Helen Burr: “Os galego-falantes que conheço têm a minha admiração total – a sociedade atual não facilita a decisão de vivermos em galego”



helen-01Helen Burr, Memphis, Tennessee, estudou trompa na Universidade Northwestern (Chicago), morou durante seis anos na Nova Zelândia, onde trabalhou numa Orquestra Sinfónica.

Lá conheceu um galego numa caminhada por uma montanha e terminou morando na Galiza.

Aprendeu castelhano, e depois galego, língua que tornou sua, motivada pelo nascimento da sua filha.

Atualmente é colaboradora do projeto Semente Vigo.

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Como foi vires para a Galiza?

Sou estado-unidense, de Memphis, concretamente. Cheguei a esta terra há dez anos depois de namorar um galego que conheci em riba duma montanha na Nova Zelândia. Eu estava lá a trabalhar numa orquestra sinfónica.

Os anos na Nova Zelândia ensinaram-me a apreçar outra forma de inglês, outro sentido de humor, outras formas de travar a amizade. Depois, nos primeiros anos vivendo na Galiza centrei-me em aprender o castelhano e o galego.

 

Fala-nos de ti. O que estudaste? Que formação tiveste, em que trabalhas, que interesses pessoais tens?

Estou licenciada em Música (trompa). Estudei na Universidade Northwestern nos arredores de Chicago onde gostava muito da variedade de música, arte, teatro, performance, comidas internacionais, etc. A minha cidade nativa, Memphis, parecia-me uma aldeia. Toquei com os melhores diretores de orquestra na Civic Orchestra de Chicago, equivalente aos programas de formação que têm as nossas duas orquestras sinfónicas na Galiza. Tinha muita determinação e queria formar parte duma orquestra, ganhei a prova para ser solista em Memphis antes de terminar a carreira em Chicago. Ao cabo dum ano conciliando trabalho em Memphis com terminar a carreira em Chicago, queria ver mundo e aceitei um trabalho na orquestra filarmónica de Auckland, Nova Zelândia, onde trabalharia seis anos antes de me apaixonar polo Manuel. Na Galiza, tenho tocado a trompa em várias bandas de música e orquestras.

 

Vives em galego, falas, escreves, foi doada a cousa?

A verdade é que ainda me sinto mal preparada escrever com a norma AGAL, mas o que che posso dizer é que conviver com o ex-secretário de AGAL pouco a pouco me convenceu da proximidade das línguas fronteiriças.

Nas primeiras excursões a Portugal tive a sensação de incompreensão total, tal como tivera com a avoa do meu home, que não podia manter mais quem uma frase em castelhano sem voltar ao galego. Com o tempo fui aprendendo galego, motivada pelo nascimento da nossa primeira filha… a quem não queria ver rejeitar a língua do seu pai.

E mentres eu vivia um achegamento ao galego, o meu home começou aulas de português… e chegou com ideias novas a casa. Eu resisti bastante e parecia-me confusa a tendência de mudar a grafia dos nomes etc. Quanto mais recuperou da fala da sua avoa e bisavoa através do estudo de português, quanto melhor me entendia nas excursões a Portugal. Com o seu esforço com a nossa filha e filmes infantis em brasileiro (reconheço que era reticente ao princípio), logo decatei-me de que compreendia mais e mais. Vim que os preconceitos dos Galegos em contra da sua própria língua se estendiam em contra da “língua vizinha”.

 

Ser norte-americana na Galiza, a falar galego com sotaque estranho, tem de ocasionar não poucas confusões?

As anedotas mais relevantes têm que incluir uma visita a urgências quando caíra duma cadeira estando grávida… explicando o caso ao médico, interrompe-me dizendo “espera, temos um compatriota teu fazendo práticas [um estágio] aqui… cho buscamos (sic)…” pois não foi um estado-unidense quem entrou, mas um português. Desde aquela são muitas vezes que me confundem com portuguesa.

Os galego-falantes que conheço têm a minha admiração total – a sociedade atual não facilita a decisão de vivermos em galego.

No meu caso realmente vivo em inglês e galego. Na casa falamos as duas línguas. Projeto imersão com as nossas filhas funcionou tão bem que o inglês é a sua língua principal. A estratégia consistia em brincar com outros rapazes em inglês e encher a casa de contos e música em inglês. Estou convencida que a cultura e o jogo são as melhores pontes para achegar o galego-português para a grande maioria das pessoas.

 

O galego da monhanha é o Manuel?

É, o Manuel conheci-no num refúgio de montanha na Nova Zelândia. No primeiro encontro, tentou definir-me a sua identidade espanhol/não-espanhol e temo que eu não tinha conhecimento nenhum sobre a Galiza, apesar de saber da existência de Euskal Herria e da Catalunha. Tardaria ano e meio em visitar a Galiza, e não sei quantos anos em compreender o que é a identidade galega.
Tens saudades desse teu país natal, tão cinematográfico e icónico? Nada a ver com a Galiza?

O que me atrai da minha terra é a minha família, mas tenho sorte e podo visitá-los bastante. De nova, já tinha vontade de escapar do Sul dos EUA com o racismo e consumo visível tam prevalente que me dava nojo. Ironicamente, noto as cousas tão mudadas quando visito agora, que acho que não teria tardado muitos anos em topar forma de sentir orgulhosa da minha terra, mas no momento de partir para Nova Zelândia parecia-me impossível sentir orgulho duma cidade tam dividida. Desde logo, pude palpar o complexo orgulho/auto-ódio galego que surge por motivos históricos diferentes mas que resulta igual de difícil de combater.

 

Interessa-nos o da Semente. Como mãe e como ativista da língua, que opinas do projeto e que te motivou a participar?

Como mãe, importou-me desde o princípio que falassem a minha língua e tive a sorte de ter uma amiga empenhada em formar um grupo de jogo semanal em inglês para que não só fosse a língua da mãe, mas também dalguns amigos. As amizades já os seis anos da vida da nossa filha mais velha são impressionantes e essenciais na sua identidade multilíngue.

O que subestimaríamos fora a necessidade de algo parecido para que formasse amizades em galego. Realmente foi nesse curso, o primeiro com a Semente Vigo funcionando, que por fim, tenho a certeza de que a nossa filha mais velha gosta de jogar em galego e sinto alívio por ter um sitio onde é o normal. Para a nossa criança pequena o galego nunca deixou nem deixará de ser normal.

Acho que o projeto da Semente é uma das chaves de mudança na Galiza. Abraia-me o compromisso e a capacidade da gente metida no projeto. Como sempre diz o meu home, oxalá não tivessem que existir Sementes, mas tendo que existir que sementem bem. Lembro-me da a primeira vez que escutara uma criança falar galego (antes de ser mãe): foi a sensação de que presenciava uma espécie de milagre. Graças à Semente, deixa de me parecer milagroso.

Passo a passo, o certo é que cada vez que alguém leva surpresa de me escuitar a mim falar galego, arregala os olhos um pouco. Cada vez que ouvimos crianças falá-lo, aumentam as possibilidades de os galegos perderem o auto-ódio.

 

E como é isso de que sendo anglófona e tendo aprendido primeiro castelhano e depois galego, quando falas com a gente na Galiza ou em Portugal acham que falas português? Dirias que o teu sotaque quebra os imaginários ou as correlações de expectativas?

Honestamente, parece-me absurdo que tenham denominações diferentes quando as minhas amigas escocesas, australianas, neozelandesas, inglesas, irlandesas, galesas, canadianas encontramos diferenças de vocabulário e sotaque nas nossas falas bastante mais chocantes do que uma avoa do Caurel toparia falando com uma avoa numa serra do país vizinho. Aponto também que a concentração acrescentada que supõe entender o sotaque fechado dum músico de Puenteledesma é igual ou superior à que me supõe quando estou em Lisboa

 

Causa-che algum conflito identificar a língua que falas como inglês apesar de seres dos USA?

Perguntas para provocar… nunca tivera a mais mínima dúvida de que a minha língua materna é inglês. Isso sim, lembro-me de ter que ver os Monty Python legendados. Também a anedota de ter que escuitar o atendedor de chamadas seis vezes para averiguar que me admitiram na orquestra da Nova Zelândia, tanto polo vocabulário como polo sotaque. Ao viver na Nova Zelândia, fui abrindo ouvido e com amigos e companheiros de toda a anglofonia aqui na Galiza, tanto eu como as minhas filhas não adoitamos ter problemas em entender sotaques variados.

 

Sendo de Memphis, Tennessee, depois de viveres na Nova Zelândia e sendo uma viajante consumada, acho que terás mais que visto o tópico de que o inglês na sua unidade tem infinitas variedades. Daquela, como é que percebes que o galego esteja administrativamente fora da sua matriz lusófona?

 Vejo paralelos nestas frustrações:

  • amigas estrangeiras morando na Galiza desde há anos que se sentem mal preparadas para ler a correspondência das escolas dos seus filhos, ao ser inusitado para elas terem que ler em galego (cousa que não passaria se uma parte importante da imprensa fosse publicada em galego).
  • amigas galegas que sentem incapazes de ler o jornal em Portugal quando uma explicação bem dada de meia hora deve bastar para que qualquer galego leia português com normalidade.
  • o esforço e sentido de remar contra corrente que representa formar-se na norma RAG, na norma ILG, na norma não sei o quê… todo porque uma pessoa simplesmente quer mostrar respeito pela língua falada nesta terra.

 

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Conhecendo Hellen:

Um invento: O ukulele

Uma música: Quinta de Mahler sem faltar uma boa moinheira

Um livro: Ursinha tutu, primeiro conto que compramos à nossa filha em português.

Um facto histórico: Não noto a falta duma “Real Academia de Inglês” – a variedade internacional enriquece a língua, que afinal é a mesma tanto na Jamaica, Tasmânia ou Memphis.

Um prato na mesa: lentelhas

Um desporto:  Caminhadas… natação

Um filme: O Lápis do Carpinteiro


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  • http://pgl.gal Valentim R. Fagim

    Com dez como Helen…

  • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

    Sendo de Memphis e música, quem não o teve fácil para entender e empregar o Galego foi ela. É na gente normal e valente que este país acha esperança. [email protected]!

  • Ernesto V. Souza

    A que tem a minha admiração total é a Helen… não apenas pelo que tão fantástica e e lucidamente conta nesta entrevista… senão que, para além do trabalho que lhe demos na Galiza a paciência que teve com nós na AGAL e também com o PGL para fazermos esta entrevista… 🙂 apertas

  • Galego da área mindoniense

    […] Vim que os preconceitos dos Galegos em contra da sua própria língua se estendiam em contra da “língua vizinha”. […]

    Issa é ũa verdade que o resume tudo.

  • abanhos

    Que fortuna temos na Galiza de que pessoas de tanta grandeza em todos sentidos se somem a este povo com todo seu coração.
    Obrigadoooooo

  • http://www.madeiradeuz.org madeiradeuz

    Interessantíssima entrevista, Helen. É interessante comprovar como, muitas vezes, quem menos preconceitos tem sobre a unidade galego-portuguesa são pessoas que originalmente não falavam a nossa língua.

    Obrigado por compartilhares connosco as tuas reflexões… e militância!

  • http://www.notas.gal Eliseu Mera

    Bem-vinda, Helen, e obrigado polo teu compromisso!