Fronteira norte: óptica de Estado e distorçom perceptiva



A Galiza não tem papel nenhum na auto-imagem dos portugueses, afirma Fernando Venâncio. E ainda avisa do erro fatal de o galego projectar sobre Portugal um interesse que é, fundamentalmente, unilateral. Também lembra um texto dos noventa de Pilar Vázquez Cuesta onde a professora afirmava que o diálogo Galiza — Portugal era inevitavelmente assimétrico.

Tam unánimes asseveraçons, com as que aliás concordo amplamente, subestimam ou esquecem simplesmente um importante aspecto da questom. Refiro-me ao chocante contraste entre a problematicidade da “identidade espanhola” — especialmente no imaginário das naçons culturais em conflito latente ou expresso: Catalunha, País Basco e a Galiza — e o inquebrantável unitarismo político e cultural que caracteriza Portugal. Umha pátria, umha língua, umha bandeira, pode ser um lema indiscutido em Portugal, como, aliás, na França; na Espanha, no entanto, a fronteira interior é inevitável. A linha de fractura que ressurge em cada ocasiom em que vigora a democracia no Estado espanhol. O substantivo “espanhol” nom deixa de suscitar receio: I e II República, crise económica institucional desencadeada em 2008, sirvam de exemplo. A democracia veste na Espanha indumentária plurinacional, as particularidades regionais ficam sufocadas em Portugal em veste estatal. Inquietaçom nacionalitária na fronteira norte de Portugal, imperturbável patriotismo ao outro lado.

O sucesso de um Estado mede-se em boa parte na capacidade demonstrada de eliminar as fronteiras internas e confirmar as externas. O sistema educativo, os meios de comunicaçom, o sistema parlamentar, som eficazes instrumentos de homogeneizaçom e, em situaçons críticas, de fervorosas unanimidades. Os encontros internacionais de futebol som um experimento sociológico contundente da capacidade aglutinadora do Estado.

A importáncia do facto apontado, um lugar-comum, aliás, a partir da análise política desde Michael Billing[1], impregna qualquer interpretaçom do indivíduo em comunidade que se pretenda realista, sem esquecer a sua capacidade para passar desapercebido aos seus tributários. Só as identidades de carácter sub-estatal ficam expostas á consideraçom de excêntrica mania, o nacionalismo banal incutido polo Estado torna-se inodoro e invisível por natureza.

O acendrado nacionalismo português — que já tem experimentado episódios de providencialismo milenarista — impregna o imaginário político lusitano. A atençom á custódia de fronteiras, reforçada por alianças cautelares contra ameaças externas, constituem invariantes na história do país. A magnificência das fortaleças fronteiriças — Valença, Elvas, podem ser um bom símbolo — som admirável monumento a esta vigilante vontade de independência. Os 1214 km de fronteira que separam Portugal de Espanha desde a Paz de Zamora de 1143 cristalizárom de algumha maneira em limes definitivo entre o próprio e o alheio contribuindo ao mesmo tempo a apagar a ténue rede de fronteiras interiores, tam manifestas em Espanha. A fronteira galaico-portuguesa, lucense-bracarense, mede 300 km: 24% do total mas, contodo, é muito mais permeável que a restante: a raia galega regista por si só mais volume de tráfico que todo o resto da raia espanhola.

A ampla descentralizaçom política do Estado espanhol observa-se com indiferença quando nom com um bocado de apreensom desde Portugal por quanto supom desafio implícito ao inveterado unitarismo português. Descendo ao plano linguístico, nom deixa de surpreender o manifesto contraste entre a facilidade com que na Espanha se atribuem procedências geográficas por marcas de fonética ou sotaque e a chocante incapacidade ou negligência portuguesa para distinguir singularidades regionais. Os diferentes sotaques do espanhol operam em Espanha como eficazes marcadores de diferença e identidade; em Portugal, esta capacidade taxonómica parece ficar atenuada, quer pola sólida homogeneizaçom linguística que caracteriza o país país quer pola aceitaçom passiva da pronúncia lisboeta como modelo padrom. Um galego nom pode deixar de surpreender-se de que o seu sotaque e vocalizaçom, o delatem de imediato em Espanha mas passe desapercebido para um refinado ouvido português cuja destreza linguística fica mais que acreditada.

Resulta chocante contemplar a distorçom perceptiva que impede os portugueses captarem a diferença de falares entre galego e castelhano, mesmo que seja um galego descaracterizado como o habitual nos meios. Mas assi é, se acreditamos em Marcos Neves[2]: “A maioria vê a questão de forma binária: o que se houve pela Península fora só pode ser português ou espanhol“. Um autêntico ponto cego da percepçom que aponta para um avançado processo de metabolizaçom do discurso do Estado a da disjuntiva que promove: nós ↔ eles. Hispanidade e a lusitanidade nom gostam de peculiaridade.

A geraçom a que pertenço, que apreendeu português com José Afonso e ficou fascinada com a Revoluçon dos cravos, resiste-se a considerar Portugal em termos de simples boa vizinhança. A Galiza, nom é a Extremadura espanhola, tam atenta aliás ao idioma português, ou acaso é confundida como província limítrofe inespecífica no imaginário português?

Galegos e portugueses parecem competir hoje na prática da desmemória colectiva em indigno tributo a séculos de educaçom patriótica estatal. Atreveria-me a convidá-los a visitarem o Panteom Real da catedral de Santiago[3] como tributo merecido á reprimida raiz histórica comum.

Aproximemo-nos com respeito ao lugar onde repousa Raimundo de Borgonha (1050-1107), esposo de dona Urraca, filha de Afonso VI, progenitores ambos de Afonso VII, o imperador, nado em Caldas de Reis e proclamado rei da Galiza por Pedro Froilaz, conde de Trava, antes de ser confirmado na catedral por Diego Gelmírez em 17 de setembro de 1111. Nom esqueçam que Raimundo era irmao do papa Calixto II, benfeitor da Catedral e pretenso autor do ímpar Codex Calixtinus, o nosso autêntico álbum de família.

Detenham-se um momento perante dom Pedro Froilaz, conde de Trava, (1075-1128), aio de Afonso VII e amante e defensor da rainha Teresa, irmã de Urraca, depois de o seu esposo Henrique de Borgonha ter falecido e engendrado Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal.

Rendam umha pequena homenagem a Fernando II, (1137-1188), filho de Afonso VII, esposo dumha irmã de Afonso Henriques, e mecenas generoso do excelso Pórtico da Glória em cujo dintel podemos ler o ano da morte do monarca: 1188. Nom esqueçam também o seu filho Afonso IX (1171-1230), oitavo da dinastia galego leonesa e generoso protector do sem-par Mestre Mateus nem a rainha Berenguela Berenguer (1108-1149), fiel esposa de Afonso VII e nai de Fernando II, ali soterrada. Acharám a faltar no Panteom o túmulo de Afonso VII, rei fugaz da Galiza e imperador da Hispánia que dorme o seu somo derradeiro na catedral de Toledo por ter-lhe sobrevindo a morte em 1157, quando se retirava em derrota da Almeria recém-recuperada polos Almóadas.

Rendam ainda tributo de saudade merecido a dona Joana de Castro, filha do primeiro Conde de Lemos, Monforte e Sárria, Pedro Fernández de Castro, e fugaz esposa de Pedro I de Castela, falecida em 1374. A sua memória conduzirá-nos a recordar a sua meia-irmã, Inês de Castro, cuja desventura custodia Alcobaça.

Restos de memória comum de quando a Galiza partilhava versos e batalhas Minho através, memória esvaecida em procura de futuro partilhado: europeu e atlántico, reintegrado.

Alianças e rivalidades, luitas fratricidas também quando a história nos enfrentou: “Desde el año de 1640, en que se principió la guerra de Portugal (…) habiéndose consumido las vidas de más de 200 mil hombres, sustentaron también 2.000 caballos (…) dieron el número de 10 mil peones de la continua, con armas y vestidos (…) cayéndose muert por los caminos (…) cargados y perseguidos de soldados y ministros (…) hasta el año de 1668 en que se ajustaron paces con Portugal” Relata o nosso grande economista ilustrado, Lucas Labrada. Talvez haja exagero nos números mas nom na desgraça compartida. Logo após, a Galiza sumiu-se em ruralidade resistente e Portugal em desmesura náutica.

Afinal, “galego” virou em substantivo pejorativo com que a urbanidade pretensiosa pretende abafar a ruralidade esquecida, de ontem mesmo apenas: carregador, labrego, rude e grosseiro, eventualmente louro. Lemos no Houaiss.

(3) Regionalismo: Brasil. Uso: pejorativo: indivíduo nascido em Portugal, esp. os de mais baixo nível de cultura

(4) Regionalismo: Nordeste do Brasil e Santa Catarina. Uso: pejorativo: qualquer estrangeiro; gringo

(5) Regionalismo: Nordeste do Brasil: indivíduo louro

(6) Regionalismo: Portugal. Uso: informal: carregador de bagagens ou transportador de fretes, freq. natural da Galiza

(7) Regionalismo: Portugal. Uso: informal: indivíduo que trabalha arduamente, que realiza trabalho pesado. Ex.: trabalhou como um g. para educar os filhos

(8) Regionalismo: Portugal. Uso: pejorativo: individuo rude, grosseiro; labrego

(9) Regionalismo: Alentejo. Uso: pejorativo: o que é natural ou oriundo do Norte de Portugal, esp. da região das Beiras.

Será que a excentricidade sobrevinda sobre galegos, minhotos, transmontanos e beiraos, simples fidelidade á terra natal, terminou acovilhando-os na ominosa fronteira exterior onde o próprio sotaque pode resultar suspeitoso? O relato nacional, bem sabemos, é pródigo criando patois contra a particularidade reprimida.

Conservam-se as cartas dirigidas por Felipe II entre 1581 e 1585 às suas amadas filhas, as infantas Isabel Clara Eugenia e Catalina Micaela aquando a sua viagem a Portugal para convocar cortes em Tomar. Epístolas encantadoras, por sinal, que desmentem a tétrica imagem difundida do poderoso monarca renascentista. As infantas residiam na altura em Aldeia Galega, perto de Lisboa, na rota tradicional desde Elvas a Lisboa. A vila acabou mudando tam inconveniente denominaçom, de Aldeia Galega do Ribatejo, Aldeia Galega ou simplesmente Aldegalega para Montijo «que melhor condiz com as suas tradições históricas“. A mudança foi perpetrada em 1930 para assear de umha vez a dobre imputaçom despectiva por aldeia e por galega. O topónimo substituto tem um forte recendo castelhano — a montejo, montículo — mas, a aboliçom do incómodo gentílico tradicional pareceu naquele momento tributo inescusável á modernidade em estreia, como essas velhas histórias familiares que nom gosta divulgar e abandona com alívio.

 

Notas:

[1] Michael Billing (2014): Nacionalismo banal, Capitán Swing Libros, Madrid

[2] Marcos Neves (2016): Doze segredos da língua portuguesa, Guerra e Paz Editores, Lisboa

[3] http://galiciapuebloapueblo.blogspot.com/2017/11/catedral-capilla-de-las-reliquias-y.html

 

*Texto publicado originalmente no site da AEG.

 

Joám Lopes Facal

Joám Lopes Facal

Nascim e vivim na aldeia até os quinze anos, Toba, ao pé da ria de Corcubiom, frente ao Pindo. Figem-me economista despois de engenheiro e aí desenvolvim a minha atividade profissional até o momento de me reformar. A economia é ademais um vício particular: ler atentamente e tentar compreender a informaçom económica cotidiana, ter sempre sobre a mesa um livro de economia.
Joám Lopes Facal

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  • Ernesto V. Souza

    Muito bom Joam… afinal temos comum a esperança…

    O Coro das Ninfas:
    —— Que remédio deste aos humanos contra o desespero?

    Prometeu:
    —— Dei-lhes uma esperança infinita no Futuro…

    [Esquilo, Prometeu Acorrentado]

    • Joám Lopes Facal

      Ou, como dizia Machado, “hoy es siempre todavía”

  • Ângelo Cristóvão

    Parabéns. O passado é para estudar. O futuro para construir.

  • luiz

    Muito bom artigo, apenas gostava de comentar as minhas impressões sobre este assunto, que na minha percepção não muito “académica” mas sim intuitiva o suficiente, este desleixo premeditado ou esta premeditada aversão ao norte tem duas coisas mais a considerar:

    A) Foi talvez o elemento a eliminar que permitiu que Portugal acabasse finalmente por se sair da baila permanente de dentro/ fora dentro / fora do assunto “espanhol” e por isso tenhamos aqui ao pé um estado independente.

    B) É fruto duma ocultação interesseira e nada inocente.

    Este facto de ocultar por interesse próprio pode-se verificar em múltiplas ocasiões como em 1383-85 em que nasce um novo sujeito político, uma nova nobreza totalmente anti-nortenha por seu próprio interesse. Pra mim é aqui que nasce realmente Portugal (se é que nasce num único momento), simplesmente porque quer insistentemente deixar de ser galego-dependente, norte-dependente, norte-galego-hispano dependente.

    O que também acontece nas escolhas linguísticas preferentes das gramáticas a partir de 1600 ou mesmo nas cópias novas de documentos históricos, exemplo das Crónicas de Sta Cruz de coimbra, se compararmos a 1ª copia com a IV cópia veremos como desaparece a palavra Galiza (quer quando “voltava à Galiza (guimarães) quer quando Afonso Henriques lhe aceita a “vassalagem retórica” dos castelos “da Galiza” (eliminado) ao rei superior Fernando).

    Se olharmos para grande parte dos escritos dos historiadores portugueses anteriores ao ensino nacional (república portuguesa) todos falavam da Galiza, podem procurar e aparecerá a palavra por todo o lado.

    Se olharem para os textos após “ideia de ensino nacional” podem ver como aparece: 1º por todo o lado Lusitania e depois “condado de” Leão, Castela ou o que for para falar da origem do condado de Portugal.

    Pra mim é assim, para fazer Portugal fora da Espanha tiveram de deixar de ser “tão galegos”.

    E atualmente é um incomodo explicar que as coisas foram mais complexas do que parece,

    Até porque isso mexe com a identidade, e tal e como nos custa a nós ou ao nosso governo também a todos custa mover os alicerces da identidade

    Mudar cousas na identidade é do mais dificil, é sempre mais fácil simplificar e acabou.

    Temos aliás um novo handicap ao respeito:É muito mais difícil explicar isto agora que na decada de 1920 porque no momento presente a sociedade galega é muito mais complexas do que parece, e já não existe a Galiza unitaria como existia até 1936

    O artigo é muito bom, parabéns,

    e obrigado por mexer nas cousas da nossa identidade!

    • Joám Lopes Facal

      Em breve; a dinastia dos Avis foi decerto a que consagrou o primeiro nacionalismo português. A dinastia borgonhona era galego-portuguesa, como os nossos cancioneiros.
      É significativo que o patronato medieval mudara de Santiago para Sam Jorge depois de Aljubarrota, por influência inglesa. A épica de Os Lusladas, já é anti-galega.
      Quanto a mitos fundacionais a mim nom deixa de surpreender-me a opçom pola Lusitánia –território partilhada com Espanha meridional– renunciando á Gallaécia bracarense e matriz.
      Esquecer a citánia de Briteiros que une a todos os galaicos na cultura castreja comum polos míticos lusitanos –godos, na historiografia mítica espanhola– fai parte do “ponto cego” para o norte do imaginário português.
      Muito obrigado pola atençom num passado que se resiste a morrer.

      • Ernesto V. Souza

        Pois, e há que destacar que quase coincidente no tempo é a outra suplantação de linhagem em Castela, a dos Borgonha pelo bastardo da Casa de Trastamara…

        Avis e Trastámara deram as primeiras manifestações de Reis renascentistas, com um mais sólido projeto de Estado, consolidando a coroa e o trono sobre a nobreza antiga e apoiar-se-ão numa nova nobreza e numa outra lógica de alianças… Os Avis em Inglaterra e no Atlântico e no Eixo Lisboa, os Trastamara nos primos de Aragão por eles no Mediterrâneo e nos Hasburgo…

        E essa política implicava uma rotura com o esquema tradicional, com o projeto peninsular até daquela e com a política internacional da Casa de Borgonha.

        Afinal cumpre entender no conjunto da Guerra dos 100 anos, que enfronta Plantagenetas e Valois, com o declínio da casa matriz de Borgonha…

        Quem perde disto tudo… A Galiza e a sua nobreza, a que se afasta de Portugal e da lógica tradicional de alianças e mercados por mar e a que se submete à política cortesã e internacional que definirão na Itália e Países Baixos os católicos e os Austrias…

    • Venâncio

      Luiz,

      Cautela com essa edulcorante imagem portuguesa pré-republicana da Galiza…

      Escreve Vc: «Se olharmos para grande parte dos escritos dos historiadores portugueses anteriores ao ensino nacional (república portuguesa) todos falavam da Galiza, podem procurar e aparecerá a palavra por todo o lado.»

      Não sei aonde foi arranjar tal informação. Os exemplos do contrário são inúmeros (realmente, como bem lembra o Joám, após os “Lusíadas”). De quanto possa procurar-se um culpado, lá aparece a Galiza. No terreno linguístico (casualmente o meu), vemos os galegos serem, por sistema, apontados como fonte de descalabros, e quanto mais mirabolantes melhor.

      Não: o anti-galeguismo primário é uma marca dum Portugal-consciente-de-si.

      • Ernesto V. Souza

        Eu diria que é mútuo. De feito ultimamente comecei a compreender que boa parte do que tomamos como identitário e até do que destacamos como caracteristicamente proprio da língua galega é uma constante á contrário é propositada anti-portugal e anti-portuguesa. Cumpre lembrar que o galego moderno é construído desde o xviii fugindo do castelhano, mas sem querer ser identificado com o português…

        A ideia reintegracionista deveria ser melhor e mais complexamente estudiada.

        • Venâncio

          Ui, ui!

          «Boa parte do que tomamos como identitário e até do que destacamos como caracteristicamente proprio da língua galega é uma constante á contrário é propositada anti-portugal e anti-portuguesa».

          E que pensar, então, do “Léxico da Galiza” da AGLP?

          Ah, mas espera. Agora entendo por que os próprios académicos não no usam. 😉

          • Venâncio

            Muito a sério, caro Ernesto.

            A atitude reintegracionista face ao Galego é um grande enigma para mim. E tu formula-la, aí acima, duma maneira deveras chocante.

            Há muito que eu aqui venho verificando, e dizendo, que a tendência reintegracionista (agravada em âmbito AGLP) é a de filtrar tudo quanto não coincida com o Português. Isso é particularmente visível em textos de teor ensaístico.

            Lembro-me de, há uns anos, gente hoje membro dessa academia mostrar a sua indignação porque eu, numa conferência em país estrangeiro, ter ousado comparar (!) Galego e Português.

            Mas mesmo noutros âmbitos, como são os estudos lexicológicos do Carlos Garrido, ou os manuais pedagógicos de vários outros reintegracionistas, é nítido o cuidado de não aduzir diferenças.

            Nunca vi, em cenário reintegracionista, uma lista (que seria importantíssima!) de falsos amigos semânticos, que não são poucos, entre Português e Galego. Se alguma existe, agradeceria conhecê-la.

            Quantos tabus alimentais, amigo! A ideologia reintegracionista é deveras fascinante.

          • Ernesto V. Souza

            Eu referia-me ao anterior. Entre o Xviii e os anos 90 do seculo XX. O reintegracionismo moderno é coerente, mas não é galego… Tem sim talvez isso de espanhol…

  • Venâncio

    Muito estimado Joám,

    Falas em “raiz histórica comum”, em “memória comum”… e objectivamente tens razão. Mas é linguagem que muito pouco diz, se alguma coisa disser, a um português, mesmo se culto, mesmo se historiador.

    Citas-me, dizendo que “A Galiza não tem papel nenhum na auto-imagem dos portugueses”. Mais chãmente, poderá dizer-se: A Galiza não é em Portugal tema de conversa.

    Eduardo Lourenço, o nosso mais conhecido pensador vivo, tem para isso uma explicação curiosa. Escreveu ele, em 1996, que, no contexto português, “a ausência da Galiza é mais aparente do que real, por há muito a termos incorporado à nossa cultura como versão arcaica e intemporal de nós mesmos». Isto é: nós, portugueses, diluímos a Galiza em nós, e por isso já não falamos dela.

    É um lindo achado, uma racionalização deveras elegante, e acaba por ser auto-confirmadora: essa foi, na imensa obra de Lourenço, a única vez, quanto eu sei, que falou da Galiza.

    Afirmas, também, que um português não distingue um sotaque galego dum sotaque castelhano. E, de facto, a sonoridade galega soa-nos bastante “castelhana”.

    O que provavelmente não sabes é que o sotaque galego genuinamente labrego, rescendendo ao musgo das aldeias, esse, sim, soa-nos imensamente familiar, e juraríamos que ouvimos um minhoto. Mas esse sotaque não tem entre vós suficiente prestígio para o manterdes e o cultivardes. O problema, aqui, pode afinal não ser só… português.

    Um abraço amigo.

    • Venâncio

      Importa acrescentar que (como tu dizes bem) a compreensão portuguesa do que é a “Espanha” é, de facto, mínima. Se, pois, já nos é difícil definir uma aitude perante a Espanha, mais difícil ainda é fazê-lo perante uma parte desse conjunto. Dela temos uma noção ainda mais ténue.

      Existem, direis, os laços históricos, os laços culturais, os laços linguísticos… Mas eles batem, e esfrangalham-se, contra o sólido muro da auto-suficiente imagem que um português faz de si mesmo.

      Poderá a Galiza ser algum dia, para um português, uma “referência cultural”, tal como a Espanha é, mesmo se deficientemente entendida? Talvez. Mas isso implicará (como lembro sempre) uma tarefa de influência sobre a Opinião portuguesa, tarefa continuada e inteligente, e sobretudo coordenada e nítida, digamos mesmo, de simples apreensão.

      E de modo nenhum (já vo-lo disse tantas vezes) devereis tornar Portugal um novo palco das vossas dissensões e das vossas lutas ideológicas. Se o interesse pela Galiza já é difícil de conquistar, o interesse por uma Galiza que fala em vozes dissonantes será sempre nulo.

      E por fim um dos meus mantras: quanto mais vós, os galegos, tentardes parecer-vos com os portugueses menos interessantes sereis. Ou os portugueses vos entenderão como Galegos com uma forte personalidade própria e com orgulho nas suas coisas… ou nunca vos perceberão.

      Um “Portugalinho” cultural ou linguístico aí em cima estará sempre condenado ao ridículo.

      • Ernesto V. Souza

        Sem dúvida, sem dúvida… recuperarmos esses sotaques familiares que estão vivos em muitas partes da Galiza é um objetivo comum a quase todo o galeguismo e prioritário no reintegracionismo.

        Uma ortofonia galega a sério… um modelo… eis um objetivo para a AGLP (e para o reintegracionismo)… teremos de fazer, pois foi, é uma questão que o institucionalismo descuidou (talvez propositadamente dentro desse esquema referencial de aproveitamento da ortografia e do sistema cultural, educativo, literário espanhol, radiotelevisivo…) e por isso talvez o abandono, mais por desconhecimento que por rejeitamento consciente dos neofalantes…

        (Na realidade apenas os dirigentes políticos da RTVG, os regionalistas espanholeiros urbanitas e algum que outro/a escritor galego/a moderno/a que milita no mais ferrenho e brutal isolacionismo defende um sotaque moderno urbanita…)

      • Ernesto V. Souza

        bom… com isso cumpre não dramatizar, acho que os mesmos espanhóis, na dianteira do trauma os seus intelectuais, nos últimos dous séculos, nem são capazes de entender nem explicar-se a Espanha, nem a eles nem aos espanhóis… e total apenas alguns de fora, nomeadamente anglo-saxões que gostam de vinhos, a siesta, a paelha, o tapeo, os touros… dizem que entendem…

        Mas para mim que os únicos que realmente são quem de explicar Espanha a eles, aos demais e aos de fora foram e são os galegos…

      • Joám Lopes Facal

        Fernando, como ti bem sabes, o meu amor incondicional por Portugal nom inclui submissom nem irredentismo.
        O problema que a mim me move é a prostraçom do projecto nacional galego e a reabilitaçom do nosso idioma próprio onde o português é o modelo mas nom o dono a título exclusivo.
        A AEG, aliás, nom sofre em excesso as desventuras do reconhecimento lusófono porque o problema fulcral é para nós, segundo interpreto, como revitalizar o projecto nacional, a um tempo político e cultural.
        Quimeras? nom mais do que as identidades temperadas em molho patriótico estatal; reconhecidas ou assumidas com inocência.
        O meu saúdo mais cordial.

        • Venâncio

          Joám, o que me deixa perplexo em alguns de vós é uma nítida idealização de Portugal, como se da Terra Prometida se tratasse. Como aquilo que a Galiza nunca pôde ser, porque não a deixaram. Uma Galiza ideal, em suma.

          Dalguns galegos, mesmo amigos meus, sei que não admitem a um português (falo por mim) que aponte qualquer coisa em que a Espanha pudesse mostrar-se, e mesmo ser, “melhor” que Portugal. Tentam à viva força convencer-nos do contrário.

          E nem falemos da idealização do idioma, que alguns de vós pronunciam com todas as letrinhas, o que resulta numa sonoridade de tipo robótico.

          Eu sei que odiais que o diga. Mas, em vários dos seus aspectos, a ortografia ‘isolacionista’ está mais próxima da realidade portuguesa do que a nossa asséptica escrita. Não vos enganeis: num primeiro contacto, testemunha-se nisso, da parte dalguns portugueses, um tipo espontâneo de ‘reconhecimento’ que é eloquente.

          Enfim, a respeito de Portugal, vivem na mente reintegracionista alguns mal-entendidos. E a idealização do país vizinho é, porventura, o maior deles.

          • Venâncio

            P.S.
            Devo dizer que a situação já foi pior. Nos primeiros anos de contacto aqui convosco (2004 e seguintes) havia espíritos exaltados que se declaravam “portugueses” e se mostravam indignados por nós não corrermos em socorro dos nossos compatriotas galegos. Essas fantasias parecem hoje mais acalmadas.

          • Joám Lopes Facal

            Venâncio, persoalmente nom me dou por aludido, o meu apreço pola cultura portuguesa nom desafia o que tenho pola espanhola, ou por melhor dizer, hispánica.
            Quanto a Portugal, nom espero reforços, apenas compreensom por parte de quem possua capacidade suficiente.

          • Ernesto V. Souza

            são muitos os malentendidos… uns por circunstâncias históricas, outras por questões de lógica política nacional e internacional… interesses vários…

            Cada qual pode pensar o que queira… Eu até onde sei e do que tenho visto poderia afirmar que qualquer uma das ortografias, a portuguesa posterior ao século XVI, as galegas isolacionistas e as reintegracionistas… são todas supercheria e bastante de borracheira patriótico sentimental…

            Uma verdadeira ortografia galega que envolvesse o português lá n século XVII teria sido muito interessante… mas não foi possível… também teria sido reter o castelhano na sua formulação medieval anterior ao renascimento…

          • Joám Lopes Facal

            Acho a possiçom elegantemente niilista, além de um bocado desactualizada.
            A questom é se consideramos a ortografia á espanhola correcta ou nom, e em caso de nom, se defender umha normativa própria ou optar pola portuguesa.
            Neste segundo caso ainda seria pertinente considerar a sua capacidade de socializaçom fora dos círculos dos iniciados.

          • Ernesto V. Souza

            Não entendi… A ortografia do castelhano são saltos no tempo. Como a portuguesa… Invenções toledanas, redações renascentistas, criação iluminista… Nacionalismo… Por isso é tão simplificada… Caece de bases

          • Venâncio

            Estamos a falar de ortografia… Mas pode perguntar-se se, na sua expressão oral, a galego ainda pertence a um conjunto galego-português…

            Dou-te um caso, e ele pode imediatamente multiplicar-se.

            Numa escadaria de Santiago, está um grupo de galegos a cantar “Grândola, Vila Morena”. Pois bem, ao segundo verso, “Terra da fraternidade”, um português leva um choque, pois ouve cantar, a plenos pulmões e com uma convicção danada, “Têrra…” Com um “e” espanhol, que nos soa perfeitamente fechado.

            Pois bem, em português e em galego, a pronúncia é “Térra”. Com um “e” nitidamente aberto.

            https://academia.gal/dicionario/-/termo/busca/terra

            Pergunto-me quantos de vós distinguis entre “e” aberto (como em «merlo») e “e” fechado (como em «cabeça»). Ou quantos distinguis «sede» (soif) de «sede» (siège).

            E quantos distinguis entre “o” aberto (como em «morte», ou «dó») e “o” fechado (como em «doce»).

            São distinções que todos os falantes de português fazem na sílaba tónica.

            Coisas de nada? Talvez não. Que interessa escreverdes à portuguesa, se grande parte de vós pronunciais à espanhola?

            Seria bom o Reintegracionismo, teoricamente tão “lusófono”, fazer-se também esta pergunta.

            *

            Ouça-se no site da RAG: merlo – cabeza – sede 1 – sede 2 – morte – dó – doce

          • Ernesto V. Souza

            Tiene usted razón. Es así. La única solución que se me ocurre, será la de hablar y escribir en castellano siempre con los portugueses de mierda, para que no se rian. Y en português con los putos castellanos para que tampoco se rian de nosotros… por ser unos pobres gallegos analfabetos que no saben lo que son ni lo pueden saber.

          • Venâncio

            Em 15 anos de conversa aqui, foi esta a primeira vez que me detive na pronúncia. Interessam-me sempre mais o léxico, a sintaxe, a fraseologia.

            A questão que aqui debatemos é a imagem que dais, e quereis dar, aos portugueses que vos contactam directamente.

            E ela é muito diferente se se tratar dum labrego galego, com a sua fala genuinamente galego-portuguesa, ou dum senhorito que muito castelhanamente se está a c*gar para genuinidades galegas.

          • Ernesto V. Souza

            Lamento, no entiendo el português…

          • Venâncio

            Pois eu percebo. Agora doeu-te.

          • Ernesto V. Souza

            Lo lamento de verdad, no entiendo… soy un pobre gallego inculto y solo sé castellano y un poco de castrapo gallego mal pronunciado.

          • Venâncio

            Eu não falei de ti. Acho até que nunca te ouvi falar.

          • Ernesto V. Souza

            No insista, de verdad. No entiendo bien su lengua.

          • Venâncio

            É (repito) toda a relação do Reintegracionismo com a Galiza e com o Galego que deve ser examinada. Ela é tortuosa, é equívoca, e certamente problemática. Fica a sugestão. Boa noite.

          • Ernesto V. Souza

            Muyto prezado Senhor ,

            Como no termino de entender bien su rico idioma, he recurrido al google trad. Le respondo en lo que mi corta inteligencia de pobre gallego da alcance y en la lengua en la que mejor me puedo expresar, disculpándome – por el momento y mientras mis estudios no me lo permitan con seguridad- por no poder hacerlo en Portugués.

            Sus reflexiones han sido como una iluminación. Así es, me dije… Por fin he entendido que lo que debemos hacer para facilitar las relaciones, es precisamente lo que siempre han hecho los buenos gallegos: tratar de pasar en Portugal por castellanos, amigos de Portugal y buenos conocedores de sus cosas: su gastronomía, su cultura, su literatura, su historia (preferentemente la simpática arqueología menos problemática o la etnografía).

            Y, también, disimular en Castilla en lo posible como si fuésemos portugueses rústicos de paso, entusiasmándonos con los paisajes, costumbres castizas, viandas y mostrando siempre fascinación y respeto exagerado con su divertida lengua internacional y maravillosa literatura barroca.

            Callando lo más y diciendo lo justo es fácil de conseguir y así, cómodamente, podremos no solo ser explicables y explicados, sino también hacer fortuna o carrera en ambos lados de la frontera y todas las veces resultaremos agradables y simpáticos.

            Por lo demás continuaremos trabajando secretamente por
            nuestros objetivos de siempre: destruir Portugal, conquistar Lisboa, dejar el sur a esos árabes asolarados y tratar de destruir Madrid y arrebatar Castilla a esa peste de Vizcaínos, a los pérfidos Aragoneses y a los Andaluces aljamiados.

            Atenciosamente,

          • Venâncio

            Ernesto,

            O recurso à caricatura (isso é dos manuais) acaba sempre por revelar mais do que o caricaturista imaginaria. Revela um incómodo e, com isso, revela também as problemáticas que o geram.

            Não sei como observam o Reintegracionismo galego os demais comentadores estrangeiros do PGL: os factuais poucos e os muitos potenciais. A mim, o Reintegracionismo levantou-me sempre, e continua a levantar-me, uma série de perplexidades a que (mas veja-se a minha pouca sorte) nunca obtive resposta.

            Pergunto-vos pelos objectivos que perseguis, nada. Pergunto-vos pelo cenário linguístico da Galiza que visais, nada. Pergunto-vos pela vossa exacta relação com o Portugal real, nada. Pergunto-vos pela vossa relação com o Galego, o da experiência directa ou o dum mundo desejável, nada. Pergunto-vos pela falta de coerência entre a imagem que propagais para fora (com esse “Léxico da Galiza”, por exemplo) e a realidade que aí dentro praticais, nada. Pergunto-vos pela falta no meio de vós dum linguista, ou dum historiador do idioma, nada.

            É sempre muito pouco o que esclareceis a vosso respeito. Umas vezes dizeis que o vosso projecto não é linguístico, mas político. Se se pergunta, então, que projecto político tem o Reintegracionismo, dizeis que sois activistas ideológicos. Em suma: nunca estais ali onde se suporia estardes.

            Pode ser, sim, pode ser que exactamente essa vossa essência fugidia, esse modo de vida ideologicamente nómada, vos assegure uma longa permanência no palco em que montastes o vosso espectáculo. Sabe-se que os seres vivos moldáveis têm vidas potencialmente eternas. Mas são vidas isoladas, com um contacto mínimo (isto é, só “institucional”) com a realidade a elas exterior.

            É certo que, por tudo isso, continuais para mim fascinantes. Mas se calhar, olha, fui eu que acabei fatalmente apanhado nas malhas da vossa fascinante irrealidade.

            Fica bem.

          • Ernesto V. Souza

            No, lo lamento, no puedo ficar bien. Estoy efectivamente incómodo. De todas maneras, “mui to prezado Professor Doutor”, no hace falta que se disculpe, me interprete o que me lo explique, no me va a convencer. No es ninguna caricatura, es la realidad. Mi realidad. Y mi decisión está tomada.

            Yo, por lo menos, sé y puedo reconocer mis limitaciones. Por tanto no volveré a escribir en portugués a un portugués, hasta que tenga por lo menos un C1 de escuela de idiomas o un título académico comparable que pueda colocar en alguna pared para las visitas; y no volveré a hablar en portugués hasta que haya conseguido una pronunciación más correcta, formal y adecuada que no les avergüence al oírla.

            En Castilla me haré cuanto pueda el mudo y el iletrado, de manera que tampoco se burlen tanto de mi acento, dialecto y de la manera anticuada y poco castellana de mi prosa.

            Cuanto al gallego, abandono, con tristeza: infelizmente no he nacido en ninguna aldea gallega ni he mamado el gallego de niño más que en ocasiones, y por lo tanto mi fonética, léxico y morfología aun después de 30 años de estudio, son deleznables y mis torpezas intelectuales cuanto las limitaciones auditivas y de pronunciación adquiridas no me permitirán pasar jamás de la caricaturesca condición de urbanita “neo-falante”.

            En fin, esta es la realidad, para que engañarnos y sobre todo para que tratar de fingir más ante nadie. Es lo que gustan y lo que quieren todos, lo gallego para el teatro de carcajada fácil, la mesa y las vacaciones, por lo demás las cosas claras y bien simples y todo nos será así más fácil a todos.

            Cordialmente,

          • Joám Lopes Facal

            Haja paz, amigos.
            O reintegracionismo nasceu para ficar; animo ao Fernando a perseverar na análise deste movimento à intempérie, pouco aprezado, aliás, além e aquém Minho, ainda que por motivos diferentes.

          • Ernesto V. Souza

            Nem paz nem farrapos de gaitas… A minha paciência rematou… A norte e a sul do Minho … Aqui cada um ao seu… Façam o que achem e deixem em paz os demais com os seus assuntos… Deixem de me chamar mau galego, traidor lusista e ignorante… Que eu nunca os insulto nem ataco.

          • Celso Alvarez Cáccamo

            Ernesto, generoso Ernesto, segue o meu conselho: dialoga só com as pessoas com quem é possível dialogar. A dignidade ética, que te carateriza, e que carateriza o projeto de recuperação da língua, é muito mais importante do que uma mimese de diálogo que não conduz a nenhures. Há tempo que os argumentos sobre, encol de, contra a língua e as diferentes posições naturalizadoras do idioma (ativistas) estão ditos, ré-ditos, explicados. Há tempo que é supérfluo repeti-los. Nem “os galegos” somos já o que pensávamos que éramos lá por volta de 2000, quando começou esta fase de desfragmentação do reintegracionismo (MDL, Assembleia da Língua), nem os outros países e identidades são o mesmo tampouco. Argumentos filologistas e ortofonistas são cousas muito velhas para gentinha jovem reintegracionista que, agora, falem como falarem (muitos, com tremendas fonéticas étnico-nativas 😉 ), o único que pensam e sabem é que uma língua viva é muito mais do que um antigo mito. Provavelmente se importem muito pouco em como pronuncias tu ou qualquer das pessoas que fazeis este importante Portal. Simplesmente, o vosso trabalho, posição, atitudes e conduta são um forte referente, implícito ou explícito. São estas pessoas que nos importam, verdadeiramente, não qualquer pseudo-diálogo estéril.

            Eu estou a seguir muito o processo independentista catalão, sobretudo na rede. Observo os usos unificados da língua. Imagino por trás (e escuto) pronúncias muito “castelhanizadas”, mesmo de líderes notáveis como David Fernàndez. Outros, como Albano Dante-Fachín, são mesmo muito mais “estrangeiros”: de Argentina. É fascinante ver como o projeto político (republicano) comum os reúne por cima de parvoíces como o sotaque. Ninguém duvida que catalão, balear e valenciano são o mesmo. Simplesmente, escrevem, também heterograficamente (há muitos “erros” no seu catalão, como haverá no seu espanhol). Simplesmente, são.

            Ninguém mais que nós próprios/as nos vai definir, Ernesto. Não percas o teu valioso tempo. Maltrata a nossa língua portuguesa, orgulhosamente. E a nossa fala, ainda mais. Saúde!

          • Ernesto V. Souza

            Caro Celso, não te preocupes por mim… eu já teve filhos, já prantei alguma árvore e até escrevi livros. Não devo dinheiros… acho, francamente, que podo morrer em paz.

            Realmente estou queimado e já não me interessa dizer, fazer, falar ou escrever mais nada a sério. Nunca mais.

            Isto são apenas tertúlias num bar… a outros dá-lhes pelo futebol, as revistas e a nós pelas identidades e as parvadas da língua… total caralhadas de velhos carrancudos…

            Apertas fortes, e obrigado por tanta cousa

          • Venâncio

            Joám, eu tentaria ser menos fatalista… E submeteria aos mais próximos esta série de “perplexidades” que o projecto reintegracionista suscita neste concreto português. Se vos tiver sido útil, óptimo. Se não o tiver, olha, amigos como sempre.

          • Joám Lopes Facal

            Tentarei

          • Venâncio

            Foi preciso eu, pela primeira vez nos longos 15 anos que levo convosco, ter falado na pronúncia do Galego, e eis que se me nega o contacto, ou se recomenda não tê-lo.

            Assim se conhecem as pessoas, e a insegurança que vive nelas. Estas têm nome: Ernesto Souza e Celso Cáccamo.

          • Ernesto V. Souza

            Pela minha parte acabou o debate. Lamento se tenho sido desconsiderado consigo nalguns momentos.

            Fique com bem Fernando.

    • Joám Lopes Facal

      O sotaque e a pronúncia á castelhana, ou luguesa, é o resultado da “urbanizaçom” da língua e das elites nacionalitárias. Todos imos caindo nesta facilidade descaracterizadora que, alías, é alimentada polos meios de comunicaçom públicos sem reacçom aparente.
      Um locutor radiofónico em galego está obrigado a se exprimir com sotaque neutro: O presidente Feijó e os nossos parlamentários em Madrid, fam esforços hercúleos por imitarem o sotaque espanhol estándar.
      Gostaria que os portugueses pudessem apreciar a pronúncia do meu arco fisterránico, de Maçaricos ao mar: a articulaçom vocálica, o sesseio e a forte nasalizaçom confirmaria flagrantemente a existência de umha fonética reprimida que é ao tempo a mais genuína.
      Também os galegos nos debatemos nas nossas fronteiras interiores, caro Fernando. Perde sempre a raiz, ganha a folhagem.

  • Paul

    Nas poucas vezes que estive na Galiza (maioritariamente nas cidades costeiras), sempre falei em português e sempre me responderam em castelhano. Se a isto juntarmos o desconhecimento geral em Portugal sobre a Galiza, provavelmente propositado, para todos os efeitos tinha estado a passear em “Ejpaña”. É, portanto, absolutamente normal para qualquer português na mesma situação pensar dessa forma.

    Invariavelmente, quando o assunto “independência da Catalunha” vem à baila em conversas em Portugal, há sempre alguém que menciona o País Basco. Nunca ouvi o nome da Galiza mencionado. Para muitos Portugueses é como se fosse outra Múrcia ou Cantábria, ou seja, reconhecem o nome, mas não saberiam apontá-las num mapa.

    O que fez tudo mudar para mim foi um dia ter falado com uma Galega, que falou comigo em Galego, no Ikea de Matosinhos. Garantiu-me que não estava a falar Português. Mas aquilo era a minha língua, tinha era pelos vistos um nome diferente e uma pronúncia castelhanizada. Mind-boggling. Como o Luís:

    https://www.youtube.com/watch?v=gV7XWdt72Vo

    Acho que se mais Portugueses tivessem a oportunidade de passar pela situação que eu passei, ficariam convertidos ao “reintegracionismo”, fosse qual fosse a estratégia.

    Talvez passe por aí, pela redescoberta da Galiza pelos Portugueses. Ou porventura passe pela Catalunha e País Basco e um novo arranjo político em Espanha. Porque há algo que a mim me parece incontornável, sem hegemonia no seu próprio território, o Galego não conseguirá sobreviver. A convivência entre duas línguas tão próximas (Galego e Castelhano) é impossível, uma miragem, e algo terá de ceder.

    Num arranjo político em que as duas línguas servem para os Galegos comunicarem entre si, mas apenas uma para comunicar com o exterior (mundo hispânico), já se sabe o resultado. Para quê aprender Galego para falar “apenas” com os meus conterrâneos se posso usar o castelhano para o mesmo efeito e ainda por cima comunicar com mais 450 milhões que também falam castelhano? A estratégia “lusófona” parece surgir nesse contexto de guerra linguística (inevitável, por razões políticas), para tentar re-equilibrar a balança de poder. Acho por isso um pouco injusto criticar o reintegracionismo (léxico, pronúncia, gramática, etc) sem o contextualizar politicamente.

    Talvez uma solução tipo “Bélgica” ou “Suiça” para o mini-império Castelhano e a consciencialização dos Portugueses para a Questão Galega (e Portuguesa) sejam pre-condições necessárias se quisermos mudar a trajectória actual.

  • José Inácio

    O homem fala com pouco sotaque galego.
    Bom, e que mais tem?, que importa?
    É um marinheiro da armada de guerra espanhola, que de seguro, com probabilidade fale o dia todo em castelhano com castelhanos ou gentes de diferentes lugares da Espanha e isso marca.
    Que a Galiza está colonizada é sabido, e que o processo de colonização é possível ser observado na fala, não é nada novo.
    Que falemos em conjunto cada dia mais espanholizados.
    Ouvide, ouvi a Quim Monzó:
    https://www.youtube.com/watch?v=eUFY8ox7yN0
    Agora a ferida.
    Uma das feridas da galeguidade obrigou-Na a buscar o reconhecimento.
    A Madri tem ido historicamente a Galiza buscar isso.
    Uma sociedade, umas pessoas nascidas das camadas labregas e marinheiras, magoadas nas suas linhagens durante tempo, são o que são, somos os que somos, algumas pessoas esmoleiras, consciente ou inconscientemente em parte andamos esse caminho.
    Não sermos reconhecidos.
    Quando arremedo o sotaque padrão lisboeta, tenho que manter uma contração em certa parte da gorja, glote, e falar com ela assim toda palavra e toda frase, causando-me um certo incomodo.
    Depois de anos de medicina de compartimentos, chegou a medicina de que tudo está relacionado, o Doutor Hamer cientificamente achou zonas edematizadas no cérebro que correspondiam com conflitos psicológicos, e esses conflitos-edemas correspondem com zonas do corpo doentes.
    O sotaque poderia ser estudado para, dando-lhe a volta, observando as zonas anatómicas que mais sofrem ou de tensão contínua na fala marcada de determinado sotaque, observar o conflito cultural que cada povo tem por resolver.
    Na colonização, quem coloniza transmite a quem é domina os seus conflitos por resolver, por isso na Crunha funcionou uma praça de Touros, e ainda na Ponte-Vedra funciona….
    Mas o sotaque da Crunha, Ernesto,é genuíno.
    (A lembrar um dia de queimada que me encorajache a ler o conjuro, por umas razões que me resultaram chocantes…).
    Esse sotaque com prolongamento das vogais tónicas que o faz tão lindo…
    .
    Este homem outro está sempre coa mesma matraca.
    A mesma matraca, pinhão fixo.
    Que se ouviu cantar Terra da fraternidade com sotaque espanhol.
    Que mais tem!
    Quem é ele?
    Um Balbino, comA nós, que saiu duma camada labrega e aparentemente conseguiu a excelência com esforços. Mas que atua como tal, como aquele que chegou de volta a aldeia e TIVO que ser obrigado a pisar o Encinho, polos dentes, para voltar ao seu.
    A busca de reconhecimento temo que tem, vás dar sempre com quem nunca, nunca, te reconhecerá. Porque a busca de reconhecimento provoca uma cegueira tal que é impossível veres quem já te reconhece.