LUZIA E AS SOMBRAS DE LUZ – Conto Fantástico



 

* Publicado originalmente por Paulo Soriano no site ‘Contos de Terror’.

 

Luzia andava sozinha pela rua estreita que conduzia até a casa do seu namorado.

Vinha do trabalho e estava cansada. Hoje o chefe se tinha passado um monte com as suas exigências. Queria que acabassem de coser todas as peças de roupa que chegaram da casa central. Vinham já cortadas e as operárias só tinham que enfiar a máquina polos carreiros que estavam pintados sobre as telas. Todas iguais. Hoje foram de cor roxa. Saias e camisolas. Para uma marca internacional que acabara por ser a mais vendida do Planeta. Diziam que os donos eram galegos. O fundador era um dos bilionários mais ricos do mundo. No ranking da revista Forbes, ficara de segundo ou terceiro, dependendo dos valores da bolsa.

E ela, junto com mais cem mulheres apertadas na nave de trabalho, conseguia ganhar apenas para pagar o aluguer e pouco mais. Isso depois de estar cosendo durante uma jornada longa de quase dez horas. Cobravam por peça cosida. Este dia conseguira fazer trezentas unidades. Todas iguais, todas roxas duma cor quase violeta. Era um trabalho monótono, repetitivo e mal pagado. Mas era o único que ela conseguira arranjar.

No fim da tarde os seus olhos estavam vermelhos de tanto olhar para os tecidos e as mãos cansadas e quase entumecidas de agarrar a prenda para a suster firme sob as agulhas da máquina. As costas doíam-lhe de estar debruçada sobre a mesa de trabalho e seu pescoço estava rígido e dorido. Tinha necessidade de respirar o ar livre, fora daquela atmosfera viciada do atelier .

Escutou o riiing da campainha de saída com grande alivio. Saiu para o descampado junto das outras operárias e foram todas até a paragem do ónibus que as levaria até a vila. Cabeças baixas, ombros caídos e olhada vácua para o infinito da noite do polígono industrial.

A porta maciça de alumínio fechou trás delas com um som de morte metalizado. Luzia respirou fundo e deixou que seus pulmões se enchessem de ar fresco e limpo (mais do que no interior da nave).

Era noite de luar . Dessas noites frias em que o vento do norte faz fugir as nuvens. Desceu do coletivo depois de meia hora de transporte e começou a caminhar para a casa do Manuel. O rio estava perto e desde ele saia a humidade produzida polo aquecimento do sol do dia que evaporara a água. Mas agora o frio condensava essa humidade que se estendia pelas ruas como se fosse o bafo das xácias[1].

Seres míticos, parecidos a mulheres, que habitam as águas continentais da Galiza. Namoram aos homens e não gostam das moças. Nomeadamente das novas e bonitas como Luzia. Assim o aprendera Luzia escutando estórias desde o colo da sua avó.

E Luzia ia sozinha através da noite das ruas e através de seus confusos pensamentos alastrando seu cansado corpo.

A névoa tinha-se pousado pouco e pouco sobre as pedras da cidade e sobre as varandas das casas. Sentia em seu corpo cansado a humidade do ambiente. Que cobria seu abrigo de quadros verdes e grises por infinidade de pinguinhas de água.

Abraçou-se e esfregou os braços contra o corpo para acorrentar o frio, mentres[2] seguia andando. Agora apurava o passo, se calhar por se aquecer com o exercício, ou porque o medo lhe ia ganhando na sua carreira.

Seus cabelos agitaram-se sem terem vento que o justificasse e algo frio roçou sua cabeça.

Ela sacudiu-na mas, aquela mão , ou o que quer que fosse, voltou a entrar por entre os caracóis da sua melena e pousou-se-lhe sobre o coiro cabeludo. Com as suas mãos, tentou de esfregar a cara e a cabeça, mexendo os cabelos com força. Porém, aquela friagem com dedos próprios voltava a lhe invadir o crânio como se lhe quisesse congelar o cérebro.

Voltou-se, mas nada viu. Continuou sua marcha cheia de apreensão e começou a cantar baixinho como um intuito vão para libertar-se da sensação medonha que a estava dominando. Mas com pouco êxito.

Diante dela viu algo. Parecia uma sombra, uma sombra de luz. Não de luz brilhante, mas ténue, suave que, ao se aproximar, voltava em transparente. Como translucida. Transportava um farol[3] que se movia para um lado e para outro.

Pronto, junto desta foram aparecendo outra e outra até fazer um coro que a rodeava, movimentando- se com ela no percurso da ruela. As sombras brancas portavam faróis acessos que abanavam com seu movimento. Tentou fugir, mas não tinha para onde. Num desespero berrou num fio de voz:

Quem és? Que é o que quereis?

A voz de Luzia saía entrecortada e débil da sua boca.

Só um murmúrio parecido ao do vento saiu, como única resposta, daquela comparsa fantasmal. Sua avó Gilberta tinha-lhe falado da Santa Companha[4] quando era meninha. Do coro das Estantigas. Almas em pena que vagueiam polos caminhos nas noites de névoa, para ganhar algum caminhante que ousar olhar para elas. Deitam-lhe o ar da morte e levam-no com elas a aguiar eternamente. Mas ela nunca tinha acreditado. Eram contos de velhas…

A angustia começava a dominá-la e sentiu como a rigidez lhe ia prendendo seu corpo. Primeiro foram suas pernas que se negaram a avançar, fazendo mais lenta a sua marcha até acabar por pará-la totalmente.

Suas mãos, que utilizara para esfregar a cabeça havia um pouco, ficaram lentamente caídas ao longo do corpo, inermes os braços e abandonados os ombros.

O terror frio e paralisante já a invadia por completo.

Foi nesse momento, com todas as suas defesas caídas, quando sentiu que algo tomava suas mãos, com delicada frialdade e fazia que seus braços envolvessem uma sombra branca e de contornos difusos.

Outra destas agarrou-na desde detrás polo vão[5] e, com a mesma suavidade, moveu suas coxas mentres uma música soava vinda de nenhum recanto.

Como em sonhos, notou virar seu corpo que deu um giro para ser abraçada por outra daquelas figuras sinistras que a faziam dançar num ritmo lento, suave e fácil, ao som duma música que ela não podia identificar.

Outras figuras brancas foram-se achegando a ela e envolvendo-a na sua luz ténue, no cenário da ruela perto da casa de seu namorado.

Luzia sentiu que o terror que tivera até aquele momento desaparecia passeninhamente[6], sendo substituído por uma nova sensação que ela não reconhecia: uma mistura de ingravidade e passividade que percebeu como gostosa, agradável.

Naquela semi-inconsciência que a dominava, um prazer doce e tranquilo nascia-lhe nos dedos dos pés e subia-lhe pelas pernas até suas zonas secretas que só tinha partilhado com o Manuel. Inclusivamente “ali”, sentiu um bafo frio que invadia seu sexo, enquanto seus braços eram sustidos a volta dum daqueles corpos etéreos e seu vão seguia-se movendo guiado por umas mãos frias, mas acariciadoras que lhe marcavam o ritmo a que não podia recusar-se.

Sentiu eriçar seus mamilos quando outro daqueles espíritos roçou-lhos com suavidade fria. E o desejo seguiu a sua excitação. Nestes momentos já não tinha nenhum domínio sobre seu corpo que se abria e dançava voluptuosamente ao ritmo que as sombras lhe marcavam, desde os pés até as coxas, as pernas e os braços.

Sua cabeça, deitada para atrás, oferecia a cara e o pescoço ao abraço frio do coro fantasmal, enquanto seu rosto mostrava uma aceno de êxtase total.

Toda ela estava a ser possuída por uma companhia de ánimas[7], que ora gemiam ora cantavam, ou gritavam com suavidade provocadora. A energia fria que irradiavam percorria-lhe o corpo inteiro.

Ingrávida[8], deitada no ar da noite, sentiu como as ondas do prazer percorriam seu corpo desde o seu interior até toda a sua pele, para chegarem a seus lábios que exalaram suaves e rítmicos gemidos.

Toda ela vibrou, levitando ao ritmo daquela orgia macabra, enquanto as sombras vibravam também com ela. E sacudiam seus faróis que bailavam também junto com todo o coro, representando o ato final uma apoteose coral.

Ainda ficava nela o sentimento de prazer e o relaxe começava a dominá-la, quando se encontrou batendo na porta do Manuel.

— Meu amor, estava a aguardar por ti com ansiedade mal dissimulada (O rapaz estendeu seus braços para ela num aceno carinhoso.).Esta noite estás mais formosa que nunca! Diria-se que tens luz no rosto.

Manuel abraçou a Luzia. Beijou-na com paixão e, da boca dela, uma névoa suave e luminosa foi-se estendendo polo quarto, envolvendo a Manuel e penetrando-lhe até o interior de seu corpo.

Ele sentiu o frio invadir suas carnes e seu sangue, mas não hesitou e não largou a mulher. Não podia evitar abraçá-la. Já não podia ceivar-se dela. Nem tampouco o desejava.

Os dous amantes, fundidos um no outro, não foram já senão luz e nevoeiro.

Juntos partiram à procura doutros corpos com quem dançar o baile da Santa Companha, abalados no vento da morte.

— Luzia ! Luzia! — A voz cascada da velha Gilberta soava entre as pingas de orvalho e a luz fria do luar:

Ai daqueles a quem lhes dá o ar da Companha

ao saírem sós de noite por esses caminhos fora!

A escritora galega Adela Figueroa Panisse nasceu em Lugo e viveu em Pontevedra por mais de 26 anos. Lá, desenvolveu a maior parte de sua atividade docente, como professora de Biologia. Agora aposentada, e de volta a Lugo, escreve poesias, contos, obras de teatro e de ficção em geral. Tambem se dedica a temas ecológios e sociais. Trabalha como Voluntaria na Organização Ecologista ADEGA e preside a Fundação Eira, que custodia o patrimônio cultural e natural da Galiza.

Obras:

Poesia: Vento de Amor ao Mar, A Xanela Aberta, Memória de Pés Sem Sombra, além de colaborações em diferentes obras coletivas.

Narrativa: Madeira de Mulher, Atlantidae, Mulher d’Água e numerosas colaborações em revistas literárias.

Teatro Infanto-juvenil: O Mistério da Escada Interior.

Contos para Crianças: O Rei da Floresta, Cloe a Amiguinha das Flores.

 

NOTAS

[1] Na mitologia luso-galego-leonesa, ente “do sexo feminino, espécie de sereia ou fada aquática, que habitaria nas partes mais profundas dos rios” (Dicionário Estraviz). O mesmo que Janas. No Brasil, temos a Iara, ou Mãe D’Água.

[2] Enquanto.

[3] Caixa de cristal onde se mete uma luz (Dicionário Estraviz); lampião.

[4] Procissão de entes fantasmagóricos.

[5] Cintura.

[6] Lentamente.

[7] Almas.

[8] Não sujeito à lei de gravidade (Dicionário Estraviz). Flutuante.

 

 

Adela Figueroa Panisse

Adela Figueroa Panisse

Adela Clorinda Figueroa Panisse é de Lugo (Galiza), fazedora de versos, observadora do mundo e cuidadora de amizades. Trabalhadora no ambientalismo e na criatividade da palavra. Foi professora e lutadora pela recuperação da dignidade da Galiza e, ainda, pela solidariedade entre os seres humanos e a sua reconciliação com a terra. Gosta de rir, cantar e de contar contos. Também de escutar histórias, de preferência ternas e de humor.
Adela Figueroa Panisse

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  • abanhos

    E esta mulher ainda não é académica ?

    Gostei