faroeste



Queiram que não, meus, minhas, a Galiza é diferente. A pouco que venham tomar a sério, já para explicar de fora, já para negar, combater e desmontar os seus tópicos, estruturas sociais, territoriais, património, economia atlântica, história, etc., a densidade e complexidade do que aparece, ao retirar as primeiras capas de crosta, tona e pele, é assustadora. O cirurgião, sempre, em todo caso decide fechar e deixar correr. Não há remédio.

A tática é a seguida pelos velhos reis desque expandiram os seus territórios pelas chairas de Castela, consagrada habitual a partir dos Reis Católicos, repetida pelos Borbões e o seu Centralismo de Nueva Planta*; melhorada depois pelo novo centralismo despótico-liberal Isabelino, corrigido à sua vez pelo Parlamentarismo oligárquico-caciquil da Restauração canovista; continuado com as Repúblicas e na Ditablanda, restaurado após o genocídio, pela Ditadura e finalmente como política felizmente assumida e funcional pelo modelo autonómico-subordinado do Regime do 78.

Ignorar, não entrar em conflito direito, mas abandonar, esquecer, arrumar no seu cantinho extraterrestre, bizarro, os ensimesmados habitantes e as suas complexas e tumultuosas relações; e dizer, e repetir que lá, na Espanha, não há qualquer problema, que “o Estado funciona en Galicia”, para assim tratar de ir deixando, a se desintegrar e destruir sozinha, a realidade galega. E dar por bons, como aceitação, a retranca geral e o silêncio surreal produzidos pela constante de violência repressora.

Em qualquer caso a solução à “problemática” territorial e nacional galega é sempre a mesma. Uma primeira intervenção entusiasta, desvalorativa e naïf, com publicidade do Governo central e dos partidos mais centralistas, paralisada pela progressiva constatação de que outras leis, regras, tempos, humor, sentido do bem e o mal, e percepções parecem reger no noroeste, e seguida pela rápida recuada e silenciosa espantada, com volta à solução habitual de esquecimento e que se governem eles, por delegação governativa interposta, mas sem qualquer investimento, que é mais económico e menos complicado.

A alegoria de Torrente Ballester, plasmada com todas as suas metáforas meta-culturais, na capital levitante e província apagada por decreto de Castroforte del Baralla, é talvez a que melhor reflete tanto a estratégia quanto as relações políticas, administrativas, funcionariais e sociais, da Galiza, e dos galegos, com o imaginário e distante Poder Central e através dos seus “delegados” locais, emparentados ou simplesmente indígenas.

American Far West - Gun Fight 1874

E não pensem que exagero. Os galegos inexistimos, podem constatar, tanto por própria prudência, quanto por assessoramento técnico dos milheiros de galegos espelidos, vivos, espertos e ambiciosos que já antes de existir a Espanha levam aconselhando Imperadores, Papas, Reis e Governos, no melhor jeito de tratar com os belicosos galegos, e na fórmula para ir dissolvendo a rica Galiza numa tática paciente de tempo ao tempo.

Certamente seria difícil apanhar oito apelidos galegos sem que cantasse que García, López, Rodríguez, Gómez, Díaz, Martínez, Pérez, Fernández, González, Álvarez, Vázquez, Suárez, Ramírez… são tão galegos e antigos como Lago, Ouvinha, Ferro, Castro, Árias, Fraga, Mosqueira, Marinho, Sousa, Bandeira… ; mas resulta engraçado observar, na sequência da humorada burlesca, fachita, tosca, astracanesca e portanto patriótica que foram os filmes de 8 apellidos vascos, depois catalães e mais as sequelas televisivas o contraste na imagem tópica de uma Galiza bronca, amarga, sem lei, selvagem, de clãs, contrabandistas, caciques, filhos ilegítimos, padrinhos e corrupção ilimitada, de belas paisagens verdes e rias, num ritmo e ambiente quase de faroeste-opera, da exitosa tele-novela Farinha, ou da novidade no trilho aberto, já mais castelhanizada, de Vivir sin permiso, que atualiza o tema no esquema distante, exótico, primitivo, violento, feudal, saudoso e colonial de Los Pazos de Ulloa e do mítico Juan Manuel Montenegro das Comédias Bárbaras.

Enfim, nunca choveu que não escampasse, por enquanto há que roê-lo, e o patrão, no saloon vilego, continua informando-se da propaganda mágica por La Voz de Galicia, rosma qualquer cousa inteligível na sua boca sarcástica, e pede com niilismo autoritário uma outra Estrella de Galicia, para ir passando o que resta de manhã, e a vida.

 

* N.B. um dia haverá que estudar como estas leis centralizadoras e francesas, rompem a tradicional organização polissinodial e também atingem com dureza e alheiamento os reinos da Coroa de Castela entre os que estava a Galiza.

 

Publicado em  A Viagem dos Argonautas,

 

Ernesto V. Souza

Ernesto V. Souza

Ernesto V. Souza (Corunha, 1970). Formado como filólogo, publicou algum trabalho sobre história, contexto político e cultural do livro galego das primeiras décadas do século XX. Em 2005 começou a colaborar com o PGL e a vincular-se ao reintegracionismo. É sócio da Associaçom Galega da Língua e membro da Academia Galega da Língua Portuguesa; atualmente é o Diretor do Portal Galego da Língua.
Ernesto V. Souza

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  • Joám Lopes Facal

    O marasmo, a revoluçom passiva (Granmsci), a treiçom dos letrados –des clercs— fruto de um país escasso de liderados próprios e sobrado de aspirantes ao fiel serviço do Poder.
    Falta a revoluçom intelectual e moral (Granmsci) comandada por umha geraçom capaz de renegar de poltronas e carreiras funcionariais. Um projecto nacional de maiorias, descontraído e ousado. Abstenham-se os nostálgicos que caminham com a face voltada para atrás.
    Há um século existiu e seguimos vivendo do seu capital simbólico. Será que é o tempo, Ernesto, o kairós.

  • abanhos

    És a pessoa que melhor faz o desenho da nossa história e da nossa
    idiosincrasia. Porém a Galiza, nascido Portugal e apagado o projeto
    protuguès de nos reintegrar no reino, do seu fracaso final em 1476, – em
    Toro- nasce o projeto de “españa” que veu dar no que andamos, e que nos
    apaga sem remédio e sem paragem.

    Os Galegos não o sabem(os), mas agem(imos) como
    se o soubessem, sem o projeto reintegrador, fica (só) servir o projeto
    de Castela/espanha e viver o melhor possível disso…e sempre com medo que
    paira por cima, pois a ameaça sente-a o cacique e sente-a o ministral, e isso
    está ao seu galaico modo nessa maravilha que é a obra de Torrente e
    Ballester -A Saga Fuga de JB e Los Gozos y las Sombras.

    Uma curiosidade de Torrente, que me contou ele num acaso, no
    aeroporto de Maiorca. (Já tinha parolado com ele antes em ocasiões várias ao
    acaso) Sendo ele professor, e acho que diretor ou chefe de estudos do
    instituto de Ferrol (anos 50 s.XX), no que havia de idioma estrangeiro português, pediu a sua supresão, (e fixo-se-lhe caso)… pois isso aos galegos só servia
    para serem nugalhães ao estudarem uma língua que já sabiam…

    Logo comentou que a Saga Fuga tentou-a escrever em galego, chegou a fazer mais de oitenta páginas, mas descobreu que não podia, não tinha
    recursos…necessitava o português.

  • Diego Bernal

    Tés toda a razom em realçom aos apelidos, Ernesto. Alguns nom som privativos da área galego-portuguesa e também podem ser castelhanos como “García, López, Rodríguez, Gómez, Díaz…”. Outros estám castelhanizados e na Galiza deviam ter umha outra feiçom como Martins ou Soares. E otros som privativos galego-portugueses como Vasques, como bem sabes por ser um dos teus. Bom artigo!