‘A Fronteira Será Escrita’ apresentado no Pichel

Último documentário de Filmes de Bonaval debruça-se sobre a identidade lingüística dos concelhos limiaos de Entrimo e Lóvios



Mais de 30 pessoas assistírom na quinta-feira 19, ao lançamento do terceiro trabalho do coletivo audiovisual Filmes de Bonaval, que completa umha série de três filmes dedicados à língua galego-portuguesa na fronteira luso-espanhola.

Embora com argumentos diversos, os três pretendem que se reflita sobre os limites que a Autonomia traçou para o galego nos últimos 35 anos.

O primeiro, Entre Línguas, aproveitava o facto de alguns filólogos da Galiza reivindicarem um dialeto galego-português na Estremadura como propriamente galego (nom português) para perguntar-se porquê razom só aquele, e nom outros semelhantes que também existem ao longo da fronteira luso-espanhola, merece tal consideraçom.

No segundo, Em Companhia da Morte, escolhia-se umha superstiçom, concretamente o mito que a literatura galega renomeou como Santa Companha, para ser explicada por mulheres portuguesas que, no entanto, só no final do documentário eram apresentadas como tais. Estabelecia-se assim um jogo com o público, que só descobria a nacionalidade das protagonistas depois de ter ouvido o documentário pensando que se tratava de mulheres galegas.

A Fronteira Será Escrita volta à zona do Gerês/Jurês, mas agora ao lado galego, a diferentes aldeias dos municípios de Entrimo e Lóvios, para questionar a existência de umha identidade lingüístico-cultural galega diferente da portuguesa.

O filme começa com umha pequena viagem à Várzea (Arcos de Valdevez, Portugal) de alguns moradores e moradoras de Olelas (Entrimo, Galiza). Trata-se de duas aldeias vizinhas que possuíam contacto humano diário antes de que a barragem do Alto Lindoso as afastasse para sempre. Vinte e cinco anos depois, para reencontrar as velhas amizades, a enorme barreira hídrica interposta torna necessário realizar umha longa viagem de carro.

No reencontro, sentem-se as saudades dos tempos em que as festas eram conjuntas e voltam a ouvir-se as concertinas que ainda tocam as mesmas melodias dos dous lados deste setor da fronteira, mas o documentário quer-nos levar aqui a outra conclusom: como se torna difícil distinguir, através da língua, as pessoas que habitam dum lado ou doutro da raia. Quem nom reparasse no texto explicativo inicial até poderá ficar confuso: “De onde som estes ou aquelas?”

Com esta única cena gravada em Portugal, abre-se o corpo central do documentário, constituído por entrevistas filmadas na Galiza e a pessoas sempre galegas, ainda que às vezes, mais umha vez, certos sotaques nos podam levar a engano. As pessoas entrevistadas refletem, num primeiro bloco, sobre a própria identidade cultural e sobre os vínculos humanos e históricos com Portugal, mas pouco a pouco vam escorregando para a questom do idioma, que tentam definir em relaçom ao falado polos vizinhos portugueses. É suposto ser diferente, ser outro, mas porquê?


PUBLICIDADE