AS AULAS NO CINEMA

MANUEL BARTOLOMÉ COSSIO E O SEU APREÇO PELOS MESTRES

(Vários documentários)



O dia 5 de outubro comemora-se o “Dia Mundial dos Professores”. Acho que a personalidade mais importante que tivemos na defesa dos docentes, da sua dignidade, da sua formação e da sua valorização social, junto com Giner de los Ríos, foi o discípulo deste Manuel Bartolomé Cossío (1857-1935). Para mim, o melhor pedagogo que existiu no nosso país, pelo que bem merece este depoimento da série que iniciei com Sócrates, dedicada aos grandes vultos da humanidade, que todos devemos conhecer, e especialmente os escolares dos diferentes níveis do ensino. Com este depoimento, que faz o nº 68 da série, podemos comemorar tão importante jornada dedicada aos docentes e ao seu importantíssimo labor cultural e social.

A 22 de fevereiro de 1857 nascia, na localidade rioxana de Haro, Manuel Bartolomé Cossío, considerado por muitos como o mais importante pedagogo da história da educação do nosso país. No presente ano se cumpriram os 161 anos do seu nascimento. Pela valia dos seus postulados educativos, muitos deles ainda hoje não superados, e pela sua bonomia, achamos que esta nossa lembrança é de sobra merecida. Muito gostaríamos que os estudantes das titulações universitárias relacionadas com o ensino e a educação dedicassem algum tempo a ler os seus textos e artigos pedagógico-didáticos, e informar-se sobre a sua obra, a sua personalidade e as suas realizações. Da mesma maneira muito nos encantaria que todos os docentes dos diferentes níveis educativos recuperassem este pedagogo singular. Que tanto apreciava o labor dos ensinantes, e para os que pedia sempre o maior apoio e reconhecimento económico e social.

Cossío foi o discípulo predileto, e em certo modo o seu filho espiritual, de Francisco Giner de los Ríos. Com a ajuda de vários professores, Giner tinha criado no ano 1876 a ILE (Instituição Livre do Ensino), considerada como um dos movimentos educativos mais importantes da Europa. Cujos procedimentos e estratégias didáticas estão ainda sem superar na atualidade. Giner falece em 1915 e à sua morte Cossío recolhe o testemunho do seu mestre para dirigir esta importante instituição educativa. Da qual saíram a maioria dos nossos prémios Nobel, como Ochoa, Benavente, Juan Ramón Jiménez, Aleixandre, Ramón e Cajal e os escritores da geração literária do 27, o cineasta Buñuel, o pintor Dalí e galegos destacados como Conceição Arenal e João Vicente Biqueira. O catalão Joaquim Xirau, que foi discípulo de Cossío, e ao qual admirava, escreveu um interessante estudo sobre Cossío, publicado em México em 1945, e do que temos um exemplar na nossa biblioteca. Sobre o pedagogo diz acertadamente: “Cossío era artista, acima de tudo. Artista no dizer, no fazer, no pensar, no viver. Tudo se traduzia nele na fórmula e na ação bela. Nele a moralidade e a arte são formas essenciais e complementares da vida”. Jiménez-Landi, Luis A. Santullano, Jaume Carbonell e Negrín Fajardo publicaram no seu dia também interessantes estudos sobre Cossío. Porém, é o galego Eugénio Otero Urtaza, professor da Escola Normal de Lugo, o maior especialista sobre ele, ao dedicar-lhe a sua tese de doutoramento e uma interessante monografia.

PEQUENA BIOGRAFIA:

cossio-manuel-bartolome-foto-0    Filho do juiz de primeira instância de Haro, Patricio Bartolomé Flores, e de Natalia Cossío Salinas, nasce o nosso pedagogo a 22 de fevereiro de 1857. Em 1871 falece o seu pai e a sua mãe em 1876, pelo que fica órfão sendo muito jovem. De facto, Giner acaba sendo na prática o seu pai e mestre, que o acolheu como tal ao não ter filhos. Estudou Filosofia e Letras em Madrid e Belas Artes em Bolonha. Foi catedrático de história da arte em Barcelona e de pedagogia superior em Madrid, nas universidades centrais destas duas cidades. Em 1883 ganha por concurso a direção do Museu Pedagógico. Foi também professor da escola de altos estudos do Ateneu madrileno. Dominava muitos idiomas e viajou por toda a Europa. Participou em numerosos congressos pedagógicos. Foi deputado nas cortes constituintes da 2ª República e dirigiu a ILE a partir de 1915, quando faleceu o seu mestre Giner. Em 1921 foi nomeado conselheiro de instrução pública. Nos últimos anos da sua vida teve numerosos problemas médicos e ainda assim conservou até o final o seu humor e bonomia. Faleceu na sua casa de Collado-Mediano em 1935, em 1 de setembro, sendo soterrado no cemitério civil do este, no mesmo panteão que Sanz del Río, Giner, Fernando de Castro e Gumersindo de Azcárate. Em 1893 tinha contraído matrimónio na localidade portuguesa de Espinho, próxima à cidade de Braga, com a moça galega Carmem López-Cortom Biqueira, familiar do famoso professor e pensador galego João Vicente Biqueira Cortom. Ainda os herdeiros conservam as propriedades do paço das duas famílias em Bergondo e parte da biblioteca, muito perto de Betanços. Nesta quinta e paço Cossío passava as suas férias de verão, e foi onde escreveu a sua monografia dedicada ao grande pintor O Greco. Cossío teve duas filhas, Júlia e Natália. Esta faleceu não há muitos anos, e foi muito importante o seu labor na ILE e na sua Residência de Estudantes.

FICHAS TÉCNICAS DOS DOCUMENTÁRIOS:

  1. M. B. Cossío impulsionador da ILE desde Miraflores de la Sierra.

     Duração: 17 minutos. Produtora: Onda Cero.

 

  1. Cossío em Bustarviejo.

Duração: 2 minutos. Nota: Imagens reais em que aparece Cossío a falar.

  1. A aventura do saber: “A escola inclusiva” e “Cossío: A arte de saber ver”.

Duração: 59 minutos. Produtora: TVE (13 de Junho de 2018).

Ver em: http://www.rtve.es/alacarta/videos/la-aventura-del-saber/aventura-del-saber-13-06-18/4633043/

  1. ILE: Ensinar e aprender.

Duração: 9 minutos.

  1. Francisco Giner de los Ríos e o nascimento da ILE.

Duração: 22 minutos.

  1. Ensinar e aprender. Curta-metragem. Sobre a ILE e as Missões Pedagógicas. Giner e

     Cossío.

Duração: 9 minutos.

  1. A Residência de Estudantes da ILE.

Duração: 22 minutos. Produtora: UNED (Data: 28 de Maio de 2010)

 

O EXCELENTE PENSAMENTO PEDAGÓGICO DE COSSÍO:

    Cossío foi o primeiro catedrático de pedagogia da universidade do nosso país, ocupando desde 1904 a correspondente vaga na universidade Central de Madrid (hoje Complutense). De 1883 a 1929 dirige também o Museu Pedagógico Nacional, em que chega a desenvolver um trabalho modelar. As suas preocupações pedagógicas e didáticas são muitas e variadas. Entre elas destacam especialmente em primeiro lugar o seu apreço pelos docentes e pela sua formação inicial e permanente. Em todo o momento reclamava do governo e da sociedade espanhola o apoio decidido aos mestres. Considerava que o mestre era a alma da escola e o ofício de mestre o mais importante de todos os ofícios. É célebre a sua frase “Gastem, gastem nos mestres”. E também é muito formoso o seu discurso em que diz: “Deem-me um bom mestre e ele improvisará o local, a escola se faltasse, ele inventará o material de ensino, ele fará que a assistência seja perfeita; porém, deem-lhe à sua vez a consideração que merece ou, melhor, que ele leva consigo no próprio valer da sua pessoa”. Não tem desperdício também, porque ainda hoje é o dia que não se alcançou o que diz em Bilbau em 1904: “É preciso chegar à formação superior do magistério em todos os seus graus. A medicina ensinou-nos o caminho e deu-nos a fórmula ao suprimir os médicos de segunda classe. Façamos o mesmo. Demos a todos os mestres a mesma educação, dentro e fora da universidade, porém universitária. Enquanto isto não acontecer, enquanto não dignificarmos a educação e desaparecerem as categorias do professorado, que impõem ao mestre de primária uma “capitis diminutio” e o condenam a servidão de corpo e de espírito, não iremos ter verdadeiras escolas, nem conheceremos o país e a humanidade pela que todos suspiramos”. É claro, e nós compartilhamos esta ideia, que para Cossío é tão importante ou mais o labor de uma mestra de escola infantil que o de um ou uma catedrática de universidade.

Foto com Giner e Rubio

Foto com Giner e Rubio

As crianças foram a sua segunda preocupação. Solicitava sempre para elas o maior respeito. Nada deveria perverter a sua inteligência, a sua afetividade, os seus sentimentos, a sua criatividade e as suas ideias. Nisto era enormemente escrupuloso e levou-o à prática na ILE, onde não era permitida em nenhum caso a doutrinação filosófica, religiosa, política ou ideológica dos escolares. Que tinham que aprender a pensar e refletir por si mesmos. Cossío dizia, e dizia bem, que “a criança, campo fecundo tão mal cultivado até o presente, com os seus sentidos abertos e as suas faculdades razoadoras, esperando sempre a que uma mão com arte venha a tirá-los do sono em que adormecem, é quem tem na sua própria natureza a lei segundo a que deve ser educado. Possui tudo o necessário para olhar, primeira e ineludível condição do conhecimento; só aguarda que lhe ensinem a fazê-lo”. Diz também que a criança há que educá-la antes que instrui-la, há que fazer da criança, no lugar de um armazém, um campo cultivável. E nisto nos lembra Tagore, com o qual Cossío partilha muitíssimos aspetos educativos, e alguma vez lhe dedicou algum dos seus artigos. Defendia muitas cousas positivas na educação das crianças: a importância do jogo, da educação pré-escolar ou infantil, os trabalhos manuais, a educação artística, a música, as excursões e roteiros escolares, as colónias de verão nas férias, a animação à leitura por meio dos bons contos, a investigação, pesquisa e experimentação sobre a realidade, a harmonia com a natureza e a arte e a conquista de uma educação integral, em que a educação ética, para a paz e para o amor ecológico à natureza, tivessem um espaço importante na escola.

A educação dos cidadãos, e especialmente a das aldeias rurais sem acesso à cultura, é outra das suas grandes preocupações. Para isto, tinha desenhado já um formoso projeto no final do século XIX, que se põe a andar no ano 1931, com a chegada da 2ª República. Este foi o das Missões Pedagógicas, tanto tempo sonhadas por Cossío. Ao criá-las é nomeado presidente do seu Padroado, em que entre outros estão o poeta Machado e Santullano como secretário. Muitos dos discursos dos missionários, que vão de aldeia em aldeia como autênticos jograis, tinham sido redigidos por Cossío. O teatro, a arte, o cinema, a música e as canções, os contadores de contos, os livros, os fantoches ou tiroleques, são levados aos lugares mais isolados da geografia do nosso país e também da Galiza. A esta educação informal Cossío lhe chamava “difusa”, que não por ser difusa deixava de ter uma importância capital, influindo de maneira inconsciente e positiva nas crianças, os jovens, os adultos e as pessoas idosas. Porque a todos chegava a influência das “missões”, respeitando sem partidismos todos os que participavam nas diferentes atividades. O que importava era elevar o nível cultural e a autoestima dos cidadãos, especialmente daqueles que longe das cidades, não podiam aceder às atividades culturais. Os galegos Dieste, Cândido Fernández Mazas, Carlos Velo, Otero Espasandim e Rodríguez Cadarso, foram personalidades destacadas neste projeto, cuja “alma mater” era Cossío. Devemos assinalar que há poucos anos no Centro Cultural Conde Duque de Madrid esteve aberta uma maravilhosa e completíssima exposição-amostra dedicada às “Missões Pedagógicas” republicanas.

Cossío, que no ano 1934 foi nomeado como primeiro cidadão de honra da República, destacou também noutras facetas, especialmente relacionadas com as Belas Artes. A sua obra sobre O Greco, escrita na sua maior parte nas suas férias do verão no paço e jardins de S. Fiz de Vijoi, no concelho corunhês de Bergondo, é reconhecida universalmente. Porém, sem qualquer dúvida, Cossío foi até o primeiro de outubro de 1935, em que faleceu, o educador teórico e prático fundamental, que ampara todos os projetos educativos levados a cabo no nosso país, especialmente no período republicano, truncado pelos franquistas. Como, de forma bem justa, lhe reconhecemos muitos.

O nosso pedagogo, com grande acerto, pensava que as mudanças positivas numa sociedade começavam pela educação da infância. Por isso, dizia: “A educação é, antes de nada, uma obra de arte, e a arte tem também uma missão educativa”.

Retrato por Sorolla

Retrato por Sorolla

LIVROS BÁSICOS DE E SOBRE COSSÍO:

    Além de publicar inúmeros artigos em jornais e revistas, como o BILE e a Revista de Pedagogia, são importantes os seus livros: O mestre, a escola e o material de ensino, do qual existe uma edição em 2007 ao cuidado de E. Otero, da editorial Biblioteca Nueva; Da sua jornada, publicado pela Aguilar em 1967; Aproximação à pintura espanhola, publicado em 1985 pela editora Akal; Diálogos com M. B. Cossío: Melhoremos a educação, editado pela Laertes em 2015 e coordenado por Pio Maceda, e da obra O Greco existem muitas edições, entre elas uma da Espasa-Calpe do ano 1984, e outra da Fundação Jiménez-Cossío do ano 2006. É muito interessante o livro escrito por Antonio Jiménez-Landi M. B. Cossío: Uma vida exemplar (1857-1935), publicado em 1989 pelo Instituto Alicantino de Cultura Juan Gil-Albert. Também M. B. Cossío e a educação em Espanha, da autoria de Joaquim Xirau (1945, Colégio do México) e O pensamento vivo de Cossío, por Luís A. Santullano (1946, editorial Losada de Buenos Aires).

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:

Vemos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um Cinema-fórum, para analisar a forma (linguagem fílmica) e o fundo (conteúdos e mensagem) dos mesmos, assim como os seus conteúdos.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Manuel Bartolomé Cossio, a sua vida, a sua obra, as suas ideias, o seu pensamento, os seus livros e o seu importante labor, como grande pedagogo que foi da ILE (Instituição Livre do Ensino) e das famosas “Missões Pedagógicas” da 2ª República. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias. A citada amostra tem de incluir também uma secção especial dedicada à ILE e às Missões Pedagógicas republicanas.

Desenvolveremos um Livro-fórum em que participem todos os escolares e docentes. O livro mais adequado para ler é o intitulado Uma Antologia Pedagógica, que foi publicado em castelhano pelo MEC em 1995, estando a escolha dos textos a cargo de Jaume Carbonell. Poderiam valer perfeitamente também as monografias dedicadas a Cossío, com os títulos de M. B. Cossío, pensamento pedagógico e ação educativa, escrito por Eugénio Otero Urtaza, publicado pelo MEC e o CSIC em 1994 (com outra edição sob o título de Cossío, trajetória de um educador), e Cossío, um educador para um povo, publicado pela UNED em 1987 e coordenado por Olegario Negrín, Alejandro Tiana e Julio Ruiz Berrio.

 

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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