QUOD NIHIL SCITUR

grand finale




Podemos asseverar, sem muito risco a equívoco (que a experiência nos avisa e os dados confirmam) que a Democracia espanhola percorreu desde fins dos anos 70, o caminho que leva da diversidade ou pluripartidismo que conforma, em condições naturais, o seu Parlamento, até este bipartismo estável que Manuel Fraga sonhava a imitação de ingleses e que realmente copiava, gesto, passo e metodologia o entramado rotativista, que desenhou Cánovas del Castillo.

O rotativismo turnista, entre conservadores e liberais, desenhado para a Restauração bourbónica começada em 1875, prolongou-se para além das suas possibilidades ultrapassando o século XIX, para apresentar-se nas décadas de 1900 a 1920 como um sistema em descomposição, apenas sustentado na perna do caciquismo e na manipulação do corpo eleitoral e na do controlo do aparato judicial e dos mass média.

Se claramente a macro-economia explica e justifica as grandes estafas e falsificações de números e a microeconomia exemplifica-se direitinhamente com a corrupção, o uso de favores, privilégio e o nepotismo, não resulta difícil entender os movimentos, escolhas e personagens públicos dos dous grandes partidos (PSOE, PP) funcionando como partes alternantes de um único sistema de interesses defendido mesmo violentamente por eles no exercício do governo, na escusa constante de “impulsar a economia” e garantir a “paz social”.

Mas nem tudo é culpa da política e dos poderes e interesses económicos, nesta Espanha esperpéntica, a realidade deformada, que salta e se evidencia nos espaços críticos e pelas redes sociais, não fica menos evidente a traição dos garantes da democracia à cidadania: o poder judicial, e os meios de comunicação.

Não por acaso, a ilegalização de ‘Causa Galiza‘, entre outras não poucas cousas, faz-me pensar na independência do Poder judicial e no papel cúmplice da imprensa.

Um poder judicial, que longe de controlar e frear as atuações ilícitas do governo e dos partidos, é um simples instrumento de coerção e justificação a serviço, com os corpos de segurança, das atuações dos governos. Colaboradores na repressão, justificadores ou dissimuladores da tortura, censura, escasseiam as vozes críticas e especialmente impressiona o abandono do seu papel garantista, ante acusações relativas à obsessão terrorista.

E a imprensa, fiel aliado também do Sistema rotativista, esqueceu o seu papel de denuncia, de controlo, de pesquisa e passa o tempo na criaçao de panegíricos, justificando as políticas de uns e outros e bombardeando, constantemente à opinião com personagens mediáticos permanentes que passeiam os discursos aprendidos e as mensagens preparadas pelos ecrãs das TV.  Opiadores, mais que opinadores, são o rosto mais evidente de um sistema mediático que vive adscrito a uma das alternativas governantes.

100 anos atrás perseguia-se anarquistas, hoje, persegue-se coletivos sociais e políticos que permitam manter a justificação de que na Espanha há “terrorismo” e “grupos de apoio ao terrorismo”. As novas leis e práticas jurídicas, são delirantes, as justificações das condenas a meio caminho entre a ficção científica do Minority Report e o esperpento histórico-patriótico do Ministerio del Tiempo.

Mas, com a lei mordaça por diante, a perseguição da opinião e da palavra, dita ou escrita, em tocando certos temas volve ser o pão de cada dia, sem que o poder judicial e aquele 4º poder dos filmes sejam outra cousa que peças do sistema, que elementos que esqueceram o seu papel como garante da justiça e como voz acusadora das injustiças.

Mas, o sistema esperneja, espasmódico ações repressivas sem guia, assustado e colérico, vendo o presente lhe escapar das mãos. Como há cem anos justo, parece que presenciamos, na Espanha: no seu governo, na sua justiça e especialmente na imprensa adscrita e suporte intelectual, a agonia lunática, esperpéntica e histérica da Restauração.

Bom momento para ler de novo Luces de Bohemia, do Genial Valle-Inclan. Lucidez extraordinária no seu contexto. Nas suas cenas centrais representa-se para glória das letras e testemunho da barbárie contínua um teatro de arbitrariedades policiais e jurídicas, ministros corruptos, prisões, e de jornalistas e escritores à ditado de quem reparte o caldo.

Ernesto V. Souza

Ernesto V. Souza (Corunha, 1970). Formado como filólogo, especializou-se e publicou algum trabalho sobre história, contexto político e cultural do livro galego das primeiras décadas do século XX. Em 2005 começou a colaborar com o PGL e a vincular-se ao reintegracionismo. Colabora também no Novas da Galiza, é sócio da Associaçom Galega da Língua e membro da Academia Galega da Língua Portuguesa. Trabalha, como bibliotecário na Universidade de Valhadolid (Espanha).

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  • Heitor Rodal

    Recomendação muito pertinente, abofé.
    E “Opiadores, mais que opinadores”, muito bom. ;))

    Já sobre a ‘grande politica’ e as suas presumidas alternativas institucionais ou institucionalizadoras, eis uma reflexão interessante:

    https://we.riseup.net/assets/262783/AosNossosAmigos2014.pdf

    Saúde.

  • ranhadoiro

    excelente

  • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

    Agora que tocou a marionetistas pouco suspeitos de independentismo na Espanha alguns estão a ver o que é a lei antiterrorista essa. Ainda confundem com a lei mordaza, o acosso internético e as multas elevadas, que tudo no fundo se refere à liberdade de expressão. Mas sabemos que o caso dos marionetistas não se integra em nenhuma dessas consequências, mas é produto da primeira causa, a que acaba de ilegalizar Causa Galiza e a que encarcelou sem provas suficientes a [email protected] [email protected]
    Há que lho explicar agora que estão [email protected]