Ecos na África do Sul



À partida, uma viagem à África do Sul pode parecer pouco ligada à temática deste blogue. Nada mais longe disso.

Quero fazer neste artigo um pequeno diário daqueles ecos galego-portugueses que encontrei no caminho.

As navegações

Alguma coisa comentei no post que anunciava esta viagem, mas agora relatarei a história tintim por tintim. A modo de resumo de sensações posso dizer que fazer este percurso foi como vivenciar os Lusíadas.

Em 1488 Bartolomeu Dias foi à costa da África do Sul na procura de uma nova rota para as Índias. Na altura o caminho marítimo tinha sido monopolizado pelos turcos e havia que procurar alternativas para arranjar especiarias e artigos de luxo. Bartolomeu Dias dobrou o temido Cabo das Tormentas e rebatizou-o como Cabo de Boa Esperança dada a sua vitória.

Contudo, Dias não completou o percurso até à Índia por problemas com a tripulação, foi mais tarde Vasco da Gama quem chegou até lá com os ensinamentos do anterior almirante. Mas Dias desenhou o mapa dos grandes cabos, entre eles o Cabo das Agulhas, assim chamado porque no cabo é nula a declinação magnética da bússola. Hoje conserva-se este nome para o cabo e também para a localidade de L’Agulhas.

A 16 de dezembro de 1497, a frota de Da Gama já tinha ultrapassado o ponto de onde Bartolomeu Dias tinha retornado anteriormente e navegou em águas até então desconhecidas para os europeus. No dia 25, Gama e sua tripulação batizaram a costa em que navegavam com o nome de Natal por coincidir com a festividade. O nome ainda é conservado, de facto é assim chamada a costa e a província de KwaZulu-Natal (de KwaZulu “terra dos Zulu” e “Natal”)

Nesta mesma província existe uma localidade chamada St Lúcia. Este lugar foi primeiro chamado Río dos Médãos do Ouro em 1554 pelos sobreviventes do navio português São Bento. Mais tarde em 1575, no dia da festa de Santa Lúcia, Manuel Peresterello, navegador, cartógrafo e sobrevivente do naufrágio rebatizou esta terra com o nome atual.

Estas grandes navegações são recordadas com padrões por toda a costa dos cabos.

Falemos então de mais nomes de lugares.

A Baía de Saldanha (Saldanha Bay) é um porto natural na costa sul-ocidental, situada a noroeste da Cidade do Cabo. A cidade que se desenvolveu ao redor da baía, é também chamada de Saldanha atualmente. O nome deve-se ao capitão António de Saldanha, que visitou a região em 1503, sendo o primeiro europeu em atingir a Baía da Mesa, hoje chamada Table Bay.

Finalmente, o mercador holandês Jan van Riebeeck estabeleceu um posto de reabastecimento em 1652, que mais tarde evoluiu para se tornar na Cidade do Cabo, Cape Town ou como muitos e muitas galeguizamos: Capetom. Vendo tanta beleza, não admira que os marinheiros galegos fossem os autênticos reis das anedotas nas tascas. Está na hora de eu ler este livro do Xurxo Souto.

Fernando Pessoa

As apresentações são escusadas. O criador dos heterónimos partiu em 1896 para Durban, porque a mãe casou com um cônsul e lá passou grande parte da infância e juventude. Foi nessa cidade onde se escolarizou recebendo uma educação britânica e onde criou o seu primeiro pseudónimo, Alexander Search, que usava para enviar-se cartas a si próprio.

No ano de 1901, é aprovado com distinção no primeiro exame Cape School High Examination e escreve os primeiros poemas em inglês. Em 1903, candidata-se à Universidade do Cabo da Boa Esperança. Na prova de exame de admissão, não obtém boa classificação, mas tira a melhor nota entre os 899 candidatos no ensaio de estilo inglês. Recebe por isso o Queen Victoria Memorial Prize.

É para mim curioso, depois desta viagem, ver que na obra de Fernando Pessoa em português não há quase qualquer referência a estes primeiros anos. Gostava muito de saber qual seria a sua visão das coisas na época.

Depois da sua morte, em 1987 foi erigida uma estátua comemorativa na esquina de Pine com Gardiner em Durban. A estátua foi desfigurada em 2015 após o acalorado debate em torno dos símbolos da era do apartheid e da época colonial que foi motivado pela campanha “Rhodes Must Fall”.

Vida e caffè

Não quero ser gaja-propaganda, mas não há outra hipótese: tenho mesmo que falar-vos do Vida é caffè.

“Inspired by the street cafés of Portugal, infused with the vivacious energy of the people of Africa, and blended together in a place that inspires the soul, we infuse passion in everything we do, especially our coffee. That little kick that shouts ‘Olá!’. That’s passion. Can you taste it?”

O conceito do bar é aquele dos cafés de Portugal e a marca tem o país, a língua e os azulejos como inspiração. A ementa costuma estar escrita num misto entre inglês e português bastante engraçado. Isto foi para mim um achado.

As zebras e…

Ok, confesso, a minha viagem não foi dessas de “wild África”. Não vi zebra nenhuma. Mas não por isso vou dizer que a minha experiência na África “deu zebra” (na gíria brasileira) por não ter visto este animal. Vi mesmo muitos animais inesperados e, sobretudo, livres, que era para mim o mais importante.

Já falei disto noutro post, mas quero mesmo recordar esta etimologia porque acho que é um traço que une a Galiza com a África e muitas pessoas não o sabem. Uma das -não sei se dizer- queixas que eu sempre expunha na minha viagem era que depois de ver a fauna africana, a fauna europeia parece-me bem aborrecida. Isto é, pouco variada em animais grandes e selvagens. Recordei então este antigo post meu. Não é bem que a nossa fauna seja aborrecida, é que nós exterminamos tudo de divertido.

Não sei se sabem que na Galiza existiu um animal equino chamado  “zebro” que viveu connosco até ao século XVI. Hoje está extinto, mas deu origem a vários topónimos, como por exemplo “Zebreiro” (sim, Cebreiro, deveria então ser escrito com z-).
Na época dos descobrimentos ao encontrarem a zebra que hoje conhecemos deram-lhe o nome do animal mais parecido com ela que sabiam, isto é, o zebro.

Além disso, o português também contribuiu para o património linguístico da África do Sul, com palavras como commando e picaninn (da palavra pequenino, que significa pouco).

 

 

Diz um provérbio africano que ser feliz é melhor do que ser rei. Eu fui feliz e rainha.

 

* Uma versão deste texto foi publicado no Blogue Lusopatia em

Carme Saborido

Carme Saborido

Carme Saborido é uma ativista sociocultural e professora. Nasceu em Padrom em 1982 e licenciou-se em Filologia Galega na USC. Atualmente frequenta o grau de Língua e Literaturas Modernas na mesma universidade.

O seu blogue, Lusopatia , quer ser uma janela aberta ao mundo que permita ver os vastos horizontes e dinamismo da nossa comunidade linguística.
Carme Saborido

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  • José Ramom Pichel

    Muito bom Artigo Carme! Muito boa viagem

  • Jlvalinha Jlvalinha

    Os zebros eram também riscados como as zebras? Há desenhos deles?