Lembrar a Revolução dos Cravos do 25 de Abril com o filme ‘Capitães de Abril’



Eu tive a sorte de viver ao vivo e em direto, por encontrar-me por acaso em Lisboa naquela altura, os formosos dias ao redor do 25 de Abril de 1974. Dias em que o povo português, junto com um exército libertador do denominado MFA (Movimento das Forças Armadas), ambos unidos num facto muito poucas vezes repetido na história mundial, deram um exemplo a todos de como levar para a fronte uma revolução sem quase nenhum derramamento de sangue.

Tal revolução, que terminou com a longa ditadura de Salazar continuada por Marcello Caetano, foi denominada “Revolução dos Cravos”. Nas retinas de muitos cidadãos ficaram gravadas para sempre as belíssimas imagens em que homens, mulheres e crianças colocavam nas bocas dos canos das espingardas dos soldados os formosos cravos vermelhos, um símbolo que ficou no tempo lembrando tão belo fato. Que eu pude admirar em direto quando me encontrava na linda praça lisboeta do Rossio, uma das praças mais bonitas que há no mundo. Como bela foi a “ordem” para que os soldados da revolução, encabeçados pelo digno capitão Salgueiro Maia, avançassem sobre Lisboa, depois de ouvirem nas ondas da rádio nacional portuguesa a lindíssima canção “Grândola vila morena, terra da fraternidade, o povo é quem mais ordena, dentro de ti oh cidade!”, da autoria de José Afonso e cantada de forma tão admirável por ele mesmo. Também eu tive a sorte de conhecer e estar com Zeca Afonso no Liceu Recreio de Ourense em 8 de maio de 1972, quando apresentava na companhia de Benedicto Garcia Vilhar, o seu famoso disco “Cantigas do Maio”, que eu tenho assinado por ele, e no qual, entre outras canções, vem a “Grândola vila morena”. Canção que mais tarde foi durante anos em Portugal a canção mais popular, conhecida e cantada por todos, no período dos governos nascidos da revolução de abril. Tenho que agradecer ademais que desde abril de 1974 até 1977-78, graças a esta revolução, em períodos de férias, pude assistir nas localidades de Bragança, Viana do Castelo e Povoa do Varzim, a ciclos de cinema intensivos, em que se podiam ver muitos daqueles filmes que eram durante anos da ditadura, e mesmo depois da morte de Franco em 1975, proibidos em Espanha. Os ciclos duravam uma semana, com cinco filmes por dia e uns 35 em total por semana, sendo esta a forma de recuperar o tempo fílmico perdido e pôr-se a par no conhecimento da filmografia mundial com filmes desconhecidos no nosso país. Entre eles lembro aqueles filmes anti-imperialistas latino-americanos, os antimilitaristas, o Grande Ditador de Chaplin, o cinema de Pier Paolo Pasolini e Eisenstein, o cinema anarquista e também o cinema erótico.

Foi esta a mais lírica, pacífica e exemplar revolução de qualquer país acontecida no mundo. Em que não houve derramamento de sangue e, como antes comentei, o povo chegou a pôr cravos vermelhos nas bocas das espingardas dos soldados. Como já disse, este movimento iniciou-se com o lançamento pelas ondas radiofónicas dessa maravilhosa cantiga do Zeca Afonso, “ Grândola, vila morena“. Acho que por este motivo, especialmente nos últimos anos da escola primária e nos da secundária, dentro da disciplina de história e estudo do meio, é muito importante que os estudantes conheçam este momento histórico e os seus factos, em que muito perto de nós, se dá uma revolução tão singular, que chegou a derrubar uma ditadura de tantos anos. Uma ditadura que também mantinha na África uma longa guerra colonial, em que tantos jovens portugueses faleceram, e tantos cidadãos angolanos, moçambicanos, guineanos, cabo-verdianos, sofreram uma repressão tão terrível, e a espoliação das suas riquezas.O movimento dos Capitães de Abril foi desencadeado pelos oficiais das Forças Armadas portuguesas. Apresentava um programa político com a intervenção de Spínola e Costa Gomes e sob a coordenação de Otelo Saraiva de Carvalho, que elaborou o plano das operações militares, envolvendo todas as principais unidades do exército português. Esta grave crise, a terceira a abalar o regime do Estado Novo, foi, no entanto, fatal para o marcelismo, que capitulou na sequência deste movimento militar, que muito rapidamente transformou o movimento conspirativo num assunto político que refletia a crise da sociedade nacional e o descontentamento instalado entre a instituição militar. O movimento revolucionário de abril de 1974 derrubou o Estado Novo e abriu assim caminho a uma nova era da História portuguesa, com a adoção de um regime democrático. Este movimento foi exclusivamente militar, apartidário e independente das forças políticas, sem qualquer tipo de compromisso com civis. Tinha um programa próprio, que contemplava desde o início a entrega do poder às instituições competentes, mediante um sufrágio que as legitimasse.Os objetivos definidos pelos seus mentores erama mudança da política ultramarina e a transição para uma democracia. Estes pontos angariaram o apoio de muitos oficiais do quadro permanente e dos milicianos que a eles se juntaram, sobretudo após o golpe inconsequente de 16 de março. É preciso dar o realce devido aos problemas internos das Forças Armadas no processo que evoluirá para a revolução. Com a guerra colonial, registou-se um problema de falta de quadros no exército e, para atrair oficiais, foram concedidas facilidades de progressão aos milicianos, sendo claramente prejudicados os oficiais do quadro permanente. As reivindicações destes deram origem a uma série de reuniões mais ou menos clandestinas onde se definiram os pontos básicos de atuação. Aquilo que inicialmente surgia como reivindicação salarial transformar-se-ia num completo programa de reforma da sociedade portuguesa.Contrariamente ao 5 de outubro de 1910, um movimento onde cooperaram civis e militares, sob a orientação do Partido Republicano, e do 28 de maio de 1926, um movimento das forças conservadoras, o 25 de abril de 1974 resultou de um movimento militar sem intervenção civil, nem uma aproximação ideológica ou partidária, o que não impediu que no programa das Forças Armadas estivessem enunciadas as reivindicações da oposição ao regime. Esta revolução fechou uma página da História da nação portuguesa, iniciada com as Descobertas no século XV, e aproximou o país às democracias do resto do continente europeu.

Não podia ser outro, o filme que escolhi para o presente capítulo da série de As Aulas no Cinema, é o titulado Capitães de Abril, realizado no ano 2000 por Maria de Medeiros.

FICHA TÉCNICA DO FILME:

Título original: Capitães de Abril.

Diretora: Maria de Medeiros (Portugal-França-Espanha-Itália, 2000, 123 min., a cores).

Roteiro: Ève Deboise e Maria de Medeiros (apoiado em documentos impressos e icónicos).

Fotografia: Michel Abramowicz. Música: António Vitorino D´Almeida.

Atores: Stefano Accorsi (Salgueiro Maia), Maria de Medeiros (Antónia), Joaquim de Almeida (Gervásio), Frédéric Pierrot (Manuel), Fele Martínez (Lobão), Manuel João Vieira (Fonseca), Marcantónio Del Carlo(Silva), Emmanuel Salinger (Botelho), Rita Durão (Rosa), Manuel Manquinha (Gabriel), Duarte Guimarães (Daniel), Manuel Lobão (Fernandes), Luís Miguel Cintra (Pais), Joaquim Leitão (Filipe), Henrique Canto e Castro (Salieri), Rogério Samora (Rui Gama), Pedro Hestnes (Emílio), Marcello Urgeghe (Locutor da rádio), José Airosa (Paulo Ruivo), José Boavida (Técnico da rádio), António Capelo(Chamarro), Ruy de Carvalho (Spínola), Ricardo Pais (Marcello Caetano), José Eduardo (Virgílio), Peter Michael (Pedro), Raquel Mariano(Amélia), Horácio Santos (Cesário) e João Reis (voz de Salgueiro Maia).

Prémios: Apresentado na secção “Un Certain Regard” no Festival de Cannes, em 2000. Prémio do Público no Festival de Arcachon. Prémio do melhor filme na Mostra Internacional de São Paulo, em 2000. Prémio do melhor filme e melhor atriz (Maria de Medeiros), pelo Globo de Ouro, em 2001.

Argumento: Na madrugada de 25 de Abril de 1974 o Rádio Clube Português emite a célebre e interdita canção de Zeca Afonso, “Grândola”. Trata-se de um código combinado com o clandestino Movimento das Forças Armadas que nessa madrugada levou um grupo de capitães a executar um golpe de estado e acabar com o regime do Estado Novo. O capitão Salgueiro Maia marcha com o seu regimento sobre Lisboa, decidido a tomar a capital sem derramamento de sangue. Entretanto, Manuel, um outro veterano da guerra de África, toma com um punhado de camaradas o Rádio Clube Português que se vai transformar no centro difusor do progresso da revolução. Antónia, a mulher de Manuel, desconhecendo as atividades do marido preocupa-se com o destino de um aluno, preso pela PIDE. Maia chega a Lisboa e com a ajuda de Gervásio, consegue levar os seus “Chaimites” até ao Quartel do Carmo, onde recebe a rendição de Marcello Caetano. Nas ruas o delirante entusiasmo popular aclamava os capitães de Abril.

Capitães de Abril - DVD

UMA REVOLUÇÃO MODELAR CONTADA NUM BELO FILME:

“Capitães de Abril” não foi só o projeto mais arrojado da carreira da atriz Maria de Medeiros, na sua qualidade de realizadora, como foi igualmente uma das mais impressionantes produções do cinema português. Partindo das memórias do capitão Salgueiro Maia, Maria recria com sensibilidade e emotividade o dia que mudou um país. Um golpe de estado absolutamente “sui generis”, na sua conceção e execução que espantou o Mundo e que Maria aborda com contagiante entusiasmo. Entre a apoteose popular nas ruas de Lisboa, com os seus saborosos episódios de circunstância, e os momentos históricos mais marcantes do 25 de Abril, Maria filma com inegável sentido do espetáculo popular a Revolução de Abril. Um belo filme de reconstituição histórica, montado com sinceridade, romantismo e inteligência, que é no limite uma justa homenagem à memória de Salgueiro Maia e a um dia inesquecível que mudou Portugal.

Maria de Medeiros tinha apenas 9 anos quando decorreu a Revolução dos Cravos, a 25 de Abril de 1974 (tinha nascido o dia 9 de Agosto de 1965 em Lisboa).A realizadora portuguesa disse: “Sempre imaginei a Revolução Portuguesa como um filme de aventuras. Consultando longamente os verdadeiros protagonistas, sei que eles viram-se, nesse dia, ligeiramente como heróis de Hollywood. O cinema inspirou-se muito dos feitos históricos. Os Capitães de Abril assim marcados fortemente pela guerra, pareceu-me que era o “filme de guerra” como género que devia explorar, numa perspetiva necessariamente diferente, neste caso feminino”.

O filme conta com a participação de cinco atores estrangeiros (de França, Espanha e Itália) que disseram as suas falas nas suas línguas originais. Embora aparentemente confuso, este trabalho deveu-se à excelente realização do filme. Para uniformização, as mesmas falas foram dobradas por atores portugueses. O filme encontra-se também totalmente dobrado em castelhano, francês, italiano e inglês.

Concordo com o que Tiago Mata Machado escreve no diário A Folha de São Paulo a respeito deste filme tão formoso e tão agradável de ver. No filme de Medeiros há momentos em que aflora o lado quixotesco do levante empreendido, em abril de 74, por jovens militares de baixa patente, contra as guerras colonialistas e a ditadura de Salazar. Pressionados pela intelectualidade local e insatisfeitos com a condição de soldados colonialistas obrigados a lutar por um império morto e uma ditadura longeva, esses militares protagonizaram a mais simpática quartelada do século. A simpatia como arma. É por pura empatia que o líder do movimento consegue arregimentar os colegas de pelotão: “Todos nós sabemos que existem vários tipos de Estado: os Estados liberais, os Estados social-democratas, os socialistas, etc. Mas nenhum deles é pior do que o estado a que aqui se chegou (risos). Acho que é preciso acabar com ele. Quem vem comigo?”. Com cravos na ponta dos tanques e ideias democráticas na cabeça, derrubaram um sistema. A Revolução dos Cravos, no entanto, não foi apenas essa insurreição militar abordada em “Capitães de Abril”. Ela resultou tanto numa grande liberalização dos costumes quanto num completo desmonte do aparelho estatal e institucional português. Durante mais de um ano, Lisboa foi uma festa. E ela mal começa quando o filme de Medeiros acaba. Contentando-se em contextualizar devidamente o primeiro momento da revolução, a diretora lega o tema da liberação sexual a um casal secundário da trama e reserva para si o papel central de uma professora esquerdista, irmã de um ministro salazarista e mulher de um militar. O drama do casal protagonista serve para pontuar os bastidores políticos da época, mas, no final das contas, ele não só remete a um velho cliché hollywoodiano, como atravanca, num paralelismo algo forçado, o essencial do fluxo narrativo: a ação (anti)militar.

Capa jornal 25 de abril

TEMAS PARA REFLETIR E ELABORAR:

  • Depois de ver o filme, utilizando a técnica de dinâmica de grupos do “cinema-fórum”, debater sobre os aspetos fílmicos do mesmo, o roteiro e a linguagem cinematográfica utilizada pela diretora portuguesa Maria de Medeiros (autora também do roteiro), os planos, os movimentos de câmara, os “travellings”, os “flashbacks”, o uso do tempo e do espaço e outros recursos fílmicos que aparecem nesta interessante obra cinematográfica. Também sobre as interpretações dos diferentes protagonistas, femininos e masculinos, as suas atitudes e a psicologia dos mesmos, as cenas mais conseguidas e o uso dos recursos fílmicos em cada momento.
  • Por grupos de estudantes, seguindo a técnica freinetiana da “Biblioteca do Trabalho”, elaborar monografias ao redor das diferentes e importantes revoluções que houve no mundo através da história (francesa, russa, chinesa, etc.), incidindo nas causas e nas consequências das mesmas, estabelecendo comparações e destacando as personagens principais que mais tiveram a ver na correspondente revolução. Naturalmente, uma monografia teria que centrar-se na “Revolução dos Cravos” portuguesa do 25 de abril de 1974. Para documentar-se teriam que os estudantes consultar, ademais da internet, livros monográficos sobre o tema e bibliotecas.
  • Aprender a letra e a música da canção de Zeca Afonso Grândola vila morena, e depois cantá-la, tanto de forma individual, como em grupos. O texto da mesma é o seguinte:

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina, um amigo
Em cada rosto, igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto, igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola, a tua vontade

Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade

Nota: É muito recomendável ver e ler o blogue da professora Olinda Gil sobre este filme.

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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