AS AULAS NO CINEMA

Desenvolver nas crianças o valor da amizade, no seu dia internacional (30 de julho). Filme: ‘Onde fica a casa do meu amigo?’



DIA DA AMIZADE Cartaz2Durante a sexagésima quinta sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, realizada no dia 27 de abril de 2011, o Dia da Amizade foi reconhecido como uma importante data, sobretudo para a divulgação da “Cultura de paz e não-violência”. A Assembleia culminou na criação de um documento assinado pelos países participantes, entre eles o Brasil, no qual ficou reafirmado a relevância e a pertinência dos seguintes tópicos:

– A importância da amizade como um valoroso e nobre sentimento na vida dos seres humanos ao redor do mundo.

– A conscientização de que a amizade entre os povos, países e culturas, bem como as amizades individuais, pode inspirar na criação de pontes entre comunidades, celebrando assim a diversidade cultural.

– A afirmação de que a amizade pode contribuir para os esforços da comunidade internacional, em conformidade com a Carta das Nações Unidas, para a promoção do diálogo entre as civilizações, da solidariedade, da compreensão mútua e da reconciliação.

– A importância de envolver os jovens e futuros líderes em atividades comunitárias voltadas para a inclusão e o respeito entre as diferentes culturas, bem como para a promoção da compreensão internacional de acordo com a Declaração e Programa de Ação sobre uma Cultura de Paz.

A amizade, assim como o amor, é dada de graça e semeada ao vento, como dizia o poeta Carlos Drummond de Andrade. Portanto, é bom estar sempre entre amigos e fazer a data valer todos os dias. É certo que a amizade deve ser celebrada todos os dias, mas existe no calendário uma data especial, conhecida mundialmente como o Dia Internacional da Amizade. No Brasil, Uruguai e Argentina, a data é comemorada no dia 20 de julho, apesar da sugestão da Assembleia Geral das Nações Unidas de que todos os países-membros celebrassem o Dia Internacional da Amizade, ou Dia do Amigo, no dia 30 de julho (vale ressaltar que não existe distinção entre o Dia do Amigo e o Dia Internacional da Amizade). A escolha da data foi impulsionada pelo médico paraguaio Ramón Artemio Bracho, fundador da Cruzada Mundial da Amizade, campanha que visava à difusão da cultura de paz ao realçar a importância da boa convivência entre os povos. Todo dia 30 de julho o médico animava os paraguaios a reunirem-se para realizar diversas atividades sociais e culturais, com o propósito de oferecer ajuda mútua, fortalecendo assim os valores da amizade.

DIA DA AMIZADE Cartaz1Segundo as definições do Dicionário Aurélio, amigo é aquele ligado a outro por laços de amizade. Em que há amizade. Amizade, portanto, é um sentimento fiel de afeição, simpatia, estima ou ternura entre pessoas que geralmente não são ligadas por laços de família ou atração sexual. Quem é ou tem um amigo ou traz no peito esse sentimento nobre, sabe que a amizade vai muito além da definição de um dicionário. No decorrer da vida, nós desfrutamos da companhia de diferentes tipos de amigos. Os amigos de nossa infância, dos quais nós podemos lembrar vagamente. Os amigos da escola. O “melhor” amigo da adolescência. Colegas que encontramos no serviço. Amigos com os quais compartilhamos bons momentos. Companheiros de farra. À medida que envelhecemos, um amigo com o qual podemos tomar café juntos, enquanto conversamos ou fazemos outro tipo de atividade. Mas existem também relações de amizades entre outros tipos de pessoas de outras regiões, seja por via Internet, onde amizades surgem para suprir um vazio existente ou para descobrir outro mundo, além do seu, ou laços de amizades feitos por pessoas de outras cidades ou regiões, que se conheceram pessoalmente e que preservam, por muito tempo ou por consistência, esse sentimento.

Portanto, é muito importante comemorar esta data e organizar atividades nas aulas dos diferentes níveis do ensino, para desenvolver nos escolares o valor da amizade, e poder conseguir que se reacendam os seus laços que os unem de amizade e de respeito. Que os seus amigos saibam e sintam o quanto os consideram, o quanto os amam como amigos. Para ilustrar este depoimento escolhi um filme modélico em este tema da amizade. Sob o título de Onde está a casa do meu amigo?, foi realizado em 1987 pelo diretor iraniano Abbas Kiarostami, falecido semanas atrás em Paris, em concreto a 4 de julho. Por esta razão, o depoimento serve também de homenagem a este grande diretor, muito apreciado pela crítica cinematográfica.

FICHA TÉCNICA DO FILME:

  • ONDE FICA A CASA DO MEU AMIGO Cartaz0Título original: Khane-ye Doust Kodjast (Onde fica a casa do meu amigo?).
  • Diretor: Abbas Kiarostami (Irão, 1987, 83 min., cor). Produtor: Ali Reza Zarrin.
  • Roteiro: Abbas Kiarostami. Música: Amine Allah Hessine. Fotografia: Farhad Saba.
  • Nota: Pode ser olhado entrando no Youtube.
  • Prémio: Leopardo de Bronze para o diretor no Festival de Cinema de Locarno (1989) e menção especial do Júri.
  • Atores: Babek Ahmad Poor (Ahmed), Ahmed Ahmed Poor (Mohamed Reda, o amigo), Kheda Barech Defai (o mestre), Iran Outari (a mãe), Aît Ansari (o pai), Sadika Taohidi (o vizinho), Biman Mouafi (Ali) e Ali Djamali (o amigo do avô).
  • Argumento: Estamos na escola da localidade de Koker, ao norte do Irãoo. História de amizade e cumplicidade juvenil. O rapaz de oito anos Ahmed, ao fazer seu dever de casa, percebe que pegou o caderno de seu amigo por engano. Sabendo que o professor exige que as tarefas sejam feitas no caderno, escapa das vistas de sua mãe e parte em busca do colega. Ele vai até uma vila nos arredores com o intuito de encontrá-lo para devolver o caderno. Chegando lá, encontra-se com diversos moradores e vivencia o dia-a-dia de cada um num ritmo lento e extremamente real. Essa missão tem uma importância singular: se Mohamed não tiver o caderno com os trabalhos de casa todos feitos no dia seguinte, vai ter um castigo muito severo na escola. Uma história simples, mas sublime num filme modesto. Destaque para a interpretação das crianças, que conseguiram captar e transmitir a sua vulnerabilidade num mundo caótico.

UM CANTO À AMIZADE NAS CRIANÇAS:        

Koker é uma região do interior do Irão, aonde acontece a história do pequeno Ahmed, um menino de oito anos, estudioso e dedicado à sua família. Um dia, na escola, ele testemunha o professor ameaçando um aluno, Nematzadeh, que mora em um vilarejo distante, que se ele esquecer o caderno da próxima vez será expulso. Chegando à sua casa, Ahmed vê que trouxe o caderno do amigo por engano, e com medo das ameaças do professor, resolve ir procurar o amigo no outro vilarejo, mesmo contra a vontade de sua mãe. O filme é uma bela parábola sobre a inocência das crianças versus a intransigência dos adultos, desprovidos de amor e vivendo de amargura e falta de amor ao próximo. O pequeno Ahmed simboliza a compreensão, algo que os adultos que passam pelo caminho de Ahmed ignoram, dificultando sempre que podem a busca pelo amigo. Kiarostami exercita na narrativa um olhar documental. Trabalha com não-atores e seus planos, longos, dão a impressão às vezes de deixar a câmara ligada e ver o que acontece. As personagens são curiosas, a locação, extremamente pobre, imprime um olhar lúdico. Kiarostami extrai poesia através desse olhar da criança sobre tudo o que está ao seu redor. As crianças do filme são ótimas, espontâneas, e o grande carisma de Babek Ahmed Poor, no papel de Ahmed, é um grande presente para o espetador. O seu olhar sempre assustado é uma grande arma para seduzir e encantar a qualquer um. Várias cenas antológicas, entre elas, a de Ahmed estudando e vendo sua mãe recolhendo as roupas do varal no meio de uma ventania.

Fotograma do filme

Fotograma do filme

Tomo como base para a análise do filme os comentários de Ruy Gardnier na revista brasileira Contracampo. Como é comum em Kiarostami, o desencadeador do filme é um duplo: o caderno de Ahmed é idêntico ao de Nematzadeh, e no fim da aula o primeiro acaba pegando, por engano, os dous cadernos. O professor já havia dito a Nematzadeh, que sempre esquecia os cadernos, que num outro esquecimento seria expulso de sala. É o suficiente para Ahmed, então, se prontificar a ir até uma parte longínqua da cidade à procura de seu amigo. Ele sabe poucas cousas sobre ele, o que não vai facilitar nada a sua procura. Mas aos poucos, o espetador vai percebendo que, na verdade, pouco importa a procura do amigo, e sim os passos que é preciso fazer, independente da chegada:

a) Ahmed chega do outro lado da cidade. Ele de primeira percebe que apenas com o nome do menino, ele não conseguirá chegar muito longe. No caminho, ele tem três encontros peculiares. O primeiro é um velhinho que carrega palha. Como a cena é filmada sem contracampo, a câmara não permite que se veja o rosto do velho, e Ahmed parece estar conversando com uma palha ambulante. Logo depois, cai uma toalha na frente de Ahmed. Essa toalha pertence a uma senhora que mora no segundo andar. Depois de tentar jogar a toalha para a senhora (que não vemos), surge uma terceira personagem, a vizinha, que se oferece para ajudá-lo. Surge aqui um tema que é recorrente na obra de Kiarostami, e que seria piegas não fosse a sua utilização tão pouco expressionista: com dous, os problemas se resolvem muito melhor do que sozinho. Por fim, o encontro com um colega de classe, que na escola se queixava de dor nas costas. Vemo-lo carregando um grande caldeiro de leite junto com o pai. Numa primeira viagem, o menino Ahmed já toma conhecimento — com outros olhos, os olhos do estrangeiro — de uma problemática realidade e de uma saída, mesmo que frágil, para enfrentá-la. Essa primeira viagem termina quando Ahmed recebe a informação de que o primo de Nematzadeh foi para Koker, o bairro do próprio Ahmed.

Fotograma do filme

Fotograma do filme

b) Ahmed volta a Koker. Ele não consegue encontrar o primo de Nematzadeh, porque no meio do caminho encontra seu avô, que o faz parar para lhe dar uma lição de moral. Sob o pretexto de comprar alguns cigarros, o velho o retira de seu caminho. Enquanto o menino vai lá, a câmara se fixa no avô, que explica a um companheiro os métodos que se deve utilizar para fazer com que as gerações menores respeitem as maiores: o respeito pelo temor. Quando Ahmed volta, ouve o nome “Nematzadeh” ser citado. Pergunta aos senhores se algum deles tem o sobrenome Nematzadeh, mas em nenhum momento os adultos lhe dão uma resposta. Quando o tal Nematzadeh —um mercador que quer trocar as portas tradicionais por portas de ferro — parte de volta para seu povoado, Ahmed vai atrás dele e volta pelo mesmo caminho, um morro que parece desenhado com um “s” de Shazam. Da sua segunda viagem, ele ganha um novo conhecimento: seu mundo é tão impiedoso quanto o mundo estrangeiro.

c) Ahmed faz a viagem de volta. O pretenso Nematzadeh vai nas costas de um burro, mas Ahmed tem que acompanhá-lo correndo. Quando, enfim, chega bufando à casa do mercador de portas, vê sair dela um menino com o mesmo par de calças que usava o verdadeiro Nematzadeh. Num ato de mestria de posta em cena, por mais ou menos um minuto não podemos ver o rosto do menino. O único signo é sua calça, de um vermelho tijolo desbotado. A primeira cousa que o encobre é uma porta que o menino carrega para o pai, e depois é o burro. Quando finalmente o pai sai junto com o burro para entregar mais portas, a câmara permite ver o rosto do menino, que não é o Nematzadeh que perdeu o caderno. Essa viagem dá origem ao encontro mais belo do filme, o do velhinho marceneiro. Marceneiro que representa as origens do povoado — aquele que, como ele próprio diz sem modéstia, conhece todo mundo — e também representa a metafísica, a bela tradição daquela localidade. É ele o responsável pelas janelas e portas que o falso Nematzadeh quer trocar. O velhinho toma por tarefa, então, levar o menino Ahmed até seu colega de escola. Durante o caminho, mostra tudo o que ele fez, mostra-se responsável pela construção da cidade. Ele é a figura do sábio: ele já é velho, caminha com lerdeza, mas é exato em seus passos. Ao contrário de Ahmed, que anda rápido, mas não sabe para onde vai: o paradoxo da passagem de tempo e do envelhecimento. Nesse momento, o filme muda de estilo fotográfico. Enquanto o dia cai, os reflexos das janelas começam a, como que por decreto metafísico, cair sobre as paredes e rostos das personagens, sobretudo de Ahmed. Ele acaba, percebemos, de passar uma etapa da sua vida. A casa para onde o senhor conduz, surpresa, não é a de seu colega de escola. Ahmad aí reconhece o caminho e o burro à porta. É a casa de onde ele vinha. Ele tem vergonha de dizer ao velho que o caminho estava errado, e esconde o caderno abaixo da camisa. Os dois fazem de volta o caminho, Ahmed sempre com pressa. O velho tenta acompanhá-lo, mas quando perde suas forças, deixa o menino caminhar à frente. Mas pouco adianta, porque logo Ahmed para, com medo dos latejos que vêm da escuridão. O velho alcança o menino e lhe dá uma bênção: finalmente ele poderá partir.

Fotograma do filme

Fotograma do filme

O resto daquele dia é de uma significação longínqua. No plano seguinte, ele está em casa, diante do prato de comida, que nem é tocado. Sua mãe o permite, então, que faça os deveres. Ele faz, numa noite de muito vento, talvez o sinal de alguma cousa. No plano mais enigmático do filme (reduzir o plano a uma metáfora do homem contra a natureza não seria satisfatório) — e talvez o mais belo, Ahmed vê sua mãe tirando as roupas do varal, atrapalhada pelo grande vento. No plano seguinte, já estamos na escola. Ahmed fez os deveres de casa dele e de Nematzadeh. Os dous cadernos são iguais, e os deveres também. Quando o professor vai corrigir, eis que os cadernos estão trocados. O professor destroca e começa a correção. Corrige o primeiro e corrige o segundo. Na última folha do caderno de Nematzadeh, e o que constitui igualmente o último plano do filme, a flor, o símbolo da viagem, que Ahmed dá a seu colega junto com o caderno.

Terminado o filme, poucas cousas se resolvem tranquilamente na cabeça. Pois é um conto de fadas às avessas. Ahmed vai à floresta, mas não consegue achar a casa certa. Seu guia é certamente um senhor notável, que lhe ensina muitas cousas, mas que é incapaz de mostrar-lhe o que ele queria. E, o principal de tudo, todo o aprendizado do filme se faz fora das principais instâncias de legitimação do pensamento e de educação. Vemos o professor, a mãe e o avô, e tudo que eles fazem é deseducar ou, antes, dar ensinamentos absolutamente desvinculados das necessidades imediatas do menino. O que constitui um questionamento sério de todo o sistema “molar” da sociedade. Os laços de ensinamento nunca são os institucionais, mas sempre os transversais, amigo-amigo, ou então por experiência individual. O que remete a um certo tipo de anarquismo educacional ou, pelo menos, à descrença nos grandes modelos vigentes na educação e reproduzidos sempre em sociedade.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:

Servindo-se da técnica do Cinema-fórum, analisar e debater sobre a forma (linguagem cinematográfica: planos, contraplanos, panorâmicas, movimentos de câmara, jogo com o tempo e o espaço, truques cinematográficos, etc.) e o fundo do filme resenhado.

Ao redor do tema da “Amizade” organizamos com os escolares do nosso estabelecimento de ensino um amplo plano de atividades artísticas e lúdicas, nas que participem os estudantes segundo as suas preferências: redações de poemas, textos livres e frases ou lendas, elaboração de desenhos, murais, cartazes, auto-colantes, participação em diferentes jogos cooperativos e jogos dramáticos, recitais poéticos e de canções, audições musicais, etc. Com todos os materiais podemos policopiar ou editar uma monografia temática.

Participando estudantes e docentes, podemos organizar um Livro-fórum, escolhendo antes entre todos um livro para ler. Entre os possíveis títulos a escolher temos: A irmandade das calças viajantes (por Ann Brashres), Amigas para sempre (Kristin Hannah), O menino do pijama listrado (John Boyne), O único que fica é o amor e Lua do Senegal (os dous de Agustim F. Paz) ou Mashi e outros contos (de R. Tagore, en tradução de Telo de Mascarenhas para a Editora Inquérito de Lisboa).

 

 

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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