Luís Fontenla : “No caso de existir hoje o MDL acho que estaria a fazer o trabalho que a AGAL faz”



luis-fontenla-01Luis Fontenla Figueroa nasceu num berço de galego internacional e foi ativista em muitos coletivos, entre eles o MDL.

Mora na rural e tem esperanças para ele. É pai e adora o projeto Semente.

O seu programa linguístico para 2040 é ambicioso, mas talvez o único possível.

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Sempre perguntamos os novos sócios polo momento em que tomaram contacto com a estratégia internacional. Ora, no teu caso nem é fácil responder essa pergunta.

Pois, na nossa casa havia muita normalidade a respeito do português.

Tive a fortuna de aprender a ler com os livros do Tio Patinhas ou dos Heróis da Marvel em português ao mesmo tempo que lia outros livros para crianças em galego “da Xunta” ou livros em castelhano. Viajávamos cada pouco tempo a Portugal pelo qual faz parte da minha infância.

Luís é pai. Que mudou desde a década de 80 até agora? Mais facilidades com a Internet? Alguma dificuldade nova?

Ser pai hoje, antes de mais, coloca-nos num desafio perante nós mesmos. Que atitudes vamos ter para resolver conflitos? Que exemplos de conduta? Como gerir os comportamentos machistas? E com as línguas e as identidades diversas? Nesse sentido ser pai é o fontenla-forum-linguamaior dos presentes que podes receber. Também com respeito ao conflito linguístico.

Já se falamos em “ser crianças” hoje, acho que é mais complexo agora do que antes. Há poucos espaços de encontro entre crianças e poucas crianças dentro das famílias. Isto é uma dificuldade importante para terem com quem interagir entre iguais. A vantagem dos dias de hoje? Talvez que muitos pais e mães procuramos criar de maneira respeitosa e sem que a aprendizagem tenha a ver com castigos e a autoridade com o medo.

Mas voltemos à língua…

Sobre a língua e as crianças temos um grande problema a nível social com as escolas e as TVs. As soluções excedem esta entrevista. Mas não posso falar de filhas e de língua sem falar das escolas Semente, que são uma das cousas mais lindas que aconteceram nestes anos.

Também na pública está a haver uma mudança importante com a incorporação de professoras jovens mas como disse o tema excede a pergunta.

Continuando com a Internet e as crianças, a Internet fornece conteúdos em português e isso é magnífico, mas em contrapartida o imediatismo dos telemóveis é algo que ainda estamos a aprender a gerir.

A parte mais positiva é que existem esses conteúdos e estes são bons. A Porquinha Pepa, o Pocoyo, Charlie e Lola,etc. são conteúdos interessantes para aprenderem língua, mas também porque são conteúdos de qualidade.fontanla-conhece_vigo_2

Na adolescência foste ativista em EI, estudantes independentistas. Que lembras daquela experiência?

Bem, estar em EI, ou depois nas lutas contra a LOU ou no Nunca Mais faz parte dum percurso vital. Ali onde me encontro sempre acabei por me associar ou unir forças com outras pessoas que tivessem interesses ou problemas partilhados.

A primeira vez que me lembre que me associei a alguma entidade foi com 12 anos no Clube de Rol de Pontevedra (um dos poucos espaço galeguizadores nos anos 90). Com os meus amigos falávamos galego de portas para dentro. Ao transpor a porta voltávamos ao castelhano ambiental, mas já era alguma cousa.

Participei na Ass. Reintegracionista Ene Agá de Pontevedra desde o seu nascimento, depois nos EI, no MDL, nas lutas contra a LOU, no Nunca Mais, etc.

O que mais lembro são o bom ambiente entre companheiras, a camaradagem, acreditávamos muito em nós mesmas, na nossa irmandade e naquilo que estávamos a fazer.

Mas sobre a língua também lembro a dificuldade enorme para tender pontes entre diferentes identidades e normas linguísticas. Penso que, entre muitos, fizemos um grande trabalho a esse respeito.

De todos os coletivos em que tens participado destacarias algum?

fontenla-raia-01Talvez um dos coletivos em que tenho participado que menos relevância pública poderia ter foi a “Coordenadora Galega de Roteiros/ Fazendo memória histórica ” e por isso gostaria de destacá-lo.

Fazíamos roteiros recuperando a história local de resistência antifranquista e também aproveitávamos para nos encontrar sem ser em assembleias ou trabalho diário. Uma cousa simples, o encontro humano, natureza, caminhar e conhecer a história de lutas anteriores de mãos dadas. Foi um espaço de convívio e aprendizagem que nos tem marcado a muitas de nós.

Fizeste parte, de forma intensa, do Movimento em Defesa da Língua, MDL nas suas siglas. Que representou o MDL na história da ativismo linguístico?OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Bem na minha opinião o MDL foi um fracasso e um sucesso ao mesmo tempo. Acho que foi um fracasso na proposta sobre a qual se convocaram os grupos para o seu nascimento: como organização nacional unitária de todos os coletivos locais.

Também visava em certa maneira ser o braço linguístico dum movimento político mais amplo, mas havia prioridades mais urgentes que atender da parte da política.

Mas foi um sucesso como referente de diálogo, de superação de conflitos e novos encontros.

A camaradagem (entre nós e com as outras) de que falava antes era o tema central que trabalhávamos no MDL.

Defesa da língua, sempre com otimismo, incluindo outros coletivos nas atividades, procurando pontes, tecendo cumplicidades, aproveitando sinergias…. Fazíamos o típico, jornadas, palestras, atividades de rua, etc. e se penso nisso fizemos uma data de cousas mesmo para o pequenos que éramos….

Mas sobretudo se olho para o mais representativo (no plano do que permaneceu depois do MDL) foi sem dúvida o trabalho de achegamento, e acho que o nosso trabalho deu os seus frutos.

Que dentro da AGAL seja possível escrever em português, que surgissem partidos como o Partido da Terra ou que exista a própria AGLP, mas também mesmo as campanhas de Via Galego (aprende a ler en portugués) ou mesmo textos comuns com a Mesa são fruto de muito trabalho prévio feito por muitas pessoas desde diferentes lugares.

Foi um trabalho de formigas construir pontes entre posições muito fechadas arredor da língua e da identidade. E o MDL junto com outros dedicou muito do seu tempo em criar essas pontes. Alguma cousa fizemos bem, pois penso que pelo menos o nosso grão de areia lá está entre o dos outros.

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Moraste no Courel com a tua família e agora morades numa freguesia rural da Laracha. Como enxergas o futuro do rural galego?

Bem, entendo que existe uma grande diferença entre a montanha e o resto do território. Saber aproveitar essas diferenças e convertê-las em vantagens é um dos pontos chave para criar um novo futuro habitado da montanha.

A modo de exemplo, nós trabalhamos muito a nossa relação com as nossas vizinhas e fizemos pequenas-grandes cousas através da Comunidade de Montes onde morávamos. Um futuro na montanha entendo que passa pelas Comunidades de montes, as cooperativas e o artesanal. Ter pessoas a morar na montanha é uma sorte para o nosso país e deveríamos poder oferecer como sociedade, por exemplo, um modelo fiscal diferente ao resto do território.

Voltando ao genérico “rural”, ao igual que acontece com a língua existem políticas de governo para acabar com a sociedade fora das cidades.

E o esquema é o mesmo. Que pareça que morreu “de maneira natural” porque a ninguém interessava. Nada mais longe da realidade, pois é uma morte provocada.

É um tema também complexo, mas, simplificando, o futuro das pessoas que vivem na terra ou da terra passaria por vários eixos interligados. A auto-organização das pequenas-produtoras. A organização das pessoas consumidoras das cidades. E uma nova política institucional que não impeça o desenvolvimento local. Que conte com as pessoas implicadas na elaboração de alternativas e de legislação. Continuamos a regular o território, as normas fiscais, sanitárias,urbanísticas, etc. A partir da “urbanidade” das cidades e isso é parte do problema..

Se alguém trabalha nesse âmbito o meu conselho seria sempre o mesmo, procurar os teus iguais, associar-se e ser unidas.

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O reintegracionismo está no seu melhor momento? Porque caminhos deveria transitar para avançar socialmente?

Acho que se estão a dar os passos certos em todos os âmbitos. Sou muito otimista nesse aspeto. Deveria caminhar através de três ideias-eixo: unidade, camaradagem e trabalho de formiga queOLYMPUS DIGITAL CAMERA dê frutos para o conjunto da sociedade.

Que te motivou a te enrolares na AGAL e que esperas dela?

Principalmente ter-se aberto a aceitar oficialmente as identidades e normas diversas. No caso de existir hoje o MDL acho que estaria a fazer o trabalho que a AGAL faz. Espero que se mantenha, cresça e continue a propor soluções de avanço social.

Pensa em 2040. Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza dessa altura?

Mmm. Imagino um inventário ideal a modo de enxurrada de ideias. Ai vai:

Ano 2040:

-O galego como língua veicular no ensino é totalmente aceite e tem o seu maior apoio nos pais falantes de castelhano.

-O Português oferece-se como opcional em toda a secundária e tem grande número de alunas

-Começa o programa piloto de português ambiental (imersão linguística) na primária

-As Escolas Semente em todas as cidades contam com apoio institucional.

-O Governo galego fruto das campanhas binorma aceita três “línguas” oficiais :

Português – Galego – Castelhano

-Os porta-vozes de todos os partidos políticos sabem falar português corretamente e utilizam a nossa língua nos organismos internacionais

-Temos duas rádios galegas de qualidade e 100% em galego

-A livre receção das Rádios portuguesas.

-As Tvs portuguesas de livre receção começam a criar alguns conteúdos para a Galiza.

-Clan TV em português é financiado pelo Governo de Portugal

-Há dois jornais galegos diários em papel e um jornal diário do Eixo-atlântico

-Todas as bibliotecas/centros ensino dispõem de jornais em português ao lado dos jornais em espanhol.

-A Universidade Aberta oferece-se igual que a UNED e tem muitas alunas

-Governo português cria a primeira das “Escola portuguesas” na Corunha para atender a comunidade lusa.

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Conhecendo Luís Fontenla

Um sítio web: A Wikipedia OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Um invento: A língua escrita

Uma música: Como nossos pais Elis Regina

Um livro: O estranho caso do cão morto

Um facto histórico: A descoberta do lume

Um prato na mesa: Empada de zamburinhas

Um desporto: Caminhar

Um filme: A Caverna do Cachorro Amarelo – Die Höhle des gelben Hundes – Шар нохойн там (2005)

Uma maravilha: A amizade

Além de galego/a: aberto ao mundo

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim


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  • Ernesto V. Souza

    Que bom te ter no barco Luis.

    É bem significativa a incorporação de pessoal do mais construtivo.

    Hoje, Agal é mais que nunca, hoje…

    Saúde

  • Santiago Silva Varela

    Tenho que reconhecer que por causa do tempo, ia desconectar-me da internet. Mas fiquei absorvido pola entrevista. Muito boa!

  • Mário J. Herrero Valeiro

    Mais um imprescindível na AGAL!