Graciela Lois: “Não há mudanças sem desequilíbrio, e isto apenas se consegue ao criar dúvidas. Portanto, é imprescindível continuar com a in/formação. Aliás, o discurso não pode ser apenas racional, mas emocional”



graciela-dune-de-pylaGraciela Lois Rio morou na Argentina até aos 19 anos com uma vida salpimentada de galeguidade. Ao chegar a Galiza o seu espanhol é “canarizado” e vive imersão linguística na aldeia familiar.

Tirou o B2 em português na EOI em dous anos e foi quando descobriu que fora na Galiza onde o português tivera a sua origem.

Quanto à AGAL, o acréscimo da sua massa social feminina é o que fica pendente.

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Graciela nasceu em Buenos Aires e é filha de emigrantes galegos lá. Como se via e sentia a Galiza na distância?

Não apenas nasci mas também morei lá até receber uma das bolsas de estudos para filhos de emigrantes em América do Sul da Fundação Barrié.

Eu cresci com a Galiza muito perto. Para além da escola, quase todas as pessoas que eu conhecia eram galegas ou filhas de galegas. A minha envolvente mais próxima vivia as costumes, celebrações, comidas e festas da Galiza no seu dia a dia, nomeadamente, porque era lá onde morava a nossa família.

As músicas de Fuxan os Ventos, Xil Rios, Los Tamara e Ana Kiro eram a banda sonora de todas as viagens de carro que fizemos na minha infância. As histórias que eu ouvia tinham a ver com a fome e a pobreza no rural, mas contadas com muita saudade.

Foi com 7 anos que vim de férias pela primeira vez à terra dos meus pais, onde estivemos 6 meses a morar em casa dos meus avós. Para uma menina de cidade aquilo foi toda uma descoberta. Porém, foi com dezasseis, numa Galiza mais moderna, que comecei a sonhar com a ideia de fazer o caminho de regresso às origens.

Como foi o processo de aclimatação linguística aquando a tua chegada à Galiza?

No meu caso o processo de aclimatação linguística não foi assim de simples como pode parecer ao falar espanhol. Embora quase todas as famílias tivessem alguma pessoa emigrada na Argentina, naquela altura não havia tantas argentinas cá, e nos primeiros meses após chegar para estudar na USC tive de mudar a minha pronúncia do espanhol para conseguir comunicar-me. Logo que apaguei o “yeismo” e o “vos”, e apenas conservando o sesseio, começaram a identificar-me com o sotaque das Canárias.

Nas aulas tive alguma matéria dada em galego com o qual não tive dificuldade, mas era nas provas que, ainda que conseguia ler sem problema, precisava mais tempo para resolvê-las. Contudo, decidi começar um primeiro curso de galego para estrangeiros na universidade, ainda que a verdadeira aprendizagem acontecia aos fins de semana, na aldeia, entre galego-falantes. Pura imersão linguística.

Aliás, não concebo o processo de integração numa cidade sem fazer o possível por aprender a sua própria língua. Para além disso, acho que o facto de ter sido escolarizada numa unitária rural do concelho de Santa Comba nas minhas primeiras férias na Galiza, fez que assimilasse muito mais galego do que era consciente.

Estudas na EOI, não apenas português como ainda outras línguas. Em que medida o estudo de português pode ajudar ao uso do galego?

Estudo francês, que partilha algum vocabulário com o português, mas não consigo avançar tão rapidamente. Tentar tirar o B2 em dois anos de estudo é impossível no caso do francês, mas se uma argentina o consegue com o português, o que não seria capaz de conseguir um galego com vontade de aprender!

Com certeza, estudar português ajuda a melhorar o uso do galego e mesmo a afastar-se da influência do castelhano. Porém, não chega com estudá-lo. É preciso que as pessoas sejam capazes de ouvi-lo com frequência sem necessidade de deslocar-se. Há uma lei criada para favorecer isto, mas que não está a ser desenvolvida. Existem os meios, apenas falta a vontade.

Graciela é uma leitora contumaz e integrou vários clubes de leitura. É possível para uma galega ler obras em português e ficar centrada na história sem ficar presa na forma?

É totalmente possível! Antes de estudar na escola de línguas, eu já tinha lido livros e artigos científicos em português para a minha tese doutoral e, não obstante fossem leituras na minha área de estudo, é claro que foi o galego o que facilitou a compreensão dos textos.

Se calhar é agora que fico muito mas presa da forma pela própria autoexigência. Por querer melhorar, quer a ortografia quer o vocabulário, e mesmo assim, pela minha obsessão de treinar à vez a minha pronúncia.

Como profissional da psicologia, que opinas de um termo muito habitual na dialética galeguista como o do auto-ódio?

Este sentimento de vergonha, aparece também com mais outras sociedades e culturas e mesmo com a música, outras expressões artísticas e tradições. É muitas vezes aproveitado e fomentado como mecanismo de opressão ou colonização.

Falamos de “auto-ódio linguístico”, quando a pessoa o sente por falar o seu próprio idioma, provoca desprezo por ela mesma e vontade de trocá-lo por outro. Tem a ver com o complexo de inferioridade ou a baixa autoestima que se instala no indivíduo por estarmos a falar de línguas que foram desprestigiadas e minorizadas, e que infelizmente continuam a sê-lo, incluso de parte das próprias organizações públicas que as deviam proteger. Contudo, o auto-ódio não pode continuar a ser mais uma escusa para a deslealdade linguística e a queda de galego-falantes.

Como em todo processo de recuperação da auto-estima, há um laborioso trabalho de aceitação e auto-afirmação, de reconquista quotidiana de si mesmo e da própria dignidade, em atitude pro ativa. Mas qualquer sentimento negativo em relação à galeguidade devia ser combatível com a luta contra a amnésia cultural imposta e a educação quando crianças: valorizar aquilo que é próprio, autêntico, que nos diferença e faz parte da própria identidade.

Como foi o teu processo de descoberta do galego internacional? O facto de ser conhecedora de mais de uma variedade do castelhano tem ajudado a abraçar o lado escuro da norma?

Quando comecei a estudar na faculdade de Psicologia, que partilhava espaços com Filosofia, já tinha reparado na grafia NH, LH ou o Ç, que aparecia escrita nos cartazes de organizações estudantis. Porém, para alguém que não aprendeu o galego na escola mas nos cursos da Junta, tudo à volta da nossa língua fica oculto. Mais ainda. Foi quando comecei estudar português que descobri que era na Galiza que tinha a sua origem.

Durante muitos anos trabalhei com desportistas, muitos deles do Brasil, e ainda que a maioria já aprendera a falar em espanhol, entre eles costumavam fazê-lo em português. Às vezes porque não eram conscientes, outras porque achavam que o pessoal (castelhano-falantes) não percebia. Porém, eu e outros colegas galegos da equipa técnica sim, e para nós era o jeito de empatizar com eles. Também facilitava-me a comunicação como psicóloga.

Com certeza o facto de eu falar a “variedade rioplatense” e perceber em toda América Latina múltiplas variedades do espanhol faz que não consiga compreender como é que as outras pessoas não percebem o galego-português como uma mesma língua.

Por onde julgas que deveria transitar o reintegracionismo para avançar socialmente? E a Agal?

Não há mudanças sem desequilíbrio, e isto apenas se consegue ao criar dúvidas. Portanto, é imprescindível continuar com a in/formação. Aliás, o discurso não pode ser apenas racional, mas emocional.

Acho que as práticas da Agal estão a decorrer por bom caminho: deixar o âmbito académico para se aproximar à gente, que é realmente quem constrói o dia a dia da língua; qualquer de nós, no seu âmbito, pode espalhar o discurso à sua volta.

Talvez seja o acréscimo da sua massa social feminina o que fica pendente.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2040?

Gostaria imenso de que pudesse experimentar em crianças ou adultas de toda Galiza o que me acontece cada vez que visito a aldeia dos meus pais ou a Costa da Morte, onde nomeadamente todas falam em galego e onde ouço uma fala com uma sonoridade muito parecida à do norte de Portugal. Aliás, que a Lei Paz-Andrade ficasse obsoleta naquela altura.

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Conhecendo Graciela Lois:

Um sítio web: o que mais estou a consultar ultimamente www.primberam.pt 😉

Um invento: internet

Uma música: blues, rock, indie, clássica…Depende do estado emocional.

Um livro: “Crónica duma morte anunciada”, de Gabriel García Marquez; e uma das últimas leituras do clube, “A instalação do medo”, de Rui Zink.

Um facto histórico: a mudança que trouxe às ciências “A Teoria Geral de Sistemas”, de Von Bertalanffy.

Um prato na mesa: filhoas à pedra

Um desporto: o que mais pratico, aprender; o que mais conheço, futsal.

Um filme: Muitos, mas sempre volto a assistir “Le fabuleux destin d’Amélie Poulain”

Uma maravilha: Duas que recomendo visitar, as Cascatas do Iguaçú e o Glaciar Perito Moreno.

Além de galego/a: da América Latina e um eterno intento de rebelde competente.

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim


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  • http://pgl.gal Valentim R. Fagim

    Uma grande fichagem a Graciela. Muito bem-vinda.

  • abanhos

    Muito bem vinda.
    Tu também apreender-nos-ás muito

  • http://www.notas.gal Eliseu Mera

    Bem-vinda!