Luís Cachafeiro : “A língua materna dos meus avôs não era a de nenhum dos seus quase quarenta netos”



Luís Cachafeiro, Ourense, falou castelhano até aos 18 anos em que rumou para o galego influenciado polo seu professor Francisco Rodríguez.

A dada altura apercebeu-se que língua materna dos seus quatro avós não era a de nenhum dos seus quase quarenta netos.

Professor de Matemática observa com aflição a legislação linguística ao respeito. Julga que o bipartido encetou medidas eficazes para alterar o statu quo da nossa língua. Espera do reintegracionismo e da AGAL que se dialogue com os não-reintegracionistas e que se coloquem debates profundos sobre a língua e o seu porvir

 

Luis Cachafeiro

Luís Cachafeiro nasceu em Ourense. Como era a paisagem linguística da tua infância e adolescência e quando decides mudá-la no que te diz respeito?

Na minha infância o galego estava fora do meu ambiente íntimo: familiar, escola, amizades. Vivia em castelhano, mas a minha avó paterna falava galego e na loja do bairro o galego era bem presente, sem que eu o percebesse. Mudei na Universidade com 18 anos, influído pelas aulas de Francisco Rodriguez, também ao comprovar que a língua era um elemento de opressão contra a gente do povo: os “señoritos” riam do povo trabalhador por falar a língua do país. Ouvi uma mestra presumir de bater nas crianças por falá-la (depois soube que era muito comum). E também ao pensar que todas as gerações anteriores a meus pais falaram sempre galego. A língua de todos os antepassados desaparecia. A língua materna dos meus avôs não era a de nenhum dos quase quarenta netos. Ao mudar, eu era um elo de sobrevivência de algo natural: os povos falam a língua própria.

És professor de Matemáticas e dás aulas em galego desde o ano 1978. Em que medida a legislação atual obrigando a lecionar as Matemáticas em castelhano afetou os docentes desta matéria?

Não tenho dados gerais mas necessariamente afetou muito e acho que a proporção das aulas em galego seja bem escassa. Pelo medo a repressões, a falta de meios… Mas vejo triste que se esteja a privar as crianças de aprender a Ciência a partir do galego e penso que reflete a degradação do nível de consideração da língua e a desaparição dela no nosso país.

Como uma das precursoras das ditas ciências exatas, as Matemáticas recolhem muito léxico específico. Neste sentido, a língua da Galiza está muito castelhanizada. Quais têm sido as estratégias ao respeito do galego que aparece nos livros, recorrer a outras variedades nacionais da nossa língua, criar termos novos ou transigir com o statu quo?

O primeiro texto educativo para o antigo BUP em galego foi precisamente para a Matemática, e realizado pelo coletivo Vacaloura. Algumas das escolhas privilegiavam a forma portuguesa, mas boa parte do professorado depois não as usava considerando que era mais cómodo seguir as formas castelhanas. O que prova que pressão do castelhano é muito forte.

No teu labor de docente, em que medida sentes a retrocesso dos usos do galego nas tuas turmas? Uma experiência como os Ops em que medida pode ajudar a mudar perceções linguísticas?

O retrocesso é evidente mas vai por zonas. Hoje tenho algumas turmas com mais falantes que as que tive noutras localidades há quase 40 anos. O problema é que se reduzem as zonas de falantes e sobre todo nas primeiras idades. Como inverter a tendência? A experiência dos Ops pode ser uma grande ajuda. Conseguir dignificar a relação com outras variantes da língua comum é importante.

Algumas medidas do bipartido ajudavam a tomar consciência do valor da língua (exame em galego para o concurso de vagas que até então não havia, aumento das aulas em galego, em especial Matemática e Ciências físico-químicas, galescolas) e acho que já começaram a dar algum fruto. E por isso logo tiveram contestação dos poderes políticos e mediáticos. Se aquilo tivesse continuado, acho que outro passo adiante que se produziria seria aproximar-nos das outras variantes da língua.

Luís é um leitor voraz. Em que medida a leitura em português tem ajudado a aprimorar os teus registos linguísticos pessoais?

A leitura em português ajudou-me a pensar que, além das diferenças com a ortografia do galego normativo, a língua em si diferia tão pouco que, sem ser linguista, o lógico era que se tratasse da mesma língua. Como leitor olho mais para o que descreve e o mundo ao que me transporta que para os registos linguísticos.

Por onde julgas que deveria transitar o reintegracionismo para avançar socialmente? Quais seriam as áreas mais importantes?

Tentar espaços de debate com não reintegracionistas que ajudem ao desenho de estratégias comuns para o futuro da língua.

Uma parte dos problemas nascem de preconceitos para com Portugal. Penso que não deveria deixar-se passar a oportunidade de apoiar-se na potência da comunidade lusófona para avançar. É necessário abrir caminhos, por exemplo, no campo universitário, em que se podia ter aproveitado muito mais o que não se fez pela comodidade e o deixar-se ir. Outro preconceito é que o galego está bem como está e há que evitar ser uma marca do português. Mas por esse medo e também por seguir ao castelhano nas decisões nas quais podia fazer-se uma escolha alternativa, tomaram-se decisões absurdas (lembro como muito surreal que o dígrafo ll e o ch passassem a ser uma única letra porque assim era no espanhol, e quando o espanhol mudou houve que segui-lo outra vez), o que prova que quando menos em parte o reintegracionismo tinha razão.

Num dos campos que já devia estar acordado com sectores não reintegracionistas era primar o uso nos aparelhos tecnológicos das opções portuguesas ali onde não há uma para o galego normativo. É incrível também que nos endereços de Internet não se tenha aproveitado mais o nh para escrever endereços como, por exemplo, do Concelho da Corunha, em vez de usar o n só – coruna- ou nn -corunna-. É que nem houve uma campanha para a promoção do nh, imagino que pelo medo ao reintegracionismo.

Que te motivou a te tornar sócio da Agal e que esperas do trabalho da associação?

Se desde há muitos anos pensava que galego e português são a mesma língua, é lógico apoiar a principal associação que caminha para fortalecer esse ponto de vista.

Gostaria que Agal pudesse pôr sobre a mesa debates com todos os que querem um futuro para o galego com seriedade e entendendo que todos os apoios para a língua do país são necessários. Esses debates deveram ser francos e pensando na situação real do galego.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2040?

A primeira que ser falante da língua própria fosse verdadeiramente prestigioso. Um país orgulhoso do seu passado e língua. E já que a Galiza sempre foi um país aberto para o mundo gostaria que se tivesse muito contacto com a lusofonia.

Conhecendo Luís Cachafeiro:

Um sítio web: Não tenho nenhum especial.

Um invento: transístor. E meter milhares de milhões de transístores num chip é incrível.

Uma música: Treixadura.

Um livro: O livro de X. P. Docampo A nena do abrigo de astracán acho que é um dos melhores dos últimos anos.

Um facto histórico: Revolução dos Cravos. Vivemo-la com a alegria de convencer-nos de que a ditadura de Franco acabaria dum jeito ou doutro e portanto com consequências diretas para nós.

Um prato na mesa: Filhoas.

Um desporto: Ciclismo.

Um filme: O filme pacifista Johnny Got His Gun. E Mamasunción de Chano Piñeiro.

Uma maravilha: O que conseguiu a humanidade olhando para o céu, que não é outra coisa que uma pequenina janela onde ver o universo, e a inteligência humana foi capaz de descobrir a partir de aí coisas inimagináveis. Se essa inteligência se transportar aos problemas humanos seriamos capazes de grandes coisas. Ou é que os humanos somos mais complexos que o próprio universo?

Além de galego/a: Amigo dos amigos.

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim


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