Diego Lamas : “Se tentássemos cuidar a qualidade do nosso galego e se os turistas lusófonos tivessem mais oportunidade de ouvir galego derrubaríamos muitas inibições em ambos os lados”



Diego Lamas é guia de turismo graças ao português e acha devemos construir um futuro propício com os turistas lusófonos. Citadino, passou-se para o galego a partir da sua residência em Compostela e para o lado escuro da norma mercê à dupla formada por Vinícius de Morais e Isaac Alonso Estraviz. Gosta da atitude desenfadada do reintegracionismo atual e acha em falta materiais pedagógicos.

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Diego Lamas é guia turístico. Os turistas provenientes de Portugal e do Brasil são numerosos. Que chama a sua atenção da Galiza? Como é a comunicação com eles?

Normalmente vêm por causa da peregrinação a Santiago. Os portugueses costumam conhecer superficialmente a Galiza. Para os brasileiros é uma surpresa que aliás não sabem bem onde colocar porque não têm referências.

Respeito à comunicação com eles, gostava de comentar que eu sou guia de turismo graças ao português. Quando me habilitei levava toda a vida estudando inglês mas aprovei por português que preparei com o “Método Prático” de Montero Santalha. Num dos apêndices desse livro aprendim as principais diferenças morfológicas. Para o sotaque fazia uma imitação como quem imita o andaluz ou o argentino. Isso foi o mais difícil para mim porque esse sotaque parecia-me ridículo: uma pantomina. Para os grupos portugueses e brasileiros era um sotaque melhorável mas não sentiam que fizesse mofa deles.

Neste sentido animo àqueles que trabalham no turismo a usarem o galego sempre que se puder e sem medo de imitarem a fala deles. Portugueses e brasileiros não são mui exigentes com o idioma e, polo contrário, valorizam muito compreender e ser compreendidos.

Achas que seria possível criar percursos turísticos para lusófonos baseados no facto de a Galiza ser a matriz da língua portuguesa?

Com certeza é possível mas é imprescindível estratégia para fazê-los acreditáveis. Se levantas expectativas muito altas baterão com a realidade. Temos que partir de uma explicação realista da nossa realidade atual.

Numa ocasião, fazendo o caminho com um grupo de brasileiros ficaram emocionados com o galego e até publicaram nas redes algo sobre isso. Após uns dias de caminhada um deles perguntou-me se eu era o único que falava galego na Galiza. Notei polos risos que era algo que tinham falado entre eles. E, tristemente, da única pessoa que tentou falar galego com eles, já perto de Santiago, pensaram que estava a falar em castelhano.

Quis salientar isto porque às vezes nos queixamos de que os lusófonos falarem o castelhano conosco. Eles sabem que não estão em Portugal e existem inibições e até podem ter tido alguma má experiência. A mim tem passado algo parecido estando no Berço. Mesmo os motivados polo galego, se não receberem retro-alimentação positiva, podem acabar por desistir e tentar falar o castelhano.

Estou certo de que se tentássemos cuidar a qualidade do nosso galego e se os turistas lusófonos tivessem mais oportunidade de ouvir galego derrubaríamos muitas inibições em ambos os lados. Temos que construir um futuro propício.

A tua língua materna foi o castelhano, em que momento e por quê deste esse pequeno passo para a humanidade de falar galego?

Não som nada original nisso. Não tenho aldeia e criei-me numa cidade, a Corunha. Até vir estudar o Santiago não achei o ambiente favorecedor para dar o passo. Primeiro falei galego com desconhecidos e finalmente com os familiares e vizinhos de toda a vida.

Na tua primeira interação com o galego, o reintegracionismo te parecia disparatado. Lembras o porquê?

Não conhecia o português. Para mim o galego unicamente era identidade e o discurso dos reintegracionistas com os que batim parecia-me agressivo e absurdo.

Que te provocou a mudança de opinião? Quais foram os teus referentes?

Estou a falar de primeiros de século e não tinha Internet. Queria saber porque havia gente que defendia algo tão disparatado como que o galego e o português eram o mesmo idioma. Procurei livros, atas de congressos, artigos de revistas… mas a mudança foi emocional. Foram pequenas cousas e simplesmente um dia aconteceu.

Lembro o prazer de descobrir a Vinícius de Moraes no disco de “La Fusa”. Gostava dessa música e entendia praticamente tudo.

Também lembro uma palestra de Alonso Estravis. Não sei onde, se estava ele só ou se me interessou do que falou. O que sim sei é que era um senhor normal, nada agressivo, com sentido do humor e um sotaque autêntico.

Quero explicar o do sotaque porque me impactou muito. Tenho uma recordação intensa do primeiro neno a que escuitei falar galego sendo eu quase um moço. Um neno que, para mim, soava como um velho! O falar dos reintegracionistas, polo contrário, soava-me artificial e fingido. Estravis era um senhor que cuidava o vocabulário, sesseava e usava “-çons” e “-veis” e no entanto soava-me a galego dessa aldeia que nunca tivem.

Que achas em falta na estratégia luso-brasileira para a língua? Que está a sobrar?

Não creio que sobre nada. Acho em falta materiais pedagógicos ou práticos. Penso que, com independência da norma ou da língua inicial, um dos grandes problemas do galego é a falta de autoconfiança de muitos falantes. Não se diferenciam facilmente os registos e duvidamos sobre o que é falar bem ou de forma elegante ou de como adaptar a nossa fala a diferentes situações. Carecemos de modelos. E esta insegurança e falta de referentes fai-se especialmente patente ao comunicar com gentes que falam outras variedades da nossa língua.

Que te motivou a te associares à AGAL? Que esperas da associação?

Pôr um grão de areia. Gosto da focagem desenfadada e aberta da orientação atual. Da ideia do jogar não para vencer o outro mas para ganharmos todos.

Espero que o labor da AGAL ajude a que mais gente poda aproveitar as vantagens que oferece o galego. Como comentei, eu sou guia graças ao português e não é a maior das satisfações que me tem dado.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2040?

Nessa altura irei indo para velho. Ouvir mais crianças a falar em galego seria um indicativo de ir no bom caminho.

Conhecendo Diego Lamas:

Um sítio web: wikipédialamas-01

Um invento: a caneta

Uma música: toda

Um livro: “Elogio da Sombra” de Tanizaki

Um facto histórico: o surgimento do lazer e do turismo

Um prato na mesa: xurelos em escabeche.

Um desporto: a caminhada

Um filme: “Groundhog Day”. Por dizer um. Gostaria de aprender a tocar um instrumento como Bill Murray apreende a tocar piano.

Uma maravilha: a música

Além de galego/a: muitas cousas

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim

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  • Joám Lopes Facal

    “Elogio da sombra” e escabeches, concordo nos gostos

  • Jlvalinha Jlvalinha

    “Penso que, com independência da norma ou da língua inicial, um dos grandes problemas do galego é a falta de autoconfiança de muitos falantes. Não se diferenciam facilmente os registos e duvidamos sobre o que é falar bem ou de forma elegante ou de como adaptar a nossa fala a diferentes situações. Carecemos de modelos. E esta insegurança e falta de referentes fai-se especialmente patente ao comunicar com gentes que falam outras variedades da nossa língua”
    Grande verdade, o entrevistado deu no alvo aqui neste parágrafo.
    E a entrevista acho fantástica. Parabéns.

    • Galego da área mindoniense

      É verdade, na Galiza a nossa língua nom está normalizada. E ũa das razões do fracasso da norma isolacionista é que quer ser demasiado popular ou vulgar. Nom se podem usar “inventos” n´ambientes formais onde claramente nom se deve. Isso dá ũa aparência à linguagem de “artificialidade” e até de “iperenxebrismo”. E de que ũa língua inferior ò castelão.

      Mais, quiçais seja isso o que querem…

      • http://bagoasnachoiva.blogspot.co.uk/ Roi BêNaChoiva

        Discordo nisso. Falas na norma isolacionista ser «popular» e «vulgar» (suponho que no senso espanhol), mais nom é isso, senom apenas «acastelanada». O modelo culto da língua é umha convencionalidade imposta polas elites (inicialmente cortesãs e despoixas burguesas), que imponhem ao resto da sociedade os próprios usos. No caso galego, essas elites, sendo castelam-falantes, impugêrom, e ainda imponhem, o modelo de língua castelanista, e mesmo até o extremo de o faguer confluir co castelám central. Esparegem aqui e acolá algum «palavro» enxebre (pra justificarem que o seu falar é umha língua e assi poderem mamar os empregos e subvenções da RTVG, ensino ou cultura) mais sempre pronunciado com sotaque «neutro» (=castelám). Desprezam o sotaque autêntico dos falantes de sempre; é umha vilania, umha ruindade, som uns bastardos da língua, emporcam-na coas vozes e tons dos seus amos.

        Já que logo, quem tem a legitimidade pra determinar o modelo culto dumha língua, que é o que se considera (erroneamente, pois qualquer língua tem vários dialetos, entre eles o padrom culto), como a própria língua ?

        No nosso caso a legitimidade nom pode vir dessas elites espanholeiras, mais tampouco das elites neofalantes lusistas. A legitimidade tem de estar nos «paleofalantes», ou seja, naqueles que tenhem, ou tinham, o galego como única língua. Os seus falares estám registados em voz e escrita, e eles som o único galego (umha vez limpos e mundos dos castelanismos superfluos, coma «ghueves», «bueno» ou «fora de xuego») digno desse nome.

        Se houver umha naçom galega, daquela tem de formar-se um padrom culto, escrito e falado, baseado nesses falares enxebres. A escrita deveria usar o mesmo sistema português, com algumhas diferenças que sabemos, e na fala daria um sotaque quase mais semelhante ao russo ca ao português.

        Imaginar que o galego culto é português, como muitos sugerírom, desde algum frade do setecentos e mais tarde o Rodrigues Lapa, é impor esse preconceito de que o falar das elites é o legítimo. Porque no caso galego, o falar das elites nem é o galego (desde hai por aí cem anos), e as elites portuguesas sempre descuidárom a Galiza, desidentificando-se com ela.

  • José Ramom Pichel

    Diego, que bom! Bem-vindo!

  • Jlvalinha Jlvalinha

    “e o discurso dos reintegracionistas com os que batim parecia-me agressivo”
    Com efeito, eu já era reintegracionista convencido e essa agressividade era-me palpável e criava em mim um sentimento de rejeiçom muito forte, apesar das minhas convicções… imagino que esse tipo de discurso (que ainda hoje se vê, cada vez menos, por sorte, deveu ser letal para aquelas pessoas nom convencidas que se achegavam por curiosidade ao reintegracionismo e recebiam por resposta um discurso agressivo… e daí muitos preconceitos contra a nossa ideia…
    Ao contrário, o entranhável professor Estraviz era o antídoto contra essa agressividade e preconceitos, alguém que falava com naturalidade, bom humor, sem atitude sobranceira, alguém que transmitia optimismo e entusiasmo a respeito do reintegracionismo, e alguém que falava um bom galego sem artificiosidade…
    Sim, para mim o professor Estraviz foi isso, também, e quero agradecer-lhe polo muito que aprendim com ele…