Demasiado desprezado para ser a mesma língua e demasiado descuidado para ser uma língua estrangeira

O português em 'La Voz de Galicia' do 11 de fevereiro de 2018



‘La Voz de Galicia’, jornal mais vendido no território galego, publicou o domingo 11 de fevereiro um artigo sobre a economia portuguesa, no que se analisavam tanto o crescimento económico do país luso como também o reparto desigual desta riqueza entre uma pequena minoria de oligarcas portugueses.

apfvoz00Em geral, o artigo mostra como ‘La Voz de Galicia’ reconhece uma análise séria e profunda da economia portuguesa, se não fosse pela grande quantidade de erros cometidos com a língua portuguesa.

A presença de topónimos e antropónimos portugueses neste artigo deveria ser objeto bem de piadas, bem de lágrimas para aqueles galegos que, sendo reintegracionistas ou não, defendem o aprendizagem da língua portuguesa no território galego.

Além de considerarmos o português parte da nossa língua ou língua estrangeira, podemos dizer que não existe quase nenhuma atitude em contra de que o português é uma variedade/língua muito semelhante e que podemos chegar a um amplo conhecimento através de um mínimo esforço, uma língua que um galego pode utilizar no seu curriculum com tal de aprender numa Escola Oficial de Idiomas (EOI) as diferenças ortográficas e léxicas entre galego e português.

Em geral, acho que qualquer galego (mesmo os que reconhecem que utilizam o espanhol para irem visitar Portugal) tem que reconhecer que aprender português é mais singelo do que aprender italiano ou francês, línguas romances também próximas mas com um distanciamento maior.

Para quem não compreender bem a língua portuguesa, há que explicar que escrever “Guimarães” com “â” é um erro em português que teria como equivalente noutras línguas escrever “Voltair” no lugar de Voltaire ou “Tramp” no lugar de Trump. Noutras palavras, a atitude tomada com o português não é em nenhum caso justificável, pois o jornal não parece cometer a mesma classe de erros com outras “línguas estrangeiras”.

Demasiado desprezado para ser a mesma língua e demasiado descuidado para ser uma língua estrangeira.

apfvoz02O mundo jornalístico, na Europa, sempre foi um referente no chamado “nível culto” da língua. Pois bem, que classe de “nível culto” podemos achar num país que comete erros tão graves como ignorar o til de nasalidade? Com o agravante que não estamos a falar de uma língua de um país longínquo, mas do nosso país vizinho.

Devemos ademais considerar que não é um artigo a meio fazer ou uma versão sem publicar. Estamos a falar do artigo já publicado. O número de corretores que passaram por cima do nome “Guimarâes” sem reparar no erro já dá uma imagem de que o problema relativo à língua portuguesa em “La Voz” não é de um ou dois jornalistas, mas é um problema estrutural de todo o jornal.

Olhando o Manual de Estilo de “La Voz de Galicia”1 só tem a seguinte informação relativa à língua portuguesa e ao uso dos antropónimos na prensa jornalística:

“▪idiomas de alfabeto latino.

Los antropónimos en otros idiomas de alfabeto latino conservarán su grafía original. Hay que extremar el cuidado cuando la única diferencia respecto al español es una tilde (Cesar Sampaio —aunque se pronunciará [César]— y no César Sampaio;Julian Barnes y no Julián Barnes). Cuando un topónimo extranjero tenga versión española, se utilizará esta (Oporto y no Porto,Gotemburgo y no Göteborg). Si no, se empleará la original (Boston, Washington). En ciertos casos donde ha habido un cambio de nombre debe utilizarse la forma propia del país o la adaptación correspondiente y, si la modificación es reciente, añadir en la primera mención, entre paréntesis, la tradicional española.

signos exóticos.

Algunos idiomas de alfabeto latino emplean algunos signos que no se usan en castellano. En el caso de nombres no adaptados al español, se respetarán la virgulilla o signo de nasalidad del portugués sobre vocales (ã), la cedilla bajo la c (ç), la diéresis sobre vocales( ̈) y los acentos grave (`) y circunflejo (^). En el caso de otros signos más exóticos para nosotros, como los que emplean idiomas como, por ejemplo, el turco o el sueco, se procurará respetarlos en la medida de lo posible, siempre que existan en las fuentes que se estén utilizando”

“▪antropónimos de otras lenguas. Los nombres de personas en otros idiomas se escribirán en su forma original, con excepción de los nombres clásicos y de los que tradicionalmente se escribieron en español (Julio César, Tomás Moro, Zumalacárregui), así como los de papas como tales y los de muchos personajes de la realeza (Juan Pablo II, Isabel II de Inglaterra). La OLE10 acepta la adaptación de nombres extranjeros (Íngrid Rubio), pero no las grafías híbridas, como Yénnifer o Yéssika.

Los nombres en otros idiomas de alfabeto latino llevarán los acentos de su forma original. Los demás, que se transcriben, se acentúan de acuerdo con las normas del español. En el primer caso debe extremarse el cuidado en los nombres de grafía igual a la española excepto en el acento (el inglés Benjamin, el italiano Sofia, el Duran catalán, etcétera).”

Portanto, utilizar mal os nomes portugueses já não é um problema de desconhecimento do idioma, mas das próprias normas do jornalismo que a própria “Voz de Galicia” defende. Por exemplo, a referência a escrever “Cesar Sampaio” apesar de que a pronúncia é [César] é aplicável ao nome Maria, citado no artigo, e que aparece baixo a forma “María”, castelhanizada.

Devo ademais mencionar que se bem o jornal defende as formas castelhanizadas dos topónimos “estrangeiros”, isto só é aplicável à cidade do Porto, com a mais que famosa forma de “Oporto” defendida mesmo por autoridades galegas e até internacionais (quem duvide, ver a secção de debate na Wikipédia em inglês onde os escritores voluntários debatem sobre se a forma “Porto” ou “Oporto” é a correta). Não há nenhuma tradição em espanhol de escrever as nasalizações como acentos circunflexos, nem também não há tradição de escrever o nome em português ignorando completamente a nasalização (“Vila Nova de Famaliçao”).

A única escusa admissível é a inexistência da nasalização nos teclados espanhóis, mas esta escusa é aplicável só a um aluno do Secundário, e não a um meio de comunicação sério. Ademais, este erro pode ser facilmente corrigido na antroponímia e toponímia copiando e pegando o texto a inserir, pois se bem os nossos teclados não apresentam este símbolo, os nossos editores de texto têm esta grafia e não gera mais problema que realizando uma atividade que, hoje em dia, é quase universal dentro das pessoas que escrevem em computador: o “copy & paste” (com perdão do anglicismo).

Esta atitude de “La Voz” com seguro causada por um desconhecimento que será justificado com atitudes de supremacia como: “no es necesario saber escribir portugués” deveria de ser corrigido, pois num mundo onde o português é cada vez mais estendido isto pode levar a “La Voz” se converter em objetivo de piadas e críticas, o que poderia danar a sua imagem como meio de comunicação já não só dentro da Galiza, mas internacionalmente.

Notas:

1http://www.prensaescuela.es/attachments/article/51/LEVoz%203.6.pdf

 

Alberto Paz Félix

Alberto Paz Félix

Alberto Paz Félix (Corunha, 1997) é estudante de Galego-Português na Universidade da Corunha (UDC). Criou-se na Costa da Morte, mas ao mudar a Corunha mudou de idioma ao castelhano, que falou durante parte da sua vida, recuperou o galego e a continuação começou a escrevê-lo na sua grafia internacional. Tenta conhecer cada vez mais de cultura portuguesa, brasileira e da África lusófona.
Alberto Paz Félix

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  • Alentejano

    Os descendentes dos colonos castelhanos/espanhóis terão de se submeter mais tarde ou mais cedo ao ideal do Galego originário, que é a aproximação a Portugal. Está demonstrado pelos seus actos que eles odeiam a língua e tudo o que é português com o fito de impedir essas proximidades, mas a força da razão é, e sempre foi, uma arma indestrutível.

  • Santiago Silva Varela

    Excelente artigo Alberto! tenho de dizer que não é a primeira vez que tenho reparado neste assunto. Isto já tradição neste país. E no campo oral, já nem falar de quando meios de comunicação galegos “machacam” a voz duma pessoa a falar em português. Só por sinal, o til de nasalidade ~ faz-se premendo “alt gr”, o número 4, e a vogal em que quisermos pôr o acento. 🙂

    • Alberto Paz Félix

      Obrigado! Na verdade, eu não tirei de hemeroteca, mas se for verdade que isto já é uma “tradição” por parte do jornal, é uma tradição bem triste. Já não seria um problema de recursos ou de tempo, mas um esforço consciente por ignorar a língua portuguesa e o que representa.

  • Pedro Lopes

    O estado espanhol sempre teve algum receio que Portugal através da Galiza começasse a espalhar “ideias perigosas ” que pudessem prejudicar o actual equilíbrio de forças entre as diversas nações que compõem a Espanha, e também o fomento à causa republicana para mudança do regime monárquico, o “La Voz de Galicia” só pelo nome “Galicia” é claramente um jornal que serve o interesse de uma cada vez maior castelhanização da Galiza que ainda ao final destes séculos não está completa.
    Os governantes portugueses sabendo desse receio sempre tiveram algum cuidado a lidar com as relações luso-galegas para não levantar lebres como se diz na gíria, mas o problema para o estado espanhol é que Portugal cada vez mais vai estando aí, cada vez mais se vai diferenciando de Espanha, cada vez mais o mundo se dá conta que há duas entidades peninsulares distintas, e quanto mais Portugal fizer vincar essa diferenciação mais esse receio espanhol irá aumentar ao ponto de cometerem um erro e não será sequer preciso um governo ou governante português mover uma palha para que nessa altura pela ordem natural das coisas a Espanha retorne ao início de onde nunca deveria ter partido, portanto Portugal só precisa de se diferenciar, isso atrairá o mundo a debruçar-se não pela especificidade portuguesa em si mas acrescentará um dado novo que sempre Espanha tentou omitir do mundo, as especificidades das diversas nações que compõem o estado espanhol, o perigo da desintegração de Espanha não é a Catalunha, País Basco, ou a Galiza, o perigo sempre foi que Portugal ganhe asas o suficiente para dar força ainda que indirectamente e implicitamente à emancipação dessas três nações sem estado, ora em 2016 foram tocados alguns sinos a rebate em Madrid de que esse receio pode mesmo tornar-se uma realidade, Portugal sozinho ganha um título internacional de futebol de selecções, pode não querer dizer nada para a grande maioria que pensa que futebol são 20 jogadores atrás de uma bola e mais dois a defender uma baliza, mas para aqueles que estudam o fenómeno da alteração das massas, sabem que isso é um indicador que um país está pujante de alguma maneira, e como se nota Portugal entrou de facto num ciclo histórico pujante que irá sempre em crescendo, o que invariavelmente irá influenciar directa ou indirectamente as actuais regiões espanholas confinantes, e isso está a preocupar os corredores da diplomacia espanhola.
    Diria que os galegos terão de alterar a sua frase “menos mal que nos queda Portugal”, para “agora sim nos queda Portugal”.:)

    • Galego da área mindoniense

      Bom, a Galiza máis bem é ũa falsa naçom; pois ũa parte do nosso território sim que tem um Estado. E é máis grande cá parte sob domínio de Castela.

      http://arlindopinto.com/planetadoscatos/galiza-e-portugal-uma-so-nacao/.html

      • Venâncio

        Galego Mindoniense,

        Escreves, e eu destaco: «a Galiza máis bem é ũa falsa naçom; pois ũa parte do nosso território sim que tem um Estado».

        Estás nitidamente a falar de Portugal. E estás a ser, como é praxe em certo discurso parvamente reintegracionista, simplesmente irredentista.

        Eu vou usar uma palavra que não uso muito: é uma afirmação estúpida. E sabes porquê? Porque é a maneira mais rápida e mais certeira de afastar os portugueses do Reintegracionismo galego.

        A tua mensagem é esta: sim, propriamente, propriamente, “Portugal” é uma nação ilusória, pois, na verdade, na verdade, ele é… Galiza.

        Já o escrevi aqui, vai para 15 anos: quando é que certa laia de reintegracionistas consegue finalmente aceitar a existência de Portugal? Mais: quando é que certa laia de reintegracinistas deixa de estragar (!) o nosso trabalho em Portugal por um reconhecimento da Galiza e do que ela vale?

        «O nosso território», Galego? É desesperante ver quanto alguns de vós nunca, nunca, aprendereis.

    • Galego da área mindoniense

      Portugal poderia fazer coa Galiza o que está a fazer a Áustria co Südtirol. Mais, pra atingir isso, primeiro seria necessário ũa maioria favorável a essa ideia no Parlamento galego.
      Francamente, estaria bem que os deportistas galegos puidessem competir coas seleções portuguesas. Isso faria que os galegos nom só torçam pola Espanha na maioria das competições deportivas (como ocorre agora), senom que comecem a torcer por Portugal coa mesma ou maior intensidade ca pola Espanha. E já se sabe o bom que é o deporte mobilizando as massas.
      E se os galegos podem representar a Portugal noutros âmbitos além do deporte, melhor inda.

      http://www.lavanguardia.com/internacional/20171219/433750150966/italia-austria-tirol-pasaportes-alto-adigio.html

      • Venâncio

        Galego Mindoniense,

        Eu hei-de penar até ao fim dos meus dias por ter dado apoio a uma mentira.

        Sim, fui eu quem deu um jeito à redacção do artigo desse suposto “José Chão de Lamas”, citado na ligação que dás. Ele não é “português” nenhum, mas o nosso bem conhecido ALEXANDRE BANHOS.

        Diz-me tu uma penitência pelo contributo a uma traficância, e eu haverei de cumpri-la.

  • Alentejano

    A Galiza, depois de ler os vários comentários expressos, terá, antes de tudo, de se livrar do jugo espanhol/castelhano e da opressão dos descentes dos castelhanos nascidos no território, que os oprimem, a começar pela sua própria língua impondo a todo o custo aos naturais e originários o uso do castelhano, intitulado de língua espanhola, que não existe. Só após estes princípios cumpridos, poderão pensar nos seus próprios destinos. A Galiza, neste momento e também nos momentos anteriores esteve sempre dominada por força estrangeira e inimiga do ideal Galego.
    Gostaria de reforçar que as línguas espanholas são as seguintes e que estão ao mesmo nível nacionais: castelhano, Galego, Basco e Catalão. A imposição do castelhano, afirmada como língua espanhola, é prova de que se trata sem dúvida alguma de uma língua colonial.

    • Galego da área mindoniense

      É a língua dos imperialistas fracassados.

  • abanhos

    La Voz não se engana ao escrever assim, isso forma parte da sua ação, resumida assim,
    A) Portugal rouba-nos porque são uns desgraçados pobres, nada deles presta a sério
    B) Os galegos como españois pertencemos a um patamar superior e de bem mais categoria, sorte que temos por sermos españois, pois noutro caso seriamos uma merdinha bem inferior, o que defendem os lusistas
    C) tanto faz como se escrever o português alem disso nas escolas portuguesas nem se informa nem se ensina o galego…