ABBAS CUCANIENSIS

O “dó de peito” ou… é um tenor um capão degolado?



Devido à técnica vocal utilizada até o século XIX, as notas mais agudas escritas para as vozes masculinas costumavam cantar-se com registo de falsetto, técnica de que falámos a respeito de como interpretar hoje os papéis escritos para castrati. O primeiro cantante em dar este dó4 -sem utilizar este recurso- foi o tenor francês Gilbert Duprez (1806-1896), em 1841, numa representação da versão italiana de Guillaume Tell de Rossini. O próprio compositor não deveu gostar muito deste som, pois disse que parecia “um capão degolado”. No entanto, coa passagem dos anos, o falsetto foi ficando reservado apenas para breves fragmentos agudos que precisarem de serem interpretados em piano.do-de-peito

Em realidade, a técnica empregada por Duprez -e polos tenores atuais- para dar essa nota deveria ser chamada “de cabeça” e não “de peito”, mas disso imos falar outro dia. Na altura simplesmente deu-se-lhe simplesmente este nome em oposição ao falsetto.

Por que surge esta técnica no século XIX? Imos ver. O gosto estético tende a mover-se em pêndulo ao longo da história, também da Música. Por exemplo, o Renascimento é uma época caracterizada por equilibradas construções polifónicas, o Barroco pola espetaculosidade das interpretações, o Classicismo outra vez polo equilíbrio e pola proporção… e o público romântico recupera o gosto barroco polo virtuosismo.

Isto na música vocal traduz-se na adoração polas vozes agudas para as que os compositores escrevem passagens cheias de agilidades e de notas impossíveis. Um dos estilos mais caraterísticos da altura é o Bel canto, do qual falámos numa entrada uns meses atrás, ao que pertence Vincenzo Bellini (1801-1835), autor de La fille du regiment, ópera cómica à que nos imos referir a seguir.

Bellini escreveu um total de dez óperas, das quais Norma, I puritani e La sonnambula são as mais representadas. No entanto, é frecuente que se programe La fille du régimento fundamentalmente pola sequência do tenor “Ah, mes amis!… Pour mon âme!” em que o jovem Tonio deve cantar nove dós4. Deixo uma versão de referência do mítico Alfredo Kraus para que localizes esses nove dós e decidas se preferes o som dum tenor ou o dum capão 😉

Texto publicado anteriormente em notas.gal.

Eliseu Mera

Eliseu Mera

(Ourense, 1976) Secretário da AGAL. Cantor lírico e professor de Música do IES de Valga. Acredito firmemente em que a boa música deve ser acessível para todos os públicos, sem exceção. Para este fim, experimento com um blogue:notas.gal
Eliseu Mera

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  • Marcos Saavedra

    Pois olhando a propaganda que lhe fazem, por ejemplo, ao Juan Diego Flórez semelha que o pêndulo está (ou querem que esteja) desse lado outra vez. Que bons estes teus artigos caro Eliseu.

    • http://www.notas.gal Eliseu Mera

      Obrigado, Marcos! Vim uma vez cantar o Juan Diego Flórez ao vivo e adorei. Pareceu-me um cantor “de antes” no bom sentido, isto é, no gosto pola linha de canto, suavidade na emissão, declamação dos textos… Vale a pena.

  • abanhos

    O que se apreende no pgl. Obrigado Eliseu

    • http://www.notas.gal Eliseu Mera

      Obrigado eu polos comentários.