Joana Palha : “A AGAL, para mim, é uma associação muito tolerante, com ideias muito inovadoras e originais”



anapalha-01Joana Palha é portuguesa e foi graças ao seu avô, sindicalista, que recebeu o seu primeiro contacto com as cousas da Galiza.

É uma mulher de formação de letras com interesse polos monstros e o grotesco na literatura.

Julga que o teatro pode ser uma elo de interação entre a sociedade galega e portuguesa.

Estudou galego num curso de verão do Ilg embora na rua fosse comum que lhe falassem em castelhano.

Quer um relacionamento fluído a ambos lados da fronteira administrativa sem barreiras imaginárias.

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Joana é uma sócia portuguesa ao calor do cada vez maior interesse em Portugal pola Galiza. Como é que nasceu a tua semente de curiosidade pola Galiza e a sua língua?

A curiosidade pela Galiza sempre esteve em mim, até por questões familiares, pois o meu avô paterno sempre teve boas relações com o povo galego, devido ao seu envolvimento esquerdista e sindical, o que passou para mim enquanto crescia. Agora, na universidade, como estudante do Instituto de Ciências Humanas, da Universidade do Minho, soube da existência do Centro de Estudos Galegos que funciona na minha universidade, e mantenho laços de amizade com alguns estudantes e professores provenientes de algumas províncias da Galiza, tentando sempre saber mais sobre a cultura e a língua. A acrescentar a isto, faço parte do grupo amador da Companhia de Teatro de Braga, que tem protocolo com o Centro Dramático Galego, tenho a oportunidade de conhecer pessoas ligadas ao mundo teatral galego, o que também me despertou muito interesse pela cultura galaica.

Quais pensas que seriam as formas mais eficazes de divulgar o que já sabes de nós entre a cidadania portuguesa? Onde se poderia gerar mais interesse?

O teatro, como referi anteriormente, tem sido um meio de difusão muito bom da cultura galega, em Portugal. Os organismos municipais também poderiam ter um papel importante, embora se descurem muito do seu trabalho cultural. Tirando isso, acho que a Internet é o meio mais eficaz, nomeadamente as redes sociais.

Joana, do ponto de vista formativo, está decididamente virada para o mundo das letras. Faz parte de um grupo de investigação sobre Retrato e Representação Literária, focada no tema dos monstros na Literatura. Partilha connosco essa tua paixão.

Paixão não, amor, pois acompanha-me de forma contínua desde que aprendi a ler. Sempre quis estudar literatura, desde o ensino secundário que segui esse percurso e agora na universidade, surgiu a oportunidade de me dedicar ao que mais amo no mundo. No início estava confusa sobre o ramo da literatura que queria seguir, pois gosto de tudo em geral, mas mais tarde deparei-me com a Literatura Comparada, um parte da literatura que dialoga com as restantes artes e pensei logo que seria unir o útil ao agradável, pois também tenho curiosidade por todas as artes em geral. Os monstros, uma vertente da literatura comparada, não muito explorada, devido à repugnância que sempre causa em muitas pessoas de estudar o grotesco e o feio, vieram por intermédio de uma professora, agora minha orientadora e coordenadora do grupo de investigação do qual faço parte, Retrato e Representação, pois observou o meu interesse pelas temáticas grotescas e me convidou para fazer parte da sua equipa. E aqui estou, com este tema literário que adoro e faz parte do meu ser.

Recentemente passaste um mês na Galiza para estudar galego nos cursos de verão do ILG. Que aspetos te chamaram mais a atenção quer dos conteúdos quer do evento?

O ILG tem aspetos bons e maus. A interação em pessoas de vários países, com línguas e culturas diferentes foi muito boa, até pela união que se criou com o galego, pois era a nossa forma de comunicação; contudo achei que certos conteúdos abordados tinham algumas falhas, não por culpa do pessoal docente, mas pela organização das temáticas feitas pelo próprio ILG, pois, na minha opinião, deveria haver uma melhor abordagem da história da língua.

Como se vive sendo portuguesa numa cidade como Santiago?

Santiago é uma cidade muito bonita e interessante. Sendo portuguesa, notei que quando me dirigia a algum habitante ou lugar da cidade onde tivesse que falar a língua, a resposta vinha sempre em castelhano, principalmente quando percebiam que eu era portuguesa, por isso sim, há uma resistência a falar galego. Por isso, o que fazia era falar em galego e pedir para me responderem em galego, explicando que era mais fácil para mim a compreensão, pois não tinha conhecimentos base da língua castelhana. Claro que encontrei quem tivesse muita resistência e me falasse no famoso castrapo, mas no geral, acho que correu bem e que cada vez mais existem pessoas santiaguenses a quererem preservar e defender o galego.

Como foi o teu contacto com a estratégia internacional do galego?

Em geral, foi boa, pois já tinha um histórico dado por alguns professores da Universidade do Minho, que me apresentaram e mostraram as diferentes abordagens de alguns órgãos e associações da região da Galiza.
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Em que medida pensas que as pessoas de Portugal e as suas instituições podem ajudar a mudar a vitalidade social da variedade galega?

Conhecendo a Galiza, indo lá muitas vezes e se possível morar durante um tempo, como eu tive a felicidade de o fazer. Na minha opinião só assim é que conseguimos ter um alcance maior do que é o galego e das dificuldades que atravessa e do tanto que se pode aprender com a convergência com Portugal.

Que te motivou a te tornar sócia da Agal. Que esperas da associação?

A AGAL, para mim, é uma associação muito tolerante, com ideias muito inovadoras e originais; quis muito fazer parte da associação, pois quero fazer parte de algo que ajude a defender o galego e que o aproxime dos laços fortes que tem com o português, difundindo o reintegracionismo de todas as maneiras que me forem possíveis. Há uma boa convivência igualitária entre todos os membros, pelo que observei, apesar de ter de existir uma hierarquia, claro. Espero que continue a fazer o trabalho muito interessante que faz durante muito anos e tenho a certeza que vai contribuir muito para a boa visão que tenho sobre o reintegracionismo, movimento que pelo qual senti curiosidade logo no primeiro contacto. As minorias têm muito a dizer e devem ser sempre respeitadas e não marginalizadas, sempre foi o meu pensamento.

Como gostarias que fosse a “fotografia” das relações entre as pessoas da Galiza e de Portugal em 2040?

Como está a ser agora, que o interesse tanto de portugueses e galegos cresça nos dois lados do rio Minho, sem barreiras imaginárias, pois só temos todos a ganhar com esta convergência, em todos os aspetos, quer sejam políticos, sociais ou culturais.

 

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim

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  • abanhos

    Que bom termos pessoas assim na AGAL, isso é que é plusvalor verdadeiro

  • Marcos Saavedra

    Bem-vinda à AGAL, Joana. Magnífica entrevista.