Falsificações não retificadas do Conselho da Cultura Galega



Sendo o “Consello da Cultura Galega”[i] um organismo financiado com fundos públicos, a cidadania tem o direito a exigir responsabilidades pela sua gestão transparente.

Acontece que a que hoje é presidenta do CCG, Rosario Álvarez, se tem permitido verter falsidades em intervenções públicas com parceiros da Lusofonia: no caso, o colóquio que se seguiu à conferência “Galiza no espaço cultural e simbólico da Lusofonia” (Ivo Castro, 2008) na sede do CCG, onde ela foi “retrucante”, junto com Elias Torres.

Dizia ela, no minuto 1:28:35 da gravação do ato[ii], que “no Acordo Ortográfico nin siquera foi consultada unha delegación lusista amablemente convidada, mmm?”; ora, isso é simplesmente uma falsidade[iii], e ela deveria ter pedido desculpas aos co-palestrantes, profs. Elias Torres e Ivo Castro, e retificar as suas palavras.

 

 

Eis a seguir alguma informação fidedigna que a poderia ajudar nisso:

Em 1 de outubro de 1990, o Prof. Dr Manuel Jacinto Nunes, Presidente da Academia das Ciências de Lisboa (ACL), envia uma carta ao Vice-Presidente da Comissão para a Integração da Língua da Galiza no Acordo da Ortografia Unificada, José Luís Fontenla (que substituíra o anterior vice-presidente, Valentim Paz-Andrade, no seu falecimento); a carta comunicava: «solicitamos, pois, a presença de dois representantes galegos, para tomarem parte, como observadores, na mencionada reunião em Lisboa, de 8 a 12 de Outubro de 1990»[iv].

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A delegação galega de observadores era integrada por J.L. Fontenla e António Gil Hernández (em representação de Ernesto Guerra da Cal, Presidente da Comissão Galega), que participaram nas reuniões de trabalho e colaboraram na redação do texto definitivo do Acordo Ortográfico, nele incluindo os “galeguismos” brêtema e lôstrego entre 19 exemplos de proparoxítonas com vogal tónica fechada (Base XI 2o a)), tirados do Prontuário Ortográfico das Irmandades da Fala (1984)[v].

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Este contributo foi feito na sessão de manhã do dia 11, redigindo o secretário da Academia Brasileira prof. A. Houaiss, e intervindo Malaca Casteleiro, Albertino Bragança, Lindley Cintra, H. Pereira da Rocha, J.L. Fontenla, Costa Ramalho, Tiago Oliveira, Gil Hernández e M. Veiga[vi].

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Cumpre salientar que a Delegação de Observadores da Galiza tomou parte em todas as reuniões, deliberações e debates (que não eram abertos ao público) e já na primeira sessão, no dia 8 pela tarde, fez uma exposição da situação da língua na Galiza. O texto final foi acordado em 12 de outubro, na Sala de Reuniões Internacionais da Academia das Ciências de Lisboa, ao que aderiu a delegação galega. Foi-lhes oferecido assinarem o texto junto dos representantes dos outros países lusófonos presentes, mas os delegados galegos decidiram não assinar, para evitar possíveis conflitos diplomáticos.

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O comunicado que, em nome dos Estados lusófonos, anunciava o Acordo da Ortografia Unificada de 1990, dizia assim: “As delegações de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, S. Tomé e Príncipe e Portugal com a participação de uma delegação de observadores da Galiza, reunidas em Lisboa…” Assinavam, por Angola, Filipe Silvino de Pina Zau, pelo Brasil Antônio Houaiss e Nélida Piñon, por Cabo Verde Manuel Veiga, pela Guiné-Bissau António Lopes Júnior, por Moçambique Maria Eugénia Paiva Cruz, por São Tomé e Príncipe João Hermínio da Silva Pontífece, e por Portugal Manuel Jacinto Nunes[vii].

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E no Diário da República – I Série-A, no 193, 23-8-1991, p. 4370, publica-se a Resolução da Assembleia da República no 26/91[viii], aprovando o Acordo para ratificação, e mais uma vez mencionando: “com a adesão da delegação de observadores da Galiza”.

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Tais são os factos, que era preciso esclarecer, para desfazer esta impostura, sobretudo tendo em conta que o CCG é membro observador consultivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

 

NOTAS:

[i] lembremos que o CCG é membro observador consultivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)

[ii] vide vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=dDG5FA-58-A&fbclid=IwAR1mP6n92rcKImFvdJI4fks30_RltUHFwIs66IebubDNGtCUtkJNcUdruNc&app=desktop

[iii] ou mais claramente uma mentira

[iv] vide J.L. Fontenla, “O Acordo Ortográfico 1990 – Crónica de uma semana de 5 dias”, II Congresso Internacional de Literaturas Lusófonas, NÓS, Revista da Lusofonia, Ponte Vedra-Braga, 1994, nos 35-40, p. 136; lembremos que a Comissão para a Integração da Língua da Galiza no Acordo da Ortografia Unificada já fora convidada para participar como observador pela Galiza no Encontro Internacional de Unificação Ortográfica da Língua Portuguesa do Rio de Janeiro de 1986, na altura integrada por Isaac Alonso Estraviz, José Luís Fontenla e Adela Figueroa

[v] revista Temas de O Ensino, nos 2/3, 1984, Braga

[vi] op. cit. J.L. Fontenla, pp 130-131

[vii] em: I Congresso Internacional de Literaturas Lusófonas, Nós, revista da lusofonia, Ponte Vedra-Braga, 1990/91, nos 19-28, entre p. 470 e 473 (vide https://www.facebook.com/photo.php?fbid=194229340621438&set=a.194229277288111.50956.100001031212338&type=1&theater)

[viii] http://dre.pt/pdf1sdip/1991/08/193A00/43704388.pdf

 

Carlos Durão

Carlos Durão é membro numerário da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP). Estudou en Vigo (bacharelato), Santiago (começo de estudos universitários) e Madrid (licenciatura de Filosofia e Letras, ramo de germânicas), donde partiu para Londres, em regime de intercâmbio universitário por dous anos, e em situação de exílio até à morte do general Franco. Foi professor de idiomas em colégios ingleses, redator radiofónico no Serviço Espanhol e Português da BBC, e tradutor técnico em organismos britânicos e do sistema da ONU.

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