGAL, quer dizer, deixou de funcionar como entidade académica autónoma.

Após aprovadas as linhas gerais deste texto na assembleia geral de 23 abril de 2016, o texto definitivo foi aprovado por unanimidade na assembleia de 3 de dezembro, momento em que podemos dizer que concluiu o processo. Em poucos meses, o texto seria publicado on-line e em livro, com o nome de ‘Ortografia Galega Moderna confluente com o português no mundo’, um título que pretende afirmar que o que há no seu interior é galego e é português. Tanto o desenho da capa como o título têm a virtude de esclarecer perfeitamente o que se pretende com o livro, tanto dentro como no resto da Lusofonia.

4. A Ortografia Moderna Galega reúne os usos dos utentes do galego internacional. Qual a funcionalidade deste trabalho? Que serviço social pretende dar?

O trabalho serve como bússola para nos orientarmos no mapa da escrita em galego internacional. Os caminhos mais transitados destacam-se com a linha mais grossa, e os menos transitados mostram-se com um traço mais ténue. A ninguém se indica, “há que seguir esta estrada, ou essa”, mas “esta estrada vai por aqui, essa vai por aí, e aqueloutra, menos transitada, por acolá”.

Ao começar a escrever em galego internacional enfrentam-se várias dificuldades:

Do ponto de vista social, a prática reintegracionista pode fazer-nos sentir incómodos perante os outros, por sair-se do tido como “normal”. Afortunadamente, a estranheza diminui na medida em que a escrita em galego internacional se estende, como efetivamente está a acontecer.

Já no plano do uso da língua, há dificuldades que se relacionam com o modelo ortográfico. É normal, logo no início, perguntar-se:mas vou escrever também ou tamém? É melhor escrever estám ou estão?

Perante estas questões, desde a AGAL, até agora podíamos responder de duas maneiras: a) “Segue o Estudo Crítico de 1988, se queres escrever na variedade galega do português”; b) “Escreve como preferires, afinal galego e português conformam a mesma língua”.

A primeira resposta tinha sentido, na medida em que o Estudo Crítico de 1988 era o alicerce da norma da AGAL. No entanto, o Estudo – por mais que continue sendo valioso – foi feito antes de que a Internet se estendesse, a lei Valentim Paz-Andrade fosse aprovada, o número de estudantes de português se multiplicasse e o Acordo Ortográfico começasse a ser aplicado – embora com controvérsias – nalguns países de língua oficial portuguesa.

No que se refere ao Acordo Ortográfico, a norma da AGAL foi, sim, atualizada – e nós, de facto, aproveitamos esse trabalho. Porém, noutros aspetos, o Estudo estava a ficar aquém do usos reais dos e das reintegracionistas.

Se reparamos em Páginas Web e títulos bibliográficos dos últimos anos, notaremos que o Estudo deixou de refletir a diversidade gráfica do reintegracionismo de hoje em dia. Há quem utilize terminações em om ou em ão, quem conjugue os verbos com formas que se aproximam da oralidade galega ou de outras variedades da língua: e em geral, quem escreve assume que o está a fazer em galego (na variedade galega do português) ao fazer essas escolhas.

Ao entendermos a ortografia como um instrumento que se deve adaptar às necessidades da comunidade de utentes, tinha todo o sentido alargar a proposta normativa no sentido de incluir os usos de uns e outros, sem querer levar a água para um ou outro moinho.

A segunda possibilidade, “escreve como preferires”, isto é, animar a que cada pessoa construa a sua norma escrita, seria a resposta mais cómoda, mas pouco responsável a nível associativo. Quem encoraja o navio a zarpar sem fornecer a carta marinha, mais do que promover um tipo de liberdade, desiste de fornecer os instrumentos básicos para navegar.

Outrossim, animar as pessoas a enveredar polo caminho da escrita em galego-português, sem dar-se ao trabalho de fornecer ferramentas que ajudem a ganhar segurança na escrita, obriga os utentes da língua a fazer escolhas continuamente, escolhas que além disso muitas vezes os comprometem ou conotam perante as outras pessoas, por estarem demasiado marcadas. Basta reparar, ao lermos artigos no PGL, na quantidade de comentários que polemizam acerca da preferência por estas ou aquelas formas, o que afinal de contas leva a que as pessoas menos “iniciadas” desistam de escrever.

Neste contexto, a Ortografia do Galego Moderno procura destacar os usos comuns por cima dos diferentes e facilitar a escolha ali onde ela é necessária. Pretende, ainda, desdramatizar essas alternativas, e aceitar com naturalidade que diferentes pessoas, ou mesmo a mesma pessoa em contextos diversos, alternem no uso de formas diversas.

Da mesma maneira que adaptamos o grau de formalidade dos textos segundo os destinatários, nada impede que, nós, na Galiza, optemos por diversas soluções ortográficas segundo as intenções ou público-alvo para que escrevemos. Há que ter em conta que temos o desafio de nos entendermos, ao mesmo tempo, com falantes da Galiza e de outros países de língua portuguesa, o que torna essa tolerância de usos quase incontornável.

A Ortografia Galega Moderna, por último, também poderá ser útil nos seguintes sentidos: dar a conhecer noutros países lusófonos a(s) maneira(s) de os galegos escrevermos; reivindicar os direitos de toda a comunidade reintegracionista, junto de entidades oficiais ou doutro tipo; e, muito importante, ter essa base de consenso necessária para alicerçar outros trabalhos, em papel ou informáticos (corretores, conjugadores, etc. ), que venham a facilitar de forma ainda mais imediata o caminho a quem enveredar pola escrita em galego internacional.

5. Trata-se de um livro de caráter eminentemente descritivo. Quais as motivações para contornar um caminho de natureza prescritiva, a indicar o que está certo e o que está errado?

O livro desiste de ser eminentemente prescritivo, em primeiro lugar, porque a entidade que o publica, a AGAL, assume-se hoje em dia antes como difusora do que como reguladora dos usos reintegracionistas. Por outras palavras, a AGAL abstém-se de realizar o papel de Academia. Mesmo as pessoas a que nos foi encomendada a tarefa de redigir o documento, encaramos a tarefa de concretizar as decisões assembleares sem nos assumirmos como autoridades com direito nem desejo de prescrever. O nosso trabalho esperamos que venha a ser emendado e melhorado continuamente polas pessoas que escrevem em galego-português no dia-a-dia.

Em segundo lugar, este trabalho desiste de levantar os marcos entre aquilo que está “certo” ou “errado”; antes, o que pretende é compilar e apresentar de maneira organizada diversos usos previamente assumidos, no seu conjunto, como válidos ou verificáveis na prática, quer pola velha norma da AGAL quer por outras variantes da língua. Escolhas, como em qualquer trabalho deste tipo, foi necessário fazê-las – a objetividade absoluta é impossível de realizar. Mas o que norteou essas escolhas foi antes a vontade de abranger de forma sintética todas as possibilidades, do que o desejo de antever um ponto de destino.

Em terceiro lugar, se qualquer língua se vai construindo à medida que é usada, isto torna-se mais evidente em casos como o nosso. Agir como se a variedade galega do português tivesse a estabilidade gráfica que possuem línguas socialmente consolidadas, seria partir da irrealidade absoluta e julgar de forma preconceituosa o que o futuro nos poderá deparar. Como a nossa variedade está a ser construída, o mais que podemos é fornecer bons materiais e um protocolo básico para ir fazendo as cousas com algum jeito, mas ninguém tem o plano definitivo da obra.

Na Ortografia Galega Moderna escolhemos, por exemplo, dar menos protagonismo às formas que estavam a ser menos usadas, como o já referido tamém face a também. No entanto, nunca se condena o uso dessas formas aparentemente “menos usadas”, que sempre se referem. Neste sentido é que a vontade foi descritiva antes do que prescritiva. Ao carecer de estudos “de corpus” sobre os usos dos reintegracionistas, tivemos que ir fazendo estas escolhas com base no que já tinha sido progressivamente simplificado em obras de referência anteriores, como o Manual Galego de Língua e Estilo.

Por outro lado, mantivemos as escolhas ao mesmo nível sempre que estas eram marcas claras de um modelo de escrita parcial ou inteiramente convergente com outras variedades do português, isto é, nas escolhas que realmente podem ser alvo de debate ou mexer com a maneira como as pessoas se identificam com a língua.

Para sermos claros, colocamos estám ao mesmo nível que estão e estivem ao lado de estive, sem querer puxar a sardinha para esta brasa ou aquela. As designações que escolhemos nesse caso (“formas usadas na Galiza” e “formas gerais”) rotulam as alternativas da maneira que nos pareceu que poderia ser mais bem aceite por todos, mas sempre partindo da base de que, para as pessoas reintegracionistas, nada que seja galego deixa por isso de ser português e nada que seja português deixa por isso de ser galego, o que ficou claramente formulado nas palavras preliminares.

6. A respeito das obras anteriores, que oferece a Ortografia Galega Moderna?

O livro começa com uns esclarecimentos prévios que explicam como foi feito, o que muda e o que se conserva quanto a obras anteriores e, sobretudo, deixar claro que se trata de um texto integrador que, mais do que impor usos obrigatórios, deseja orientar as pessoas no uso da ortografia coincidente com as outras variantes do português no mundo, com independência de que em determinados usos decida aproximar-se ou afastar-se mais dela.

A seguir, temos os capítulos dedicados a descrever a Ortografia e a Morfologia. Nos primeiros, ninguém notará quase diferenças quanto a obras anteriores, exceto nos parágrafos dedicados aos grupos cultos, adaptados ao Acordo Ortográfico de 90, e aos acentos, onde é explicado o uso do til em relaçom às formas galegas canónicas na norma da AGAL até agora. As formas com til (ão) som definidas como “formas gerais” e as sem til (om/am) como “formas usadas na Galiza”.

Para além disso, será preciso chegar às páginas dedicadas aos verbos para as pessoas perceberem que existiu, de facto, o trabalho de incluir nos mesmos paradigmas duas formas: a “usada na Galiza” e a “geral” plenamente convergente com outras usadas no mundo. Nas normas anteriores davam-se ainda muitas mais alternativas, que neste manual, sem desaparecerem, ficam subordinadas à categoria “outras formas”.

As notas do final ajudam a perceber o motivo das escolhas feitas ao longo da OGM em muitos casos. O livro conta ainda com um índice remissivo e com 53 exercícios muito variados para facilitar a aprendizagem de regras para conjugar os verbos, para usar corretamente os principais pares gráficos e até para reconhecer as formas usadas na Galiza a partir das formas gerais e vice-versa.

7. Qual foi o trabalho que foi preciso realizar para as atualizar?

A resposta a esta pergunta é dada com pormenor nos Esclarecimentos Prévios da OGM. Ora, resumindo, o nosso trabalho consistiu em intervir no Estudo Crítico (1989) de maneira a acrescentar as formas do português padrão.

Isto exigia simplificar as numerosas duplicidades que dentro das “formas usadas na Galiza” incluía o Estudo Crítico (EC). Para isso foi usada a bibliografia posterior ao EC gerada em norma da AGAL, nomeadamente o Manual Galego de Língua e Estilo, que é o trabalho que se encarregou de descrever e até propor uns usos canónicos para o movimento associativo que segue essa norma.

Ora bem, as outras formas continuam neste volume, mesmo as que deixaram de ser usadas pola pratica totalidade das pessoas reintegracionistas, geralmente explicadas em notas de rodapé ou no final do livro. No entanto, como dizíamos, o principal contributo da OGM consistiu em incluir outras formas alternativas mais convergentes com as variantes afro-luso-brasileiras da língua que já eram comuns no galego reintegrado moderno, designadamente as formas nominais e verbais acabadas em -ão com pronúncia galega /‘õɳ/ e /‘ãɳ/.

Nestes casos, quando se fornecem várias opções, privilegia-se o uso de apenas duas: a continuadora da norma AGAL na sua forma canónica (que sempre aparece em primeiro lugar só de maneira a ser identificada facilmente polos consulentes deste trabalho) e outra mais convergente com as fórmulas ortográficas e morfológicas maioritárias nos países de língua oficial portuguesa (grafada em itálico): aviom / avião.

 

8. A grande mais-valias deste livro, já que de facto a maior parte do mesmo está disponível on-line, é a longa e variada série de exercícios finais. Que vos motivou a introduzir esta parte didática?

Pareceu-nos, por um lado, que as pessoas que iam fazer o esforço de adquirir o livro, mereciam obter um trabalho algo mais completo, que fosse para além das regras e tabelas descritivas. Por outro lado, as atividades práticas ajudam, de maneira que achamos positiva, a desdramatizar e dessacralizar obras deste tipo, destacando antes o aspeto didático do que o normativo. O que se quer destacar é, enfim, que todos – e os que redigimos este trabalho os primeiros – estamos a aprender, e que temos que o fazer da forma prazenteira e agradável.

 

9. Em que medida o aparecimento deste livro pode mudar o mapa do galego internacional no nosso país?

O mapa do galego realmente muda com os tempos: o nosso contributo é pequeno. Porém, nestas década foi-se vendo que, por mais normativas que as associações redijam, só há duas tradições gráficas na Galiza: a que tem por base a ortografia castelhana e a que tem a portuguesa.

Era absurdo subdividir estas duas tendências. Por isso, parecia cada vez mais claro que deixara de fazer sentido que no reintegracionismo convivessem duas normas. Realmente, acabamos de realizar um processo paralelo ao que a normativa oficial do galego completou em 2003. A diferença é que nós entendemos que basta descrever os usos escritos das pessoas, orientando-as, sim, mas renunciando a impor-lhes usos determinados.

O aspeto final do galego-português no nosso país há de decidi-lo o conjunto a comunidade interessada em usar o galego, nem sequer o reintegracionismo exclusivamente. O ‘binormativismo’ está mais perto do que as pessoas pensam, e até temos a certeza que será consensual, mas seria irresponsável pola nossa parte chegar a esse estádio com quatro normas independentes.

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Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim

 

 


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  • Galego da área mindoniense

    O texto está escrito nũa norma híbrida. Terminações -om e -ão (em vez d´usar “-ão” pra tudo ou “-ao” sem til) e plural em -ões. O resto parece inclinar-se cara os usos do resto da lusofonia (“do que” em vez de “ca”, “mas” em vez de “mais”, “com a” em vez de “coa”…)

    ” […] A partir daí, o nosso Conselho tentou convencer a CL para que aceitasse o mandato assemblear, MAS um grupo de membros deste ÓRGÃO decidiu demitir-se e fundar a Associaçom de Estudos Galegos (AEG), para defender um PADROM que excluísse certas SOLUÇÕES do português no mundo, como tinha feito a nossa COMISSOM até daquela. […]

  • Galego da área mindoniense

    “Segue o Estudo Crítico de 1988, se queres escrever na variedade galega do português”

    Nessa oraçom, nom haveria que usalo futuro do conjuntivo?

  • abanhos

    A Agal está sendo muito bem dirigida com muita inteligência e capacidade. As três ultimas diretivas perceberam bem a importância de projetar uma Agal bem centrada socialmente. Termos agora de Presidente ao Eduardo Maragoto, é um luxo.
    É muito bom respeitar aos da AEG, e ter boas relações com eles tal e como se amossa na entrevista, pois não é má cousa que exista uma organização assim ocupando esse nicho social para os que achem que a AGAL não é suficientemente “regional”.

  • Galego da área mindoniense

    Em suma, aplicala tam exitosa estratégia de “Primeiro normalizar, depois normativizar”…