LEONARD K. ELMHIRST E A DEFESA DO MUNDO RURAL

(Documentários de “Dartington Hall” e “Sriniketon”)



Na jornada de 22 de abril celebra-se em muitos países do mundo o “Dia da Terra”, e no dia seguinte o “Dia Internacional do Livro”, comemorações que é muito importante se celebrarem nos estabelecimentos de ensino para sensibilizar os escolares de todos os níveis sobre temas tão destacados. Com atividades educativo-didáticas adequadas de tipo lúdico, artístico e científico. Entre os vultos mais importantes da humanidade, a que estou a dedicar uma série, que iniciei há tempo com Sócrates, para o tema do “Dia Internacional da Terra” encontrei uma pessoa que durante décadas dedicou todos os seus esforços ao desenvolvimento do mundo rural, primeiro na Índia e depois no Reino Unido. Trata-se do britânico Leonard Knight Elmhirst (1893-1974), com o qual completo o 44 depoimento da minha série.

leonard-k-elmhirst-fotoLeonard K. Elmhirst nasceu a 6 de junho de 1893, dentro de uma família proprietária de terras, em Worsbrough (Yorkshire, Reino Unido), e faleceu na mesma localidade em 16 de abril de 1974, à idade de 80 anos. Era o segundo de nove irmãos (oito rapazes e uma menina). Dous de seus irmãos, que eram militares, foram assassinados, com 20 e 24 anos em 1915 e 1916, durante a primeira guerra mundial. Em 1912 Elmhirst foi ao Trinity College de Cambridge para estudar história e teologia, com a intenção de seguir o seu pai no seu exercício religioso. Em 1914 foi considerado não apto para o serviço militar e ofereceu-se como voluntário para o serviço no estrangeiro dentro do YMCA. A sua experiência sobre os problemas da Índia rural mudou fundamentalmente a direção da sua carreira. Depois de um ano de serviço no exército, desmobilizou-se em 1919 e entrou na Universidade de Cornell em Ithaka (Nova Iorque), para estudar agricultura. Ao chegar aos EUA quase que sem dinheiro, completou com grande sucesso um curso de quatro anos em tão só dous anos. Em 1920 foi eleito presidente do Cosmopolitan Club de Cornell, que era principalmente para estudantes estrangeiros, e descobriu que tinha grandes dívidas e dependia da filantropia e solidariedade dos seus ex-alunos e de outras pessoas. As suas atividades para conseguir dinheiro e saldar as dívidas levaram-no a contactar com uma dama adinheirada chamada Dorothy Payne Whitney, que mais tarde se converteria na sua primeira esposa, em setembro de 1925. Sem a ajuda desta mulher milionária, Elmhirst não poderia ter posto a andar os seus excelentes projetos de desenvolvimento e reconstrução rural em Sriniketon (1922) na Bengala indiana, dentro do campus da Santiniketon de Robindronath Tagore, na localidade de Surul (Índia), nem o de “Dartington Hall” (1931) em Devon -Totnes (Reino Unido). Experimentos que continuam a funcionar hoje, e com grande sucesso.

Essencialmente, Leonard Elmhirst foi um muito importante filantropo e agrónomo que, ademais de criar com Tagore a quinta-escola de Sriniketon em 1922, e a de Dartington Hall em 1925, para o desenvolvimento rural, introduziu a inseminação artificial do gado no Reino Unido, foi presidente da “Royal Forestry Society” (Real Sociedade da Floresta) na Inglaterra, e membro do Comité da Educação Rural na Índia. Em 1946 não aceitou a proposta do primeiro-ministro británico Clement Attlee de outorgar-lhe uma “baronia”. Com uma carta respondeu-lhe que “o meu próprio trabalho, porém, como bem sabem, recaiu principalmente entre os camponeses do Reino Unido, da Índia e dos EUA, e em Devonshire, se eu aceitasse não seria fácil explicar isto aos meus amigos para que o compreendessem”.

Em setembro de 1925 Leonard casou-se com a norte-americana Dorothy Payne, com a qual teve dous filhos. Ela teve uma filha antes do seu primeiro casamento, chamada Beatrice Straight (1914-2001). Depois da morte de Dorothy, Leonard casou-se em 1973 com Susanna Isaacs, na localidade de Worsborough-Yorkshire.

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Entre outras atividades importantes desenvolvidas por Leonard estão o seu trabalho para a Universidade de Exeter e a participação no Conselho do Condado de Devon e noutras organizações locais. Também a participação em 1929 na Conferência Internacional de Economistas Agrícolas, a trazida de gado da Rússia para Devon para a sua inseminação artificial, a presidência que já comentámos da Real Sociedade Florestal do Reino Unido, o serviço público na guerra durante a 2ª Guerra Mundial, incluídas missões agrícolas no Oriente Médio e na Índia, a irrigação e hidroeletricidade no vale do rio Damodar na Índia e, em 1954, o ser nomeado membro do comité indiano de educação rural. Ainda hoje em dia na Bengala indiana, na Santiniketon de Tagore, perto de Calcutá (Kolkata), funciona uma organização comunitária com o seu nome, que continua a promover o desenvolvimento do mundo rural e das aldeias próximas, tanto em temas artesanais como de assistência social e de saúde, e na promoção da agricultura, da pecuária, das florestas e da jardinagem e floricultura. Ademais de manter viva a grande figura de Leonard Elmhirst.

FICHAS DOS DOCUMENTÁRIOS:

1. Dartington Hall. Fundação. Vídeo de 6 minutos.

2. Dartington Hall Estate. Devon, R. U. Vídeo de 14 minutos. BBC 2016.

3. Dartington Hall School, 1974. Vídeo de 6 minutos.

4. Dartington Hall. Vídeo de 6 minutos. 2013.

5. Sriniketan: Artesanato e educação para a vida.

Vídeo de 22 minutos realizado por Kim Schonewille, em 2014. http://art.gold.ac.uk/tagore/tag/craft/

QUINTA-ESCOLA DE SRINIKETON :

Encontrando-se nos EUA no ano 1921, Leonard Elmhirst conhece Robindronath Tagore, e em novembro desse mesmo ano regressa à Índia como secretário do próprio Tagore. Em 1922, na aldeia de Surul, denominada agora Sriniketon (que significa “Morada da Abundância” em bengali), a três quilómetros da Santiniketon (“Morada da Paz”) tagoreana, em pleno coração da Bengala indiana, a 150 quilómetros de Calcutá (hoje de nome oficial Kolkata), Elmhirst estabeleceu, com a inestimável ajuda económica da sua esposa Dorothy, para Tagore, um Instituto de Reconstrução Rural. Entre 1923 e 1925, Leonard andou duas vezes ao redor do mundo, dando conferências e apoiando as missões de Robindronath na Europa, Ásia e América do Sul. A influência de Tagore, os interesses e dinheiro de sua esposa, levaram posteriormente também Elmhirst a estabelecer em Devon (Reino Unido) um experimento de reconstrução rural similar ao de Sriniketon. O mesmo Tagore viajou algumas vezes a Dartington, familiarizando-se com o ambiente, ajudando Elmhirst a escolher as propriedades que foram compradas por várias transações em 1925. Alargando-as com a compra doutras terras, próximas às familiares do seu nascimento em Houndhill.

Em 1912, Robindronath Tagore comprou uma grande casa solarenga com terras circundantes em Surul, a 3 quilómetros de Santiniketon, onde em 1901 tinha criado a sua “escola nova”. Esta casa era propriedade do Rajá de Raipur, e nela estabeleceu o seu Instituto de Reconstrução Rural, que ainda funciona hoje, e que teve como primeiro diretor Leonard Elmhirst. De imediato uniram-se a ele o filho de Tagore Rotindronath e também Sontosh Chondro Mojumdar, Gour Gopal Ghosh e Kim Taro Kasahara. Em 1923, ao redor desta casa, e contíguo ao campus da universidade internacional tagoreana de Visva-Bharoti (“Sabedoria Universal”), localizaram-se os terrenos da quinta-escola de Sriniketon. Onde, com o nome de “Silpo-Bhovon” se iniciaram as escolas de artesanato. O experimento-projeto de Sriniketon assumiu o importante objetivo de devolver a vida na sua integridade às aldeias (fundamentalmente “Santales”) e ajudar as pessoas a resolver os seus próprios problemas em vez de impor-lhes a solução a partir do exterior. Antes de dar soluções, realizaram-se estudos científicos dos diferentes problemas que tinham as aldeias. Concordando com as ideias sobre a reconstrução da vida das aldeias, também se concebeu um novo tipo de escola destinada principalmente às crianças das aldeias vizinhas, que eventualmente levaria a oferta dos seus conhecimentos adquiridos para o bem-estar da comunidade da aldeia. Para isto estabeleceu-se num lugar muito próximo a escola rural de “Siksha-Sotro” em 1924, integrada em Sriniketon em 1927. Em 1936 estabeleceu-se uma organização para a propagação da educação não formal entre os que não tinham acesso às oportunidades educativas habituais. E, em 1937, um centro de formação de mestres de escolas rurais. Já em 1963 se criou em Sriniketon uma escola agrária, e em 1977 o Centro de Investigação Rural. Hoje também existe no lugar um Departamento de Trabalho Social, vinculado à universidade tagoreana.

Em Sriniketon, para o desenvolvimento do mundo rural, funcionam numerosas escolas de formação profissional, de artesanato (coiro, papel, teares, olaria, batik, tecidos…), agronómicas (cultivos variados, cultivos de plantas e flores, legumes, árvores de fruto, jardinagem, luita contra pragas, indústrias fitogénicas…), de pecuária (aves, mamíferos, indústrias zoogénicas, luita contra doenças, veterinária…). Durante os dias 6 a 8 de fevereiro de cada ano organiza-se no campus de Sriniketon uma grande feira, onde se amostram as atividades variadas que ao longo do ano se organizam na quinta-escola e se vendem os numerosos produtos, especialmente artesanais, que ali se elaboram.

QUINTA-ESCOLA DE DARTINGTON HALL:

Em 1925 Leonard e Dorothy Elmhirst compraram a sala medieval de Dartington Hall, localizada a sul de Devon. O arquiteto William Weir foi o encarregado por eles para renovar os prédios e restaurar o teito da casa com o seu grande salão. Inspirados por uma longa associação em Santiniketon com Robindronath Tagore, onde este queria promover a educação nova e progressiva, e a reconstrução rural das comunidades “Santales”, decidiram levar adiante um objetivo similar no Reino Unido, para desenvolver a economia agrícola também bastante deprimida no rural deste país. Dez anos mais tarde, em 1935, fundam o “Dartington Hall Trust”, uma organização e fundação benéfica registada, para administrar o património e desenvolver o meio rural próximo. A propriedade compreende várias escolas, colégios e organizações caritativas e comerciais, incluindo o College Schumacher, a Escola de Artes, a Escola Internacional de Verão de Música, Centro de Pesquisa e Investigação, Escola de Empreendedores Sociais e numerosas lojas para a venda dos produtos agrários e artesanais. Em 1960, para levar o emprego e a cultura a uma área rural deprimida, foi estabelecido a norte de Devon o Centro Beaford, um centro de arte criado pela Fundação de Dartington Hall.

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A grande Sala e o pátio medieval funcionam em parte como um centro de conferências, seminários e congressos, e mesmo para levar a cabo ali casamentos, e nos prédios próximos oferece-se alojamento e comidas para as pessoas que assistem a cursos e para visitantes ocasionais. Existem também salas de cinema, bares e restaurantes, que são utilizados pelos habitantes das fazendas próximas, os residentes nos arredores e os turistas visitantes por igual. Em 2010 houve alguns problemas com os novos proprietários da fundação Dartington Hall, ao pôr em venda obras de arte (entre elas 12 pinturas que doara no seu dia ao seu amigo Elmhirst Tagore) de vários artistas. A venda gerou muitas críticas dos vizinhos da localidade, que expressaram a sua preocupação pela perda de ativos artísticos que tinham em Dartington.

Durante os verãos funciona a Escola Internacional de Verão, um importante departamento da fundação Dartington, em que ademais de celebrar um festival também é uma escola de música. Os participantes, tanto músicos amadores como estudantes avançados, passam os dias estudando uma variedade de diferentes cursos musicais, e pelas noites assistindo ou participando em concertos. Ademais das aulas magistrais instrumentais e vocais, existem cursos em vários níveis sobre temas como composição, ópera, música de câmara, direção e improvisação. Os cursos complementam-se com corais, orquestras, aulas magistrais individuais e música não clássica como Jazz, Salsa e Gamelan. Ao longo dos tempos têm participado nos eventos grandes músicos e compositores de todo o mundo.

Outro dos grandes atrativos de Dartington são os seus jardins, criados por Dorothy Elmhirst, com a participação de paisagistas muito importantes como Beatrix Farrand e Percy Cane. Contam com um formoso jardim aquático isabelino, e com esculturas importantes de artistas famosos como Henry Moore, Willi Soukop e Peter Randall-Page. No mesmo jardim existe uma árvore de teixo de mais de 2000 anos de antiguidade, e alguns comentam que no mesmo estão soterrados vários cavaleiros templários, o que não é fácil de demonstrar.

Pelo que se refere à Escola de Dartington Hall, esta foi criada em 1926, e oferecia uma vida de internato progressivo e coeducativo. Quando se iniciou houve um mínimo de atividade formal nas aulas e as crianças aprenderam participando em atividades artísticas, lúdicas e educativas. Os castigos corporais estavam suprimidos e também outros tipos de castigos. Não existiam prefeitos, nem uniformes escolares, nenhum treinamento de corpos de oficiais, nenhuma segregação por sexos, nem jogos e religião obrigatórios, nem latim nem grego, nem atividades competitivas: uma nova escola diferente às tradicionais, e muito inovadora. Porém, com o tempo impôs-se algum rigor académico, continuando a funcionar como uma escola progressiva, com grande sucesso, ao educar crianças, muitas bastante díscolas e hiperativas, de pais que pagavam bem pelo seu ensino. Pelas aulas da escola de Dartington passaram importantes personalidades: Lord Young, Lucian e Clement Freud, Oliver Postgate; Martín Bernal, Max Fordham, Ivan Moffat, Eva Ibbotson, Matthew Huxley, Richard Leacock, Lionel Grigson, Marshall Hain e o escultor Sokari Douglas Camp. De 1931 a 1957 a escola foi dirigida por WB. Curry, que escreveu alguns livros sobre a escola. No seu melhor momento a escola teve mais de trezentos alunos. Porém, ao aparecer no país a educação progressista estatal, o falecimento dos seus fundadores e a nomeação dum novo diretor, que já não aceitava a filosofia pedagógica desta escola, somado à publicidade negativa gerada, a escola sofreu uma queda significativa de estudantes e uma baixa matrícula, pelo que em 1987 fechou as suas portas. Alguns dos seus docentes e administrativos criaram mais tarde a Escola Sands, assumindo os princípios educativos da primigénia de Dartington. Pela sua parte, a Escola Superior de Artes especializadas, que funcionou entre 1961 e 2008, com grande reputação internacional de excelência, centrou-se principalmente nas Artes Cénicas. Em 2008 passou à Universidade de Falmouth (Cornwall).

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:

Vemos todos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um Cinema-fórum, para analisar a forma (linguagem fílmica) e o fundo (conteúdos e mensagem) dos mesmos, assim como os seus conteúdos.

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Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Leonard K. Elmhirst, as suas ideias, a sua vida, a sua obra e a suas ações no campo do ensino e no do desenvolvimento do mundo rural, nas quintas-escola de Sriniketon e Dartington Hall. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias. Incluiremos também uma ampla secção dedicada às suas quintas-escola antes citadas.

Podemos criar nos nossos estabelecimentos de ensino um horto e um jardim escolar, para que os estudantes possam realizar experiências agrícolas e de jardinagem. E também para o cuidado de pequenos animais.

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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  • Ernesto V. Souza

    Que maravilha, caro José, mais uma.

    Para mim, do infantário até o doutoramento, a passagem pelo sistema educativo foi uma amargura e uma decepção… Quitando poucas e honrosas exceções, as mais delas periféricas, nem encontrei diálogo, nem quem tratasse de expandir a minha razão, nem quem me motivasse a desenvolver as minhas habilidades mentais, cognitivas e manuais… a contrário, lembro um páramo aborrecido de horas monótonas com o cu colado aos bancos… vendo agora os meus filhos na mesma…

    Lendo porém alguma destas cousas que publicas, vou vendo e conhecendo outros modelos e personagens verdadeiramente inspiradoras. Um ensino mais livre, mais prático, mais racional tem de ser possível e não essa máquina de fabricar títulos para decorar as paredes de pessoas bem guiadinhas….