Cartas Mexicas

A decadência da Espanha



“Sus aderezos de guerra son todos de hierro: de hierro se visten, hierro ponen como capacete a sus cabezas, hierro son sus espadas, hierro sus arcos, hierro sus escudos, hierro sus lanzas.”

(Miguel León Portillo –do livro: “La Visión de los vencidos”, pag. 42)

Com a chegada em 1519 de Hernam Cortes, a México, inicia-se o maior ponto de expansão do Império Espanhol de Ferro, que começaria a declinar, já sem remédio, quando os Índios Pueblo conseguissem, em 1680 expulsar aos colonizadores durante um período de 12 anos.

O Império espanhol se tinha habituado a imposição, pela força, da sua vontade. Nada de diferente, do que as culturas Nahualt tinham testemunhado, no poder do Grande e Terrível Senhor asteca, agora na figura do novo Tlatoani Moctezuma (amado e temido à vez). Habituou-se pois bem o Império Espanhol a impor seu poder no período mais álgido da Era da Guerra, na época a Ferro.

…Replicaron los indios que no querían consejos de gente que no conocían, ni menos acogerlos en sus casas, porque les parecían hombres terribles y mandones, y que si querían agua, que la cogiesen del río o hiciesen pozos en la tierra, que así hacían ellos cuando la necesitaban. Entonces Cortés, viendo que las palabras estaban de más, les dijo que de ninguna manera podía dejar de entrar en el lugar y ver aquella tierra, para tomar y dar relación de ella al mayor señor del mundo, que allí le enviaba; por eso, que lo tuviesen por bueno, pues él lo deseaba hacer por las buenas, y si no, que se encomendaría a su Dios, a sus manos y a las de sus compañeros”

(La Conquista de México – López de Gómara)

Mas o Império castelhano, que tinha crescido e aumentado seu território de forma pavorosa, no recurso à espada, para pasmo do mundo conhecido; tinha um grande talão de Aquiles, na sua disposição diplomática e estratégica. Dos três tabuleiros que dominam o mundo e são precisos para sua manutenção temporal: Militar – Económico e Científico Cultural; Castela somente controlava o militar (com uma certa preponderância imposta no cultural – religioso, em aliança com o Papado).

A 29 de novembro de 1596, na época do rei Felipe II, o governo da sua majestade, decretava sua terceira bancarrota, após das de 1557 e 1575. O Imperador tinha recebido como herança um monte de dívidas e ia, a sua vez, aumentar por quatro o volume da mesma, no fim do seu reinado.

O renascer cientifico – tecnológico, e o grande capital humano, podemos quase afirmar iam de mãos dadas com a comunidade judia, que os Reis Católicos tinham expulsado de Espanha, pelo Édito de 31 de março, de 1492. Suas católicas majestades, fieis herdeiros do Concílio de Latrão de 1215 e, da inflamada campanha de conversão de judeus, feita por frades franciscanos e dominicanos em 1391 (que rematou com pilhagens em diferentes bários judeus, dando a escolher a seus habitantes entre a morte e o batismo); escolheram finalmente retirar do seu reino a possibilidade de converter-se no centro cientifico – tecnológico e cultural do mundo, continuando com a estela 2 de Janeiro de 1412, quando, no Reino de Castela, foi imposta, pelas Cortes de Valladolid, uma lista de restrições que passaram a regulamentar as relações entre cristãos e judeus, minando a economia da comunidade judaica, e reduzindo drasticamente suas liberdades.

Não foi pois de estranhar que os grandes recursos materiais, com a chegada de grandes quantidades ouro e prata, dos territórios além-mar, a finais do século XVI, não houvessem permitido uma maior entrada do Renascimento Italiano na Espanha. Finalmente, enquanto a Europa central e do Norte, junto com a Inglaterra, aderiam a Reforma, a Espanha afirmava-se de novo como a grande impulsora da Contrarreforma, que travou definitivamente o avanço cientifico – tecnológico e a revolução renascentista, ajudando à aumentar a espiral de involução imperial, ao invés da sua evolução.

México, tornar-se ia com o tempo, no grande prejudicado: filho da contrarreforma, teve que admirar como as províncias britânicas da Norte-Americana (herdeiras da reforma) se consolidariam como a futura grande nação do continente Americano, atingindo no seu raio de expansão o 55% da República Mexicana; ficando definitivamente a formar parte dos EEUU, os territórios mexicanos de: Texas, Califórnia, Nuevo México, Utah e Nevada. Apesar do Império asteca, ter maiores possibilidades de produzir uma civilização nova, em mistura, com o trepidante poder militar do bravo impulso espanhol. Se a história não houvesse atraído ao mundo nahualt, em decadência, um império novo virado para a involução.

A sua vez, a partires da expulsão de 1492 através do Decreto de Alhambra, os judeus, emigraram em massa a Portugal, grande poder económico, comercial e tecnológico-marítimo do século XVI. Mas a obriga de conversão ao catolicismo, em 1496/97 durante o reinado de D. Manuel I, e a posterior entrada em funcionamento do Tribunal da Inquisição, em 1540, aconselha a comunidade judia a mudança a Amesterdão; ajudando a construir durante todo o século XVII, o famoso século de Ouro da Holanda.

Já em 1656, o Rabino Menasseh ben Israel de Amsterdão (em realidade Manuel Dias Soeiro, natural da Ilha da Madeira) fez umha visita a Inglaterra, com o intiuto de persuadir Oliver Cromwell a autorizar os Judeus a se estabelecerem no seu pais. Os judeus estavam prontos a ajudar a Grã-Bretanha, a tornar-se o grande império global do século XIX. Benjamin Disraeli, como o mais amado Primeiro-ministro, da Rainha Vitoria, foi garante dessa velha aliança, que permitiria ao movimento sionista judeu, acariciar e finamente conseguir a realização do Estado de Israel, fervorosamente apoiado, antes e após a II Guerra Mundial, por figuras como Winston Churchill.

Espanha ficou presa e refém dessa velha e triste história, e as elites espanholas, já nunca foram capazes de liberar-se dessa “negra sombra” que sempre perseguiu os intentos renovadores no reino; sendo que os grandes nomes espanhóis, que legaram grandes valores à humanidade, tiveram que lutar duplamente: pela sua formação e contra umas elites medrosas a toda forma de progresso.

Entre 1808 ate 1829, as guerras pela Independência na América do Sul, vão mostrar de novo o erro da geopolítica espanhola, atrelada ainda velha visão imperial. Simão Bolívar, não pode conseguir seu sonho de criar a Grande Colômbia, mas sua aventura heroica, ficará na memória coletiva do pensamento insurrecto, duns povos com demasiados séculos de opressão às costas. A Inglaterra, será de novo a grande beneficiara, das independências da América hispana; passando os novos Estados de Sul América, a dependência económica de Londres.

A independência do Brasil, forjada num apanho familiar da casa de Bragança, com o cenário de fundo, primeiro da invasão napoleónica a Portugal, e depois da revolução liberal de 1820… Não vai permitir livrar o Brasil da dependência económica da Inglaterra; mais vai permitir manter toda a soberania territorial intacta (detalhe que vai trazer na pratica ao gigante sul americano, a oportunidade de ser o futuro motor económico, cientifico e tecnológico de toda a América do Sul).

A impossibilidade de realização da Iª República de 1873 e a perda de Cuba, em 1898, demonstrou que a Espanha não tinha compreendido ainda, a lição do velho império em decadência que já clamava pela renovação.

A IIª República espanhola, faleceu, entre a pressão de duas forças igualmente involutivas: o fascino e o estalinismo. Mas ninguém pode negar que foi um breve momento de ressurgir da esperança. Todos e todas, os grandes homens e mulheres, que Espanha deu ao mundo, nas letras, nas artes, nas ciências, durante finais do século XIX e inícios do século XX, foram transmissores desse pensamento humanista, altruísta, virado para a bondade e a beleza da vida; que sem dúvida alumiou o sonho duma II República, onde todos os povos, línguas e culturas da Espanha tivessem cabida.

Franco voltou a impor o “Poder Negro” das igrejas tristes, as catedrais escuras e formação católica como única via garante, da unidade linguística e cultural, com supremacia castelhana. A maiores trouxe também o poder de impunidade das elites e sua hipocrisia (somente a essas elites era permitida o desvio e mesmo a perversão da norma férrea de convivência).

A transição iniciada em 1976, culminada com a Constituição de 1978, deu para evitar um confronto entre as distintas visões de velha e a renovada Espanha, mas não para solucionar os problemas acumulados dentro da gaveta: entre eles o territorial.

Em inícios da década de 90, Espanha se expandia económica, industrial e comercialmente ao sul da América. A comunhão entre as elites e um Partido Socialista, que na época de Felipe González, tinha impulsão o desenvolvimento económico, industrial e científico-tecnológico do Estado, conseguindo dar um pulão importante a reconhecimento global marca Espanha, não somente na Europa, senão no mundo; culminando com os Cimeiras Ibero-Americanas, fizeram sonhar alguns com o auge da nova Espanha (sem no fundo ter necessidade de mudar, a velha visão pequeno imperial).

Certas elites no seu delírio sonhavam, uma vez tomado Portugal economicamente, espanholizar Brasil. Falou-se então mesmo dum Brasil Bilingue, em 50 anos, e certos meios de comunicação, subtilmente deixaram ver essa possibilidade. Os inícios do Século XXI, e a entrada de Brasil no BRIC, tiraria por terra essa hipótese. América Latina, sonhava da mão de Lula da Silva- Chavez e os Kirchner (na Argentina), duma independência económica (que também não se pode dar, por falta de não saber ou não poder somar a direita latino-americana a este processo). Mas foi suficiente para quebrar o sonho espanhol.

A aliança Aznar – Blair – Bush, e a louca tentativa de impor um mundo unipolar anglo-saxão, onde Espanha se situaria na vanguarda, como vigia garante do poder atlântico no sul do continente americano, remataria no fracasso das guerras de Iraque a Afeganistão.

A maiores a crise de 2008, desfazia o sonho espanhol, duma economia diversificada, eficaz e com projecção global. A realidade duma economia ainda muito dependente do mercado interior e, a maiores, muito exposta no sector imobiliário, trouxe uma contracção já não possível de levantar, na errada visão da transição ter solucionado, o ainda não possível, encaixe entre as duas Espanhas.

Mas, no final do conto, a história sempre oferece oportunidades para aqueles que sabem fazer leitura certa, do acontecer actual projectando-se sobre o futuro.

O Império Ocidental está em decadência. O velho paradigma de integração e sustento da Pax Ocidental, desde a abertura das rotas marítimas, por todo orbe, por parte de Portugal e Espanha; as grandes transformações na mentalidade global humana, desde o renascimento ao iluminismo, dentro do racionalismo ainda imperante neste Império (tão precisas para a evolução humana daquela época), estão agora em contracção. Um novo paradigma se impõe necessário, em todo o mundo. O velho centro geográfico ocidental, decai inevitavelmente, aos poucos. Novos focos no mundo terão de renovar e criar um novo paradigma, vital para evolução humano nos próximos três séculos.

Neste novo cenário de renovação, transição e incerteza, a América do Sul, aos poucos, terá que ir encontrando seu modelo de confraternização (com as achegas de toda a população, esquerda e direita). Um modelo que lhe permita definitivamente superar os velhos modelos de dependência cultural e económica. Esse novo modelo, não vai ser possível, válido nem real, repetindo velhos erros: todas as culturas, línguas e povos… Todas as visões terão de ser integradas, no novo e grande projecto Sul-Americano, que sim dúvida deverá liderar o Brasil (pais cuja extensão, demografia, biodiversidade e situação geográfica, lhe dota para ser o grande inovador). Mas Brasil deve primeiro realizar a grande, difícil e persistente tarefa, de ultrapassar seus próprios e autodestrutivos confrontos. Deverá eleger um modelo mais justo, fraterno, solidário, ecologicamente e social sustentável. Isto levará seu tempo. Mas é precisamente esse tempo, que lhe proporcionará a Espanha e Portugal, a possibilidade de ajudar fraternamente a nossos irmãos do sul. Tendo a maiores Portugal a oportunidade de elevar sua ajuda a África e Oceânia.

Para isso ser feito, na Península celtibérica, é preciso mudar a velha visão de imposição pela força, seja económica, cientifico – tecnológica ou cultural, dum povo sobre outro.

E dentro deste marco, a Espanha coube-lhe o difícil, esforçado, mais prometedor movimento, de lutar contra suas forças imobilistas internas, e abrir seu coração para as nações, culturas e línguas que a integram. Permitido na prática a sobrevivência das línguas não castelhanas (sendo o problema linguítico o motor e eixo primordial, das tensões territoriais).

E isso não pode ser feito, sem na partida permitir que essas línguas sejam, nos seus respectivos territórios, as línguas em destaque no âmbito cultural, cientifico, institucional e social. Si essa mudança não puder ser realizada, nunca haverá sossego duradouro no reino da Espanha.

Esse é o caminho, que pode possibilitar, servir de exemplo, e ajudar na transformação da América do Sul numa grande criadora duma nova realidade para uma nova humanidade.

Desejo que a Espanha não perda este trem, tão importante para o destino futuro da humanidade. Seja realmente grande no coração, e deixe para sempre o Ferro, o medo e fúria, que fez efemeramente grande; para passar a ser com o Amor e Sabedoria, daqueles que saber dar sem aguardar a receber, realmente Grande.

 

Artur Alonso Novelhe

Artur Alonso Novelhe

Galego, mas nascido no México, é diplomado pela Escola Pericial de Comércio de Ourense. Exerce como funcionário do Serviço Galego de Saúde do Governo da Galiza. Publicou várias obras de poesia e colabora habitualmente com diferentes publicações, entre as quais o PGL. É sócio da Associaçom Galega da Língua (AGAL) desde os meados dos anos 80 e académico da AGLP.
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