AS VIAGENS DO PERRACHICA

A história de Ulf, o galego, o viquingue que passou vários anos lutando na Galiza



A alta Idade Média foi uma época dura, terrível, cheia de guerras e de calamidades. Uma época escura que deixou poucas pegadas para pesquisar com precisão. E, por isso, ainda hoje, é difícil conhecer com exatidão o que passou nesses séculos que mudaram boa parte da geopolítica e dos territórios da velha Europa.

Mas quando falamos de escuros, não queremos dizer que sejam negros, nem maus, nem piores do que outros períodos históricos, senão só isso, escuros. Uma escuridão nas fontes e também no estudo material, e a ausência de escavações nessa época, que fazem que, quando se fale da Alta Idade Média haja de fazê-lo com cautela. Por isso, vamos ser cautelosos à hora de contar a história de Ulf, conhecido como ‘O galego’, que acaba de estar na moda porque, supostamente, um arqueólogo dinamarquês encontrou a sua tumba há pouco, como já adiantei no blogue.

Jarl Galizu-Úlfr, Ulv Galiciefarer ou Galicieulf, “O lobo da Galiza” é como se chama Ulf nalguns documentos históricos. Uma alcunha que lhe pugêrom os seus próprios compatriotas dinamarqueses porque foi, precisamente, na Galiza onde ganhou sona de guerreiro, de mercenário e de saqueador. E foi, aqui, neste país, que os víquingues chamavam Jakobsland, a Terra de Santiago, onde Ulf amassou a sua riqueza e adquiriu um grande status social que, com o tempo, fariam dele o bisavô dum rei víquingue e católico. Mas essas são já outras histórias.

Festa viquinga de Catoira

Festa viquinga de Catoira

A sua chegada à Galiza

A primeira dúvida que assalta os poucos investigadores que se adentraram na figura de Ulf, ‘O Galego’, são as datas dos seus ataques à Galiza. E depois de se mergulharem em numerosas fontes medievais chegaram à conclusão de que é posterior aos ataques de Olaf II, a começos do século XI, e que deixaram Tui tão arrasada que demoraria quase 80 anos em ressurgir das suas cinzas. Um Olaf que, curiosamente, passou de ser um demo para os cristãos a ser o primeiro rei víquingue em entrar no santoral católico… Cousas que tem a história.

Por isso, as datas prováveis dos ataques de Ulf à Galiza seriam entre o 1028 e 1048, tal e como se desprende da saga dos Canutidas, mais conhecida como Knytlinga Saga, redigida entre os anos 1240 e 1270, e nas crónicas de Saxo em pleno século XII. Mas, curiosamente nada aparece dele nas crónicas da História Compostelã. Na Saga do rei Olaf, do islandês Snorri Sturlsson, também aparece citado, ainda que nada mais que como ajudante e personagem secundário, sem fazer referência às suas atividades em terras galegas. Eduardo Morales Romero identifica um ataque do ano 1028, já com a presença de Ulf da Gallaecia. Pérez de Urbel, relaciona um acontecimento ocorrido na torre de Lábio com a presença de Ulf. Isto sucedeu no ano 1032, isto é, quatro anos depois da chegada do víquingue dinamarquês à Galiza. Mas, igualmente, liga-se à derrota dos normandos a mãos do bispo Crescónio com Ulf da Gallaecia, e isto ocorreu entre os anos 1047 e o ano 1066, data da morte do bispo.

Tomando o ano 1047 como data mais aproximada à realidade do combate entre Crescónio e os víquingues, teríamos como resultado que a presença e o controlo parcial de Ulf na Galiza, foi de dezanove anos, desde 1028 até 1047, segundo aponta Swabaharjaz na web Haraldwartooth. Um tempo em que este víquingue saqueou, controlou e ofereceu-se como mercenário a condes locais, e terminou derrotado numa batalha na ria de Arouça.

Em todo o caso, a sua chegada à Galiza coincidiu com uma grande instabilidade política e com uma Galiza dividida e enfrentada sob o reinado de Vermudo III. E o ‘lobo galego’ semelha que se aproveitou dessa situação, bem para tomar parte por algum dos bandos ou, simplesmente, para aproveitar essa debilidade e saquear as cidades e as vilas galegas.

Lugar da suposta tumba de Ulf, o Galego, em Dinamarca / National Geographic

Lugar da suposta tumba de Ulf, o Galego, em Dinamarca / National Geographic

Mas, quem era Ulf, realmente?

O seu pai chamava-se Ulf, era conde de Dinamarca e um grande guerreiro; foi-se numa expedição víquingue a Ocidente e conquistou a Galiza, que arrasou e saqueou conseguindo um grande botim; e por isso era chamado Ulf o Galego; estava casado com Bothild, uma filha do conde Hakon Eriksson”, diz a Knytlinga Saga sobre ele. Também diz que partiu “valentemente com os seus para o oeste à conquista de Iakosbland (a terra de Santiago)“. Segundo Vicente Risco, as lendas atribuem ao “lobo galego” a sua participação como mercenário nas tropas do conde galego Rodrigo Romariz, no assalto ao Castelo de Beiço, perto da atual Lugo, no contexto das revoltas contra Vermudo III. Estas razias foram contínuas, e durarom vários anos, até que foi expulso polas tropas de Crescónio, mas não antes de ter saqueado localidades como Redondela ou recintos monásticos nas ilhas de São Simão, Cies e Toralha.

Mas, vamos por partes… No ano 1032 há um documento monástico em que se menciona como um conde chamado Rodrigo Romariz, contrata mercenários víquingues para combaterem contra mercenários bascões que, após independizarem-se do seu senhor, decidem ficar na Galiza semeando o terror. Eduardo Morales Romeu escreve na sua Historia de los Viquingos en España que:

Junto ao conde Rodrigo Romariz, lutando contra um contingente de bascões, provavelmente também mercenários, que após ajudarem o conde na sua rebelião contra Vermudo III, fizeram-se fortes no Castelo de Lápio, na diocese de Lugo e desde onde saquearam a zona, cometendo todo o tipo de tropelias, polo que os abades, os monges, e o povo de Santa Maria pediram que pugesse termo aos demais bascões”.

Também, e como recolhe a web Haraldwarthooth, um documento do ano 1032 narra este acontecimento da seguinte forma:

Vermudo III, no castelo que chamam Lápio, na sede de Lugo, ano 1032. Eu, em verdade, Vermudo rei, da prole de Afonso, de Deus Omnipotente elevado no Reino; de novo o conde Rodrigo Romáriz, sobrinho do mesmo Suário Gundemáriz, tivo uma agitada deliberação com os bascões da Galiza e rebelou-se contra nós, segundo se ouve dizer a muitos que ficaram entre nós. Mas naqueles mesmos dias coligaram-se entre os abades, os monges e os homens plebeus de Santa Maria, e pelejaram contra os do conde dos bascões, que se assentaram na pena, dizendo que receberam deles grande dano e desfeitas nas igrejas e refugalhos em mesquinhos e crebados e homicídios e furtos, deixando aquela terra erma e abatida. Então, não obstante, juntou-se o dito conde com todos os seus barões e com gentes normandas, cercou a pena, tomou-a pola força e queimou-a e arrasou-a”.

E neste facto histórico aparece mencionado Ulf, o Galego. Por isso, não são poucos os investigadores que acreditam que, nessa época, as razias víquingues eram constantes e importantes na Galiza e no norte peninsular, polo que não descartam que houvesse assentamentos concretos desta população nestes territórios. De facto, em Vicedo, na marinha luguesa, no lugar dos Moutilões, do qual já temos falado, uma equipa de arqueólogos estivo estudando a possível ligação deste sítio arqueológico com um assentamento víquingue.

De serem certas estas hipóteses, isto explicaria como os víquingues eram capazes de se moverem por vastos territórios da Galiza e mesmo do noroeste da península. Também explicaria como operava Ulf, com uma zona estável de operações desde o ano 1028. Nesse ano, a rainha Velasquita Fernandes, utilizou víquingues para ajudar o seu amigo Felix Agelazi a escapar das costas da Galiza ao Cantábrico, onde, já agora, a saga de Olaf Haraldsson fala dum ataque a um porto dinamarquês em Castropol alguns anos antes.

Torres do Oeste, em Catoira, onde segundo alguns autores teve lugar a batalha na que Crescónio derrotou Ulf, O Galego / pinterest.es

Torres do Oeste, em Catoira, onde segundo alguns autores teve lugar a batalha na que Crescónio derrotou Ulf, O Galego / pinterest.es

O final dos seus ataques

Parece que o final da aventura galega de Ulf chegaria por volta do ano 1047, quando já governava Fernando I, após vencer Vermudo III na batalha de Tamarón. E Ulf cairia vencido sob a espada dum homem da Igreja, o bispo Crescónio que o teria derrotado numa batalha na Ria de Arouça. Foi precisamente Crescónio quem ordenou fortificar as Torres de Oeste, em Catoira, para evitar os ataques normandos, mui frequentes na altura e que punham em perigo Santiago de Compostela, o grande centro religioso da antiga Gallaecia.

Báculo e balesta (..) com as suas valentes e disciplinadas hostes destruiu inteiramente o poder dos normandos que invadiram estas terras”, conta a Crónica Compostelana as façanhas de Crescónio sobre um grande caudilho normando que os autores identificam com Ulf, O galego. Esse mesmo nobre dinamarquês de quem asseguram ter encontrado o seu enterramento.

Foi tão contundente essa derrota que Ulf se viu obrigado a se retirar à Dinamarca para não regressar nunca mais. Nem ele, nem outra grande frota de víquingues. Com ele começou também a época decadente dos normandos na Galiza.

Bibliografia:

Knytlinga Saga.

– Sturlsson Snorri, Saga do rei Olaf.

Crónica Compostelã.

– Eduardo Morales Romero, Historia de los vikingos en España. Miragunao, 2004.

– Vicente Risco, Historia de Galicia. Editorial: Galaxia, Vigo, 1978.

– Justo Pérez de Urbel. Historia del Condado de Castilla, 1945.

– Mercedes Arriaga Aragunde, Ulf, o viquingo galego, Asociación Galega para a Cultura e a Ecoloxía, 2009.

Outras fontes: próprias, haraldwartooth, hispaniavikinga,

Xurxo Salgado

Xurxo Salgado

Xurxo Salgado Tejido, tominhês, da família dos Perrachica. Gosta de caminhar polo monte e polo mar, de percorrer os caminhos do país e, quando puder, descobrir castelos e castros esquecidos e conhecer da gente as lendas e as histórias que tecêrom a nossa nação. O resto do tempo, jornalista e diretor do Galicia Confidencial, coordenador de Historia de Galicia e professor de cibermeios na Universidade de Santiago.
Xurxo Salgado

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  • Heitor Rodal

    Muito interessante e muito bem explicado.

    Obrigados!

  • Ernesto V. Souza

    Parabéns Xurxo, já estamos com vontade de uma nova entrega das Viagens…