ALDEIAS DE ORDES

A importáncia da força do focinho



Mapa de Ramil

Na mitologia germánica e nórdica Freyr (ou Fro), junto com a sua irmá Freya, eram os deuses da fertilidade, razom pola qual ele era representado nas estátuas com um enorme pénis ereto. Freyr, aliás, acostumava deslocar-se num carro movido por dous singulares animais de tiro aos que se acha associado: os porcos bravos Slidrugtanni e Gullinbursti, javali este último cujo cabelo brilhava na escuridade. Durante a batalha, os guerreiros germánicos consagrados ao culto do porco bravo luitavam em formaçom de cunha com os seus dous paladins à fronte, formando o rani ‘focinho’. Focinho do porco, força, fecundidade… son ideias interrelacionadas no imaginário germánico que convergem no nome dumha aldeia da freguesia da Barbeiros: Ramil.

Caminho na aldeia de Ramil, em Barbeiros (Ordes)

Caminho na aldeia de Ramil, em Barbeiros (Ordes)

Ramil explica-se unanimemente por umha (villa) Ranimiri, que também podia ser umha terra, fundo ou qualquer outra possessom dum senhor chamado Ranimirus, nome que hoje levam os que se chamam Ramiro, entre eles duas pessoas importantes no nacionalismo galego na comarca de Ordes: Ramiro Recouso, histórico concelheiro do BNG de Ordes que a minha nai sempre lebrará como um reivindicativo companheiro de aulas –e que faz parte da microtoponimia vilega, dando nome a um passeio fluvial- e Ramiro Fernández, peça chave no artelhar do agrarismo e do Partido Galeguista em Bujám e em toda a comarca de Ordes durante a II República –da que entom este concelho fazia parte-, assim assinante habitual de artigos de política local em A Nossa Terra, valiosos testemunhos daquele tempo.

Ese antropónimo germánico é claro que contém o termo mêreis ‘célebre’, que originou tantíssimos topónimos rematados em –mil, mas nom está tam claro de que elemento gôtico vem o Ra- inicial. Piel e Kremer hesitavam entre *rana, ‘focinho do porco bravo ou ordem de combate em forma de cunha ou focinho do porco bravo’ e *rahana, ‘roubo, botim’. Almeida aposta nesta última opçom, polo que Ramiro significaria em origem algo como ‘Botim Célebre’, enquanto Higino Martins prefere a teoria de Ranimirus significar ‘Famoso no desenrolo da hoste’, em congruência com a sua teoria de os nomes dos primeiros reis galegos nom serem de pia senom de entronizaçom, postos para ressaltar as virtudes do monarca, e de facto Ramiro I destacou precissamente como estratego nas batalhas contra normandos e muçulmanos da Yspánia[1]. De ser assim, esta seria a única alusom ao porco bravo que encontrei na toponímia ordense, por mais que este fosse umha espécie importante na civilizaçom dos castros e durante a Idade Média galega, animal totémico dos Andrade, construtores da ponte de Sigoeiro.

Ferrín, por sua parte, aponta que Ranimirus como nome de homem seguramente se pugera “de moda polos varios reis que o levaron”, e que os topónimos Ramil seriam anteriores ao ano 711[2], com o que a nossa aldeia de Barbeiros andaria polos mil trescentos anos de antiguidade. Há outros lugares com este nome em toda a área do antigo Reino Suevo da Galiza, citando Joseph M. Piel dez na província da Corunha, cinco na de Lugo, três em Ourense, outros três em Ponte Vedra, um em Viana do Castelo, dous em Braga, um no Porto e outros em Aveiros, vinte e oito em total[3].

Caminho da aldeia de Ramil, em Barbeiros, Ordes

Caminho da aldeia de Ramil, em Barbeiros, Ordes
Aldeia de Ramil, em Barbeiros, Ordes

Aldeia de Ramil, em Barbeiros, Ordes

Mas basta de assuntos de corte e realeza, porque é na cultura popular onde o imaginário germánico do porco do focinho se mostra mais interessante. Em primeiro lugar parece que estes povos germánicos que acabaram com o Império Romano –fundando na Gallaecia o primeiro reino cristao da Europa Ocidental- tinham umha série de crenças e pré-conceitos religiosos que bloquearam o desenvolvimento da sua agricultura, derivados de considerar a lavrança umha autêntica violaçom da terra mai. Por esta razom, antes de profanar a terra adotavam prevençons rituais como a de cravarem no chao das leiras os colmilhos dum javali, posto que este animal, que gosta de foçar no chao, teria certo direito sobre a terra. Igualmente, referiam-se ao impúdico arado, falo sacrílego dos labregos, com nomes de animais gratos a Odim e que gostavam do foçar no chao, para desta maneira despistarem os espíritos que perseguiam aos violadores da terra.

A metáfora do arado abrindo rego como pénis penetrante é praticamente universal entre todos os povos agrários que contam com tal tecnologia, nom faltando alusons nas cantigas erótico-populares galegas[4]:

Rapaza se vás arar

áquela leira do souto,

prestarei-che o meu arado

e mailos bois por um pouco[5].

Rapaza se vás arar,

prestarei-che o meu arado;

tem-che gueifas e penedos

está-che mui bem aparelhado[6].

Quem quigesse ter amores

Tenha-os c’um home casado:

Sabe governar a vida

E mais temperar o arado[7].

Esta noite fum lavrar

e rompeu-me o aradoiro;

fugeu-me a mulher da cama

e fum atrás dela em coiro[8].

Neste sentido, o velho brinquedo erótico de “passar as mulheres polo arado” durante a sementeira, que aquí se fazia com grandes risadas e de maneira absolutamente lúdica, parodiando um coito com o aparelho[9], noutros povos era um ritual de fecundidade realizado com a máxima solenidade, preparando o pénis-arado para fecundar a terra. Ainda, a comparaçom entre o arado e o potente focinho sachador do porco bravo vem de antigo, também com esta conotaçom sexual. Pola força do focinho e por outras razons, o porco vem sendo considerado na cultura cristá um símbolo da luxúria, motivo polo qual na iconografia do Santo Antom Abade o religioso aparece vencendo este animal. Mas umha cousa é a religiom dos bispos e outra a do povo, com preocupaçons mais terrenais. Nom em vao, os homens dirigiam-se com a seguinte cantiga ao outro Santo Antom, o casamenteiro de Lisboa, pedindo por umha ereçom milagrosa:

Sam António, Sam Antoninho,

dá-me força no caralho,

como o porco no focinho[10].

NOTAS:

[1] Higino Martins Estêvez, As tribos calaicas. Proto-história da Galiza à luz dos dados linguísticos, San Cugat del Vallés, Edições da Galiza, 2008, p.540.

[2] Xosé Luis Méndez Ferrín, Consultorio dos Nomes e dos Apelidos Galegos, Vigo, Xerais, 2007, pp. 370-371.

[3] Joseph-Maria Piel, Estudos de lingüística histórica galego-portuguesa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1989, p. 162.

[4] Xosé Ramón Mariño Ferro, O sexo na poesía popular, Vigo, Edicións do Cumio, 1995, pp. 115-116.

[5] M. Rico Verea, Cancioneiro popular das terras do Tamarela, Vigo, Galaxia, 1989, cantiga nº 41.

[6] Ibidem.

[7] D. Blanco, A poesía popular en Galicia 1745-1885, Vigo, Xerais, 1992, nº 1704.

[8] Fermín Bouza-Brey, Etnografía y folklore de Galicia, Vigo, Xerais, 1982, nº 120.

[9] Explica Lisón Tolosana que, segundo lhe contárom as protagonistas, ao rematar a malhar do centeio e sementar o milho em Picouto, passavam por riba do arado e perneavam, e às vezes se havia quatro ou cinco mulheres afoutas colhiam um homem de maos e pés e também o passavam polo arado, dando-lhe com o cu no chao e mesmo lhe tiravam as calças. Diversom erótico-festiva à que também lhe chamavam “peneirar”. (Carmelo Lisón Tolosana. De la estación del amor al diálogo con la muerte, Madrid, Akal, 2008, p. 14).

[10] Xosé Lois García, “Antropoloxía e devoción popular Santoantoniana en Galicia”, Polas diversas xeografías da Lusofonía, Guitiriz, A.C.Xermolos, 2013, p. 69. Também se dirigiam a ele as mulheres, exigindo-lhe reclamaçons por umha petiçom mal concedida:

Sam Antoninho querido

meu San Antoninho amado,

hei-che de pedir contar

por dar-me um homem capado.

Carlos C. Varela

Carlos C. Varela

Carlos Calvo Varela (Ordes, 1988) colaborou e colabora com diveros meios de comunicaçom, entre os quais Novas da Galiza, Praza Pública e o Portal Galego da Língua. Estudante de Antropologia e investigador, tem publicado numerosos artigos em portais web, revistas e livros, além de realizar um reconhecido labor como dinamizador social e cultural em coletivos de Compostela e Ordes.
Carlos C. Varela

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  • abanhos

    Sant’antom, sant’antoinho da-me força no…
    Acho que está é a forma mais comum.

    Belissimo e cultissimo texto