DUARTE



Numha carta da correspondência privada de Emma Goldman, veterana anarquista confessava-lhe a um companheiro: “Muitas vezes penso que nós, os revolucionários, somos como o sistema capitalista. Tiramos dos homens o melhor que tenhem, e depois ficamos tam tranquilos vendo como rematam os seus dias no abandono e a soidade”.

A notícia da morte do Duarte apanhou-nos precisamente refletindo, intramuros, sobre essas cousas. Sobre o canibalismo do movimento galego. “Espero que alguém se encarregue de fazer-lhe umha lembrança”, foi o primeiro que dixo o Raul de Ribadeu. Mas forom chegando as publicaçons que recebemos no cárcere e nom pudemos ler nem umha soa linha de recordaçom.

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Duarte Abad Loxo (Noia, 1969- Corunha, 2018)

Ainda menos mal que graças à Escola Popular Galega ficou no papel umha conversa com Duarte Abad Loxo (Noia, 1969- Corunha, 2018) que mostra a parte mais vivencial da sua militância no independentismo. Detido e torturado em fevereiro de 1989, com apenas 20 anos Duarte já tinha muita mais experiência que qualquer ciberpolítico dos de agora. Começou em ERGA, no instituto de Elvinha, e continuou na UMG e nas mocidades da INTG para, após a traumâtica jura da Constituiçom espanhola por parte do BNG, volcar-se no PCLN e na luita armada. Dito de outra maneira: “Estatuto nom, autodeterminaçom”; mobilizaçons pola Reforma da Formaçom Profissional; os comités contra a NATO; as graves gerais nacionais contra a reconversom… Mas também as visitas entusiastas ao peirao quando os barcos soviéticos traziam livros que na Corunha nom havia, ou os companheiros que ficaram no caminho pola heroína. “Conste que eu, a dia de hoje,” –dizia- “mantenho que a militância é umha forma de vida, militas todo o dia e toda a noite. Nom é militância só o tempo que dedicas à organizaçom”.

Depois, e como se foram da mao, a queda do socialismo e a do EGPGC. E a tortura. Nom é sintomático que num movimento tam propenso à exageraçom dos pequenos dramas ninguém se atreva a ler o testemunho de Duarte no Informe sobre a tortura? Será que nos coloca perante um espelho demasiado incômodo. No cárcere, por umha parte, o autoritarismo mais cru, e pola outra, a merca sectária de sempre. Ainda que também a universidade da liberdade: os debates com os independentistas bascos e cataláns, com os comunistas italianos e com aquele tenente da FPLP que se formara em Cuba. Ao pouco o PSOE desmantelou tam excelsa instituiçom educativa. Nascia a política da dispersom penitenciária, e nessas continuamos quase três décadas depois. Em 2001, trás doze anos, o Duarte volta a saborear a fruta da liberdade.

Aí começa a outra luita, à sua maneira tam difícil como a anterior. Para ganhar o pam incorpora-se ao proletariado da noite, e quem sabe que dolorosa lucidez propocionará ver o mundo trás o balcom dum pub alternativo… Do realismo sujo da libertaçom nacional ao simulacro em estado puro: a radicalidade como capital erótico nas noites das quintas-feiras, jovens hiperideologizados que olham para o camareiro com desprezo burguês, punhos erguendo copos ao ritmo de hinos partisanos… Espetáculos fellinianos para quem olhou os esgotos do Estado cara a cara.

De cavelo branco e ôculos de pasta antes de estarem na moda, o Duarte também sorria quando lhe pediamos que pugesse o “Azzurro” antes de irmos de colada ou a um piquete. Camareiro de noite, medievalista de dia, trabalhava numha tese de doutoramento sobre o Reino Suevo. Pediramos-lhe que vinhesse falar dela à Casa da Cultura de Ordes, numhas jornadas de História da Galiza. Vinhera muita gente querida, também o sacristám de Xanceda que tantos anos antes sofrera assédio político por enviar-lhe um saudo à cadeia, mas tivera um pequeño acidente de carro por culpa da geada e nom pudera chegar. Quando telefonou, estava muito mais preocupado pola demora que polo acidente. Tics da clandestinidade…

Das celebraçons do nacionalismo só participou, literalmente, servindo os copos. A ele nunca lhe figeram falta garantias nem recompensas para dedicar toda a sua vida à causa do povo trabalhador galego. Movia-se com soltura entre caixas de peixe e Jacques Le Goff, a fregona e os códices. Com humildade socialista. Foi-se o Duarte, o guerrilheiro que também gostava de Adriano Celentano. Que a Terra o abrace com tanto amor como ele lhe deu.

 

Carlos C. Varela

Carlos C. Varela

Carlos Calvo Varela (Ordes, 1988) colaborou e colabora com diveros meios de comunicaçom, entre os quais Novas da Galiza, Praza Pública e o Portal Galego da Língua. Estudante de Antropologia e investigador, tem publicado numerosos artigos em portais web, revistas e livros, além de realizar um reconhecido labor como dinamizador social e cultural em coletivos de Compostela e Ordes.
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