JESUS, O «MAHATMA» DO SÉCULO UM DA NOSSA ERA

Antologia Filmográfica




Para comemorar a festa do Natal é natural que, dentro da série que estou a dedicar aos grandes vultos da humanidade iniciada com Sócrates, que todos os escolares dos diferentes níveis devem conhecer, escolhamos a figura de Jesus, que foi um ser humano excecional, de carne e osso, e que quero apresentar desprovido de todas as manipulações e deformações que lhe foram realizando ao longo dos tempos, e de todos os «mistérios» e «milagres», que são mais contos e invenções que outra coisa. Para isso, apresento Jesus como uma espécie de «Mahatma» Gandhi («Alma Grande») do primeiro século da nossa era. A vida e a ação de ambos é muito similar, e mesmo no seu pensamento e ideias, embora com a importante diferença de que a ação de Jesus a conheçamos só pelos escritos de seus discípulos, nos diferentes evangelhos, e a de Gandhi através dos seus próprios escritos, que foram muitos e formosos, tanto em livros como em revistas e jornais, alguns mesmo por ele criados. O próprio Gandhi, depois de ler o Novo Testamento, gostava imenso dos episódios das Bem-aventuranças e da mensagem do discurso do Sermão da Montanha, e também amava a figura de Jesus, desprovida de todo o que comentámos ao início do nosso depoimento. Ambos, nas épocas em que lhes coube viver, sendo seres humanos extraordinários, luitaram contra o poder desapiedado de dois impérios colonizadores. No caso de Jesus o dos Romanos, no de Gandhi o dos Britânicos, curiosamente muito parecidos nas desapiedadas ações que levaram a cabo contra os povos que dominavam a «ferro e fogo», para submetê-los, dominá-los e explorá-los. Tanto Jesus como Gandhi pregavam o amor que deve existir entre todos os seres humanos («Ama o teu próximo como a ti mesmo»), a igualdade, a paz, a não violência, mesmo contra os inimigos. Ambos defendiam a solidariedade entre pessoas e povos, a vida das suas comunidades e culturas, a irmandade, a bondade, a alegria, a generosidade, o respeito por tudo o que tem vida, a caridade, tanto com a palavra nos seus lindos discursos, como – ainda melhor – com o exemplo da sua própria conduta e atuação na vida diária, ao lado dos mais necessitados e carenciados, contra todo o tipo de marginalizações e explorações. Gandhi contra o sistema das castas hindus e a favor dos intocáveis (chamados «harijan») sem casta; Jesus pela defesa do amor e igualdade entre todos, e também, em ambos os casos, pelo amor às crianças e contra os sacerdotes manipuladores e fundamentalistas (que os há, por desgraça, em todas as religiões). Aos quais Jesus chamou no seu momento «vendilhões», chegando a deitá-los para fora dos templos: «Deixai que as crianças se aproximem de mim» e «Fora os vendilhões do templo», em palavras suas recolhidas pelos seus discípulos apóstolos, nos seus textos evangélicos. Em ambos os casos de Jesus e Gandhi, salvando as distâncias no tempo, são similares os castigos e repressões que sofreram, pela sua defesa das gentes dos seus povos, contra a repressão exercida por romanos e britânicos, sobre os seus irmãos de raça, judeus, samaritanos ou israelitas e indianos. Ambos foram assassinados, Jesus por soldados do império romano, Gandhi pelos fundamentalistas hindus da sua própria religião, nas mãos de um membro desse grupo, que, infelizmente, ainda existe hoje na Índia, com um grande poder sobre o governo atual indiano. O que está a provocar não poucos problemas de violência no grande país asiático. Por isso, não é de admirar que o grande pensador francês, e também literato, Romain Rolland, comparasse ambas grandes figuras universais.

Acho que, já em pleno século XXI, pelo bem da própria grande figura de Jesus e do próprio Cristianismo, teríamos que ir eliminando e suprimindo do relato da sua vida e obra tudo aquilo que, por diferentes interesses e intenções, outras pessoas lhe foram colocando de «adorno», que nada beneficiam nem à própria grande figura de Jesus, nem à religião cristã – que tanto poder teve e ainda tem –, alguns de cujos membros católicos mesmo chegaram a praticar a terrível violência de eliminar a vida das pessoas, contra a própria doutrina evangélica, durante décadas e em muitos lugares do planeta, pela terrível e infame «Santa Inquisição», representante clara do fundamentalismo católico que também existiu e existe, e que nada tem que invejar em infâmia ao fundamentalismo dos muçulmanos, hindus ou judaicos. Expurgando também a sua figura das parafernálias habituais e das idolatrias inapresentáveis, que nada têm a ver com o evangelho, por manipuladoras e não fazerem sentido algum positivo. Para começar, deve ficar claro que Jesus nasceu criança humana em Nazaré (Galileia), de um pai chamado José, que era carpinteiro, e de uma mãe chamada Maria. Um nascimento natural como o de qualquer outra criança. Pelo que, deve eliminar-se já a invenção incrível da virgindade de Maria e, de passagem, esse mistério impossível de acreditar denominado «Santíssima Trindade». Um invento que não se pode sustentar de nenhuma forma, agás em algum livro de histórias, contos ou lendas ou de brincar com a magia.

Para o presente depoimento escolhi, dentro de uma antologia fílmica, dois filmes que apresentam Jesus como um ser humano (os 2 primeiros) e outros dois com a sua biografia mais ortodoxa, cheia de milagres e mistérios (os 2 segundos).

ANTOLOGIA FILMOGRÁFICA:

1. O Evangelho segundo São Mateus (Il Vangelo secondo Matteo).jesus-cartaz-filme-o-evangelho

Diretor: Pier Paolo Pasolini (Itália-França, 1964, 137 min., preto e branco).

Roteiro: Pier Paolo Pasolini. Música: Luis Bacalov. Fotografia: Tonino Delli Colli.

Prémios: Prémio especial do Júri no Festival de Veneza de 1964. E o prémio da OCIC.

Atores: Enrique Irazoqui, Margherite Caruso, Marcello Morante, Susanna Pasolini, Mario Socrate, Settimio Di Porto, Alfonso Gatto, Luigi Barbini, Giacomo Morante, Enzo Siciliano, Alessandro Clerici, Paola Tedesco, Eliseo Boschi e Natalia Ginzburg.

Argumento: A história de Jesus Cristo, do nascimento à ressurreição, a partir do texto de São Mateus. As parábolas, os primeiros discípulos, a revolta, a determinação, os milagres, a intolerância, a solidão e a impaciência. Assim Jesus conseguiu uma legião de seguidores e também muitos inimigos. Sem apartar-se do texto bíblico, embora seguindo o modelo cinematográfico do neorrealismo italiano.

2. Jesus, o filme: Segundo o Evangelho de Lucas (The Jesus Film).

Diretores: John Krish, John Heyman e Peter Sykes (EUA, 1979, 117 min., a cores).

Roteiro: Barnet Bain. Fotografia: Mike Reid. Música: Luigi Patruno e Luciano Salvemini.

Nota: Olhar entrando em: https://www.youtube.com/watch?v=5CiJ7mcGS7A

Atores: Brian Deacon, Richard Kiley, Rivka Newman, Alexander Scourby, Niko Nitai, Eli Cohen, Eli Danker, Kobi Assaf, Joseph Shiloach e Mosko Alkalai.

Argumento: O filme retrata as dificuldades da vida de Jesus, segundo o Evangelho de Lucas. Foi realizado em Israel.

3. Jesus de Nazareth.

Diretor: José Diaz Morales (México, 1942, 115 min., preto e branco). Produtora: Pereda Films.

Roteiro: José Diaz Morales e Alfonso Lapeña. Música: Rodolfo Halffter. Fotografia: Victor Herrera.

Atores: José CibriánAdriana LamarAurora WalkerJosé BavieraRafael María de Labra, Enrique García ÁlvarezJosé PidalRafael MedinaMiguel Manzano, Amparo MorilloJosé MorcilloRamón G. LarreaConsuelo Abascal, Armando VelascoAndrés NovoManuel SantamaríaArturo Soto Rangel, Humberto RodríguezManuel PozosSalvador QuirozVictoria Argota, Carmen ColladoPilar SenMaría Luisa CarrascoRicardo AdalidPedro Oliver, José SánchezEduardo SánchezRoberto CañedoMax Langler e Francisco Reiguera.

Argumento: Jesus é batizado, dá o Sermão da Montanha, dá a vista a um cego, redime Maria Magdalena, repreende o rico, é ungido, ressuscita Lázaro e expulsa os vendilhões do templo. Depois celebra a última Ceia, ora no jardim de Getsémani, é atraiçoado, levado perante Anás e o Sanedrim, e perante Pilatos e Herodes. É obrigado a carregar com a cruz, é crucificado no Calvário e ao terceiro dia ressuscita. O filme segue a sua biografia mais ortodoxa, cheia de milagres e mistérios.

4. Jesus de Nazaré.

Diretor: Franco Zeffirelli (Reino Unido, 1977, 371 min., a cores). Minissérie para TV.

Roteiro: Suso Cecchi d’Amico, Franco Zeffirelli e Anthony Burgess.

Música: Maurice Jarre. Fotografia: Armando Nannuzzi e David Watkin.

Nota: Ver entrando em: https://www.youtube.com/watch?v=wFr2stegAqA

Atores: Robert Powell, Anne Bancroft, James Mason, Rod Steiger, Michael York, Peter Ustinov, Anthony Quinn, Laurence Olivier, Claudia Cardinale, James Earl Jones, Stacy Keach, Donald Pleasence, Fernando Rey, Christopher Plummer, Ralph Richardson, Cyril Cusack, Ian Holm, Ian McShane e Olivia Hussey.

Argumento: O filme recolhe a ortodoxa biografia de Jesus, com um reparto de intérpretes muito destacados dentro do cinema mundial.

A HUMANIDADE DE JESUS:

O brasileiro Kelson Mota T. Oliveira escreveu no seu dia um interessante depoimento sobre a humanidade de Jesus, que, pela sua acertada análise, tomo como base para o comentário que a seguir apresento.

A ideia da humanidade de Jesus, ainda que se aceita, não é corretamente entendida, e muito poucas vezes ensinada. Jesus assumiu completamente a humanidade, tornando-se passível das mesmas limitações físicas e psicológicas comuns a todos os homens. Mesmo com a sua morte. No Novo Testamento aparecem nos diferentes evangelhos de Lucas, Mateus, Marcos e João suficientes testemunhas sobre a humanidade de Jesus. Nos mesmos há indicações claras de que Jesus era uma pessoa plenamente humana, sujeito a todas as limitações comuns à raça humana. Como tal nasceu como todo ser humano nasce. E todos os estágios do seu crescimento foram idênticos ao de qualquer ser humano normal, tanto física como intelectual e emocional. Também no sentido psicológico, era genuinamente humano, pois pensava, raciocinava, se emocionava, como todo ser humano normal.

De forma esquemática, analisaremos pelo miúdo os aspectos humanos mais importantes da grande pessoa de Jesus:

– A sua natureza física:

Segundo Lucas, Jesus nasceu de uma mulher humana, passando por todas as fases que uma criança normal passaria. Segundo a sua árvore genealógica, é evidente que teve, por parte de Maria, ancestrais humanos, dos quais provavelmente herdou características genéticas, como todos os homens as recebem de seus antepassados. Sobre o seu crescimento o mesmo Lucas comenta que cresceu como toda criança normal cresceria, alimentada por comida e água. O seu corpo não era sobre-humano, e não tinha características especiais, diferentes de qualquer ser humano normal. Os apóstolos Mateus, Marcos e João, sobre as limitações físicas de Jesus escrevem que eram em tudo idênticas às de um ser humano: sentia fome e sede, ficava cansado e sofria a dor. Os mesmos falam da sua percepção pelos outros homens, sinalando que fora visto e tocado pelos homens a sua volta. E que não era um espírito com a forma humana, nem um fantasma, mas um homem real, a ponto de Tomé só acreditar nele após tocá-lo. Sobre a sua morte indicam que podia morrer, como de fato morreu. A sua morte não foi aparente, mas verdadeira. O seu corpo sucumbiu aos sofrimentos infligidos, e de fato expirou à semelhança de todos os homens. Uma identificação suprema com a humanidade, assumindo-a plenamente, como uma verdade tremenda e profunda.

– A sua natureza psicológica e intelectual:

Segundo os mesmos apóstolos e evangelistas, está provada a sua natureza psicológica, pois, quanto ao seu caráter emotivo, Jesus sentia emoções, demonstrando a sua plena humanidade, como também deixam claro algumas reações tipicamente humanas. Jesus, tal como sinalam Mateus, João, Lucas e Marcos, sentia tristeza e angústia, alegria, indignação e ira. E também se surpreendia, amostrando-se genuinamente surpreso, por exemplo, perante a fé do centurião e se admira da incredulidade dos habitantes de Nazaré. Não era uma atitude falsa ou de retórica, pois ele era surpreendido em algumas circunstâncias. Segundo Marcos, Jesus se sente atormentado, e no Getsêmani foi tomado de grande angústia e pavor. Estava em conflito íntimo e se atormentava pelo fato de não querer ser deixado só. E tinha expressões humanas de solidão. Por isto, também se comove e chora, como no caso da morte de Lázaro, onde ao ver a tristeza ao seu redor e a triste realidade humana da morte, tomado de comoção chora profundamente, agitando-se e gemendo, aflito e comovido com a situação que lhe produz dor e cansaço.

Quanto ao seu caráter intelectual, tinha um conhecimento elevado, que se destacava entre os dos outros homens. Por isto, pronunciava belas palavras, de grande profundidade e alcance. Ademais possuía uma grande sensibilidade para analisar o passado, o presente e o futuro. Embora, o seu conhecimento não era ilimitado, pois em algumas passagens aparece fazendo perguntas retóricas a fim de reforçar algum ensinamento. E, em outros momentos, pergunta sinceramente em busca de informações às quais não possuía. Um exemplo claro foi o caso do rapaz acometido de um espírito de surdez e mudez, onde pergunta ao pai dele: «Há quanto tempo isto lhe sucede?». Informação requerida importante, útil e necessária para promover a restauração do rapaz.

– A sua prática religiosa:

Como qualquer pessoa, participava regularmente dos cultos na sinagoga. Era seu costume ensinar nas sinagogas e visitar e participar dos cultos no templo quando estava em Jerusalém. Mantendo um padrão de vida religioso exemplar. Também mantinha uma vida de oração, saindo em ocasiões para orar só ou em grupo.

Em todas as coisas Jesus se mostrou plenamente humano, tanto no aspecto físico, como no mental. Para os autores do Novo Testamento não existia qualquer dúvida de que Jesus era plenamente homem. Jesus assumiu completamente a humanidade, sujeito a todos os reveses que o estado de humanidade poderia lhe trazer, que sem ser um homem qualquer, era igual a todos os homens. Muitos fatos da sua vida amostram esta singularidade.

A PARÁBOLA, TÉCNICA DIDÁTICA PREFERIDA POR JESUS:

Jesus gostava de utilizar como técnica didática a Parábola, espécie de fábula exemplar para lograr atitudes positivas nos seus discípulos, e também para criticar a conduta não ética de outros. Uma das mais formosas de suas parábolas é a do Bom Samaritano, recolhida no evangelho de Lucas. Nos diferentes evangelhos aparecem umas 40 parábolas aproximadamente, sendo também lindas e exemplares as do Filho Pródigo, a do Rico e Lázaro, a da Ovelha perdida, a dos Meninos na Praça, a dos Dois Filhos e a do Tesouro escondido.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:

Servindo-se da técnica do Cinema-fórum, analisar e debater sobre a forma e o fundo dos quatro filmes resenhados antes.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Jesus, o seu pensamento, a sua vida, os seus ensinamentos, as suas parábolas e a sua obra. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias. Paralelamente, para comemorar a festa do Natal, do nascimento de Jesus, podemos montar um presépio e desenvolver várias sessões de canto de panjolinhas, com vilancicos galegos e lusófonos.

Podemos levar a cabo um Livro-fórum lendo entre todos, estudantes e docentes, algum livro interessante, que analise a grande figura humana de Jesus. Por exemplo, aquele escrito por Tagore, em que se recolhem os discursos e depoimentos que Robindronath pronunciou ao longo dos tempos sobre a figura de Jesus, por ele interpretada. Este livro foi traduzido primeiro desde o idioma Bangla para o italiano pelo grande tagoreano Marino Rigon, que mora em Bangladesh. Posteriormente, com o título de O Cristo, foi publicado no nosso idioma no Brasil, em 1997, pelas Edições Paulinas, de São Paulo. Existe também edição em castelhano pela editora PPC. A atividade pode completar-se fazendo um debate ou partilha de informações sobre a transcendência que teve e tem o Cristianismo no mundo, com as suas luzes e sombras. E tirando as correspondentes conclusões.

 

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.


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