A importância do idioma na identidade coletiva



“Eu sou porque nós somos”

Marielle Franco,vereadora de São Paulo,

assassinada por negra e lésbica (março 2018)

 

Dizia Castelao :”Se ainda somos galegos é por obra e graça do nosso idioma”1. A língua galega como identidade coletiva encontra-se já em Rosalia “Cantarte hei Galicia na língua galega”…que así mo mandaron, que cante e que cante na lingua que eu falo”2.Esta declaração de intenções desvela um conflito social e linguístico. Rosalia identifica-se com Galiza através da língua e é uma subversiva fazendo do galego uma língua de cultura. A utilização literária do idioma galego converte-se num ato normalizador,reivindicativo, e identitário face a homogeneização espanhola. Apagar a língua galega faz parte dum processo colonial de conquista. Porque o idioma é a expressão sonora e de permanência da nossa cultura. É o sinal evolutivo da espécie como grupo humano. Manuel Maria escreve e Miro Casavella canta: “O idioma é a chave coa que abrimos o mundo:..Renunciar ao idioma é ser mudo e morrer. Precisamos a lingua se queremos vencer!3 Manuel fala de vencer. Reconhece que há luta. E claro que há! Soterrada ou explicita: O Castellano dominando e o galego na defensiva, na resistência.

Eu opino que estamos carregadas de razões para enfrentar a luta:

A) O Nosso é um idioma antigo e importante4.(O texto mais antigo data de 1175)“Levamos séculos aqui”5 ( A Quenlla)

B)Mália ter sido proscrito por mais de trezentos anos preservou-se como língua oral com uma unidade e identidade assombrosa: Nas lendas, na cultura popular e nos cânticos do povo herdeiros da nossa lírica medieval a mais importante de Europa6.

C)A Língua galega foi defendida por grandes vultos da cultura como Frei Martim Sarmiento7 e o Padre Benito Feijoo8 que já no século XVIII recomendam seu uso no ensino.

D) A primeira organização nacionalista galega ativa chamou-se Irmandades da Fala9, e

E)existe Academia da Língua Galega desde 1906.

F) É uma Língua formosa, extensa e útil.

G) É a nossa.

Há pois reconhecimento, por parte da classe intelectual galega, de que o idioma galego é importante e identitário. Mas creio que isto não se trasladou ao povo em geral. Mália termos aulas de galego obrigatórias desde há mais de 30 anos o nosso idioma perde utentes com cada um que passa em beneficio do Castellano. Num processo aculturizante de diglossía e auto-ódio generalizado. Identidade e língua estão a ser diluídas na homogeneidade geral em que a cultura familiar é substituída pela televisiva ou dos mass media. Eu observo isto com alarme. Um povo inculto é mais manipulável. Um povo colonizado culturalmente tem menos defesas face o poder e menos interesse no cuidado de seu Património. Perde capacidade reivindicativa para projetos comuns. Empobrece-se.

A nossa língua não periga a nível universal. Porque, mália o acosso e dominação do castellano, continuou o seu desenvolvimento normal em Portugal, tornando-se língua de Estado10. Mas sim periga no berço onde foi criada, na Galiza.

E,quanto a mim, o meu país é em galego. Como disse Carvalho Calero:

Se finalmente o castellano acabasse por “vencer” esse já não seria o meu país. Não teria já para mim qualquer interesse. Não mais do que qualquer outro lugar da Terra.

Faço meu o slogam:Na Galiza em Galego.

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NOTAS bibliográficas.

I.- Castelao: Sempre en Galiza

2.- Rosalia de Castro: Cantares Galegos.17Maio 1863

3.-Manuel Maria,Manuel María (2001). Obra poética completa I (1950-1979) (A Coruña: Espiral Maior)

4.-1175 José António Souto: Doc. Entre Gomes Pais e Ramiro Pais( Torre do Tombo, Lisboa)

5.- A Quenlla, – Mini e Mero, Poema Coa luz á porta.

6.-Refere-se á Lírica dos cancioneiros medievais. Recentemente esteve exposto o pergaminho Vindel no Museu do Mar de Vigo que data de fins do seculo XIII Outro: O documento da lírica galego-portuguesa máis antigo parece ser a cantiga satírica “Ora faz ost’o senhor de Navarra” de Johan Soarez de Pávia, datado en 1196 por algúns expertos .

7.-Frei Martin Sarmiento. Erudito ilustrado nascido em Vilafranca do Berço, mas que recolheu muitos dos seus saberes durante as viagens que fez por Galiza no 1745 e seguintes.

Destaco dele este texto:“Tomei a pluma para escribir estes pregos, compadecido da xuventude galega, que tanto tempo

ocupa en estudiar unha lingua que ignora por outra que non sabe; sendo así que na lingua nativa, que mamou, ten os principais fundamentos para entender con máis facilidade o latín e con máis prefección o castelán” ( tomado de Belén Pérez Aldariz ,Master em Educación. UNED 2016)Indica para seu sobrinho:”Quero que se lle ensine a lingua galega con especial coidado, ademais que debe charlar con outros nenos. Non penses en que castelanice ata que saiba ben e con extensión o galego… É unha

desalmada necedade poñer ós nenos galegos á xiria da Gamática antes de saber con moita extensión a lingua galega…

Faite cargo que o portugués se lle ensina en portugués, ó francés enfrancés… ó castelán só en castelán. Pois que tiranía é que ó galego non se lle ensine en galego.

(Da Educacion da Juventude)

Colección de voces y frases gallegas, Onomástico Etimologico da Língua Galega.1970 [edición de J. L. Pensado]

-Coloquio de vintecatro galegos rústicos, 1995 [edición de R. Mariño Paz] ).

Cantigas de Perico e Marica.

O Padre Sarmiento recomenda fazer trabalho de campo dando as instruções bem precisas para isso. Com a finalidade de recolher as voces galegas ( junto com nomes das plantas e outros dados de interese.)<< Indica que seis pessoas percorram toda Galiza, acompanhadas de dous gardas que deveram ser galegos porque, desta maneira entenderám melhor as vozes que se vão recolher e investigar. Manda que estes “investigadores” – três principais- escriba en gallego todos los nombres según se pronuncian en cada país respectivo, añadiendo siempre el acento correspondiente, y distinguiendo con alguna señalita la O y la E cuando son abiertas o cerradas. Sinala que se escreva o “x” ,O “G”ou o “j” segundo a pronuncia que , << En Galego tem diferente son que en castellano>> E, tambem insiste em que se recolham as vozes galegas diretamente das pessoas falantes, separando-as das “castellanizantes” .

8.-Padre Benito Jerónimo Feijoo: El gallego no es un dialecto del castellano:Benito Jerónimo Feijoo • Teatro crítico universal • Tomo primero • Discurso XVParalelo de las Lenguas Castellana, y Francesa§. I.28. Que la lengua Lusitana, o Gallega se debe considerar dialecto separado de la Latina, y no subdialecto, o corrupción de la Castellana, se prueba, a mi parecer con evidencia, del mayor parentesco que tiene aquélla, que ésta, con la Latina. Para quien tiene conocimiento de estas lenguas no puede haber duda de que por lo común las voces Latinas han degenerado menos en la Portuguesa. Esto no pudiera ser, si la lengua Portuguesa fuese corrupción, o subdialecto de la Castellana: siendo cierto, que con cuantas más mutaciones se aparta una lengua de la fuente, tanto se aleja más de la pureza de su origen.// ….el Lusitano: en que, advierto, se debe incluir la lengua Gallega, como en realidad indistinta de la Portuguesa, por ser poquísimas las voces en que discrepan, y la pronunciación de las letras en todo semejante: y así se entienden perfectamente los individuos de ambas Naciones, sin alguna instrucción anterior.

9.-Na sua fundación declara: “Na fala galega vive a ialma da nosa terra”.

10.- Denis Vicente Quilombo Noroeste, jan, 2017

Citações – Carvalho Calero – Academia Galega da Língua Portuguesa

Adela Figueroa Panisse

Adela Figueroa Panisse

Adela Clorinda Figueroa Panisse é de Lugo (Galiza), fazedora de versos, observadora do mundo e cuidadora de amizades. Trabalhadora no ambientalismo e na criatividade da palavra. Foi professora e lutadora pela recuperação da dignidade da Galiza e, ainda, pela solidariedade entre os seres humanos e a sua reconciliação com a terra. Gosta de rir, cantar e de contar contos. Também de escutar histórias, de preferência ternas e de humor.
Adela Figueroa Panisse

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  • abanhos

    Façamos à lingua necessária…por todo o lado, frente a politica da imposição do castelhano, que consiste em fazê-la desnecessária e degredada, é dizer, imperfeita e pouco apta.

    Na Galiza o nosso português galego terá futuro se for necessário, socialmente necessário e imprescindível.

    Isso é o que tem que significar: Na Galiza em galego

  • Terezinha Costa

    A linda fala de Marielle Franco na epígrafe é um princípio filosófico africano, o Ubuntu, das culturas zulu e xhosa. Faz, portanto, parte da nossa humanidade comum. Sim, as sabedorias ancestrais precisam ser resgatadas, porque respondem a nossas necessidades atuais. Igualdade na diversidade: Eu sou (diverso de todos os outros) porque nós somos (iguais em nossa humanidade).

  • jose maria

    adela Figueroa panisse una compañeira e mais amiga todavía que che abre a mau para que confies nela eu fixeno e nun endexamais quedei decepcionado,mais ainda a sua faceta como soprano do coro llugh qye beleza de sopran que beleza de muller obri bico,