Manuel González Prieto: “Na vila as crianças nom empregam o galego, as adolescentes tampouco. Os avôs, avós, pais e maes sim. É umha mágoa, mas é a realidade”



No alto do Malvís

No alto do Malvis

Manuel González Prieto nasceu em Compostela há 31 anos onde viveu boa parte da sua infância e juventude. Atualmente trabalha como guia e gestor na Casa-Museu Emilia Pardo Bazán, na Crunha.

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O meu interesse por te entrevistar está relacionado com o teu ativismo linguístico no Berzo mas és picheleiro.

A minha família materna é berciana. A minha avó é natural de Toural dos Vaus, vila na qual a língua galega está muito viva. Somos da família Regueiro, um apelido bem galego. A minha tia está a investigar sobre a sua história e há interferências entre Regueiros e Regueros, “nós somos Regueiro”.

Também som neto de Nilo Prieto, quem regeu várias boticas no Berzo, umha delas numha rua muito central de Ponferrada. A minha mae, as minhas tias e tios nascêrom e vivêrom em Ponferrada. Nesta altura a minha tia é boticária em Ponferrada e a minha mae em Vila Franca onde mora desde há vinte anos. A família Prieto está estreitamente vinculada com as “boticas”, que nom farmácias.

Além disso, vivim na vila vários anos e vou com muita frequência já que a casa da minha mae é também a minha. Aló tenho muito boas amizades e grande parte da minha família materna.

Na aldea de Paraxís

Na aldeia de Paraxis

Entom, como é que nasces em Compostela e te comprometes com a língua?

A minha mae foi estudar farmácia, conheceu o meu pai que é maçaricao e monolingue em galego desde que nasceu, e assim cheguei eu ao mundo. Ele é filólogo e está muito sensibilizado com a língua como também desde muito nova a minha mae. Os dous fôrom quem de me trasladar o agarimo pola cultura e língua. A propósito, tenho umha irmá mais velha que também é filóloga, acho que isso ajuda. Na minha casa sempre empregamos o galego de forma habitual e natural, e evidentemente também defendemos o seu uso em todas as esferas da vida, pública e privada, desde a normalidade.

De rapaz deslocaste de Compostela a Vila Franca. Como mudou a tua relaçom com o galego?

Tivem a sorte de criar-me em galego, lendo contos e sonhando em galego. Um dos meus grandes tesouros é a minha biblioteca infantil. Lembrades a coleçom Os contos da media luniña? A minha mae conta que me leu todos os relatos umha cheia de vezes; mesmo este ano, na véspera do primeiro de maio, interpretamos nas ruas da vila Na corte do Rei Bieito. Ela sempre repetia que tinha umha dívida pendente com esse conto por tantas vezes que mo lera, agora saldada.

No seio da minha família, língua, cultura e identidade sempre fôrom de maos dadas. Tampouco quero esquecer que fago parte da geraçom do Xabarín Club que saiu um bocado rabuda. Ao Berzo chega a TVG mas nom a todas as aldeias, umha das nossas reivindicações. Aló também se vê muito o programa Luar. Este ano as vizinhas e vizinhos da vila fôrom convidadas a um programa, falárom com Galhoso e entendêrom-se perfeitamente. Os dias a seguir nom se falou doutra cousa.

Nos anos que vivim em Vila Franca perdim contacto com o galego no liceu porque daquela nom havia possibilidade de falá-lo e estudá-lo. Polo contrário mantivem-no noutros contextos da minha vida cotiá, com a nom pouca vizinhança que o emprega e na minha casa onde continuei a falar. Também nas frequentes visitas ao meu pai e a minha irmá em Compostela.

Com os anos fum consciente da falta de proteçom por parte das administrações públicas. Várias vezes incumprírom os escassos compromissos lingüísticos acordados no Berzo. Aliás, percebim e ainda percebo a pouca capacidade de resposta que temos quando acontece.

Participo da cultura berciana como mais um, tenho a sorte e o privilegio de ser aceite na vila coma um vizinho qualquer e emprego o galego com normalidade. Acho que estas questões explicam o meu dever moral de defender a língua e somar porque toda ajuda é pouca.

Do ponto de vista político, que nom geográfico, acho a Comunidade Autónoma Galega ser periferia da periferia, o Berzo dentro de Castela e Leom é três vezes periferia? Existe algumha possibilidade de mudança?

O encerramento das minas e da industria em geral, o esquecimento do monte como fonte de recursos, a queda dos preços dos legumes, frutas e produtos da terra,… som causas que motivárom o progressivo abandono do rural, provocando o crescente desinteresse político quando deveria ser ao contrário: umha terra rica em recursos jamais pode ser esquecida. A gente mais nova partiu para se formar mas nom retornou e na altura estamos a viver umha nova vaga de emigraçom.

E qual ou quais seriam as melhores opções de organizaçom política da Comarca?

A organizaçom política está em maos do povo e defendo a ideia de ser o povo quem impulse as suas próprias fórmulas porque neste caso, o governo leonês é causa e consequência do empobrecimento, estou certo, e nom será ele quem mudar o rumo.

Impulsar projetos e fórmulas cooperativas e revitalizar o Conselho Comarcal, em que participam alcaides e alcaidessas bercianas, podem ser grandes passos que marquem um novo caminho para o povo voltar a ser quem mais ordene. Pensar mais aló nesta altura seria utópico porém, nom me impede sonhar com a quinta província galega.

Interessa-me que nos contes mais sobre a saúde da língua. Quem a fala e qual é a sua presença nas Administrações, no sistema educativo, nos comércios, atividades desportivas e culturais, transporte público, etc.

Corulhom, Hornixa, Barjas e outras muitas aldeias empregam o galego de forma habitual e mesmo hai-nas monolingües como a primeira. É só entrardes no bar da aldeia para o comprovardes.

Os alcaides de Corulhom, Carucedo e Val-Boa, por citar alguns concelhos, utilizam o galego e defendem-no. O de Vila Franca fala galego comigo e na rua com a vizinhança que também o fala mas nom o usa nas intervenções públicas. Outras alcaidessas e alcaides apesar de nom o falarem entendem-no. O Conselho Comarcal é sensível com a língua embora os responsáveis nom a falem.

Os membros de instituições culturais de referência como o Instituto de Estudos Bercianos nom o empregam de forma habitual. No entanto, eu som sócio e lim artigos em galego. Mesmo há umha ediçom fac-similar dos Ensaios poéticos en dialecto berciano, escrito em galego no ano 1861. Com a presidenta falo galego com normalidade mas ela fai-no em castelám e com a vice-presidenta as conversas som em galego.

Temos festas em que o galego está presente. Há escritores senlheiros nascidos e vividos no Berzo que também empregárom e defendêrom a língua, como é o caso do frade Sarmento, Antonio Fernández Morales ou Ramón González Alegre, diretor da Revista Alba, tam importante para a história das nossas letras. Nas ruas fala-se e noutros espaços de quando em vez também se utiliza.

E qual é a presença da língua entre a vizinhança de Vila Franca?

A cabeleireira e o carniceiro falam galego. Eu merco a roupa numha loja em que as vendedoras também o utilizam. Nalguns bares se falares galego responderám em galego e noutros nom, mas percebem. Há conversas na nossa língua a cotio, mesmo convido a procurardes Oliva, umha senhora reformada e vizinha da aldeia de Mosteirós que vende ovos de quando em vez na feira. Sabe unha cheia de histórias e coplas, e sempre recita a viva voz “em Mosteirós, nom entra carro nem Dios”.

Há quem emprega o galego só com quem tem costume e se lhe falar alguém de fora, responde em castelám. Porém, se fordes à feira das quintas escutaredes galego e nom outra cousa. A vendedora de plantas, verduras e sementes diante da botica da minha mae, fala galego. Na botica também, mesmo por vezes há discussões sobre política, futebol ou o que for em que participa a vizinhança da vila em galego ou som bilingües. Há treinadores do Esparta vila-franquino, a equipa de futebol, que falam galego, sei-no bem porque joguei nele e quando vou a vila acostumo baixar ao Campo da Ruquela e ver algum jogo, e nas bancadas também se escuta.

Boa parte das minhas amizades nom o falam mas utilizam estruturas lingüísticas e palavras galegas de forma habitual e natural. “Cavorco” é unha palavra que me fascina e está em boca de todas. Mesmo as pessoas que rejeitam a língua, empregam estruturas e palavras galegas a esgalha. A situaçom assemelha a da Galiza, nom difere muito. Isto é Galiza, quem o nega?

E ainda fica rapaziada galego-falante na vila ou é que a língua já nom é transmitida de maes e pais para as crianças?

Na vila as crianças nom empregam o galego, as adolescentes tampouco. Os avôs, avós, pais e maes sim. É umha mágoa, mas é a realidade.

Nas aldeias próximas a vila usam-no. É curioso que adolescentes que empregam o galego nas suas aldeias nom o fagam em Vila Franca ou em Ponferrada com as suas amizades, o galego nom está nos pubs e discotecas.

Voltando ao conjunto, como valorizas a situaçom atual do galego no Berzo?

Todas e todos somos conscientes de o Berzo ser umha zona limítrofe e como tal, há umha forte presença do castelám, mas também do galego.

Nom gosto de retrocedermos nos escassos passos dados. Estamos a viver umha situaçom de S.O.S. e apesar de pedirmos ajuda em varias ocasiões quase ninguém respondeu.

Na tumba de Fernández e Morales

Na tumba de Fernández e Morales

Quem nom está a responder? As administrações, as instituições, os coletivos ou algumhas pessoas?

Todas somos culpáveis. O galego festeja-se todos e cada um dos dias do ano. Eu aposto polas políticas públicas e a assunçom de responsabilidades, e nom só polos atos folcloristas e testemunhais. Com o motivo do Día do Galego no Berzo (9 de março) celebra-se na vila com caráter anual as Xornadas Martín Sarmiento. Durante a manhá o estudantado goza de atividades culturais na nossa língua, este ano coa companhia da música do grupo Tic-Tac. Pola tarde as adultas organizamo-nos em mesas de trabalho com o objetivo de analisar a situaçom do galego no ensino, administrações públicas, jornalismo, literatura e cultura em geral, e promover atividades para a promoçom do galego no Berzo. Este ano preparei umha achega sobre “Comunicación e medios de comunicación” que partilhei nas Xornadas. Convido a lerdes a seguinte achega no blogue do grupo As Médulas para a Lingua e Cultura galegas do Bierzo para conhecerdes um pouco mais. Também participei na mesa de Cultura na que nos comprometemos a organizar o ano próximo unha atividade arredor do poema “O Entröido”, de Antonio Fernández Morales, escritor berciano. Noutra mesa os alcaides de Vila Franca, Corulhom, Carucedo e Val-boa junto com responsáveis do Conselho Comarcal comprometêrom-se a apoiar e dinamizar o galego, tanto no uso cotiá como na promoçom de atividades dinamizadoras. Na mesa de Ensino participárom responsáveis das administrações públicas galega e leonesa, com a presença de Valentín García, responsável de Política Lingüística da Junta da Galiza, professorado de galego nos centros de ensino bercianos e mesmo Francisco Fernández Rei como observador convidado, por parte da Real Academia Galega.

Qual é a minha valoraçom pessoal respeito das Xornadas? Muito boas intenções mas nenhum compromisso concreto, quer dizer, nom há propostas encaminhadas a resolverem a situaçom de S.O.S. que está a viver o galego nos centros de ensino bercianos.

Quais som as tuas propostas?

Eu entendo que a língua nom entra com sangue mas com a normalidade. Nom se trata de impô-la mas de achegá-la e agarimá-la, senti-la parte de nós e do nosso caráter e entendermos que é umha grande sorte gozarmos dela amais de sermos conscientes de que abre muitas portas já que som milhões de pessoas a empregá-la. Seguir esse caminho é a minha proposta pessoal.

E no ensino?

Ai a cousa muda. Compre botarmos a vista atrás:

  • Ano 2001. Assina-se o Acordo de Cooperación para a promoción do idioma galego no Bierzo, entre a Junta da Galiza e a Junta de Castela e Leom. Permite que colégios e liceus cursem a matéria de língua galega que nom se limita exclusivamente ao ensino do idioma mas que aborda aspetos culturais e históricos. Mais de 12 colégios de infantil e primária e quatro liceus situados em Ponferrada, Vila Franca e Cacabelos. Houvo problemas com o liceu da Veiga do Val Cárcere mas também aló havemos conseguir o seu ensino. O resultado foi um crescimento anual do número de matrículas.
  • Curso académico 2002-2003. Enceta a oferta de galego na EOI de Ponferrada.
  • Ano 2007. Um pacto entre a Junta de Castela e Leom e a Junta da Galiza fai possível o alunado cursar umha via de estudo em galego no bacharelato, nos quatro centros educativos mencionados.  Esta via permite a obtençom do CELGA III e possibilita aos possuidores e possuidoras acederem aos concursos públicos ofertados pola administraçom na Galiza.
Recitando e falando do Bierzo en Órreos. Caurel

Recitando e falando do Berzo en Órreos

Daqui por diante tudo forom más novas e a pior de todas recebêmo-la no passado 2015 através desta nociva circular: “A Conselharia de Educaçom da Junta de Castela e Leom deixa fora do currículo de bacharelato a matéria de Língua e Cultura Galegas. Segundo a nova ordem educativa do dia 4 de maio de 2015 será considerada matéria de livre configuraçom autonómica e ministrada em horário nom letivo. O alunado que a escolher terá mais três horas em primeiro de bacharelato e 4 horas mais em segundo de bacharelato.”

Neste 2016 recolhemos os primeiros frutos: um só aluno no primeiro curso de bacharelato no liceu da minha vila. Dani, o aluno, explicou muito bem a sua situaçom numha entrevista publicada no web da Associaçom de Estudos Galegos.

Parece-me umha vergonha e um desleixo. Espero enganar-me mas daqui a pouco se nom houver nada que frear isto, o galego desaparecerá dos liceus porque é impossível garantir a sua presença nestas condições. A minha proposta é derrogar a LOMCE.

-No Berzo, há duas línguas autóctones. Achas o povo berciano ser consciente desta riqueza e do seu perigo de desapariçom mesmo próxima no caso do asturo-leonês?

O povo berciano é consciente da sua situaçom lingüística como o é da dura situaçom que está a viver em geral. O seu caráter próprio e a sua localizaçom geográfica neste complexo sistema político nom o ajudam. É muito complicado reverter o panorama quando as administrações decisórias ficam tam longe, escutam tam pouco e se o fam já é tarde demais.

Estamo-nos a informar, a falar entre nós e a tomar consciência, valorando os avanços e retrocessos e estou convencido de a gente que quer galego e abre portas para as suas crianças terão mais cultura e mais oportunidades. A conscienciaçom será o motivo principal polo que o galego nom desaparecerá desta terra, estou certo.

Há colaboraçom entre os coletivos que as tentam revitalizar?

A realidade é que há pouca gente ativa trabalhando em coletivo de forma organizada mas isso tem de mudar. Estamos a procurar somar mais forças e há muitas formas de colaborar. Nom é fácil mas nisto andamos.

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Vestido de Maio

O Conselho Comarcal está a fazer algumha cousa para reverter a situaçom?

A predisposiçom é favorável e as dinâmicas positivas, cumpre ter um pouco de paciência.

O Grupo As Médulas para a Língua e Cultura Galegas do que fás parte é o último coletivo nascido do ativismo linguístico e cultural berciano. Por quanta gente é formado e quais os seus objetivos e necessidades?

O Grupo tem pouco tempo de vida mas é plural, diverso, aberto à participaçom de todas e todos e nom partidista. No fio de correio eletrónico estamos por volta de 15 pessoas. Os grandes objetivos som juntarmos forças em prol da dignificaçom do caráter berciano e defendermos a língua galega na dura situaçom que está a viver.

E ultimamente a que andades?

Há três semanas acabamos com a divulgaçom através do blogue e das redes sociais dos trabalhos recolhidos da atividade “Os poemas de Antonio Fernández e Morales. Creación libre”, que consistiu na criaçom dum relato, poema, texto jornalístico, pintura, escultura, fotografia, cartaz ou vídeo a partir de versos dos poemas selecionados do autor com a finalidade de espalhar e divulgar a sua obra a través da criaçom livre. A acolhida foi fantástica e recebemos um total de 16 achegas. Agora estamos a matinar sobre o que fazer com os trabalhos porque temos que procurar a maneira de achegá-los aos colégios, liceus e bibliotecas ou organizarmos algum tipo de atividade como por exemplo unha exposiçom.

Há pouco enviamos umha proposta ao Plenário da RAG para considerarem a possibilidade de reconhecerem o labor do escritor Antonio Fernández Morales no Día das Letras Galegas do próximo ano com o motivo do seu bicentenário. Procuramos assinaturas de apoio que fôrom enviadas com a proposta. Se saísse eleito teria sido um gigante passo à frente para fazer visível a situaçom dramática que está a travessar o galego no Berzo e daria-nos voz pública e azos no caminho mas nom foi. Mais umha vez ficamos sem apoio institucional algum.

Para finalizar, como se pode colaborar convosco?

Maios 2015

Maios 2015

Existem muitas maneiras e o Grupo está sempre aberto a novas propostas. Temos um blogue informativo, um correio eletrónico de contato e muitas colaboradoras e colaboradores que nom estando no fio participam do grupo achegando trabalhos, opinando, lendo, perguntando e preocupando-se polo tema. Convido-vos a fazerdes o mesmo.

 

Mais informaçom:




 


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  • jot

    Que boa entrevista e que força trasmite este homem. Para o Berço, opino, a palavra chave é auto-organização. A via institucional não tem porque ser deixada de lado, mas há que reconhecê-la como o que é: o problema. As instituições, e mais no Berço, são desgaleguizadoras. Não é só a ausênciando Galego, mas a obrigatoriedade do castelhano.