ALDEIAS DE ORDES

O Deus da camisa vermelha



Mesom de Deus
Mesom de Deus

No ano de 1772 construiu-se o Mesom de Deus à entrada de Ordes, entom umha pequena freguesia, justo ao pé da nova estrada entre a Corunha e Santiago, com a intençom de dar serviço às postas de correios e carrilanas que a atravessavam a diário. Com o tempo, o mesom deu nome a todo o lugar, convertendo-se em topónimo. O prédio em si, que viveu momentos de franca decadência e hoje acolhe um restaurante, é conhecido sobretudo pola detençom do general Porlier, quando se aventurava a dirigir um pronunciamento liberal. Na noite do 21 de setembro de 1815, quando fazia noite no Mesom de Deus, os camponeses da jurisdiçom do Folgoso, com o juíz Tomás Antonio de la Iglesia à cabeça, procederam a prender o revolucionário.

Antigo Mesom de Deus
Antigo Mesom de Deus

O surpreendente é que a citada história monopolize a mitologia atual do Mesom de Deus (talvez porque encaixa bem nesses esquemas estereotipados dos que tanto gostam alguns políticos, segundo os quais as forças progressistas e urbanas do país acabariam fracassando umha e outra vez às maos dos ignorantes campesinhos da rurália, polos que les luitavam) e que, no entanto, jamais se cite o filho mais ilustre que deu este lugar: o revolucionário Leonardo Sanches Deus, cuja nai se criara no Mesom de Deus, ainda que ele já tivesse nascido em Compostela, no ano de 1835.

Póster de Leonardo Sánchez Deus da Gentalha do Pichel
Póster de Leonardo Sánchez Deus da Gentalha do Pichel

A Gentalha do Pichel editou há um par de anos um póster que ressume a biografia de Deus, cuja trajetória revolucionária começou com a sua participaçom no movimento democrático compostelano, sendo um dos participantes do famoso Banquete de Conxo de 1854, onde estudantes e obreiros compartiam mesa, em meio do cerco policial, realizando promessas de confraternidade, liberdade e igualdade. Deus fazia parte de geraçom de Faraldo ou Pondal, dos que Ferrín dixo que “algún deles vai voluntario á guerra de Italia, naturalmente con Garibaldi. Igual que os rapaces da miña xeración estaban fascinados por Che Guevara, a eles atraíaos Garibaldi”[1]. Pois bem, esse, exatamente, foi o nosso homem.

Forçado ao exílio político, Deus translada-se à Italia, onde combatirá nas guerras da unificaçom, primeiro no exército regular piamontês e desde 1860 com as tropas garibaldianas. Encarcerado tras a derrota de Aspramonte em 1862, fai-se íntimo de Garibaldi, e umha vez posto em liberdade acompanhará-o ao exílio no ilhéu sardo de Caprera, em 1863 e 1864. Nesse último ano volta à Península Ibérica para participar dumha fracassada tentativa insurrecional, que o obrigou a regressar a Itália, instalando-se na cidade de Florença. Ali, rematará os seus dias num hospital psiquiátrico da capital, onde finará em 1872. Nesse centro os internos auto-editavam umha revista, num de cujos números aparece um desenho que Ernesto Vasques Souza e André Seoane julgam ser um autorretrato de Leonardo Sanches Deus.

No capítulo terceiro de Los precursores, Manuel Murguía, também fervente italianista –como todos os galeguistas da altura-, sinala como ao atravessar o caminho de Santiago à Corunha:

“al llegar a una triste esplanada, triste y solitaria, pero siempre llena de agrestes aromas y de una cierta salvaje poesía, grata al hijo de las montañas, acostumbraba detener las miradas y el pensamiento sobr eun viejo y un tanto espacioso edificio que a la derecha de la carretera recortaba su oscura silueta, sobre un cielo encapotado:

Sobre la puera se leía entoncnes un letrero: MESÓN DE DEUS”.

Realizando a continuaçom umha das mui pouco frequentes descriçons literárias da paisagem ordense com que contamos, para além duns versos de Pondal, uns trechos de Fernández Flórez e pouco mais:

Aquellas negras paredes, más negras aún en medio de un paisaje sin viviendas, sin árboles y sin rayo de sol, me hacían el mismo efecto que los abandonado palomares que en los llanos de Castilla parecen levantarse para causar aún más el vasto de la llanura y la soledad que en ella reina.

“Las ventanas cerradas y sin vidrios, la puerta cerrada también y muda, la chimenea diciendo a voces que en aquel hogar abandonado no se encendía fuego hacía años, daban a entender bien claramente que las almas solas que allí hubiera, volaran ya a los lugares misteriosos donde todo acaba y se confunde.

Los que nacimos a la orilla del mar o valles que lo avecinan; los que viven en las fecunda risueñas comarcas que forman en Galicia regiones verdaderamente paradisíacas, no aciertan a comprender las bellezas propias de las altas mesetas centrales de nuestro país. Aquella, al parecer, inhóspita extensión, cubierta de la dura planta que le dá su color oscuro; la basta amplitud apenas cortada en el horizonte por la línea desigual de las pequeñas colinas, y los delgados álamos, que marcan a lo lejos el cauce del río, en cuyas frías y cristalinas aguas se reflejan todas las soledades que las rodean, tienen, sin embargo, su poesía y su grandeza. Al fondo se oscurecen las tintas y toman el eterno azuel de las lejanías; el cielo es más claro, y los árboles más verdes, las aguas más transparentes, el silencio más solemne; en una palabra, todo tiene la vaguedad y la grave firmeza de las alturas. ¡Verdaderamente valen bien el amor que les profesan su hijos!”[2]

Desta maneira o companheiro de Rosalia nom recordava, ao passar perante o Mesom de Deus, a lenda negra do Marquesito, senom o valor fundacional da luita de Leonardo Sanches Deus par ao Ressurgimento da Galiza. E ainda sinalava que a “madre de Deus tenía el carácter de los lugares en los que naciera y pasado sus primeros años, era buena y fuerte. Su hijo heredó sobre todas, estas dos cualidades, exaltadas por una vida aventurera y de privaciones”.

Quanto ao apelido Deus, este é hoje muito mais frequente na comarca de Trasancos que na de Ordes, ainda que dá nome à conhecida indústria textil –igualmente conhecida em Ordes polas suas condiçons de trabalho dickensianas- contra a que as obreiras mantiveram umha luita sindical exemplar ao longo do passado ano. No decorrer da citada luita, umha açom reivindicativa para a antologia: refugiada a todopoderosa dona da empresa na sua paróquia natal, umha pintada amanheceu na igreja paroquial reclamando o que era justo na mesmíssima casa do Senhor. “Deus, paga o que deves”. Ridiculismo proletário e popular. Também lembra o meu pai como quando o avô Antom da Vitória, labrego, obreiro e de firmes ideias anticlericais, cada vez que ouvia falar de Deus sempre saltava com a mesma demonstraçom de materialismo prático: “eu o único Deus que conheço é Deus do Vidueiro, o morreu quando lhe emborcou o tractor”. Para Deus, Leonardo!

Notas:

[1] Xosé Manuel del Caño, Conversas con Méndez Ferrín. Historia, literatura, nación. Vigo, Xerais, 2005. P. 45.

[2] Manuel Murguía, Los precursores, Corunha, Latorre y Martínez Editores, Imprenta La Voz de Galicia, 1885, Cap. III.

 

Publicado em Aldeias de Ordes,  

Carlos C. Varela

Carlos C. Varela

Carlos Calvo Varela (Ordes, 1988) colaborou e colabora com diveros meios de comunicaçom, entre os quais Novas da Galiza, Praza Pública e o Portal Galego da Língua. Estudante de Antropologia e investigador, tem publicado numerosos artigos em portais web, revistas e livros, além de realizar um reconhecido labor como dinamizador social e cultural em coletivos de Compostela e Ordes.
Carlos C. Varela

Latest posts by Carlos C. Varela (see all)


PUBLICIDADE

  • Ernesto V. Souza

    Fantástico texto… Sanchez Deus, o pequeno Garibaldino amigo de Murguia… é uma personagem de filme…

    https://vk.com/video393104392_456239017

  • abanhos

    Que maravilha meu deus.