CARTAS MEXICAS

Derrubar a velha Ideia Global



Outra nova bolha de ativos ameaça o derrubo sistémico, trás a queda do pulmão económico de Wall Street e a city londrina em 2007/2008. Agora as empresas que se tem alimentado dos interesses zero – e os empréstimos estatais a baixo custo, que permitiam a recompra dos seus próprios ativos, mantendo à alça de modo enganoso suas ações, sabem que esta manobra está a chegar a seu limite. Dai a perda relativa do poder bancário privado a nível internacional e irrupção de velhas e a vez inovadoras políticas, mais estatais e protetoras como as de Donald Trump, sejam em realidade uma necessidade para o Império Ocidental. Mesmo entrando em fricção e tensão, entre os principais compondes do mesmo: a Europa e os EEUU (fricção que hoje mesmo tem tratado de menorizar Jucker e o próprio Trump). Tendo em conta que de cada dólar do contribuinte norte-americano, a metade vai destinado ao Pentágono, não parecerá tão fútil a política do novo presidente norte-americano, de obrigar a seus sócios da OTAN, a contribuir mais no mantimento da mesma (sendo que Washington, achega mais do 90% total do orçamento), desde um ponte de vista doméstico. Por outro lado as vozes, que clamam pela reorientação geoestratégica da Aliança, têm argumentos também firmes e convincentes, dentro da sua lógica de competição, no plano geoestratégico.

China tornou-se o novo grande inimigo global a bater. O governo chinês, por outro lado, tornou-se um grande parceiro comercial, impossível de combater – de modo direto – sem evitar no embate ficar gravemente ferido, no melhor dos casos.

A interdependência criada entre a China e o Império Ocidental, é de tal magnitude, que a subtileza no combate pela hegemonia, tem de ser imposta.

China, desenvolveu uma habilidade impar para em pouco tempo contornar as manidas regras do jogo, tal como sempre fez o Ocidente – que tinha o controlo absoluto, do jogo (hoje já não). O Banco Central chinês emitia yuan, com certa alegria, a fim de manter sua divisa artificialmente desvalorizada, frente a outras moedas, com o objeto de favorecer suas exportações diversas. No entanto, em contrapartida a cesta da compra, na China, tinha de ficar mais cara; devido a inflação monetária, causada pelo excedente de moeda em circulação. Começando a sua vez a minar a competitividade dos preços dos seus exportadores, ao aumentar o valor dos insumos internos.

O analista americano Keith Bradsher, já advertia em 2011, desta controversa situação, num artigo publicado em New York Times a 11 de janeiro desse mesmo ano. Mas recentemente, num artigo publicado a 23 de Janeiro do ano em curso, Bradsher deixa entrever que as estatísticas oficiais de crescimento chinês, não são muito de fiar. E que o aumento da dívida interna chinesa, também resulta alarmante, sendo que boa parte desse crescimento contínuo, tem a ver com a dependência ao crédito. Aumentando, por sua vez, a bolha global de dívida a baixo custo.

Os preparativos para o lançamento, por parte de Beijing, duma nova moeda virtual concorrente como o Bitcoin, pode ter a ver com essa recolocação geoestratégica, ante o iminente derrubo sistémico (que todos gostariam fosse controlado). China está a tornasse muito rapidamente no maior parceiro e concorrente Ocidental, no nível global. Dai, ser muito acertado, a viragem de Trump, como novo Imperador do Ocidente, na mudança das prioridades de Rússia para China.

Se bem a tentativa de demolição da Rússia, tinha ver com o controlo da China (pois como bem temos reiterado varias vezes, controlando Rússia fechas literalmente China, somente é preciso deitar uma olhada no mapa mundo). O caso é que essa tentativa contra Rússia, trazia um risco elevado de confronto militar global, é apesar de a Rússia tão-somente ter um orçamento militar de 60 Bilhões de dólares, contra os 900 Bilhões da OTAN, os próprios assessores militares americanos sabem que numa guerra convencional vencer Rússia e algo extremamente dificultoso. Aumentar a tensão a outro tipo de guerra, seria sem dúvida duma grande irresponsabilidade, pois esse confronto pode degenerar uma destruição mútua assegurada.

Precisamente desse gigante orçamento da OTAN, os EEUU achegam perto de 690 bilhões.

Cifra que Trump tenta rebaixar, para assim também minorar o peso do bolso do contribuinte americano. Deixando mais margem de manobra para outros programas, como sua tentativa de reindustrialização e criação de mais emprego.

O valor a compensar, nos próximos anos, terá que recair nas costas do contribuinte europeu.

Por sua vez o elevado gasto armamentismo, a nível global, não deixa de acender também outras alarmas: calcula-se que em 2017 se gastou 1,74 trilhão de dólares, na carreira de armamentos em todo o mundo. A cifra mais alta desde a Guerra Fria.

Quando em Junho de 2017, o governador do Banco Central da China, Zhou Xiaochuan, anunciou a II fase do Sistema de Pagamento Interbancário da China (para promover o uso global de moeda chinesa, no Fórum Luijiazui de Xangai); ficou claro que a Era do dólar como moeda única de reserva global, definitivamente tinha chegado a seu fim.

Muitos foram e não somente em ocidente, os alarmes levantados sobre a concorrência comercial desleal da china e suas práticas predatórias. Denunciam jornalistas de todo mundo ao governo chinês, por ter elaborado um plano para domínio comercial global. Este plano estaria baseado em práticas como a já referida desvalorização artificial da própria moeda (gerando pratica de dumping) para diminuir a concorrência; mantimento de baixos salários, proibição da prática sindical (permitindo a exploração para manter baixo custos); incentivos fiscais, guerra cambial… Ainda que com certeza, nenhuma destas atividades tenha sido inventada pela China. Mas sim a China tem aproveitado muito bem estes mecanismos, para através dum modelo que governança autoritária (com escassa contestação social, menos ainda quando a nação prospera) procurar seu acomodo em todos os mercados do orbe. Chegando pois a por em xeque o domínio incontestável do Ocidente. Tornando-se já não somente, num ator passivo que se adapta as mudanças, senão pela contra num promotor ativo das mesmas. A China reativa, do século passado, tornou-se num gigante económico proativo no alvorecer deste novo século.

Dai que uma reorientação da OTAN (criada em início para parar à União Soviética) em face dum novo isolamento militar contra a China, pode ser avaliado pelo novo Imperador do Ocidente. Enquanto uma tentativa de atrair Rússia (como no seu dia se fez com a China, quebrando a aliança no campo socialista, a impulso da diplomacia dos jogos do ping-pong, ideada por Nixon e Kissinger) parece menos provável, dado a dependência financeira da Rússia de China, e da dependência energética de Beijing de Moscovo. No entanto a diplomacia enviesada de Trump, parece ir ao encontro destes dous fatos. Se por um lado obrigou aos Sauditas a rematar com a loucura jihadista que ameaçava a estabilidade russa, e por outro empreendeu uma (de momento mais teatral que efectiva) guerra comercial com a China, enquanto negocia com todo o mundo e parece tentar enfraquecer os bastiões mais apegados ao poder bancário global… Questões que, com o tempo transcorrido valorizaremos melhor, mas aparentam correr em favor de algo mais de distensão no militar e um melhor reparto de todos os mercados, no plano comercial. Reparto comercial cuja prioridade agora aparenta ser Ocidente não perda seu poder, já não tanto de director ou vigia global, como de reitor, gerente – duma realidade, que por muito que tente Washington travar, a cada dia se torna mais multilateral e complexa.

E desde essa posição comande Ocidente poder realizar o derrubo sistémico global, em colaboração com os BRICS, que estes dias reunidos em Joanesburgo, começam a reclamar seu protagonismo e sua intenção de reforçar a cooperação entre eles. Além de estendê-la aos quatro cantos do mundo, tanto na África, Ásia, como na América Latina. Permitindo países em desenvolvimento ter mais opções de cooperação, que o anterior e único recurso de acudir a Ocidente, FMI, Banco Mundial… Essas diversas vias abertas de colaboração, podem mesmo trazer maior estabilidade e desenvolvimento, se todas as forças, no nível global reparam na necessidade de atender os verdadeiros desafios do milénio. Mais urgentes estes, que as bizarras batalhas pela hegemonia.

Desafios, sem cuja superação, não será possível uma demolição do velho sistema.

Nesta fase preciso será desenvolver uma nova consciência global da amizade, como valor único a reforçar a paz. Pois sabendo que as diversas crises: ambientais, sociais, migratórias, políticas, económicas… São sem dúvida os sintomas duma crise global sistémica, que deveremos tratar em profundidade, desde a raiz, se quisermos limpar o mundo da pandemia da guerra. Também não é menos certo, que o desenvolvimento científico – tecnológico, tem permitido já gerar uma exuberância, como nunca antes tinha conhecido à humanidade, em este ciclo. Riqueza material que pode definitivamente escorregar, para sempre, o perigo de guerra pela sobrevivência. Sempre que saibamos, em conjunto, trabalhar pela obtenção desses globais objectivos.

A essa riqueza material teremos de acrescentar a riqueza espiritual – de saber conviver com amor, perservando a beleza, e impulsando o bem-estar conjunto.

Mas essa meta não se poderá atingir, sem uma confiança mútua, entre lideres globais e elites politicas, culturais, académicas, religiosas; junto com a implicação das sociedades que estas elites representam… E isso não poderá ser feito, sem o fomento da amizade mútua, o conhecimento mutuo, o dialogo permanente entre os povos.

Mas antes de efectuar nenhum tipo de diálogo, o ser humano tem de estar pacificado dentro de si mesmo. Pois senão houver paz interior, todo quanto esse ser humano realize será projecção da sua guerra – desconfiança e medo.

Dai voltarmos nós a insistir na necessidade de trabalhar aquela tripla pacificação: a) do Indivíduo consigo mesmo b) do indivíduo com a sociedade e meio ambiente e c) dos povos entre si, mediante o conhecimento, diálogo permanente e ajuda mútua.

Algo que somente se pode realizar por meio da confiança, amor e bem-estar que nos brinda sempre a verdadeira amizade.

Trabalhemos todos e todas pois, em favor de criar momentos em locais, redes sociais, lugares de encontro para à amizade. Passo a passo, devagar, poderemos nessa rede global de amizade travar a negra sombra da morte, que sempre tenta, em rondar-nos. Deixando um melhor planeta para nossos filhos…

A velha ideia global da guerra pela sobrevivência, essa é que deve ser derrubada. Nova ideia global de colaboração em favor da vida, da exuberância, com respeito aos ciclos naturais necessários para a regeneração, dum planeta sempre em recursos abundante; deverá ser implementada. Mas lembar os recursos não são ilimitados. Preciso deixar regenerar também na alma e no coração humanos, a amizade danada. Limpa de novo essa amizade voltar revigorar com maior brilho e fortaleza.

Artur Alonso Novelhe

Artur Alonso Novelhe

Galego, mas nascido no México, é diplomado pela Escola Pericial de Comércio de Ourense. Exerce como funcionário do Serviço Galego de Saúde do Governo da Galiza. Publicou várias obras de poesia e colabora habitualmente com diferentes publicações, entre as quais o PGL. É sócio da Associaçom Galega da Língua (AGAL) desde os meados dos anos 80 e académico da AGLP.
Artur Alonso Novelhe

Latest posts by Artur Alonso Novelhe (see all)


PUBLICIDADE