Lorena González : “O estudo do português para mim foi como redescobrir a minha própria língua”



lorena-01Lorena González Gil, teve na língua dos seus professores um apoio para apostar no uso do galego. É perita em micro-poluentes de muitos teores.

O castelhanismo poderia ser visto como um fármaco que não reporta benefícios.

É fã da Escola de idiomas e julga que é no ensino formal, entre crianças e adolescentes, onde se deve focar a estratégia reintegracionista.

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Como foi a infância e a adolescência de Lorena em termos de ecologia linguística? Que línguas fluíam no ambiente familiar e no escolar?

A ecologia linguística era diversa. Em casa e com a família só se falava e fala galego, mas em circunstâncias formais, por exemplo, ir ao médico, mudávamos para o castelhano, coisa que minha mãe continua a fazer. Por desgraça, essa imagem do galego como língua de segunda continua a estar no subconsciente de muitas pessoas… Na escola, havia colegas que usavam maioritariamente o galego, outros o castelhano, e muitos mudávamos de língua a depender de com quem falássemos. Entre o professorado, o galego era língua predominante e valorizada, e acho que esta perspetiva teve uma grande influência para eu apostar no galego. As outras variedades da nossa língua estiveram sempre presentes, por morarmos perto da fronteira e por termos família no Brasil.
Se parares a pensar nas tuas amizades, colegas… que caminhos seguiram elas do ponto de vista de usos linguísticos?

No que diz respeito às amizades da infância, o castelhano é a língua mais usada. No entanto, a atitude face ao galego é sempre positiva. A opção reintegracionista é ainda uma grande desconhecida. Quanto às amizades da etapa universitária, o galego é em muitos casos a língua principal, com notáveis diferenças de opinião sobre a projeção internacional da língua.

Lorena acaba de defender recentemente a sua tese de doutoramento, sendo o seu campo de pesquisa a engenharia química, mais concretamente, o tratamento de micro-poluentes (fármacos, cremes, etc.) nas águas residuais. Que perspetivas se abrem agora? Por onde gostarias de rumar?

Pronto, esta é a pergunta do milhão nos últimos meses… Na verdade, ainda não tenho uma ideia muito clara de por onde gostaria de rumar. A investigação é uma carreira que pode dar uma grande satisfação profissional. No entanto, é muito pouco valorizada e apoiada pelos governos, o qual resulta numas péssimas condições laborais, com uma instabilidade que no melhor dos casos começa a se resolver após 10-15 anos de finalizar o doutoramento. Tendo em consideração todo o dinheiro público que se investe em formar um/a doutor/a, não faz qualquer sentido que quando finalizamos e podemos contribuir para a riqueza do país essa opção seja quase inexistente e implique, portanto, uma competitividade exorbitada entre as candidaturas a uma vaga. É por isto que estou a precisar de um tempo para me decidir!

 

Lagoa das 7 cidades

Lagoa das 7 cidades

É comum, quando se fala de línguas que sofrem um processo de substituição linguística como a nossa, usar a metáfora da contaminação/poluição. As interferências da língua estatal sobre a que carece de estado seriam como poluentes. É uma boa metáfora?

É mesmo! Na minha tese estudei como os microrganismos empregados no tratamento de águas residuais integram no seu ciclo metabólico poluentes, como os fármacos, que não lhes reportam benefício nenhum. Porém, fazem isto sem se aperceberem, pois não conseguem diferenciar o poluente de um alimento real (tal como quando nós usamos um castelhanismo). Como resultado o poluente modifica-se e obtemos um outro composto, que às vezes é mais contaminante do que o poluente original (como os castelhanismos galeguizados). Nós fazemos o mesmo com a língua. É por isso que é imprescindível nos apercebermos desta situação para a evitar.

 

Lorena leva vários anos frequentando aulas de português na EOI de Compostela. Que tem a ganhar uma pessoa da Galiza com este investimento em tempo e energia?

Pois, esta também é uma pergunta que tenho de responder com certa frequência. Além das vantagens profissionais associadas a ter um bom nível numa língua com grande projeção internacional, o ganho a nível pessoal é imenso. Para mim foi como redescobrir a minha própria língua, abrir os ouvidos para com as expressões e palavras de meus pais e avós, que são partilhadas por mais de 250 milhões de pessoas, e nas quais não reparava dantes. Para além, se isto todo se consegue numas aulas divertidas e com uma ótima atmosfera, deixa de ser um esforço para se converter num prazer muito gratificante.
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Lorena é uma das mais recentes sócias da AGAL. Que te motivou a dar este passo e que esperas da associação?

Além de querer contribuir para que o galego seja considerado como língua internacional, para dar o passo final e passar de ser “sócia moral” a “real”, foi fundamental conhecer mais de perto o labor da associação e as pessoas que a conformam. Da associação espero que continue a ganhar espaços e que me facilite o contacto com ideias e pessoas que de certeza vão enriquecer a minha perspetiva do galego-português.

O reintegracionismo está a seguir diferentes vias de sociabilização. Na tua opinião, por onde achas que deve transitar para ganhar mais centralidade social?

Do meu ponto de vista, a proposta reintegracionista é a estratégia mais sensata e realista para a nossa língua, mas para ganhar centralidade deve superar preconceitos atualmente muito arraigados. Para além de chegar à sociedade a través das redes sociais, dos centros sociais ou associações vizinhais, talvez a escola seja um âmbito de trabalho primordial, pois é na infância e na adolescência que se descobrem, sem tantos preconceitos, muitas realidades desconhecidas que depois podem ficar connosco para sempre.

Imagina o ano 2040, que “fotografia linguística” da Galiza desejarias nessa altura?

Desejaria que desaparecessem todos os preconceitos que existem sobre o galego e o reintegracionismo, para que deste jeito as pessoas pudessem eleger livremente (sem estarem condicionadas) que língua e que padrão usar. Também desejaria um maior apoio institucional do galego-português no ensino: se uma realidade é desconhecida, dificilmente poderemos ter uma opinião crítica e bem formada sobre ela para eleger a opção que preferirmos.

Conhecendo Lorena González Gil:

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Um sítio web: o google académico (defeito profissional)

Um invento: o alforge da bicicleta

Uma música: qualquer uma de Melodías Pizarras (Rádio 3)

Um livro: A montanha de água lilás, de Pepetela.

Um facto histórico: O movimento Nunca Mais

Um prato na mesa: bacalhau à grelha

Um desporto: o basquetebol

Um filme: Mar adentro

Uma maravilha: as praias da Galiza

Além de galego/a: crítica

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim


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