Diego Bernal & Valentim Fagim: “A questom é, interessa ao povo galego salvar a sua língua?”



Através editora apresenta: ‘Remédios para o galego’ miscelánea de remédios, recomendados por Diego Bernal e Valentim Fagim para ler antes de dormir. Aproveitando a publicação e as apresentações que estão a vir, no PGL entrevistamos os coordenadores.

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diego bernal PGLDiego Bernal Lugo (1982). Mestre em filologia galega pola Universidade da Corunha e pós-graduado em Ensino do Português como língua segunda e estrangeira pola Universidade de Lisboa, foi bolseiro do Instituto Ramom Pinheiro, Técnico de normalização linguística nas Cámaras municipais de Monfero e Minho e professor de galego e português nas EOI Jesús Maestro de Madrid, e Plasencia e Montijo na Estremadura. Leitor de galego da Junta de Galiza na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e professor de espanhol no Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa, atualmente mora no Brasil onde é leitor de espanhol do MAEC-AECID na Universidade Federal de Viçosa.

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Valentim Fagim, Vigo (1971). Licenciado em Filologia Galego-Portuguesa, fundador da livraria Palavra Perduda, é desde 2001 Professor de português nas Escolas Oficiais de Idiomas. Especializado em difundir a estratégia internacional da língua galega por meio de artigos de opinião, vários projetos em formato site, ação associativa e vários livros, todos eles editados na Através Editora: Do Ñ para o NH, O galego é uma oportunidade (com José ramom Pichel) e Os Quês e porquês do reintegracionismo (com vários autores). Presidente da AGAL entre 2009 e 2012.

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Os ativistas do galego, ou simplesmente a gente que quer fazer a sua vida em galego, fomos educados, vivemos, estivemos rodeados por um discurso, diríamos de sítio, de desfeita, de apocalipse dramático e protesto desesperado, onde o galego desaparece sem remédio, substituído pelo castelhano, onde o retorno à lei de Normalización linguística como futuro é ainda o desejo de boa parte do ativismo… nesse sentido o livro pretende quebrar com esse imaginário do isolacionismo?

D: Pode soar a tópico, mas o livro surgiu com a naturalidade com que alguém que está com fame começa a cozinhar. O galego precisa de lufadas de ar fresco e acredito que a leitura desta obra pode contribuir para arejar o abafado momento que estamos a viver.

V: O título do livro não é por acaso. É evidente que a saúde social da língua galega é fraca e que perante este estado de cousas há diferentes estratégias e soluções para melhorar a realidade. Pessoalmente considero que a conceção da nossa língua como um ente isolado faz parte do problema, alimenta-o com nutrientes de que estamos escassos. Remédios para o galego recolhe propostas de pessoas que vivem a sua língua de uma forma diferente da que emana das instituições e manuais escolares. Necessariamente, a sua atitude vital é diferente. Eu diria que a esperança e a motivação reside sobretudo no reintegracionismo.

Comentade esta frase da capa: “Na porção da sociedade galega que optou por estes remédios, revelaram-se uns índices significativos de bem estar”

D: Essa frase é do Valentim e concordo cem por cento com ela. A minha geraçom cresceu a ouvir as grandes injustiças que sofreu a língua da Galiza. É bom conhecê-las mas nem todo pode ficar no simples queixume. Temos que aprender a valorizar o que temos porque galego é sinónimo de felicidade, de prosperidade. Somos o único povo do mundo que pode comunicar com uma facilidade extraordinária com mais de 700 milhons de pessoas. A comunicaçom com o mundo hispánico está garantida, precisamos do galego para nos comunicarmos no mundo lusófono. O galego merece ser levado a sério porque o povo galego merece bem-estar.

V: Se uma projeto social, e uma língua é uma realidade social, é ligada quase todo o tempo à dor, sacrifício, conflito… reduz o atrativo do tal projeto a pessoas que gostam da dor. Eu não tenho lá muito apego por ela. Dito isto, viver em galego é mais difícil do que viver em castelhano na Galiza. É um dos logros, entenda-se esta palavra das duas formas possíveis, das elites presentes e passadas que governam a Galiza. Ora, temos muita mais margem que outras línguas minorizadas e muitas soluções a um clique. Não soframos de mais.

Quase uma década separa ambos os coordenadores, 70, 80, nota-se à hora de perceber o que é a língua, o ativismo? e na hora de pensardes o livro?remedia

D: Eu era a primeira vez que trabalhava com o Valentim e foi umha experiência muito positiva. Ambos tínhamos umha ideia muito parecida do livro que queríamos fazer. É por isso que nem percebim que fosse tam velho! 😛

Quanto à idade dos autores e autoras selecionadas na verdade penso que nem refletimos sobre isso. O critério tinha a ver exclusivamente com procurar textos de qualidade que apresentassem diferentes argumentos ou dados interessante para conhecer melhor a realidade da comunidade linguística galega e fornecer possíveis remédios para os problemas com que temos de lidar como falantes de galego no século XXI.

V: Na verdade, penso que o PGL, nascido em 2001, foi um ponto de inflexão na forma de irradiar a estratégia reintegracionista. O trabalho prévio do MDL também foi muito importante e, na atualidade, creio que a maioria das pessoas que irradiamos uma forma plena de viver o galego compartilhamos atitudes, usos e discursos para além das nossas idades.

Há pouco um destacado escritor galego, professor, crítico e ativista protestava indignado, porque a máquina de um parking oferecia-lhe opções em castelhano, inglês, francês… e português… mas não em galego. Outra ativista protestava também, nas redes sociais, porque numa grande superfície não havia galego, ilustrando o centro com uma foto na que se viam umas publicidades de brinquedos com os rótulos em castelhano e português…. e assim uma e outra vez… tem isto solução?

D: Apenas podo, com humildade e esperança, recomendar-lhes a leitura desta obra. Feita com toda a boa vontade para deixarem de ficar agoniadas e irritadas nessas situaçons e sorrirem a próxima vez que acontecer com eles. O mundo do futuro é multilíngue e felizmente o galego está entre as línguas eleitas sem precisarmos de nengum esforço. É algo realmente mágico e maravilhoso!

V: Tem solução e muitas pessoas, a maioria das vezes sem referentes de nenhum tipo, fazem Chás! para descobrirem por elas mesmas que o galego sim que está nas máquinas de parking e nos catálogos de brinquedos e, o que é mais importante, não é preciso fazer nada. Isto pode ser chocante para alguns ativistas e usuários da língua, tão habituados a lutar energicamente por um pequeno passo. Talvez por isso lhes custe enxergar que, por vezes, não é preciso fazer absolutamente nada e que podemos usar essas energias poupadas para outros frentes ou simplesmente relaxar.

O galego tem cura seguindo estes remédios?

D: O galego já está a fazer sucesso ao longo do planeta. É, na sua variedade brasileira, a língua mais falada do hemisfério sul. Portanto, que o galego tem “cura” nom precisa nem ser demostrado. A questom é, interessa ao povo galego salvar a sua língua? Eu nom tenho nengumha dúvida sobre isto. Perdê-la seria umha grande tragédia, nela está a chave do nosso progresso e êxito no mundo.

V: Em todo processo social existem percursos individuais e coletivos. Uma pessoa, por exemplo, pode resolver velhos hábitos ligados à desigualdade de género mas a aspiração é a resolução social. Não apenas pola satisfação mas também para evitar clonagens do problema que teremos de resolver novamente. Assim sendo, será que as elites galeguistas, as nacionais-galegas, começarão a praticar outra forma de viver a língua, será que irradiarão as suas experiências? Haverá remédio para elas? Eu julgo que sim.

 

 

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remedios_capaTítulo: Remédios para o galego
Autor: AA.VV. Coordenação de Diego Bernal e Valentim Fagim
Data de impressão: outubro 2017, 1ª edição
Edita: Através Editora
Descrição: 264 páginas, 14 x 21cm
Encadernação: brochado
Coleção: Através da Língua, 18
Diagramação: Ricardo Cabanelas
Capa: Abraham Carreiro (ilustração) e Ricardo Cabanelas (arte final)
ISBN: 978-84-16545-13-1
Depósito legal: C 1621-2017
Preço Clube: 12 €
Preço Livrarias: 15 €


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  • Ernesto V. Souza

    A verdade é que deveria ser objetivo para a antes de terminar a década: Sair de uma vez do discurso isolacionista que não se movimentou do Informe Dramático de Alonso Montero, e também não encontrou soluções em 40 anos…

    Porque já cansa isso de por primeira vez, numa comissão da UE podemos falar em galego, de laiar-se porque a documentação, os manueis não estão em galego, ou que se há que traduzir o galego O Hobbit, ou etiquetar os produtos em galego, as máquinas, as empresas…

    Qualquer produto comercial distribuído e comercializado em Espanha e Portugal, a logística manda, tem os manuais, a publicidade o etiquetado em português e castelhano, de mais em mais… nas universidades, nas grandes empresas o contato com Portugal e Brasil é crescente e ser galego é um plus…

    As máquinas, computadores, programas, sistemas informáticos, sites… quando entenderemos que tudo já está em galego, a um click e deixaremos de perder o tempo?

    Eu ultimamente não deixo de me rir, ao ver a quantidade de gente que nas Universidades de Castela, Extremadura Madrid e Andaluzia, que por motivos profissionais está a aprender português… e sendo como é para eles como para nós o italiano e francês…

    Quanto mal, realmente fez o isolacionismo… doutrina, normas, construto, discurso… e que bem souberam os caciques e o fraguismo cultural, aproveitar tanto trepa e tanto voluntário para tratar de liquidar o potencial (histórico e nacional) que era o reintegracionismo…