Juventude musical num palácio de indeciso sabor português



Tivem sempre paixom pola música. Quando adolescente, nos anos finais do bacharelato, formei parte dum grupo de pulso e palheta, que em Espanha chamam rondalha, onde pugnava por tirar sons da mandolina que, como é sabido, afina como o violino. Logo já em Madrid, quando iniciei os estudos de engenharia, abandonei a prática da corda sem grave perda para a música, e afiliei-me a Juventudes Musicais Espanholas, hoje Juventudes Musicais de Espanha, em denominaçom mais acorde com os tempos do direito a decidir.

Guardo ainda o meu carnet de sócio de JME, é o número 578, com data de admissom de novembro de 1960 e de expediçom de abril de 1962; tinha eu daquela 22 anos. Actualmente, a associaçom conta com 20.000 sócios agrupados em federaçons territoriais e agrupaçons locais. Para a minha surpresa, Galiza carece de federaçom mas conta na actualidade com duas agrupaçons, uma em Sober e outra em Tui. Mistérios da música: Sober, nas terras de Amandi, e Tui, nas de Francisco Sánchez o céptico.

Os domingos á manhã, acudia pontualmente ao Cinema Monumental para escuitar a Orquestra Nacional de Espanha. O magnífico cinema é um potente local de estilo racionalista de três andares, excelente acústica e capacidade para 4.000 espectadores, aberto ao público em 1923. O seu arquitecto foi o basco Teodoro Anasagasti autor de muitas obras em Madrid, como o Real Cinema na Praça de Ópera ou os Armazéns Madrid-París por todos conhecidos como Armazéns SEPU da Gram Via. Foi no Cinema Monumental, no mês de junho de 1935, onde o Partido Comunista Espanhol fundou a Frente Popular.

Em contadas ocasioms, as JME convocavam os sócios a concertos em espaços inesperados. Lembro umha audiçom minuciosa e comentada da Paixom segundo Sam Mateus no Conservatório de Madrid numha Semana Santa e um concerto de música italiana moderna — Ottorino Respighi ou Luigi Dallapicolla, talvez — no denominado Palácio de Abrantes1, quase ao final da Calle Mayor madrilena, a um passo do Palácio Real.

O palácio, que figura entre os edifícios históricos reconhecidos da capital, albergava e alberga o Istituto Italiano di Cultura e foi construído a mediados do século XVII por encargo do nobre leonês Dom Juan de Valência, El Infante. Falamos, naturalmente, de Valência de Campos ou de Don Juan, na província de Leom. Dom Juan ostentou o cobiçado posto de Espía Mayor del Consejo Secreto de Su Majestad; nada menos. Cunqueiro teria gostado da personagem e do ofício. Imaginamos a Dom Juan de rigoroso negro e gola de encaixe como era preceptivo na época.

Dom Juan de Valência, embora filho de portuguesa (Maria Afonso de Portugal) nada tinha a ver com Abrantes, cujo ducado, por surpreendente que pareça, tem origem posterior e espanhola. O ducado foi criado por Felipe IV para honrar a Alfonso de Láncaster e Láncaster Enríquez de Girón em 1642, com reconhecimento de Grandeza de España em 1650

Os reveses da fortuna terám marcado a história do palácio até a sua aquisiçom por um duque de Abrantes em 1842. O novo titular do palácio da Rua Maior de Madrid e da honra ducal deve ter sido Ángel María de Carvajal y Téllez-Girón, nono na sucessom da nobilitada linhagem. Surpreende a forte conotaçom portuguesa do título pois o ducado incorporava o marquesado de Sardoal, município limítrofe de Abrantes.

Por motivos incertos o topónimo de Abrantes foi presa cobiçada das preferências nobiliárias e inaugurado por um monarca espanhol. Contodo, a eleiçom tem a sua ramificaçom portuguesa. O título nobiliárquico de Marquês de Abrantes foi-lhe concedido em 1718 a Dom Rodrigo Anes de Sá Almeida e Meneses por Dom João V, pai do rei José I que cavalga orgulhosamente pola Praça do Comércio lisboeta rumo ao Tejo coroado com vistoso penacho.

O meu voto sobre a enleada preeminência e direito do ducado vai sem hesitaçom para o cavaleiro Rodrigo Anes, nom só por ter exercido a mais alta representaçom de Portugal em Madrid e Roma como pola sua qualidade de fidalgo ilustrado e decidido protector do padre voador Bartolomeu Lourenço de Gusmão S. J., famigerado inventor da passarola, o primeiro aeróstato operacional que o mundo viu. O fantasma do padre voador deambula ainda com a sua passarola polos maravilhosos corredores do Memorial do Convento de Saramago.

O ducado de Abrantes foi recriado ainda polo imperador Napoleom I para premiar aquele atoleimado perdulário que foi o general Junot com motivo da tomada de Abrantes. Chegado aqui, e em honor da equanimidade que há de presidir a disputa heráldica, devo confessar o meu íntimo desassossego quanto a atribuiçom do título. Na verdade, Rodrigo Anes pode esgrimir a sua paixom ilustrada na defesa do inimitável invento da passarola mas, nom podemos deixar de ponderar também os direitos de Jean-Andoche Junot, neste caso pola afortuna decisom de ter desposado Laura Permon, francesa de ascendência corsa e engenhosa memorialista, já de viúva, quando Jean-Andoche decidiu suicidar-se. Como duquesa de Abrantes devemos-lhe umhas memórias lisboetas que os amadores da cidade nom podemos por menos de agradecer de coraçom2. Afinal, a correcta eleiçom fica suspensa entre umha mulher escritora e umha passarola. Desculpem-me as feministas mas é umha difícil decisom.

2 Duquesa de Abrantes (2008): Recordações de uma estada em Portugal, 1805 – 1806, Biblioteca Nacional de Portugal.

Joám Lopes Facal

Joám Lopes Facal

Nascim e vivim na aldeia até os quinze anos, Toba, ao pé da ria de Corcubiom, frente ao Pindo. Figem-me economista despois de engenheiro e aí desenvolvim a minha atividade profissional até o momento de me reformar. A economia é ademais um vício particular: ler atentamente e tentar compreender a informaçom económica cotidiana, ter sempre sobre a mesa um livro de economia.
Joám Lopes Facal

Latest posts by Joám Lopes Facal (see all)


PUBLICIDADE

  • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

    Grupo de plectro, ou de bandolins. Mas se não houver bandolins, pois grupo de plectro. O teu exemplo é bom indicador do tipo de atividade musical que houve desde sempre na Galiza: Muitíssimos amadores que favoreceram a excelência dalguns profissionais. É assim que se faz cultura. [email protected]

    Tui é a terra de Germán Lago, o fundador e diretor da Orquestra Ibérica (Madrid), compositor e arranjista para grupo de plectro. Sober é Terra de Lemos, tenho documentada intensa atividade de grupos de plectro em ambas as zonas. Também noutras do litoral e do interior galego. Os grupos de bandurras, alaúdes e guitarras foram um sucesso no século XIX na Galiza, com música galega. Estamos, precisamente, a tentar fazer uma história deles. Veremos se o conseguimos.

    • Joám Lopes Facal

      Graças pola informaçom, amiga guitarrista. O Houaiss e o Priberam identificam plectro com o popular palheta. Gosto de alaúde e do espanholismo bandurra, mais eufónico do que o chiante equivalente em espanhol.
      A liçom de geografia musical galaica excelente