Eugénio Outeiro: “O reintegracionismo soubo fazer mais que rir, no sentido de descontrair e conseguir emocionar e seduzir”



uxio-eueaslaranjasEugénio Outeiro, (Uxio Outeiro), Ilha de Arousa (1976), define-se como poeta, budista zen, reintegracionista e professor de português. E no entanto, ainda que
essa seja a ordem da sua preferência, talvez o tempo que dedica a cada cousa esteja a pedir uma inversão completa dos termos.

No ano 2002 viu publicado o seu primeiro livro de poemas, Às Vezes Vida, da mão da associação cultural Ateneo de Pontevedra. Também participou na obra colectiva 100 poemas – 100 voces editada pela Deputação de Ponte Vedra no mesmo ano, e é possível encontrar poemas seus em revistas como Ólisbos, Agália ou Sítio, em épocas e idades bem diferentes. Desde o ano 2003 mantém na rede o blogue pessoal Intra!.

Através editora libertou na rede Mordida, poemário escrito, desenhado, diagramado por ele, e publicado em 2012, com esta oportunidade aproveitamos para falar com um grande amigo do PGL e veterano sócio da AGAL.

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Mordida, 2012, é um livro denso, profundo, intenso: um poemário com corpo e voz e um livro de qualidade, compacto. Foi publicado dentro de uma coleção de Através na que há bons títulos de poesia. Porém, não achas que passou bastante desapercebido?mordida

Passou despercebido, sim, essa é a impressão que tenho. Aqui entre nós, e agora que ninguém nos lê, sendo eu uma pessoa que não destaca em nada, creio ter feito alguma coisa boa na vida, e Mordida é uma delas. Por isso confesso que me dói um pouquinho cada vez que encontro o livro por casa. O bom é que também houvo umas poucas pessoas que leram com atenção e carinho, e agora estará disponível para todo o mundo. Fico eternamente grato por isso.

Por que achas que é isto: pela falta de crítica? por ser um livro reintegrata? pela falta de show de apresentações?

Claramente, não se deram as circunstâncias para que o livro fosse notado. Não sou uma figura conhecida, e a poesia não é precisamente um fenómeno de massas, e menos ainda em reintegrado. Ainda por cima, estrategicamente, e naquela altura, tampouco era um título importante para o reintegracionismo. A visibilidade do livro foi aquela que lhe pude dar eu, especialmente nos lançamentos a que me convidaram, na pouca ou muita rede que a vida me tem oferecido. Agora, visto com perspectiva, acho que foi estúpido pensar que alguém ia reparar nele, mas confesso que na altura tinha alguma esperança.

Sinceramente, lembrar-me disto dói um pouco. Faz-me lembrar que durante alguns anos dei tudo pelo reintegracionismo, deixando de lado outras cousas, como a poesia. Depois, quando voltei a ela, o reintegracionismo não podia dar-me o que eu tinha abandonado, e acho que não pela falta de qualidade dos versos. Faz-me pensar que o êxito (relativo) da minhas opções coletivas é construído sobre o terreno dos meus fracassos individuais. Não estou a queixar-me de nada nem de ninguém (afinal, é só a consequência das minhas próprias escolhas), mas devo-me a mim próprio o reconhecimento desta inquietação.

É um livro sapiencial? a evolução de conteúdos, até o final tem um algo de descoberta, de iluminação pessoal? Por outra banda, é também um livro pessoal, familiar?

É bastante de tudo isso, sim. Tudo o que escrevo é uma descoberta pessoal, sempre. Desde que comecei a escrever versos, lá na adolescência, reparei que a busca de ritmo e musicalidade me levam a desvendar, sem querê-lo, aquelas cousas que no dia a dia prefiro ignorar. Por isso quando escrevo aprendo muito sobre mim e a minha relação com o mundo, às vezes de forma dolorosa.

No caso de Mordida, inquietava-me a minha relação com a comida, e decidi conscientemente ir à procura de respostas. A comida é algo demasiado próximo para que não esteja reflectida a minha experiência pessoal, e até familiar, mas o melhor que fiz na busca foi documentar-me. Li muito, pensando especificamente no livro, e isso fijo com que a obra crescesse mais do que eu esperava. Na poesia fum introduzindo dados que ia descobrindo, que me faziam reflectir sobre mim mesmo, entanto que indivíduo, mas também como representante da espécie humana neste canto do mundo. Afinal, acho que ficou um livro bastante intelectual, mas ao mesmo tempo íntimo e pessoal.

 

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Mordida é um livro de 2012, desse momento ou também de hoje?

Para mim é um livro de 2011, que é quando foi escrito, e quando mais coisas me ofereceu. Em 2012, depois de publicado, ainda houve quem leu, e tive preciosas oportunidades de compartilhá-lo com alguma gente. Depois disso, Mordida tornou-se verdadeiramente atemporal, porque qualquer tempo é bom para calçar uma mesa. Isso sim, acho que os poemas ainda são atuais, assim que vamos ver no que dá agora…

Imos à língua do livro, o que nos contas dela? A técnica poética é impecável e a profundidade de referencia e leituras mas a língua é a de quem?

Não sabes como me alegra esta pergunta, porque nunca tivem oportunidade de explicar isto publicamente.

Quando comecei a escrever sabia que o livro ia ter pouca visibilidade. Pensei em apresentar o que escrevesse a algum concurso, mas queria fazer algo novo, e por isso quigem tentar ganhar um prémio de poesia em Portugal. Com essa perspectiva, a língua do livro foi o português padrão, o mais lisboeta de que sou capaz. Há até algum poema (“Faina Maior”) cujas referências só poderiam ser compreendidas, se a tal chegassem, a sul do Minho. Mas depois de escrever o livro, reparei que praticamente todos os prémios de poesia a que queria optar punham a nacionalidade portuguesa como requisito para participar. Só encontrei um que não a tivesse e apresentei-me a ele. Ao não ganhar fiquei quase sem hipóteses.

Depois disso, apresentar o livro a concurso na Galiza, com aquela feição estrangeira, não fazia sentido. Modificá-lo tampouco me parecia uma opção. Acho que era Cioran que dizia algo assim como que uma obra não está acabada quando está perfeita, mas quando andar a modificá-la já dá nojo. Foi algo assim.

 

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Falemos do autor.  A vida dá voltas, e a do autor não deu menos. Professor de EOI em Lugo, mas antes noutras partes, entre elas Alacant, onde aprendeu e militou no catalã? Como foram aqueles anos, de contraste e formação?

Foram anos de aprender muita cousa, sobretudo a nível vivencial. Eu continuava muito ligado à Galiza, por meio do trabalho na internet, e por isso, pelo menos num princípio, a minha militância no catalão não tencionava ir além do estritamente básico: aprendê-lo e falá-lo com normalidade. Curiosamente, no contexto da cidade de Alacant, aquilo resultou ser muito mais do que eu pensava. Com o tempo, também acabei tentando participar mais no movimento normalizador. Realmente tampouco figem grande cousa, mas creio que a minha só presença por ali tinha algum valor simbólico, e ganhei grandes amizades com aquilo.

Sem dúvida, do País Valenciano  recebi muito mais que o que pude dar. Por exemplo, aprendi muito com o modelo do catalanismo no País Valenciano, que é um movimento impecavelmente cívico, mesmo nas formulações que ali passam por ser mais extremas.

 

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E a volta, como foi a volta? encontraste o país diferente?

Encontrei o país bastante igual a si mesmo, mesmo apesar de certas mudanças, algumas esperançadoras. Eu é que já não era igual, mas isso fui descobrindo-o aos poucos. Por exemplo, reparei que já não me dava bem no ambiente associativo de Compostela. Depois de mais de dez anos morando fora daquela cidade, havia pessoas que me viam na rua e me falavam como se nunca tivesse saído, dando por suposto que estava ao tanto de tudo o que acontecia. Por um lado agradecia a familiaridade, mas estava realmente fora de lugar e ninguém reparava nisso.

Como é o trabalho de professor de Português numa EOI da Galiza. Como influi isso na língua, e na poesia?

Devo dizer que o trabalho numa EOI da Galiza, pelo menos sendo professor de português, é bastante absorvente. Tenho a sensação de que em Alacante trabalhava menos, apesar de as condições não serem muito diferentes. Quanto à influência na língua em geral, não vejo muita. No dia a dia continuo a dar os mesmos erros imperdoáveis de quase sempre, e mesmo castelhanismos gritantes. Já na língua poética é diferente: quando me sento a escrever sai-me o professor interno, como que me corrijo segundo vou escrevendo. Nos recursos linguísticos da língua escrita, saem naturalmente cousas menos galegas. Para dizer a verdade, gostava de utilizar mais formas galegas. Mas como também não aspiro a que minha escrita seja modelo para ninguém, não é nada que me tire o sono.

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Uxio tem uma extensa trajetória no ativismo reintegrata e ludo-reintegrata; colaborador da AGAL e de diversas plataformas políticas e associativas… Como enxergas o caminho andado e como pensas que pode ser a estratégia(s) melhor a seguir?

Acho que em geral se tem feito um muito bom trabalho no sentido de descontrair. O ludo-reintegracionismo, o ridiculismo, o toalhismo, abriram caminhos muito importantes no sentido de iniciar novos hábitos emocionais de comunicação. Eu andei aí metido, da mão do meu super-amigo Suso Samartim. Sempre pensei dele que é o melhor humorista deste país, e devo-lhe algumas das vivências mais divertidas da minha vida. Mas como digo, trata-se de novos âmbitos emocionais, e o riso é só um. Por sorte, o reintegracionismo soubo fazer mais que rir, no sentido de descontrair e conseguir emocionar e seduzir. Isso é magnífico.

Durante alguns anos foste responsável dos blogues da AGAL, colaborador do PGL e até diretor dele um tempo. Que recordas daqueles anos?

Muito trabalho. Foram só uns meses, durante a presidência de Alexandre Banhos, uma época totalmente louca em demasiadas cousas. O meu volume de trabalho no PGL já era demasiado antes, porque era responsável dos blogues, e depois responsável técnico em geral, sendo apenas um amador com bastantes carências. Quando me tocou ser director, pela ausência de Vítor Lourenço, juntou-se-me tal quantidade de tarefas que ainda não sei como não fum engolido por elas. Entre outras cousas, tocou-me dirigir a mudança de plataforma do velho PGL ao PGL semi-velho, mantendo ao mesmo tempo o que havia, e ir respondendo a necessidades técnicas inesperadas. Ainda bem que foi pouco tempo.

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Que tal Lugo para alguém da Arousa. Há coletivo? É um ponto no percorrido ou um destino?

Lugo é o paraíso. Às vezes tenho saudades do mar, mas de resto esta cidade é perfeita. Adoro especialmente a possibilidade real de solidão que oferece. Na costa galega há demasiada gente. A vida dá muitas voltas e nunca se sabe aonde nos leva, mas não tenho nenhuma intenção de sair daqui.

Projetos?

O meu primeiro livro é de 2002, o segundo de 2012. Tenho cousas entre mãos, mas não tenho muita pressa. Afinal, também não há ninguém a esperar…

 


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