AS AULAS NO CINEMA

GRUNDTVIG, PROMOTOR DA ESCOLA POPULAR DE ADULTOS

(Vários documentários)



O dia 5 de junho é o Dia Internacional do Ambiente, que é muito importante celebrar em todos os estabelecimentos de ensino, com atividades educativas adequadas para sensibilizar os escolares de todos os níveis, sobre a necessidade de respeitar o meio natural e ecológico e amar a natureza, agora tantas vezes ameaçada. Dentro da série que estou a dedicar a grandes vultos da humanidade, que iniciei com Sócrates no seu dia, e que devem conhecer os estudantes, encontrei um educador dinamarquês cujo labor foi muito importante para o desenvolvimento do mundo rural da Dinamarca, por meio das suas escolas populares no campo, que fez deste país um dos europeus em que melhor se cuidou o meio e em que se desenvolveram comunidades e cooperativas rurais certamente modelares, que ainda funcionam hoje. Este pedagogo, tão desconhecido como importante, foi Grundtvig (1783-1872), a quem dedico o depoimento nº 50 da série citada.

grundtvig-caricaturaDe nome completo Nicholas Frederik Severin Grundtvig, não só foi o único dinamarquês de categoria internacional, mas também um teólogo, mestre, poeta, pastor religioso, político, filósofo, historiador, escritor e grande pedagogo, que exerceu uma profunda influência na vida dinamarquesa, apesar de gozar de menos fama fora do seu país que os seus coetâneos mais jovens, o filósofo Soren Kierkegaard (1813-1855) e o escritor para crianças Hans Christian Andersen (1805-1875). Nasceu em Udby-Zealand (Dinamarca) a 8 de setembro de 1783, e faleceu em Copenhaga, com 88 anos, em 2 de setembro de 1872. É considerado uma das pessoas mais influentes da história dinamarquesa, a sua filosofia deu origem a um novo tipo de nacionalismo na Dinamarca na segunda metade do século XIX. Casou três vezes, a última quando tinha 66 anos de idade. Considera-se o pai ideológico das Universidades Populares. Dá-se crédito a Grundtvig e seus seguidores, os “grundtvigianos”, por exercer uma grande influência na formação de uma consciência nacional dinamarquesa moderna. A sua atitude fica bem expressada na muito diferente atitude com que a sociedade dinamarquesa tomou a derrota nacional na Guerra dos Ducados em 1864 contra a Prússia, comparada com o trauma nacional que seguiu à derrota perante a Alemanha durante a primeira guerra mundial.

O seu pai, Johan Ottosen Grundtvig, era um pastor luterano. Na sua família preferiam chamar-lhe Frederik no lugar de Nicholas, sendo educado dentro de uma atmosfera muito religiosa, embora a sua mãe também tivesse grande respeito pelas velhas lendas e tradições nórdicas. Grundtvig foi educado na tradição da ilustração europeia, embora a sua fé na razão fosse sacudida pelo romantismo germano e a história dos países nórdicos. Em 1791 foi enviado para viver na casa do pastor Laurids Feld na Jutlândia, e estudou na escola da catedral de Aarhus desde 1798 até a sua graduação em 1800 quando parte para Copenhaga para estudar teologia, sendo aceite na universidade da capital dinamarquesa em 1801. Ao finalizar a sua formação universitária começou a estudar islandês e as Sagas islandesas, até que em 1805 foi contratado como tutor numa casa na ilha de Langeland. Durante os próximos três anos estudou Shakespeare, Schiller, Schelling e Fichte. O seu primo, o filósofo Henrich Steffens, tinha regressado a Copenhaga em 1802 influenciado pelas ensinanças de Schelling e da poesia de Adam Oehlenschläger, o que expôs Grundtvig à nova era da literatura. O seu primeiro trabalho, Sobre os cantos no Edda, mereceu pouca atenção.

grundtvig-fotoUm exemplo da sua duradoira influência na Dinamarca é que dos 754 hinos que formam o florilégio dinamarquês, 271 são obra sua. Porém, muitos dos escritos de Grundtvig continuam inéditos, e uma coleção completa ocuparia pelo menos um cento de volumes. Os seus escritos pedagógicos foram traduzidos parcialmente para o inglês há pouco tempo. No entanto, o movimento das escolas secundárias populares dinamarquesas, inspirado nas suas obras, fez que Grundtvig seja qualificado como o “pai da educação de adultos em Ocidente”; e o interesse por ele e pelo movimento das escolas secundárias populares estende-se também aos países em desenvolvimento.

A vida de Grundtvig, em particular na sua primeira metade, coincidiu com uma época de importantes mudanças na sociedade dinamarquesa. Em 1788 foram abolidas as leis de atribuiçãp de domicílio em virtude das quais os varões não podiam sair da fazenda em que tinham nascido sem autorização do proprietário. Um ano mais tarde, Christian VII continuou esta reforma criando um Conselho da Educação. Em 1814 tinham-se aprovado já leis que faziam obrigatória a escolaridade. Quando na década de 1830 a Dinamarca deu os primeiros passos para a democracia por meio da criação de assembleias consultivas nem que estavam representados todos os setores do reino, incluídos os camponeses, Grundtvig dedicou-se a escrever sobre educação com uma maior intensidade, já que se a “classe baixa” ia ter voz e voto nas assembleias consultivas, era necessário proporcionar-lhes educação adequada para poder participar eficazmente nos debates. Num primeiro momento, Grundtvig mostrou-se cético a respeito da criação dos conselhos, embora não demorasse a declarar que “a voz do povo” escuitava-se realmente neles, pelo que continuou os seus planos educativos com grande entusiasmo.

FICHAS TÉCNICAS DOS DOCUMENTÁRIOS:

1. N. F. S. Grundtvig.

Vídeo biográfico de 16 minutos.

2. Grundtvig romântico.

Vídeo de 2 minutos.

3. N. F. S. Grundtvig.

Pequeno vídeo biográfico de 2 minutos.

4. Escolas secundárias populares, educação de adultos e filosofia de Nikolaj Grundtvig.

Vídeo de 11 minutos.

PENSAMENTO PEDAGÓGICO DE GRUNDTVIG:

Antes de escrever as suas obras pedagógicas da década de 1830, Grundtvig tinha feito uma carreira de sacerdote bastante atarefada. Ao contrário de seu pai, pastor numa paróquia rural satisfeito com uma teologia que se qualificou de pietista e conservadora, o jovem Grundtvig, embora influído por essa mesma teologia, distanciou-se dela em várias ocasiões. Dados os seus polémicos escritos e a sua conduta amiúde inconformista, foi durante grande parte da sua vida um pregador a que se proibiu pregar ou, se lhe foi permitido fazê-lo, foi sem poder administrar os sacramentos. Grundtvig não ocupou um posto permanente até os 55 anos, em que, graças à intervenção de Christian VIII ao ascender ao trono da Dinamarca, obteve o cargo de capelão de Vartov, um asilo de anciãos de Copenhaga. Este cargo de pouca importância, que desempenhou até a sua morte à idade de 89 anos, ofereceu-lhe a oportunidade de continuar a dedicar-se à sua fecunda obra. A sua coleção de ensaios sobre educação apareceu tão só umas semanas antes de falecer.

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Ao longo da sua vida contou, de forma quase constante, com a proteção real. Em 1818, muito antes de ser nomeado capelão em Vartov e de que Frederico VII lhe concedesse o título de bispo honorário, recebeu um subsídio real, em sinal de recompensa por ter tido traduzido mitos e sagas do antigo norueguês. Assim mesmo, recebeu três subsídios do rei e outro da rainha para visitar o Reino Unido em 1812, 1830, 1831 e 1843. Tanto as suas três primeiras visitas à Inglaterra, durante as que teve ocasião de ver de perto a educação inglesa, ao tempo que continuava os seus trabalhos sobre a mitologia nórdica, como as mudanças radicais acontecidas na cena política e social da Dinamarca fizeram que Grundtvig trouxesse à luz na década de 1830 uma série de escritos em que aparece pela primeira vez a sua ideia da escola popular de adultos. Já no prefácio ao seu estudo sobre a mitologia escandinava publicado em 1832 sob o título de Mitologia Nórdica (Nordens Mytologi) aparecem os primeiros indícios das futuras escolas secundárias populares dinamarquesas: “A instituição há de ter um centro comum do qual partirão os principais ramos relativos à vida prática e para o qual tentará atrair todas as forças sociais para reuni-las e unificá-las. Nesse centro, todos os funcionários do estado que não necessitam de conhecimentos teóricos, mas de experiências vividas, perspicácia e capacidades práticas e todos aqueles que desejem figurar entre as pessoas cultas hão de ter ao seu alcance a possibilidade de evoluir na direção adequada e de chegar a conhecer-se uns aos outros”.

Grundtvig chegou a chamar “escolas para a morte” aos estabelecimentos de ensino secundário tradicionais. Uma das matérias de que menos gostava era o Latim e a sua literatura, que ao contrário do grego e do antigo norueguês não se inspirava, segundo ele, na vida do povo. Por isso assinalava que no sistema romano-italiano a formação estava carente do espírito da vida, enquanto que as tradições orais que servem de fundamento às mitologias grega e norueguesa promovem a comunicação oral, a que ele dava grande importância nos seus projetos pedagógicos. O primeiro livro de Grundtvig que trata de forma profunda o tema educativo é o intitulado O trevo de quatro folhas dinamarquês (Det danske Für-Klover), escrito em 1836 como resposta às primeiras reuniões dos conselhos consultivos provisórios, cuja constituição se promulgou em 1831, embora não se tenha reunido até 1835-36. Gostava de ver como nas assembleias a voz do povo era esplendorosa, como um trevo de 4 folhas, que não devia secar-se para manter a cabeça ergueita e contribuir assim para a beleza do campo. Tal voz do povo, segundo ele, tinha que ter uma escola secundária popular, em cujo currículo tivesse um lugar destacado a mitologia escandinava, com o objetivo de espertar e alimentar o amor pela pátria dinamarquesa e afiançar e enriquecer a língua materna. Daí a importância que dava aos mitos, às lendas e aos poemas em dinamarquês no programa de estudos das primeiras escolas secundárias populares e a importância concedida no presente às tradições orais do passado e à comunicação oral, em particular as narrações, com a sua rica tradição histórica. Nas primeiras escolas secundárias populares desaconselhava-se tomar apontamentos. Para Grundtvig estas escolas tinham que ser “escolas para a vida”, as únicas que podem encarnar a “palavra viva”. No livro antes citado expõe os principais objetivos pedagógicos, no qual o mais importante era o “conhecimento da vida”, e afirma que o mesmo “deve brotar principalmente da própria vida de cada pessoa ou pelo menos há que tentá-lo para ver como se insire nela”. No entanto, foi dous anos depois na obra A escola para a vida e a Academia de Soro (1838) quando tentou, a pedido de Christian VIII, continuar a desenvolver as suas ideias pedagógicas. Na mesma critica duramente os conteúdos dos livros e também os exames, chegando a dizer: “Pois todas as letras estão mortas, embora as escrevam os dedos dos anjos ou as pontas das estrelas, e todos os conhecimentos dos livros que não tenham relacionamento com a vida do leitor estão mortos”. E também “o conhecimento entranha contactos vivos e influências recíprocas com os demais”. Na segunda parte desta sua obra pedagógica descreve o método de “ensino mútuo” e a “reciprocidade viva” como base de seus objetivos pedagógicos e da sua teoria educativa. Quando se refere à “palavra viva” diz que esta não se encontra no ensino tradicional, mas numa escola onde existem trocas de experiências pessoais entre o educador e o educando. Segundo ele, o ensino tem de fazer parte das vivências do professor e os estudantes devem respostar de maneira dinâmica, do contrário, o saber carece de vida e só se transmitem palavras mortas. Este conceito não se limita só à classe, senão que deve aparecer de forma pura manifestando-se na vida em comum dos alunos internos das escolas secundárias populares.

Durante a década de 1840, Grundtvig continuou a escrever sobre a necessidade de criar escolas populares para adultos na Dinamarca, o que explica na sua obra Defesa e explicações da criação de uma escola de adultos dinamarquesa em Soro. E num capítulo dedicado às escolas secundárias populares dinamarquesas no seu livro Parabéns à Dinamarca pelos lerdos nacionais e a escola dinamarquesa de adultos (1847), obra que pode considerar-se como a culminação da sua carreira como teórico da educação.

AS ESCOLAS POPULARES PARA ADULTOS:

Grundtvig preocupou-se muito com a organização efetiva da escola popular e pelos aspetos concretos da mesma, como eram os conselhos de estudantes, o ensino mútuo e os debates sobre temas da comunidade dinamarquesa. Sustentava que se o povo ia intervir no destino do país graças à sua participação nos conselhos populares, era necessário e conveniente que se lhe desse uma formação em matéria de autogoverno nas escolas populares, nas quais o seu organizador, reitor ou diretor, teria que consultar para todos os assuntos importantes o conselho escolar, cujos membros deveriam ser eleitos na maioria entre os próprios estudantes.

Por considerá-lo o lugar idóneo para levar as suas ideias à prática, estabeleceu a sua escola popular na Academia de Soro, que já fora criada em 1586 e reabilitada em 1826. Por um real decreto foi inaugurada a escola em 1847, estabelecendo os seus estudos práticos. E na qual os estudantes, ao ingressarem nela, “regressaram às suas tarefas com renovado interesse, uma visão muito mais clara dos problemas humanos e cívicos, em particular no seu próprio país, e maior entusiasmo pela vida em comunidade”. Estas escolas secundárias populares deveriam estar formadas por uma mistura de estudantes de diferentes estratos socioeconómicos da sociedade e diferentes grupos de idade, dispostos a reforçar o espírito de companheirismo e contribuir para a materialização da sua teoria de que a nossa condição comum de seres humanos deve prevalecer sobre qualquer crença política ou religiosa. Porém, deve assinalar-se que para Grundtvig o ensino sistemático da religião não tinha cabimento nestas escolas, pois considerava que este tema incumbia unicamente à igreja. Para ele, antes que o cristão está o ser humano, e não se pode ser verdadeiro cristão sem antes ser um ser humano autêntico.

Os aspetos básicos destas escolas eram a fraternidade entre docentes e estudantes que vivem e trabalham juntos, aprendendo uns dos outros e partilhando a gestão da escola, a importância da “palavra viva”, a insistência na condição humana comum, embora necessite cada qual de entender totalmente a sua própria cultura antes de compreender a dos demais, e, o mais importante de tudo, a educação é questão de “reciprocidade viva”, que leva à ilustração e à compreensão da nossa própria existência, e não da formação profissional ou instrução formal.

Tomando como exemplo o modelo inicial de escola popular foram criadas em diversas localidades dinamarquesas escolas populares similares, ao longo das décadas. As mesmas eram coordenadas por seguidores de Grundtvig, que assumiam plenamente os seus postulados pedagógicos. E chegou a existir um importante movimento dinamarquês de escolas secundárias populares. As quais iam ter uma grande influência no desenvolvimento social, comunitário e rural do país. Já em 1864 foram criadas 15 escolas secundárias populares. E mesmo, em 1940, já no século XX, havia 54 escolas deste tipo na Dinamarca. Uma clara amostra do magnífico labor que iniciara o grande pedagogo dinamarquês no século XIX.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:

Vemos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um Cinema-fórum, para analisar a forma (linguagem fílmica) e o fundo (conteúdos e mensagem) dos mesmos, assim como os seus conteúdos.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Grundtvig, a sua vida, a sua obra, as suas ações promovendo na Dinamarca a criação de escolas secundárias populares para adultos e a sua influência na cultura e literatura dinamarquesa. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.

Seguindo o modelo das escolas populares para adultos, uma espécie de “Universidade Popular”, podemos tratar de criar na nossa localidade, utilizando os espaços escolares com que contamos no nosso estabelecimento de ensino, uma escola para os adultos do lugar, com um programa dinâmico e atrativo de atividades educativas, lúdicas, artísticas e sociais, fomentando a participação ativa e o desenvolvimento da comunidade. Tal projeto pode ser muito importante se se desenvolve num contexto rural da nossa comunidade.

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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