AS AULAS NO CINEMA

ERASMO DE ROTERDÃ, A VOZ DO HUMANISMO E DA TOLERÂNCIA

(Documentários vários)



Em 16 de novembro comemora-se em muitos lugares do mundo o “Dia Internacional para a Tolerância”. Um tema de enorme importância no momento atual que estamos a viver no nosso planeta, que é fundamental que em todos os estabelecimentos de ensino dos diferentes níveis, seja tratado e estudado, realizando atividades educativo-didáticas variadas, lúdicas, artísticas, informativas, etc. Para refletir sobre este importante tema, dentro da série dedicada aos grandes vultos da humanidade, escolhi a grande figura de Erasmo de Roterdã (1466-1536), que foi um filósofo, escritor e pensador humanista nascido na Holanda. Com o depoimento que lhe dedico cumpro o número 74 da série que iniciei com Sócrates.

PEQUENA BIOGRAFIA:

erasmo-de-roterda-quadroDesidério Erasmo de Roterdã nasceu na cidade de Roterdã (Holanda), a dia 27 de outubro de 1466. Aos nove anos ingressou na escola religiosa de São Lebuino, em Deventer. Ficou órfão e foi deixado aos cuidados de dous tutores. Estudou no Convento de Bois-le-Duc e em seguida ingressou no convento agostiniano de Steyn, onde escreve suas primeiras obras, Os Antibárbaros e O Desprezo do Mundo. Em 1492 é consagrado sacerdote. Em 1495 segue para Paris. No Colégio de Montaigu, na Sorbonne, estuda para o doutorado em teologia. Desencantado, logo abandona o curso, mas permanece em Paris, onde dá aulas para estudantes. Em 1499, vai para a Inglaterra, onde estuda grego na universidade de Oxford. A amizade com Thomas More facilita seu ingresso nos círculos da aristocracia britânica. Em 1500 publica “Adágios”, uma coleção de citações latinas e provérbios, dirigidos aos desejosos de melhorar o próprio estilo da língua.

Sua vida errante o leva a Paris. Em 1505 retorna à Inglaterra, onde recebe a dispensa papal da obediência aos costumes e estatuto do Convento de Steyn. Em 1506 foi para a Itália, onde se doutorou pela Universidade de Bolonha. Em 1509 segue para Londres. Vai para a casa de Thomas More, escreve Elogio da Loucura, que só foi publicado em Paris, em 1509. A obra é uma sátira, na qual os potentados da época e, sobretudo os homens da igreja, são impiedosamente escapelados pela ironia do humanista e grande escritor. Em 1517 Erasmo deixa definitivamente o hábito da Ordem dos Agostinianos. Nessa época, tem início a Reforma Protestante que dividirá a Europa Cristã. Erasmo não se deixa envolver, permanece como espectador. Erasmo e seus seguidores acreditam numa elite cultural que, pela persuasão, criará junto aos príncipes temporais e espirituais, uma Europa unida e verdadeiramente cristã.

Sempre inquieto e dedicado aos livros, em 1521, vai para a Basileia, na Suíça. Em 1524 cede finalmente aos insistentes apelos da igreja e se pronuncia contra a Reforma. Em 1526 publica Colóquios, sua obra mais importante do ponto de vista teológico, que cumpre a missão de mostrar uma sociedade justa e razoável, cristã e amiga da paz.

Em 1529, quando a Basileia abraça as causas da Reforma, Erasmo refugia-se em Friburgo. Em 1535 retorna a Basileia para supervisionar a publicação de Ecclesiastes, quatro volumes sobre a arte de pregar. Erasmo de Roterdã morreu na Basileia, Suíça, o dia 12 de julho de 1536.

DIA INTERNACIONAL PARA A TOLERÂNCIA:

O Dia Internacional para a Tolerância é comemorado anualmente em 16 de Novembro.

A data tem o objetivo de promover o bem-estar, o progresso e a liberdade de todos os cidadãos, assim como fomentar a tolerância, o respeito, o diálogo e cooperação entre diferentes culturas, religiões, povos e civilizações. Esta comemoração combate qualquer tipo de intolerância e preconceito, seja ele religioso, sexual, econômico ou cultural. Com a globalização, a pluralidade cultural que existe no mundo se tornou ainda mais interligada, exigindo uma maior compreensão das pessoas em respeitar os diferentes modos de viver de cada cidadão. Isso, no entanto, não significa que devemos aceitar as ideias ou doutrinas de todas as sociedades, mas apenas aprender a respeitá-las e conviver com as diferenças.

O Dia Internacional para a Tolerância foi criado em 1996, pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). A ideia surgiu a partir do Ano das Nações Unidas para a Tolerância, em 1995, que foi decidida e programada desde 1993, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO. No Brasil, ainda se comemora o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, data que também possui o significado de conscientizar à população a respeitar as diferenças religiosas que existem no país.

 

FICHAS TÉCNICAS DOS DOCUMENTÁRIOS:

  1. Vida, obra e vicissitudes de Erasmo de Roterdã.

     Duração: 21 minutos.

 

  1. Erasmo de Roterdão: O grande humanista do Renascimento.

Duração: 23 minutos.

https://www.youtube.com/watch?v=bl0nlweFR5g

  1. Erasmo de Roterdão: Filosofia Educatina.

     Duração: 6 minutos.

 

  1. Erasmo de Roterdã: Elogio da Loucura.

     Duração: 42 minutos.

 

  1. Erasmo de Roterdã. História (UADE).

Duração: 12 minutos.

 

  1. Erasmo de Roterdã.

Duração: 8 minutos.

 

  1. Aforismos de Erasmo de Roterdã.

Duração: 11 minutos.

 

 

O SIGNIFICADO DE ERASMO:

erasmo-de-roterda-quadro-2Em outubro de 2008, o brasileiro Márcio Ferrari escreveu um depoimento sobre Erasmo que, pelo seu interesse, temos a bem reproduzir.

O holandês Desidério Erasmo anunciou o fim da predominância religiosa na educação, defendeu a importância da leitura dos clássicos e o desenvolvimento do homem em todo o seu potencial. Embora fosse clérigo e profundamente cristão, este filósofo holandês passou para a história por se opor ao domínio da Igreja sobre a educação, a cultura e a ciência. A influência religiosa vigorou praticamente sem contestação durante toda a Idade Média no Ocidente e ainda no tempo de Erasmo era preciso ousadia para ir contra ela. De qualquer modo, ousadia individual fazia parte das atitudes que um número crescente de intelectuais começava a enaltecer no período de transição para a Idade Moderna, entre eles Erasmo. O pensamento nascente defendia a liberação da criatividade e da vontade do ser humano, em oposição ao pensamento escolástico, segundo o qual todas as questões terrenas deviam subordinar-se à religião.

O antropocentrismo – o predomínio do humano sobre o transcendente – era o eixo dessa nova filosofia, que seria posteriormente conhecida sob o nome de humanismo. A palavra deriva da expressão latina studia humanitatis, que se referia ao aprendizado, nas universidades, de poética, retórica, história, ética e filosofia, entre outras disciplinas. Elas eram conhecidas como artes liberais, porque se acreditava que dariam ao ser humano instrumentos para exercer sua liberdade pessoal.

Erasmo teve uma grande influência continental. A mais típica cultura humanista se desenvolveu nas cidades do norte da Itália, mas o mesmo espírito irradiou-se por toda a Europa. Entre os não-italianos, Erasmo foi o representante mais influente dessa corrente de pensamento. “Ele era o intelectual mais respeitado e prestigiado de seu tempo e sempre esteve ligado aos círculos de poder europeus”, diz Cézar de Alencar Arnaut de Toledo, professor da Universidade Estadual de Maringá. A fonte original de todo humanismo foi a literatura clássica. A época era de redescoberta e reinterpretação da produção cultural da antiguidade greco-romana. O interesse por esse período da história foi acompanhado por uma série de mudanças profundas na vida europeia: a revitalização das cidades, a formação de redes de comércio entre centros distantes, a consolidação de uma classe mercantil muito abastada, a criação de bancos e a centralização do poder político em torno de cidades ou de reinos. Tudo isso ocasionou a abertura de brechas na autoridade da Igreja, antes onipresente. Por razões evidentes, esse período histórico de grandes transições ficou conhecido como Renascimento, dando origem a uma produção cultural das mais ricas e fecundas de todos os tempos.

Erasmo se inseria no panorama cultural como um símbolo da nova era. Num tempo em que os papas insuflavam guerras e acumulavam fortunas e o clero dava fartas mostras de ostentação, hipocrisia e arrogância, Erasmo pregou a volta aos valores cristãos originais, a começar pela paz. Sua obra mais célebre, O Elogio da Loucura, é uma sátira à inversão de valores que detectava na sociedade de seu tempo. A moralidade estava no centro das preocupações do filósofo e deveria, de acordo com ele, ser a fonte e o objetivo final da educação.

 

A SUA VISÃO DA EDUCAÇÃO:

Acreditava muito no logro da perfeição por meio do conhecimento. Criticava as escolas de seu tempo, em geral administradas por clérigos que baseavam sua pedagogia em manuais imutáveis, repetições de conceitos e princípios de disciplina com traços de sadismo. O filósofo via nos livros um imenso tesouro cultural, que deveria constituir a base do ensino. “Para Erasmo, a linguagem era o começo de toda boa educação, já que é sinal da razão humana”, afirma Cézar de Toledo. Não se trata apenas de alfabetização e leitura, mas de interpretar os textos criticamente, prática que os humanistas e reformadores religiosos introduziram na história da pedagogia. Erasmo acreditava que um bom aprendizado das artes liberais até os 18 anos prepararia o jovem para entender qualquer cousa com facilidade. Como todo humanista, o pensador holandês defendia a possibilidade de chegar à perfeição por via do conhecimento. “Erasmo prenuncia novos rumos para a pedagogia ao deter um olhar mais acurado na infância”, diz Toledo. Para o filósofo, ao ensinar era necessário levar em conta a pouca idade da criança – e por isso cercá-la de cuidados específicos – e também a índole de cada uma. O programa pedagógico do pensador era generoso, mas de modo algum democrático. Segundo ele, apenas a instrução religiosa deveria ser para todos, enquanto os estudos das artes liberais estariam restritos aos filhos da elite, que futuramente teriam cargos decisórios.

Segundo ele a História deve estar no centro do saber. As suas críticas de ao clero, assim como seu interesse pelos estudos da linguagem, o aproximaram de Martinho Lutero (1483-1546), o monge alemão que deu origem ao protestantismo. Mas o filósofo holandês combatia a ideia de predestinação de Lutero por acreditar firmemente no livre-arbítrio dos seres humanos – todos são capazes de distinguir o bem e o mal, segundo ele. Além disso, sempre pregou o diálogo entre as facções discordantes no interior do cristianismo.
No campo propriamente pedagógico, o interesse de Erasmo pelo conhecimento das línguas antigas semeou o terreno para o estudo do passado, em particular do Novo Testamento e dos primeiros pensadores da fé cristã. Erasmo recuperou a noção de que um dos objetivos do ensino é levar às novas gerações o patrimônio da cultura humana contido nos livros. A ênfase na história do homem e o estudo dos acontecimentos pretéritos ergueram um dos principais pilares da educação moderna. A cultura medieval, ao contrário, se construíra em torno do ideal de intemporalidade.
A então recente invenção da impressora de tipos móveis, pelo alemão Johannes Gutenberg, entusiasmava Erasmo com a promessa de ampla circulação de textos da literatura clássica. Ele via o conhecimento dos livros como alternativa saudável à educação religiosa que recebera. Segundo Erasmo, o ensino que havia conhecido “tentava ensinar humildade destruindo o espírito das crianças”. Outros valores renascentistas, como a exaltação da beleza e do prazer, se encontravam em profusão nos clássicos greco-romanos. Para Erasmo, esses princípios eram mais interessantes do que as abstrações da filosofia escolástica. Além disso, dizia ele, o prazer físico e o bom humor não conflitam com o cristianismo. Apesar da notoriedade de que desfrutou em vida, Erasmo foi desprezado pelas gerações seguintes. Suas ideias seriam retomadas cerca de um século depois pelo educador tcheco João Comênio (1592-1670), considerado o pai da didática moderna.

Para ele a Arte era como Filosofia. O cultivo simultâneo do corpo e do espírito; a procura da harmonia e do equilíbrio; o elogio da vida ativa; a busca do realismo, em todas as dimensões (incluindo as negativas e abjetas); e o surgimento do conceito de dignidade do ser humano. Todos esses pilares humanistas, aliados aos investimentos materiais de comerciantes e nobres, deram às artes – mais especificamente à literatura e às artes plásticas – o ponto de convergência dos interesses do humanismo. A filosofia e a ciência ficaram, até certo ponto, em segundo plano, porque a obra artística passou a ser considerada manifestação filosófica. Em particular na Itália, a pintura e a escultura atingiram a perfeição pelas mãos de artistas como Sandro Botticelli, Rafael, Leonardo da Vinci e Michelangelo.

AS FRASES FAMOSAS DE ERASMO:

Apresento uma escolma das suas frases mais significativas:

-“A pior das loucuras é, sem dúvida, pretender ser sensato num mundo de doidos”.

  -“O amor recíproco entre quem aprende e quem ensina é o primeiro e mais importante degrau para se chegar ao conhecimento”.

  -“Rir de tudo é cousa dos tontos, mas não rir de nada é cousa dos estúpidos”.

  -“Segundo a definição dos estoicos, a sabedoria consiste em ter a razão por guia; a loucura, pelo contrário, consiste em obedecer às paixões; mas para que a vida dos homens não seja triste e aborrecida Júpiter deu-lhe mais paixão que razão”.

  -“Não merece o doce quem não experimentou o amargo”.

  -“Nenhum animal é mais calamitoso do que o homem, pela simples razão de que todos se contentam com os limites da sua natureza, ao passo apenas o homem se obstina em ultrapassar os limites da sua”.

  -“Deve respeitar-se o casamento enquanto é um purgatório, e dissolvê-lo quando se tornar num inferno”.

  -“Os maiores males infiltram-se na vida dos homens sob a ilusória aparência do bem”.

-“Aquele que conhece a arte de viver consigo próprio ignora o aborrecimento”.

  -“Deus, arquiteto do universo, proibiu o homem de provar os frutos da árvore da ciência, como se a ciência fosse um veneno para a felicidade”.

  -“É muito mais honesto estar nu do que usar roupas transparentes”.

  -“Pode querer bem aos outros quem não quer bem a si mesmo?”.

  -“Não há prazer em possuir algo sem companhia”.

  -“A primeira fase do saber é amar os nossos professores”.

  -“Se colocares numa parte da balança as vantagens e na outra as desvantagens, perceberás que uma paz injusta é muito melhor do que uma guerra justa”.

-“Os males que não são percebidos são os mais perigosos”.

-“Para ganhar é preciso gastar”.

  -“Quanto maior é a sua sabedoria mais os homens se afastam da felicidade”.

-“O melhor modo de venerar os santos é imitá-los”.

  -“Um mal não é um mal para quem não o sente; que te importa se todos te vaiam se tu mesmo te aplaudes?”.

  -“Mas, na minha opinião, o homem é tanto mais feliz quanto mais numerosas são as suas modalidades de loucura”.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:

Vemos os documentários e filmes citados antes, e depois desenvolvemos um Cinema-fórum, para analisar a forma (linguagem fílmica) e o fundo (conteúdos e mensagem) dos mesmos, assim como os seus conteúdos.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Erasmo de Roterdã, a sua obra, as suas ideias, o seu pensamento e o seu importante labor como humanista de categoria mundial, incidindo nas influências que tiveram as suas ideias em muitos pensadores da época e posteriores. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias. A citada amostra incluirá também uma secção especial dedicada a comemorar a “Dia Internacional para a Tolerância”.

Podemos organizar no nosso estabelecimento de ensino um Livro-fórum, lendo antes todos, estudantes e docentes, o livro escrito por Erasmo em 1509, publicado em 2000 pela editora Martins Fontes de Brasil sob o título de Elogio da Loucura.

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

Latest posts by José Paz Rodrigues (see all)


PUBLICIDADE