Ismael Pardo : “Na minha relação com a língua nem sempre sou fiel”



Ismael é de origem viguesa e na adolescência decidiu falar galego porque achava um erro ser falado por seu pai e não por ele.

Estudou Engenharia Agrónoma em Lugo, onde o Instituto Superior de Agronomia de Lisboa continua sem ser uma referência.

Acha que o seu galego melhorou ao ser internacional depois de ter passado pola EOI.

Alinha com o binormativismo na medida em que abre o mundo para a sociedade galega. Aspira a quem em 2040 não lhe traduzam café com leite.

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Ismael Pardo Vicente nasceu em Vigo, estudou nos Jesuítas e na adolescência decidiu começar a falar galego. Lembras aquele processo?

Lembro que nesse momento não era muito ciente de o por que estava a tomar essa decisão. Mas agora acho que foi algo “sentimental”. Um sentimento de que algo errado estava a acontecer ao reparar que eu não falava Galego e o meu pai sim, e sentia na minha adolescência, que algo devia ser feito com isso, era quase uma necessidade de consertar algo errado.

Nesse contexto a introdução do ensino do galego foi importante, porque o Galego foi mais presente e não só ambiental. Ainda bem, que não fui o único porque não foi um processo simples.

Em que medida achas importante que as pessoas citadinas recomecem a falar na nossa língua?

Não só é importante, é fundamental para a normalidade e para a sobrevivência da língua.

Estudaste engenharia agrónoma. No teu trabalho é comum o perfil galego-falante. Existe relação com os pares portugueses? Existem materiais em português nos cursos de engenharia?

Existiam relacionamentos, por exemplo mediante bolsas Erasmus, mas o referente em Agronomia, na minha época de estudante, eram as Escolas Politécnicas de Madrid e Valência e não o Instituto Superior de Agronomia de Lisboa. Acho que isto continua na mesma.

Como mudou a tua perspetiva sobre o galego o facto de teres estudado português numa Escola de Idiomas?

Estudar Português, na Escola de Idiomas e Estudar Português na Galiza foi um processo que achei interessante e sobre todo divertido. Reparei não só nas similitudes mas também nas diferenças que há nas variedades da língua… e acho que o meu galego melhorou ao ser mais internacional. Para outros dos meus colegas, isto não foi mesmo assim, e estudaram Português como uma língua estrangeira.

Em que línguas vive o Ismael?

Tanto o Castelhano como Inglês fazem parte da minha vida. O Castelhano tem uma grande presença por ser uma língua ambiental e de prestigio. O que quero dizer, ou confessar, e que nesta minha relação com a língua nem sempre sou fiel, (há muitas mais línguas embora ela seja a mais querida). Emprego-a com preferência, e acho que ainda conservo o bom senso, pese a que o meu cérebro, como o de quase todos os galegos, pudesse ser material de estudo para sócio-linguistas psiquiátricos.

A estratégia internacional para a língua galega é cada vez menos periférica. Quais achas as melhores vias para continuarmos a avançar e fazer parte do senso comum?

Era bom fazer uma labor “pedagógica” em Portugal e outros territórios lusófonos, não só para ganhar peso mas também para estarmos realmente presentes na Lusofonia. Não devia acontecer que a Mariza, por exemplo, num concerto na Corunha fale com o publico num Portunhol com ares andaluzes.

A ideia do bi-normativismo, é uma grande e até necessária ideia. Aceitar outras formas de escrever em galego abre muito o nosso mundo, e pode servir para fazer visível com normalidade a estratégia reintegracionista

Porque acabaste por te enrolar no navio agálico? Por onde queres que rume?

Uma ótima estratégia de promoção fez que me enrolasse no dia 25 de Julho. Cá pra mim, o rumo é ótimo acho que AGAL está a agir dum jeito inteligente fazendo visível a utilidade da nossa língua.

Imagina o ano 2040. Como gostavas que fosse a “fotografia linguística” nessa altura?

Eu gostava que a estratégia bi-normativista fosse aceite e que contribuísse para o prestigio da língua e que houvesse mais meios de comunicação em galego e não só os subsidiados. Por último algo que adoraria, era que nunca mais me traduziram o café com leite e que o pudesse pedir morno sem hesitar.

Conhecendo Ismael Pardo Vicente

ismael-02Um sítio web: http://saltapocinhas.ga/ Clube de leitura em português em Compostela.

Um invento: O Computador.

Uma música: O leãozinho de Caetano Veloso

Um livro: Eu sou de muitos livros e até de vários ao mesmo tempo, mas já que faleceu recentemente: “O bosque dos raposos aforcados. Arto Paasilinna. (É mesmo surpreendente todo o que podemos ter em comum Galegos e Lapões na forma de ver o mundo)

Um facto histórico: O estabelecimento do Reino Suevo.

Um prato na mesa: Perna de vaca com grão de bico.

Um desporto: Gosto das corridas populares.

Um filme: Dona Flor e os seus dois maridos.

Uma maravilha: A foz do Minho.

Além de galego/a: Mmm… Terráqueo ou se calhar Terrícola.

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim


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  • José Ramom Pichel

    Bem-vindo Ismael!! Um prazer esta entrevista que é muito mais do que isso.