De individualismo e sentido comunitário



De individualismo

A pobreza, o empobrecimento situam-se, em meu entender, entre os principais problemas sociais. A repressão e a violência andam-lhe mui perto. Compreendo e aceito no grupo de problemas o demográfico, em casos como o galego, porque implica desatenção, falta de cuidado, soledade e mais pobreza; despovoamento também, mas depende como e para quem; não outras perspetivas. Eu penso que o nosso principal problema social é o individualismo, inclusive raiz de que aquele empobrecimento e aquela repressão continuem. Bom, é o triunfo do neo-liberalismo, certamente. A ideia, vital, de que devemos preocupar-nos por nós e polo nosso entorno imediato, constituído, de regra, por familiares [email protected], por quem nós decidimos que deve estar constituído; e polos assuntos que nós decidimos que deve estar constituído. Detenho-me apenas um momento nesta última frase: lógica e irrelevante, provavelmente a muitos olhos: definição dumha soberania pessoal sobre a qual nada deve prevalecer: nengum problema ou preocupação que eu não defina como próprio, nengumha circunstância sobre a qual não sinta [email protected] a atuar podem impor-se a essa soberania. E se as sentir e não atuo, não sou responsável, porque outras pessoas e instâncias o são ou o são mais; ou porque tenho outros assuntos a que atender (assuntos normalmente cujo limite é a pessoa mesma, não transcende @ pró[email protected] indiví[email protected]: fazer desporto, ler, assistir a umha concentração.

O individualismo atual também não dá explicações. Pode comprometer-se a algumha cousa e não cumprir, sem que isso seja objeto de justificação perante o que/quem se comprometeu…

Um razoamento implacavelmente simples para que não haja sistema público de saúde: eu não tenho por que dar dinheiro para curar outras pessoas; eu não sou responsável da sua doença. Essa conceção da soberania pessoal (brutalmente limitada por toda a classe de violência simbólica, aceite ou desapercebida) é rotunda vitória da legitimação dos atuais modos de vida em muitos países onde cresce a pobreza e a violência como realidades indiscutidas. Tudo como se não houvesse vazios e abismos no nosso mundo social; culpabilizando a administração ou a outras pessoas dos problemas que não se querem ou conseguem resolver: da velha que não pode habitar a sua casa com a sua família e não tem centro que a acolha, ou da despersonalização do centro. Substituímos a consciência e a ação real polo slogan e a mobilização pontual coletiva e abstrata (manifestar-se é, muitas vezes, hoje, umha sublimaçom), ou por outras atividades de simulacro, aliviando a inoperância, mantendo, perversa e inconscientemente, a consciência intata. [email protected] e [email protected] na aversão ao/à Outro/a, só superando-a criticando o tratamento que as pessoas fugidas (refugiadas?) recebem da tal administração (UE, Governos…), mas aí detendo a nossa definição de solidariedade, o que faremos quando tenhamos que aceitar que aquele problema demográfico ou o pagamento dos subsídios de reforma só poderão ser pagos se venhem [email protected] trabalhar, reitero, trabalhar, e viver, viver, entre nós… Terrível será para [email protected] que ainda tenhamos que agradecer a quem desprezamos…, exceto que seja filha adotada dum bom pequeno burguês, dumha acomodada burguesa…O individualismo atual também não dá explicações. Pode comprometer-se a algumha cousa e não cumprir, sem que isso seja objeto de justificação perante o que/quem se comprometeu; pode não responder; pode: é o seu direito soberano individual. Pode não comprometer-se; pode nem sentir-se interpelado. Pode atuar sem memória, sem agradecimento. Bastante tem com salvar a si mesmo…!

E sentido comunitário

E, no entanto, há remédio, remédios humildes e caseiros, remédios locais, remédios de proximidade, remédios redes de proximidades, redes de remédios de proximidades; olhares e vontades que se levantam um pouquinho; que transitam; que aprendem em muitos passados e alguns presentes e em olhos e desejos que não é irremediável, que encontram satisfação ao imaginar que podem fazer cousas concretas que as transcendam, que podem inserir no seu quotidiano essas cousas; que podem ver que essas cousas que fazem fazem que outros seres estejam melhor; e, até, que se unam à corrente interminável de quem acredita e concretiza.

Que pensam em termos de comunidade e imprimem sentido comunitário à sua forma de entender e fazer. Que se associam a outras, que geram coletivos para avançar no concreto e no possível, com medo atenuado ao impossível. E que, quando pensam que já não podem ir além, que estão gastas e inservíveis, pressionadas, estressadas, levantam-se sobre si mesmas para recuperar a ideia humilde de que fazem parte daquele coletivo ou desta comunidade, descansam um pouco ao pé da árvore ou da casa, prosseguem o caminho empreendido, alimentam-se do olhar e do desejo, do feito e do por fazer, espelhado no que conseguirom, traçado no que ainda virão a conseguir. Humildes por despretensiosas mas soberbas na eficácia, transitando, sem estridência, comprometidas e, ainda, mais que comprometidas, essência natural das comunidades e coletivos a que pertencem, naturalizado o que era esforço reflexivo, sendo que a sua vida é no ser social que se encontra. Colocando a sua soberania pessoal, intransferível, na sequência do seu ser coletivo, transitivo, associado, comunitário. De que abraçar alguém significa usar e estender os próprios braços para vincular-se; um ato supremo de soberania pessoal.

 

Elias J. Torres Feijó

Elias J. Torres Feijó

Professor de Literatura, em origem, e, mais, na atualidade, de Cultura. Foi presidente da Associação Internacional de Lusitanistas (2008-2014) e vice-reitor da USC, onde coordena o Grupo de Investigação GALABRA.
Tenta trabalhar coletivamente e acha que o associacionismo é a base fundamental do bom funcionamento social e comunitário. A educação nos Tempos Livres é um desses espaços que considera vitais.
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