Kevin Tomé: «A minha filha tem a possibilidade de aprender a norma internacional desde bem pequena, dado que sua mãe e eu falamos duas variantes da mesma língua, ela o brasileiro e eu o galego»



kevin-02Kevin Tomé nasceu na Suíça onde seus pais emigraram, lá se educou até os 11 anos em castelhano e alemám. Retornado ao País, estudou no IES Terra de Xalhas em Santa Comba e formou-se e trabalhou em Hotelaria e Restauraçom em Santiago.

Músico vocacional participou em diversos projetos musicais na Galiza até que emigrou a Bristol, onde mora.

Lá começou a se interessar mais na estratégia do reintegracionismo. Conhecido rapeiro e colaborador de diversos projetos musicais faz a sua vida em inglês e galego.

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Conversar com o Kevin é não parar de rir e contagiar-se de energia e alegria… Fala-nos de ti:

Nascim na Suíça, Aarberg (Berna). Filho de emigrantes dos concelhos de Santa Comba e Negreira. Tenho umha irmã cinco anos mais jovem apaixonada na dança. A minha educaçom linguística até os 11 anos foi em castelhano e alemám. Até os onze falava alemám-suíço e castelhano mas… também falava galego… só que meus pais interagiam preferentemente comigo em castelhano. O galego, nom chegou até a minha volta à Galiza (ainda sendo meus pais galego-falantes).

Umha vez retornados ao País, Santa Comba (Corunha), estudei no I.E.S Terra do Xalhas até rematar a ensino obrigatório e depois formei-me em Hotelaria no C.I.F.P Compostela em Santiago. Comecei a trabalhar servindo em casamentos desde os 16 anos, polo que a minha formaçom profissional se encaminhou sistematicamente para o trabalho em Hotelaria.

Lá, em 2010, criei junto com um companheiro o festival MediaBass, o qual promovia dj’s da área da Costa da Morte e província da Corunha, do qual houvo 3 ediçons, foram interrompidas por questões pessoais dos integrantes, entre as quais se encontrava o eu ter emigrado para Inglaterra.

Nestas terras trabalhei em hotéis e em restaurantes, deve ser costume já.

Inglaterra amadureceu-me como pessoa. Deu-me tempo pra ler, estudar, entender, errar e tantas outras cousas. Recomendo a emigraçom (momentânea) a qualquer pessoa que nom se encontra conforme consigo mesma ou que quer conhecer-se melhor. Nom é fácil mas merece a pena.

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Trabalhaste em hotelaria, mas a tua paixão é a música?

É, com certeza. Umha vez em Bristol, voltei a centrar-me numha paixom que tinha desde bem cativo, a qual é a criaçom musical. Nunca aprendim a tocar instrumentos ou a compor musica, mas isso nunca parou as minha vontade de deixar a minha opiniom numha cançom e ir nutrindo o pensamento com aprendizagens da vida.

Meu selo/sonho é CaixaDoEsquio Prod. Lugar do Youtube onde publico as minhas cançons e produçons quando nom postamos desde Dread2Think, banda que começou em 2015, e que criei junto com Ben Thomas, umha mistura de língua inglesa e a galega.

 

Inglês e galego… Daquela ‘o galego é uma oportunidade’ também em Bristol?

Pois claro, hó!

dread2Dread2Think som duas culturas, duas línguas, duas pessoas muito diferentes mas com umha visom do mundo bem parecida. O rap é o nosso sossego, expressom do nosso sentir.

Nom é umha banda fechada, estamos abertos a incorporaçons futuras focadas na evoluçom da mesma sejam rappers, dj’s ou produtores.

Promovendo as nossas produçons conheci muita gente (graças a internet) que fazia rap em galego.

Entre eles Ricardo Cascalhar (que foi entrevistado no 142 do Novas da Galiza), criador da editora discográfica independente chamada «Língua Nativa». Editora centrada na lusofonia, que mostra o potencial que tem a nossa língua. Nela participam artistas de vários países lusófonos (o galego é mundial!). Ricardo convidou-me para colaborar com eles trabalhando na redaçom da «Língua Nativa» e eu aceitei. Temos umha percepçom da nossa língua muito similar e pessoalmente acho que editoras discográficas como Língua Nativa som necessárias para manter viva a nossa língua e os nossos músicos.

O rap em galego está crescendo em qualidade e em contexto, estám-se situando bem no panorama, com as portas abertas a todas as normas existentes na língua galega e com projeçom dum futuro mais justo com quem fala e quer falar em galego seja num rap ou na vida do dia a dia.

Como mostras, temos o coletivo de Hip Hop em Galego, com paginas no Facebook, Twitter, YouTube, Spotify… que promovem o rap feito em galego com independência da norma gramatical da mesma. Estám fazendo um trabalho incrível criando fontes de informaçom, listas com todas as cançons de rap em galego, entrevistas a artistas e informando os seguidores de todas as novidades. Em YouTube juntárom mais de 300 cançons de rap e 80 videoclipes.

Precisamos de gente que trabalhe em galego e que trabalhe sem medo. Que a nossa língua nom tem fronteiras e nom é umha língua minoritária.

Fala-nos mais dos teus trabalhos como músico e para conhecermos mais da tua trajetória…

Também nom sei se eu seria tam interessante pra ser entrevistado por umha associaçom tam importante como a vossa.

Hahahaha… De certeza… pode ser interessante, nomeadamente para a gente mais nova…

Pois antes de trabalhar na Dread2Think, produzia musica eletrónica e também rap. Começou quando era bem pequeno,  gravava músicas num velho computador que tinha umha demo de produçom musical. A minha primeira cançom era um rap do 2003 em galego que começava dizendo “Ja tamos falando da politica como se fosse umha cousa mitica” haha.caixa-do-esquio

Meu nome de Mc é Bardo DC e todos os trabalhos de eletrônica som publicados na pagina do YouTube CaixaDoEsquío Prod.

Querendo saber mais podedes visitar a página do YouTube da minha banda “Dread2Think” que fai rap em “anglo-galego” :

YouTube Dread2Think

Facebook Dread2Think

Facebook Bardo DC

 

Publicamos umha cançom cada dous ou três meses e tentamos trabalhar na música sempre que podemos. Fazemos rap em galego e em inglês, mas nom temos pensado parar aí. Dread2Think é um coletivo de gente que gosta de rap, tem gente que nom canta nem produz música mas que colabora doutro jeito. Desenhadores de logos, publicistas, pessoas que partilham a nossa musica, etc.

Também colaboro e com muito orgulho com “Língua nativa” umha editora discográfica lusófona sediada na Galiza ajudando no que podo. É, podemos dizer, umha Editora discográfica luso-galega, animo-vos a botar um olho no Facebook.

Nela todo é feito em norma-padrom br-pt-gz, já que a editora visa promover a língua portuguesa pela Galiza e o galego-português (Língua Nativa) por toda a lusofonia, reclamando o espaço que, acha, a mesma merece no português.

A «Língua Nativa» já editou a gente tipo Malvares de Moscoso, Rebeliom do Inframundo, Lessa Gustavo, Vulto, Defski…. E já é reconhecida por vários sectores do rap, até de fora da Galiza.

Tem um repertório impressionante, podedes ver uma mostra do que se está a fazer no Língua nativa no Youtube.

 

Isso profissionalmente… e na tua vida pessoal, o galego como está presente?

Na minha vida pessoal, pois estou num momento bom, tenho um trabalho que me permite pagar as contas, tenho umha mulher incrível, umha companheira de viagem. Tivemos uma brasilega haha, em Setembro, data em que começamos umha aventura conjunta educando um novo ser humano. Sem experiência anterior mas com muito amor pra dar.

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É um pouco cansado mas nem tenho queixa pra ser sincero. Estou feliz sabendo que a minha filha vai ter umha oportunidade que eu nom tivem, ser alfabetizada em galego. Ela tem a possibilidade de aprender a norma internacional desde bem pequena, dado que sua mãe e eu falamos duas variantes da mesma língua, ela o brasileiro e eu o galego.

 

Seiva nova, futuro, a lusofonia é alegria… mas como foi embarcares no reintegracionismo?

O meu interesse polo reintegracionismo começou com a minha chegada a Bristol. Sempre falei galego na Galiza e nunca me importou que me falassem em castelhano (porque podia responder em galego) mas em Bristol essa possibilidade nom existe, aqui se che falam em castelhano (acontece muito se falas que és galego) nom podes responder em galego. Polo que cheguei a conclusom de nom usar mais o castelhano em Inglaterra.

Foi a melhor decisom que tomei na minha vida. Re-descobrim a minha língua e encontrei a soluçom ao problema de comunicaçom com o português. Se falássemos todas as palavras em galego e conhecêssemos um pouco mais a cultura irmã portuguesa (e a nossa própria), veríamos que o que falamos os galegos nom deixa de ser umha língua internacionalmente reconhecida como português.

Foi difícil mudar a escrita. Há gente que che di que precisas de estudar a tua língua, que o que escreves nom é galego, que deixes de inventar cousas… há muitas pessoas que acham que tás tolo se escreves em reintegrado, que já nom és a mesma pessoa…

A minha duvida é: o galego que me ensinárom na escola é um galego pensado para o futuro?

Eu em galego, Eu em português. Yo em castelhano, Yo em argentino. Je em francês, Je em quebequês. Nom entendo porque procuramos tantos problemas e nom aceitamos a nossa realidade.

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O Suso Sanmartim foi professor teu em Santa Comba, isso tem algo a ver?

Foi… eu lembro-me muito dele e de mestres tipo ele. E desde que começou o meu interesse polo reintegracionismo sempre vejo ele nalgum que outro vídeo. Já de mestre era um artista, um showman mesmo. Ainda nom sendo professor meu muitos anos, realmente ficou na minha memória o seu jeito de interagir com o alunado.

E, já que estás, que pensas da música galega/do rap atual? Há espaço para um reintegracionismo musical?

Pois precisamos de mais espaços, precisamos de umha mídia que realmente queira promover a nossa língua, temos que juntar-nos e criar os espaços que nom nos ajudam a criar. Temos muita música e de muitíssima qualidade. Seja Folk, Rock, Rap ou qualquer tipo de música sempre atopas gente fazendo-o em galego. A Banda das Crechas, Luar na Lubre, Bibiano, Suso Vaamonde….temos mais música em galego do que pensamos.

Em tanto a reintegracionismo o rap vai pkevin-03or diante de outros géneros musicais. Há muito reintegracionista no rap em galego um dos grupos mais fortes «Rebeliom do Inframundo» é reintegracionista, já falei da «Língua Nativa», há outros rapeiros como Melide, Menina Arroutada, Caustica ou Kave Gz que produzem em reintegrado, além de muitos produtores tipo Deloise.

Acho que a música em galego está a crescer. A língua precisa disso e a resposta está chegando em forma de gente nova que quer trabalhar na sua língua recuperando o terreno perdido ao longo de todos os anos de proibiçom e perseguiçom do galego. E como mostra temos também Pedrido, Volk GZ, SonDaRúa, Kedro e muitos outros.

Umha das cousas que me doía muito era procurar rap em galego no YouTube e só topar rap em castelhano feito por galegos, isso mudou nos últimos dous anos, as redes enchêrom-se de rap em galego.

Pra mudar o mundo devemos mudar nós.

Ernesto V. Souza

Ernesto V. Souza (Corunha, 1970). Formado como filólogo, especializou-se e publicou algum trabalho sobre história, contexto político e cultural do livro galego das primeiras décadas do século XX. Em 2005 começou a colaborar com o PGL e a vincular-se ao reintegracionismo. Colabora também no Novas da Galiza, é sócio da Associaçom Galega da Língua e membro da Academia Galega da Língua Portuguesa. Trabalha, como bibliotecário na Universidade de Valhadolid (Espanha).

 


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  • Ernesto V. Souza

    Vivemos tempos estranhos, que parecem saídos dalgum filme de catástrofes ou de apocalipses zúmbicas… é bom saber que existe todo um universo de músicos, de artistas, nos que o reintegracionismo é referente, que vão construindo um espaço cultural galego…

    Obrigado por isto tudo, apertas.

  • Vítor Garabana

    “Pois precisamos de mais espaços, precisamos de umha mídia que realmente
    queira promover a nossa língua, temos que juntar-nos e criar os espaços
    que nom nos ajudam a criar”
    Nom podo estar mais de acordo!

  • José Ramom Pichel

    Obrigado pola entrevista. De verdade, muito obrigado aos 2.