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Fabián Severo: “Querem convencer-nos de que existe uma forma correta de falar e escrever em espanhol, a forma de falar de determinados centros de dominação”



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Foto de Mauro Martella

O Portal Galego da Língua conversou com o escritor uruguaio Fabián Severo, nascido em 1981 na cidade de Artigas, no Uruguai, na fronteira com o Brasil.

Fabián Severo é um artista de múltiplas expressões, caminhando com desenvoltura pela poesia, prosa, pela música, além da docência e coordenação do Projeto ProArte.

Adicionado ao talento artístico, o poeta é nascido num espaço geográfico em que o portunhol é amplamente utilizado por toda a população e Fabián Severo resolveu a construir sua história neste idioma peculiar, que é tratado com desdém por muitos, mas a principal forma de comunicação dos povos fronteiriços.

Diferente do Portunhol Selvagem, lançado em 2008 por Douglas Diegues, o portunhol da região de Artigas é falado desde o século XVIII e, segundo o estudo Dialectos portugueses del Uruguay (DPU), o portunhol é falado por cerca de 15% da população uruguaia, sendo usado na região fronteiriça entre o Uruguai e o Brasil em cidades, também conhecida como “fronteira da Paz”, unindo a cidades de  Artigas  e Rivera (Uruguai) e Quaraí Santana do Livramento (Brasil).

Para os próximos meses, o escritor planeja uma viagem à Galiza, para apresentar seus trabalhos e compartilhar experiências.

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Vamos iniciar com uma pergunta básica “O Que é para ti a literatura” (a poesia, nomeadamente)?

A Literatura é um lugar para existir, um refúgio, um lugar onde posso ser eu mesmo, sem precisar dar explicações, sem sentir medo ou vergonha, onde no tenho que seguir modelos, modas… É um lugar para existir livremente.

Se minha personagem disse “mano” em portunhol, como vou escrever? Mano? Mão? Maun? Maum?”. Então, decido inventar meu próprio jeito, criar uma escritura que seja uma fronteira.

O portunhol é sua língua materna. Em sua cidade natal (e quase toda fronteira sul) é natural a comunicação em portunhol. Quando você decidiu que o portunhol seria a “língua oficial” de sua expressão poética?

“El portuñol” não é a língua oficial dos meus textos. Quando os textos começam a nascer dentre de minha cabeça, quando são um murmúrio, uma voz… Começo a ouvi-los e descubro em que língua eles vêm. Se os sons são em português, desenho no papel uma tentativa de portunhol, se vêm em espanhol, rascunho em espanhol.

Dedico parte de minhas horas a encontrar desenhos que se pareçam aos sons que escuto em minha cabeça. Simples assim.

Tudo começa com murmúrios, sons e silêncios que escuto. Juan Gelman chamava isso de  “obsessões”, e concordo com ele, porque esses sons já não me permitem descansar, devo escutá-los, tentar transforma-los em palavras que se pareçam ou reflitam esses sons.

Logo, quando creio que encontrei uma forma que permita expressar o que escuto, pego um papel e lápis e procuro desenhá-los. Não é complicado descobrir o desenho da palavra que se pareça com o som, porque, por exemplo, escuto que uma personagem diz: “não me lembro do que ia ser, eu sou projeto de gente, corpo de ar, fumaça que fala”. Que ortografia devo utilizar para representar esses sons? Que gramática? Que regras gramaticais? Se minha personagem disse “mano” em portunhol, como vou escrever? Mano? Mão? Maun? Maum?”. Então, decido inventar meu próprio jeito, criar uma escritura que seja uma fronteira.

E os sons têm seu tom, seu ritmo, sua musicalidade, eles me dirão se devo formata-los em verso ou em prosa.

Depois, quando os sons já se vão transformando em um texto parecido ao que escuto, é hora de reescrevê-los (sempre à mão), até que cheguem a uma forma parecida ao que escuto. A partir daí, começam a silenciar-se, a irem embora. Existe um ponto de onde os sons se encontram com o desenho das palavras no papel, e assim nasce o poema ou o relato, o conto ou a novela.

 

Por favor, fale também sobre sua atuação na música (com Ernesto Díaz e outros músicos latino-americanos).

Eu queria ser cantor, mas minha professora de música na escola secundária me sugeriu que me dedicasse a outra coisa. Dediquei-me ao ensino de Literatura e da escrita literária, porém sempre escutei canções. Poderia dizer que minha principal influência vem das canções. Aprendo muitíssimo das letras, seu tom, sua poética, seu ritmo…

Em 2010, ao encontrar Ernesto Díaz, já começamos a trabalhar juntos, a compor canções. Armamos um recital de poemas e canções da fronteira, e percorremos o país, visitamos várias universidades brasileiras de. Já estamos há vários anos combinando canções e poemas.

Tenho a sorte de viver num continente povoado de grandes compositores. Para citar apenas alguns, Caetano Veloso é um dos poemas mais completos que conheço, temos ainda  Alfredo Zitarrosa, Atahualpa Yupanqui, Silvio Rodríguez e tantos outros.

 

Qual a importância social e artística do Portunhol para as pessoas e regiões que se expressam com essa linguagem?

Respondo com uma pergunta: Qual é a importância social e artística do idioma espanhol para as comunidades hispano-falantes?

Como em qualquer comunidade, é fundamental para as comunidades que falam Portunhol que exista literatura, música, educação em sua língua materna.

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Ela é bem aceita na escola e nas esferas oficiais (Prefeituras, Justiça, Escolas etc)

Atualmente, há um discurso de integração linguística que, na realidade, creio, que não se existe na prática. Tenho a sensação de que nas escolas, como nas esferas públicas, o portunhol continua sendo considerado uma fala de ignorantes, dos pobres, daqueles que não aprenderam a falar corretamente. Existe uma intenção de mudar as coisas, mas está muito no início.

É natural que as pessoas sintam vergonha e busquem negar a fala em portunhol, porque é muito difícil resistir a  hegemonia do espanhol, a  dominação de alguns centros de poder que querem impor um forma de falar e escrever. Querem convencer-nos de que existe uma forma correta de falar e escrever em espanhol, a forma de falar de determinados centros de dominação. Isso que chamam de “espanhol standard” é uma ficção. Onde fica a comunidade que fala o espanhol standard?

 

Você escreve sobre temas fronteiriços e numa linguagem fronteiriça. O que isso provoca em leitores ou ouvintes de suas apresentações, em regiões mais distantes da Fronteira entre Uruguai e Brasil ?

Como todo o diferente, chama a atenção. Em princípio, o leitor pode sentir-se confundido frente a uma escrita que não lhe é comum. Alguns gostam da musicalidade, do ritmo, do tom, e após superar esse primeiro encontro com a nova forma, chegam rápido ao conteúdo do que escrevo.

Outros leitores não conseguem superar esse primeiro encontro com minha escrita, a vêem como um obstáculo insuperável e ficam pelo caminho. Compreendo perfeitamente, hoje em dia, a maioria dos leitores buscam leituras acessíveis.

Mas, existem leitores que não ficam somente na superfície, no encanto da forma e mergulham no fundo, na temática, nas personagens, no cenário…E descobrem ali um mundo surpreendente. Meu objetivo não é fazer uma leitura fronteiriça, meu objetivo é fazer literatura. Espero poder escrever um poema que valha a pena existir. Que algum leitor, em algum lugar no mundo, se emocione, se comova, sorria distante, recorde uma passagem, a partir de um verso que eu tenha escrito. Somente isso.

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E os editores, como recebem a literatura em portunhol?

Não sei. Meu primeiro livro foi publicado como edição de autor (edição independente) porque as editoras a quem eu havia enviado os manuscritos, nem se dispuseram em responder. Atualmente, a Editorial Rumbo tem publicado meus livros, mas não imagino que recepção poderia ter em outras editoras.

 

O Portunhol pode ser considerada uma “língua que une”. Como ela pode aproximar o Brasil e os demais países da América do Sul ?

O portunhol será a língua do futuro da América do Sul. Quando não seremos somente um continente e seremos um conteúdo. Falta muito tempo, não o veremos – tendo em conta essa tendência atual de voltar aos nacionalismos – porém, em alguns séculos quando descobrirmos que a única razão por que estamos aqui é porque viemos para encontrar com outras pessoas, porque não viemos a encher-nos de objetos, viemos para encher-nos de amigos. Esse dia, o Portunhol será a língua que possibilitará o encontro dos povos. Quando descobrirmos que a única pátria possível é a do encontro, do diálogo, esse dia o Portunhol será a nossa língua. Sei que muitos não compreendem essas postura. Nos vemos em alguns séculos…

 

Você conhece o movimento Portunhol Selvagem, lançado em 2008 pelo poeta Douglas Diegues? (Caso conheça, por favor, comente as diferenças e semelhanças existintes)

Sei do movimento, mas não conheço profundamente. Li alguns livros de Douglas Diegues. Não sei dizer quais são as semelhanças ou as diferenças de nossas poéticas. Talvez, o leitor que nos leia possa responder essa questão com mais propriedade que eu.

 

 

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Foto Paola Scagliotti

O poeta

Fabián Severo nasceu em 1981, na cidade uruguaia de Artigas, 1981. É Docente de Literatura e coordenador de oficinas de Escrita literária, assistente acadêmico em Letras do Projeto ProArte da Administração Nacional de Educação Pública.

É autor dos livros “NOITE NU NORTE. Poemas en Portuñol” (Ediciones del Rincón, 2010), “NOITE NU NORTE. NOCHE EN EL NORTE. Poesía de Frontera” (Rumbo Editorial, 2011), VIENTO DE NADIE (Rumbo Editorial, 2013), “NósOtros” (Rumbo Editorial, 2014) y Viralata (2015). Parte de sua obra já foi publicada no Brasil, Argentina e Estados Unidos.

Recebeu o Prêmio Morosoli de Bronce na categoria Poesia, (2010) da Fundaçãon Lolita Rubial. Galardón que distingue personalidades e instituições vinculadas a difusião da arte e da cultura. Foi um dos ganhadores do Fundo de Estímulo a criação artística, com o prêmio “Justino Zavala Muniz”, outorgado pelo Ministério da Educação e Cultura (2012). Em 2012, por duas vezes recebeu Menção honrosa do Ministério da Educação e Cultura, pelos livros “Noite nu Norte” e “Camino de la soledad”.

Foi curador dos textos de seus alunos a escola Liceo de Toledo (Canelones – Uruguai) para os libros Fruto del desierto (Rumbo, 2008), Huellas de viento en la arena (Rumbo, 2009), Los Soles de la Tormenta (Rumbo, 2010), publicações declaradas de Interesse Educativo pelo  Ministério da Educação e Cultura, e do livro El violín de Einstein (Atlántida, 2016).

Entre 2010 y 2014, coordenou a Oficina de Escrita Literária da Associação Geral de Autores do Uruguai (AGADU).

Integrou a Delegação Artística, que participou das “Jornadas da Cultura Uruguaia em Cuba”, em 2011. Participou como escritor convidado pelo Comitê Organizador da Feira Internacional do Livro de Cuba (2012 e 2014). Participou como escritor convidado, no Encontro de Jovens Escritores da América Latina e Caribe, e na Oficina de Jovens Escritores de Alba, de 14 a 17 de fevereiro de 2017, em Havana, Cuba.

Seguidamente, tem sido convidado para diversos eventos literários, Congressos e Feiras, em diferentes cidades e universidades brasileiras.

Com o compositor Ernesto Díaz, participou do documentário “A linha imaginária”, dos diretores: Cíntia Langie e Rafael Andreazza, Moviola Filmes sobre a fronteira  Uruguai – Brasil,.

Escreveu os poemas e atuou na película “EL MUNDO EN UN LUGAR”,  da diretora Leticia Ehrlich, apresentada no Teatro Solís, no Uruguai, em 2013.

En julho de 2015, foi o escritor convidado para a abertura dos trabalhos do Congresso de Professores de Espanhol da Universidade Federal de São Carlos _ UFISCAR.

En outubro de 2015, apresentou sua primeira novela escrita em portunhol ou “espanhol da fronteira”,  denominada: VIRALATA (Rumbo Editorial).
Para saber mais sobre Fabián Severo:

 

José Carlos da Silva

Desde 2008, José Carlos da Silva é correspondente do PGL no Brasil. Residente em Campinas (São Paulo), é produtor cultural e periodista. Como produtor cultural trabalha pela difusão da cultura caipira, que tem na viola de 10 cordas, sua maior expressão.

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  • Galego da área mindoniense

    E agora, passamos coas entrevistas òs autores que escrevérom no castrapo e gastrapo. Começamos pola Rosalia de Castro e o Manuel Murguia, e remataremos cos membros da atual Real Academia Gastrapeira (RAG) e do Partido Policultural do Gastrapo (PPdG).

    • Luis Trigo

      E que dizer de todas essas formas de latim vulgar puxadas às letras? Há quem fale portunhol e o assuma como identitário… Não quer escrever português, brasileiro, galego ou espanhol, não o define como superioridade, apenas como direito. Não pretende anular os outros nem o impõe. Definiu-se como defensor do gastrapo? Alguém se define como defensor do gastrapo? Isto é um problema?

      • Galego da área mindoniense

        No seu direito, está. Tamém um madrilenho tem o direito d´escrevelo castelão com lh, nh, tz…

        • Luis Trigo

          Ou um galego…

        • Luis Trigo

          Ou um madrileno, já que se fala em portunhol…

  • Celso Alvarez Cáccamo

    Isto que escreve este autor não é o português do Uruguai. Nenhum falante nativo alternaria “yente” e “jente”. É, como diz no final, “espanhol da fronteira”.